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quinta-feira, 3 de maio de 2012

Colecção Azul - Círculo de Leitores



Colecção de livros de capa dura, omnipresente em bibliotecas e prateleiras de casa: Colecção Azul, do Círculo de Leitores [1]. Os livros retratados nas fotos deste artigo fazem parte da colecção da Ana Trindade, e apesar de não estar completa, inclui vários dos chamados "clássicos" da literatura direccionada - creio - ao publico juvenil. Por exemplo: "Viagens de Tom Sawyer" de Mark Twain; "Cântico de Natal" de Charles Dickens; "Mulherzinhas" de Louisa May Alcott, "As Meninas Exemplares" da
Condessa de Ségur, etc.
Vejam algumas das capas:


 Mais livros e informação depois do "link":

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Mulherzinhas (1994)

por Paulo Neto

Publicado pela primeira vez em 1868, "Mulherzinhas" de Louisa May Alcott tornou-se um clássico da literatura juvenil e já há várias gerações que leitores em todo o mundo se encantaram com a história de quatro irmãs adolescentes que vão passando pelas diversas dores de crescimento enquanto o pai de ambas está ausente na Guerra Civil Americana (a história é baseada em experiências reais da autora). Este livro tem um lugar especial na minha vida como leitor pois foi o primeiro livro não-lá-muito infantil que eu li, tinha para aí uns oito ou nove anos, numa edição da Série Azul do Círculo Leitores, famosa por editar os livros da Condessa de Ségur mas também outros clássicos da literatura juvenil, da autores como Júlio Verne, Anne Bronte ou Charles Dickens.



"Mulherzinhas" também já foi adaptada várias vezes em cinema e televisão. Ao todo existem seis adaptações cinematográficas: duas no período do cinema mudo em 1917 e 1918, uma de 1933 protagonizada por Katharine Hepburn, uma de 1949 com umas bem jovens Elizabeth Taylor e Janet Leigh, a de 1994, da qual eu vou falar neste texto, e uma a estrear ainda este ano de 2019, realizada por Greta Gerwig e com Saoirse Ronan, Emma Watson, Timothée Chalamet e Meryl Streep. (Existe também uma versão de 2018 recontada na actualidade.) Tenho ainda de referir a adaptação em série anime de 1987 que passou na TVI nos anos 90.


Cartaz da adaptação de 1933

Elizabeth Taylor como Amy na versão de 1949


Uma cena da versão de 1949, que inspirou a capa
de uma edição do Círculo de Leitores.


Aliás o meu primeiro contacto com a história foi com a versão de 1949, que passou na RTP uns tempos antes de eu ter o livro, que aliás tinham a ilustração de uma cena desse filme na capa. No entanto ao ler constatei que essa versão fez uma alteração importante à trama ao reverter a ordem de nascimento das duas irmãs mais novas: no livro Amy é a mais nova e nesse filme, a irmã caçula é Beth, uma alteração que se deveu ao casting de Elizabeth Taylor como Amy (numa das raras vezes em que fez de loura) e a estrela infantil, Margaret O'Brien como Beth. (Meg e Jo foram respectivamente interpretadas pelas não menos célebres Janet Leigh e June Allyson.) 

Foi preciso esperar quase mais cinquenta anos para que Hollywood revisitasse a história até chegar a versão de 1994, realizada por Gillian Armstrong com Winona Ryder, Susan Sarandon, Claire Daines, Kirsten Dunst, Christian Bale, Eric Stolz, Trini Alvarado, Samantha Mathis e Gabriel Byrne. Tal como noutras adaptações, o filme condensa a história de "Mulherzinhas" e da sua sequela "Boas Esposas". (Existem ainda mais dois livros da série: "Homenzinhos", que eu também li, e "Os Rapazes de Jo".) 




No estado de Massachusetts, as quatro irmãs March tentam viver com os seus parcos recursos e o pai a combater na Guerra Civil. Margaret ou Meg (Alvarado) é a mais velha, e considerada a mais bonita, esforça-se para ser uma moça prendada mas de vez em quando deixa-se tentar pela vaidade; Josephine ou Jo (Ryder) é a maria-rapaz, de temperamento forte e decidido, que sonha em ser escritora e que desespera nas suas funções de dama de companhia à sua rabugenta tia-avó (Mary Wickes), a única pessoa endinheirada da família; Elizabeth ou Beth (Daines) é doce, tímida e frágil contentando-se em ficar em casa e em tocar piano; Amy (Dunst e mais tarde Mathis) é mimada, empertigada e apaixonada pelas artes. Por entre os altos e baixos das quatro irmãs, está o apoio firme e terno da mãe delas, Abigail (Sarandon) que as filhas tratam por Marmee bem como a da dedicada empregada Hanna (Florence Patterson). 




Por altura do Natal, Jo trava amizade com o jovem Theodore Laurence ou Laurie (Bale), o vizinho do lado, e os dois depressa se tornam grandes amigos, uma amizade que rapidamente se estende ao resto da família March. James Laurence (John Neville), o avô de Laurie, também acolhe as irmãs March como se fossem suas netas, em especial Beth, cujo talento para tocar piano lhe faz recordar uma filha falecida. Enquanto isso, Meg apaixona-se por John Brooke (Stolz), o tutor de Laurie.      
Meses mais tarde, uma série de acontecimentos infelizes se sucedem: o Sr. March (Matthew Walker) é ferido na guerra e Jo vende o seu cabelo para que Marmee possa viajar até Washington e tratar do marido. Enquanto Marmee está ausente, Beth contrai escarlatina durante uma visita a uma família pobre que era ajudada pela sua mãe e fica gravemente doente, e Amy é levada para casa da Tia March para evitar risco de contágio. O fim desses dias penosos só chega no Natal com Beth recuperada e o pai March de regresso a casa.




Quatro anos depois, Meg e John casam-se (é aqui começa a história do livro seguinte "Boas Esposas") e pouco depois têm um casal de gémeos, Demi e Daisy. Laurie declara-se a Jo mas esta recusa, sentindo que só gosta dele como amigo, para grande frustração do rapaz. Jo fica ainda mais destroçada quando descobre que a Tia March decidiu levar Amy numa viagem pela Europa, que era o grande sonho de Jo. Esta então muda-se para Nova Iorque para tentar ganhar a vida como escritora e lá encontra Friedrich Bhaer (Byrne), um professor alemão que a introduz à ópera e à filosofia e a encoraja a melhorar a sua escrita. 
Entretanto, Beth, cuja saúde ficou irremediavelmente deteriorada, sente que tem pouco tempo de vida e aguarda serenamente pela morte. Jo regressa a casa para velar Beth nos seus últimos dias e decide escrever sobre a vida dela e das irmãs. Na Europa, Laurie e Amy encontram-se e acabam por se apaixonar, regressando à América já casados.  
Após a morte da Tia March, Jo herda a sua propriedade que ela decide transformar numa escola, vê o seu livro publicado, e após alguns mal-entendidos, ela e Bhaer descobrem que estão apaixonados e ela aceita casar-se com ele.  

Esta adaptação de "Mulherzinhas" foi extremamente competente, apresentando a obra a toda uma nova geração e recebendo elogios do público e da crítica. Todavia, quem tenha lido o livro como eu não pôde deixar de achar que ficaram de fora várias cenas marcantes da obra (como a cena do piquenique ou aquela em que Meg enfrenta a Tia que se opõe ao seu noivado com John). Todo o elenco está muito bem mas sem dúvida que Winona Ryder é quem brilha mais como Jo, ao ponto de ter sido nomeada para o Óscar de Melhor Actriz (curiosamente, Susan Sarandon foi nomeada nesse ano por outro filme, "O Cliente"). O filme foi também nomeado para Melhor Guarda-Roupa e Melhor Banda Sonora Original da autoria de Thomas Newman.  

Trailer:




   

terça-feira, 29 de março de 2016

Top 5: Livros da Colecção "Uma Aventura" (Paulo Neto)

O David Martins já falou aqui sobre esta mítica colecção de livros da autoria de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada que conquista jovens leitores desde 1982. E eu não fui excepção, tendo sido proprietário de vários volumes da colecção "Uma Aventura" quer nas edições originais, quer em edição dupla com dois volumes, comercializada pelo Círculo de Leitores.



Claro está que houve uma altura em que considerava Teresa, Luísa, Pedro, Chico e João como meus grandes amigos fictícios e em que eu imaginava ser o sexto membro humano (e oitavo no geral) do grupo. E como é óbvio para aqueles que me conhecem, aquele com quem mais me identificava era com o Pedro, o cérebro do grupo, apesar de na altura eu ainda não ser caixa-de óculos.
Também li alguns livros de "Os Cinco" e "Os Sete", mas sempre achei que os livros de "Uma Aventura" que não ficavam nada a dever aos de Enid Blyton. Aliás, se esta colecção tivesse sido de um país anglo-saxónico, quase que imagino estes livros a serem vendidos à escala mundial, traduzidos em inúmeras línguas e adaptados para séries e filmes com um budget bem maior do que aquele que teve a adaptação nacional na primeira década do século XXI (que apesar das várias mudanças de elenco e outras vicissitudes, até estava bem conseguida).

Neste texto pretendo falar sobre os cinco livros da colecção "Uma Aventura" preferidos. Confesso que já há largos anos não leio nenhum livro da colecção, que já está quase no 60.º volume, mas recordo-me de muitas das histórias. Como acontece com quase todas os top 5 que faço, tenho de mencionar alguns que estiveram quase, quase para entrar na lista mas falharam por pouco: "Uma Aventura nas Férias de Natal" (n.º 2), onde o grupo lança-se numa caça ao tesouro numa aldeia de Trás-Os-Montes, "Uma Aventura Entre Douro e Minho" (n.º 6) com o grupo perseguir uma quadrilha de ladrões que efectuam vários roubos no Minho e que culmina num emocionante e hilariante final na Ilha dos Amores, "Uma Aventura no Estádio" (n.º 14) onde eles investigam o desaparecimento de um famoso futebolista, "Uma Aventura nas Férias da Páscoa" (n.º 19) que começa com um inesperado nevão em Lisboa e "Uma Aventura no Palácio da Pena" (n.º 26) onde além de se envolverem numa intriga que envolve roubos e monstros, havia uma ninfeta intrujona chamada Magda que causa tensões que ameaçam a união do grupo. Mas eis então o meu top 5:



#5: "Uma Aventura na Cidade" (n.º 1)
E começamos com o livro que começou tudo, onde se conta como se formou o grupo. E afinal tudo começou de forma não muito amistosa, já que a primeira cena era precisamente de pancadaria entre o Chico e o Pedro, que ao princípio não podiam um com o outro. Porém tudo muda quando as gémeas recorrem aos dois para investigar os acontecimentos que passam numa garagem perto do prédio onde elas vivem, que poderão estar relacionados com o roubo de automóveis. Perante a necessidade de alguém mais pequeno para entrar na garagem, acabam por ter o candidato ideal no João, que surge pela primeira vez quando o Faial segue-o até à escola e causa aflição no bar.
O clímax acontece quando os cinco armam grande alarido para apanhar a quadrilha de ladrões de automóveis em flagrante, com a ajuda dos dois cães e de um papagaio.



#4: "Uma Aventura no Ribatejo" (n.º 9)
Este volume destaca-se para mim por dois motivos: passava-se na minha região, o Ribatejo, (embora não haja referência à minha cidade) e algures no meu 4.º ano, a professora tinha o hábito todos os dias antes das aulas de ler um capítulo deste volume. Mais uma vez a trama é emocionante: o grupo vai passar uns dias ao Ribatejo onde têm sido noticiadas alegadas aparições de OVNIs e eles esperam secretamente ter um desses encontros imediatos. Mas a Tia Estefânia, uma tia das gémeas que vive em Santarém, acredita que isso não passa de um engodo para distrair a população de ocorrências de roubo de gado. Intrigados, os cinco amigos decidem investigar essa história, seguidos por um misterioso homem de sobretudo que não sabem se é aliado ou inimigo. Onde também se fala dos bolos celestes da pastelaria Abidis, dos anões da Branca de Neve e onde a Luísa quase vai desta para melhor ao tentar montar um cavalo. Além disso, também há uma participação especial na trama dos actores Tareka e Tozé Martinho, mãe e irmão na vida real da co-autora Ana Maria Magalhães.



#3: "Uma Aventura no Algarve" (n.º 12)
De um livro que se passa na minha região, para um que decorre na região natural do David, ainda que numa praia fictícia. Os cinco amigos e os dois cães vão passar o início das férias grandes à pensão do tia do Chico e o que parecia serem umas férias sossegadas numa praia de sonho algures num recanto algarvio ainda pouco explorado pelo capitalismo turístico acaba por se complicar quando suspeitam que a zona seja o centro de uma rede de contrabando. Pelo meio, há uma excêntrica actriz americana, um misterioso jardineiro contador de histórias, um enorme incêndio e um mordomo com aparente dupla personalidade. 
Mas a minha parte preferida é a descrição da primeira ida à praia dos amigos, que dava-me sempre vontade de entrar no livro e juntar-me a eles. Mas é claro que em 1985 (ano da 1.ª edição deste volume) ainda era possível imaginar o Algarve sem exploração turística desenfreada.



#2: "Uma Aventura nas Ilhas de Cabo Verde" (n.º 25)
Um dos livros mais épicos da colecção, com a aventura ser um grande périplo por quase todo o arquipélago cabo-verdiano. Como prémio por terem vencido um concurso de televisão, os cinco amigos ganham uma viagem a Cabo Verde. Só que mais uma vez, aquilo que seriam umas férias pacíficas de dolce far niente acabam por se tornar mais uma grande aventura logo no voo de partida quando o grupo suspeita que Mário, um rapaz cabo-verdiano, foi raptado por dois italianos mal encarados que o acompanham. Mais tarde descobrem que os indivíduos andam atrás de um tesouro escondido algures numa das ilhas e os cinco amigos seguem no seu encalço, esperando antecipá-los na descoberta do tesouro e libertar Mário do domínio dos italianos. Pelo caminho, há um concerto rock na Baía das Gatas, um ciclone na ilha de São Nicolau e um inesperado aliado na pessoa de um pescador de lagostas surdo-mudo.  



#1: "Uma Aventura no Deserto" (n.º 21)
Mas o número 1 vai precisamente para o primeiro livro da colecção que eu li, emprestado pela minha prima. Segundo as autoras, a ideia para uma aventura no deserto do Sahara foi sugerida por uma leitora de São Tomé e Príncipe. Se nos outros livros, os cinco amigos lutavam contra ladrões, bandidos e traficantes, aqui eles lutam contra a própria Natureza numa das suas formas mais hostis.
Tudo começa quando o Chico, desejoso de reviver alguns momentos vividos em "Uma Aventura na Terra e no Mar", desafia os amigos a viajarem a bordo de um barco pesqueiro ao largo da costa marroquina. Mas a tragédia acontece quando o navio naufraga e os cinco mais o Faial vêem-se abandonados à sua própria sorte no Sahara, numa terra agreste e totalmente diferente de tudo o que eles conhecem. Após algumas aflições, são acolhidos por uma tribo de tuaregues onde travam novas amizades, em especial com Mahmoun, um rapaz que fala português, e aprendem os seus costumes. Mas antes de chegarem ao oásis mais próximo, o Chico e a Teresa são raptados e aprisionados numa kasbah por uma tribo rival, que talvez também tenha matado o Faial. Apanhados no meio da contenda entre as duas tribos, Pedro, João e Luísa lançam-se numa luta contra o tempo para resgatar os amigos. Mas é claro, tudo acaba bem e a aventura não podia terminar de melhor forma com um mergulho numa piscina de um hotel no oásis de Tamegroute.

Como vêem através deste livros, eu e muitos outros jovens leitores pudemos viajar para imensos sítios e viver todo o tipo de emoções. E é bom ver que ainda hoje as novas gerações se deixem encantar por estas aventuras imaginadas por Magalhães e Alçada, e com isso descobrem o prazer de ler.

   

domingo, 7 de fevereiro de 2021

"Adeus À Vida" (1978) e "Pondera" (198?) Fátima Ferreira

 por Paulo Neto


Não encontrei muita informação na internet sobre Fátima Ferreira, a cantora portuguesa radicada no Canadá que algures na cúspide entre os anos 70 e 80, teve um hit no seu país de origem com "Adeus À Vida". Pelo que pude deduzir, Fátima Ferreira terá começado o seu percurso musical no fado ainda em Portugal e após emigrar para Toronto, tornou-se um nome importante no círculo musical da comunidade portuguesa, secundada pela banda The Brothers, e cuja carreira dura até hoje. Carreira essa que começou no fado mas que se estendeu a outros estilos.

Segundo o Discogs, uma primeira edição de "Adeus À Vida" surgiu em 1978 com "Cesto De Rosas" no lado B, mas terá sido uma edição posterior com aquela capa em cima cujo lado B é "Maio Em Toronto" que terá chegado às rádios portuguesas e que foi galardoada com disco de ouro.
O tema que alguns conhecem como "Adeus Mãezinha Vou Partir" (embora o primeiro verso seja na verdade "Adeus mãezinha vou deixar") tinha letra e música de Jaime Aparício e era o triste relato do último sopro de vida de uma jovem moribunda prestes a perecer de uma doença incurável que se despede da mãe, do pai, do irmão mais novo chamado Miguel e de tudo o mais que deixava deste mundo (os brinquedos, o altar, as flores…), tocando os corações de muitos portugueses e sendo recorrente nos programas de discos pedidos por nas rádios de todo o país. No YouTube, existe uma actuação de Fátima Ferreira num estúdio em Toronto. 


A inspiração por detrás de "Adeus À Vida" era sem dúvida o tema "Seasons In The Sun" de Terry Jacks, que em 1974 foi um sucesso internacional, tendo sido n.º 1 em vários países e foi na altura o single mais vendido de sempre de um artista canadiano. "Seasons In The Sun" era uma versão em inglês de "Le Moribund" de Jacques Brel (1961). Jacks readaptou a letra da versão inglesa originalmente escrita por Rod McKuen (e segundo consta tentou convencer os Beach Boys a gravarem a essa versão, antes de ele próprio decidir gravá-la). A letra também fala de alguém às portas da morte despedindo-se dos seus ente queridos, incluindo uma "Michelle, my little one" do qual "Adeus À Vida" ecoou no verso "Adeus, Miguel, meu pequenino". Em 1999, a versão dos irlandeses Westlife chegou ao n.º 1 do top britânico. E para sempre "Adeus À Vida" ficaria o "Seasons In The Sun" português.

Fátima Ferreira na capa
da revista "Crónica Feminina" (27 Outubro 1983)

Entretanto "Adeus À Vida" foi gravada por outros cantores como Roberto Leal, Ágata, Fátima Caldeira e Linda Mónica. Existe até uma versão em brasileiro interpretada por Dilene.

No episódio da Caderneta De Cromos dedicado a "Adeus À Vida", Nuno Markl recordou ainda que o tema teve uma alusão num episódio de "O Tal Canal" em que no gag recorrente da ficha técnica de "Informação 3", apareceu assim no ecrã:

Edição: Adeus Mãezinha
Coordenação: Vou Partir
Realização: Adeus Miguel Meu Pequenino

Mas que não se pense que o repertório de Fátima Ferreira era apenas fado e pesaroso nacional-cançonetismo. Há uns anos, ouvindo o podcast Brandos Costumes, qual não foi o meu espanto quando descobri que Fátima Ferreira tinha cedido a sua voz a um tema synth-pop bem anos 80, "Pondera", que recentemente descobri por fim no YouTube.


Mas apesar do ritmo dançável, "Pondera" abordava outro tema sério, o alcoolismo, com Fátima Ferreira a lamentar como a sua cara-metade foi apanhada "pelo vício da boémia requintada", guardando porém a esperança que ele "encontre uma saída da sua encruzilhada" pois "não há desgraça sem cura". 

Quem souber mais informação sobre a biografia e a carreira de Fátima Ferreira, por favor indique nos comentários ou na página do Facebook. No Discogs, o único LP de Fátima Ferreira que consta é "Vai Viendo A Vida" de 1984.


Outras canções de Fátima Ferreira:

"Vindima"



 "Brinda A Vida"


"Maio Em Toronto"



 "Peixe Fresco"


"Andorinha Mensageira"



sábado, 31 de outubro de 2015

X-Men: The Animated Series (1992-1997)



Escrevo estas linhas quando se cumpre 23 anos da estreia de "X-Men" ou "X-Men: The Animated Series" [31 Outubro 1992 - 20 Setembro 1997 ]. Um dos rascunhos mais antigos no arquivo da Enciclopédia, esta é uma das minhas séries animadas favoritas de sempre, não posso actualmente garantir se é ou não um prodígio de qualidade, porque já lá vão uns anos, mas sou desde essa altura - talvez ainda uns anos antes - um grande fã das aventuras em BD dos X-Men, os principais mutantes da Marvel, e era uma delicia ver no nosso ecrã a reprodução (bastante fiel) das mais importantes arcos narrativos da banda desenhada dos heróis, principalmente do período de Chris Claremont, mas com os personagens a usarem o visual e uniformes das histórias contemporâneas, no estilo inconfundível de Jim Lee.



Os X-Men são uma equipa de heróis mutantes. No universo Marvel, mutantes são pessoas que nascem com poderes e habilidades extraordinárias. Estas diferenças causam medo e preconceito na população humana e geram perseguições e até genocídios. Desde o inicio, o sector mutante da Marvel serviu como uma alegoria para denunciar problemas da sociedade como o racismo ou a homofobia, referenciar acontecimentos do passado como o Holocausto, e o ambiente sci-fi e poderes sobre-humanos facilitava a abordagem desses temas sem ser demasiado explícito num país tão puritano.

X-Men Nº 1 (1963)


Os X-Men originais surgiram em 1963, na revista de banda desenhada "X-Men" Nº1. E muito antes dos filmes em imagem real, logo nos anos 60 ganharam vida nos chamados "desenhos desanimados" tal a qualidade da animação de "The Marvel Super Heroes" (1966) [genérico], e nos anos 80 como convidados especiais do Homem-Aranha em "Spider-Man and His Amazing Friends" (1981-83) [vídeo], e ainda como protagonistas do piloto falhado "Pryde of the X-Men" (1989) [Vídeo: Episódio Completo Legendado]. Apesar de não dar origem a mais episódios, foi lançado em VHS e até um jogo de luta em 1992: "X-Men".
O sucesso chegou finalmente com a série de 1992, ampliando até a audiência dos X-Men para fora do círculo de leitores de BD.
O genérico é magnifico, a música inesquecível:


O autor da música, Ron Wasserman, também foi o responsável pelo tema da primeira temporada dos "Power Rangers (1993-...)".



O genérico acima apresenta de uma forma muito dinâmica e concisa os heróis protagonistas:



Cíclope/Cyclops/Scott Summers - O torturado e soturno líder de campo dos X-Men. O seu poder é quase uma maldição que não consegue controlar, sendo obrigado a usar 24 horas um visor ou uns óculos especiais, sob risco de involuntariamente causar grande destruição com as suas rajadas ópticas.



Wolverine/Logan - O anti-herói canadiano que depois de uma longa vida de sofrimento procura redenção. O seu poder principal é o de regenerar qualquer ferida que sofra. Possui um esqueleto artificial e garras feitas do material mais forte do planeta, adamantium.



Rogue/Anna Marie - Criada pela vilã Mystique, Rogue tem a habilidade de absorver poderes e memórias através do toque, o que lhe impossibilita ter uma vida normal. Os outros poderes que exibe - invulnerabilidade, super-força e voo - foram permanentemente absorvidos da heroína Ms. Marvel.



Storm/Tempestade/Ororo Monroe - Depois de uma infância como órfã a viver nas ruas, a vida de Ororo mudou na adolescência com o despertar dos seus poderes de controlo do clima que também lhe permitem voar e disparar relâmpagos, por exemplo.



Besta/The Beast/Henry McCoy - Um génio cientifico que ficou preso num corpo grotesco e coberto de pelos azuis durante uma experiência mal sucedida para remover os poderes de habilidade e força.



Gambit/Henry LeBeau - O galã e cafajeste cajun não perde uma oportunidade de se atirar a Rogue, apesar dos poderes desta impossibilitarem qualquer tipo de relação mais séria. Criado entre ladrões e assassinos, Gambit encontra nos X-Men uma família e a oportunidade de usar para o bem os seus poderes de carregar objectos com uma carga explosiva. Mas apesar de poder aplicar poder a qualquer objecto, as suas armas de eleição são os aparentemente inocentes baralhos de cartas.



Jubilee/Jubilation Lee - Resgatada pelos X-Men no primeiro episódio, a órfã Jubilee é a mais nova do elenco e vê em Logan uma figura paternal com um coração de ouro por detrás dos modos brutos. Sempre a tentar incluir-se nas missões dos adultos, a irreverente adolescente funciona como os olhos do espectador a descobrir um mundo e personagens novas.



Jean Grey - No início da carreira - pelo  menos na BD - Jean utilizava o nome de código Marvel Girl. A  poderosa ruiva tem grandes habilidades telecinéticas e de telepatia. Namorada de Cíclope, é cobiçada por Wolverine. Na terceira temporada Jean é dominada pela personalidade da Fénix Negra, uma força cósmica extremamente poderosa e perigosa.



Professor X/Charles Xavier - Um poderoso telepata preso a uma cadeira de rodas, Xavier fundou os X-Men para lutar pela convivência e aceitação entre humanos e mutantes, parando ameaças a toda a humanidade.
No genérico não surge Morph, o membro dos X-Men aparentemente morto no primeiro episódio que tem a capacidade para alterar a sua forma à vontade. Ao longo das temporadas muitos heróis vão surgindo, incluindo os X-Factor (a versão governamental dos X-Men) e a Tropa Alfa (os homólogos canadianos do X-Factor), e versões envelhecidas vindas de futuros pós-apocalípticos dominado pelos Sentinelas - gigantescos robots caçadores de mutantes. Inspirado pelos arcos "Dias de um Futuro Esquecido" (que já tinha inspirado a saga do "Exterminador Implacável") e "Era do Apocalipse" temos personagens que vieram do futuro para modificar o passado: "Bishop" e "Cable".


Os vilões do genérico liderados no genérico por Magneto (Eric Magnus Lensherr, antigo amigo do Professor X, domina os metais) incluem a "Irmandade dos Mutantes" um grupo de terroristas comandados pela metamorfa Mystique: Pyro, Avalanche e Blob. No decorrer da série surgem vilões como os Morlocks (mutantes deformados que vivem em comunidade nos esgotos), Apocalipse, Sr. Sinistro, Dentes de Sabre, Omega Vermelho, Juggernaut, A Falange, Mojo, etc; além de uma série de cameos ou aparições especiais. A Wikipédia tem uma boa lista dos personagens da série: "List of X-Men (TV series) characters" (em inglês).

O site DRG4 tem uma página dedicada aos erros e correcções efectuadas no episódio piloto: "DRG4's Exclusive X-Men Cartoon Pilot Differences". Por terem sido encomendados à ultima da hora, os seis últimos episódios foram animados por outro estúdio, com um estilo de desenho mais simples. No Japão foram utilizados dois genéricos com um estilo muito distinto do da série:


Interessantes, mas não chegam aos pés do original. Outra curiosidade foi a realização de crossovers com outra série de êxito da Marvel nos anos 90: "Spider-Man" (1994-98) [vídeo].
O site "Saturday Mornings Forever" tem muitas informações interessantes sobre esta marcante série animada: "Saturday Mornings Forever - X-Men The Animated Series".





Como sempre, o leitor pode partilhar experiências, corrigir informações, ou deixar sugestões aqui nos comentários, ou no Facebook da Enciclopédia: "Enciclopédia de Cromos"Visite também o Tumblr: "Enciclopédia de Cromos - Tumblr".

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Os Farrapinhos (1986-1994)

por Paulo Neto

A animação é cada vez mais sofisticada que os putos de hoje certamente acharão as séries animadas com que crescemos nos anos 80 e 90 como muito arcaicas. E até podem ser, mas muitas delas, apesar de serem de uma extrema simplicidade técnica, conseguiam deixar a sua marca. Foi o caso desta, a série de animação britânica "Raggy Dolls", que por cá teve o título de "Os Farrapinhos". Foi uma série criada por Neil Innes e produzida pela Yorkshire Television, num total de 111 episódios exibidos em terras britânicas ao longo de nove temporadas entre 1986 e 1994. Por cá as primeiras temporadas passaram entre 1991 e 1992, aos domingos de manhã na RTP1 e creio que as restantes foram exibidas nos anos seguintes.





Saco Triste, Princesa, Claude, Pintas, Trás-Prá-Frente, Lúcia, Hi-Fi

"Os Farrapinhos" narrava as aventuras de sete bonecos provenientes de uma fábrica de brinquedos, que por diversos motivos, sobretudo por defeito de fabrico, foram parar ao cesto dos brinquedos rejeitados. São eles: o Saco Triste (voz de Fernando Gomes), um protótipo de um brinquedo com demasiado enchimento e por isso considerado demasiado caro para ser produzido, sendo que, como o seu nome indica, é um boneco bastante dado à melancolia; a Pintas (voz de Isabel Ribas), uma boneca que por acidente ficou manchada de tinta e que se assume como a líder do grupo; o Hi-Fi (voz de Joel Constantino) um boneco falante que devido a uma queda ficou com uma ligeira gaguez; Lúcia (voz de Cristina Carvalhal), uma boneca com os membros alinhavados que fica toda desconjuntada quando se assusta; Trás-Prá-Frente (voz de Fernando Gomes) que por engano ficou com a cabeça colocada com a cara virada para as costas, mas apesar disso é bastante habilidoso a arranjar coisas; Claude (voz de António Feio), um boneco pintor francês que não tem nenhum defeito, simplesmente perdeu o ferry que o levaria para França onde seria comercializado e como não podia deixar de ser é o mais artístico do grupo e tem queda para a cozinha; e a Princesa (voz de Fernanda Figueiredo) cuja história passada é contada no genérico: numa linha de produção de bonecas princesas saiu toda maltrapilha, mas apesar do seu exterior andrajoso, mantém a postura de uma princesa. Entre as outras personagens recorrentes existem duas figuras humanas: o Sr. Lopes, dono da fábrica de brinquedos e Florinda Fontes, a cozinheira do refeitório da fábrica.
Estes outcasts formam um círculo de amigos extremamente unido e, longe do olhar humano, vivem aventuras tanto dentro da fábrica como nas suas imediações, como por exemplo num campo onde está o espantalho Pão Integral.

Tecnicamente não era uma série muito elaborada. Por exemplos havia planos quase estáticos, onde apenas as bocas das personagens se mexiam. Mesmo assim a série deixou a sua marca no Reino Unido e noutros países devido à simpatia dos bonecos e à sua bela mensagem de amizade, respeito pelas diferenças e a humildade.

Ao princípio a série era dobrada por vários actores (cujos nomes foram acima referidos) sobre direcção de António Feio, que além da voz de Claude, era também a voz da narração. Mas recordo-me que numa fase mais adiantada, António Feio fazia a narração e as falas das personagens sempre na mesma voz, o que resultava um pouco estranho, sobretudo quando as personagens femininas falavam. Também ao princípio a série era exibida por cá com o tema do genérico inicial interpretado por Neil Innes, o criador da série, mas mais tarde o tema teve uma versão em português embora não me recorde quem cantava. Lembro-me isso sim da letra:

Quem me dera ser igualzinho a qualquer um
Ter defeito não é defeito nenhum
Não t'aflijas se fores parar
Ao cesto dos defeitos

Como os Farrapinhos (Farrapinhos), Farrapinhos (Farrapinhos),
Quem não tem o seu?
Os Farrapinhos (Farrapinhos), Farrapinhos (Farrapinhos),
São como tu e eu?

Pois se ouvires burburinhos,
Troças e risinhos, sempre a comentar
Faz como os Farrapinhos
E deixa-os lá falar

Por cá não houve nenhuma merchandising da série, mas no Reino Unido existe uma colecção de DVD e de livros ilustrados.

Genérico (música em inglês):


Excerto:





terça-feira, 6 de novembro de 2018

"Voyage Voyage" Desireless (1986)

por Paulo Neto

Eu sou suspeito por ser licenciado em Estudos Franceses e Ingleses, mas adoro a língua francesa e a sua sonoridade. Até gosto do facto de a pronúncia de grande parte das suas palavras ser diferente daquela que as letras que as compõem sugerem (pelo menos aos olhos portugueses). Apesar de só ter começado a estudá-la no 7.º ano, já tinha algumas noções de língua de Voltaire através de um livro que os meus pais me compraram no Círculo de Leitores que ensinava algumas frases e palavras em francês e inglês. Confesso que o meu domínio do francês não é tão forte como o do inglês mas sempre que tenho oportunidade para falar, ouvir ou ler em francês, tento aproveitá-la ao máximo. 
E claro está, aprecio bastante a música francófona desde os tempos de ícones como Edith Piaf e Jacques Brel até à actualidade. E sendo um filho dos anos 80 tenho um carinho especial pelas três canções em língua francesa que se tornaram sucessos internacionais nessa década: a pop de sangue azul em "Ouragon" na voz da Princesa Stéphanie do Mónaco; "Joe Le Taxi" chilreada por uma muitíssimo jovem Vanessa Paradis; e "Voyage Voyage" interpretada pela parisiense Claudie Fritsch-Meintrop sob o nome de Desireless




Nascida na Cidade-Luz no dia de Natal de 1962, Claudie trabalhou como estilista nos anos 70 até que em 1982, uma viagem à Índia inspirou-a a enveredar pela música. Em 1984, integrou o grupo Air 89 que lançou um álbum e em 1986, lançou-se numa carreira a solo com o nome Desireless, compondo uma personagem andrógina e fria, sempre vestida de negro. Mas o seu aspecto mais marcante era sem dúvida o penteado com o cabelo todo em pé. 



Editado no final de 1986, o seu primeiro single "Voyage Voyage", um contagiante tema electro-pop. Na altura, eu ainda não percebia patavina de francês mas lembro-me de gostar de ouvir a música sempre que dava na rádio ou o videoclip na televisão. Ainda que o dito cujo, realizado pela famosa fotógrafa Bettina Reims, me metesse um pouco de medo: num salão de casarão mal iluminado (quiçá um manicómio), Desireless mostra slides com imagens de todo o mundo a um grupo de personagens bizarras incluindo três senhoras entretidas num frenético jogo de cartas, um casalinho de jovens que namora a um canto, um senhor alto que abana incessantemente a cabeça enquanto brinca com uma bola insuflável com o desenho do mapa-mundo com um senhor mais baixo e uma mulher que devora algo que nunca percebi bem o que era (batatas fritas? bolinhos?) que tem numa tigela. Essas estranhas personagens a princípio parecem desinteressadas nos slides até que de repente algo lhes chama a atenção e reúnem-se todas a ver as imagens que surgem no ecrã.  





Mais tarde, quando já dominava o idioma e quis saber o significado da letra, descobri que se tratava de um belíssimo poema sobre como viajar não só nos dá a conhecer o mundo mas como também nos conduz numa viagem ao nosso interior. Daí que quando Desireless canta "Voyage...et jamais ne reviens", não está a dizer para nunca mais regressarmos a casa mas sim para não voltarmos a ser quem éramos antes da viagem. Eis a minha tradução da letra:

No cimo do velhos vulcões
Desliza as asas pelos tapetes de vento
Viaja, viaja,
Eternamente.

Das nuvens aos pantanais,
Dos ventos de Espanha às chuvas do Equador,
Viaja, viaja,
Voa nas alturas. 

No alto das capitais, 
Das ideias fatais
Observa o oceano.

Viaja, viaja, 
Mais longe que a noite e que o dia.
Viaja
No espaço inaudito de amor.
Viaja, viaja
Sobre a água sagrada de um rio indiano.
Viaja
E nunca mais regresses.

Sobre o Ganges ou o Amazonas
Entre os negros, entre os sikhs, entre os asiáticos
Viaja, viaja
Por todo o reino.

Sobre as dunas do Sahara
Das ilhas Fiji ao Fujiyama
Viaja, viaja, 
Não te detenhas.

Sobre os arames farpados, 
Os corações bombardeados,
Observa o oceano. 

Viaja, viaja, 
Mais longe que a noite e que o dia.
Viaja
No espaço inaudito de amor.
Viaja, viaja
Sobre a água sagrada de um rio indiano.
Viaja
E nunca mais regresses.

Em França, "Voyage Voyage" ficou-se pelo n.º 2 do top nacional, bloqueado no topo por "T'en Va Pas" da estrela adolescente Elsa Lunghini. Mas o tema era tão poderoso que não tardou a quebrar a  barreira linguística e fazer sucesso fora dos países francófonos, tendo chegado ao n.º 1 na Alemanha, Áustria, Noruega e Espanha ao longo de 1987. Em 1988, uma edição com remistura dos PWL  ajudou "Voyage Voyage" a tornar-se um dos raros temas cantados em francês a chegar ao top 10 no Reino Unido. Por essa altura, Desireless já tinha editado um novo single, "John", uma tema que falava sobre guerra e religião.


Com o prolongado sucesso de "Voyage Voyage" que levou Desireless a percorrer toda a Europa a promover o tema, o seu primeiro álbum, "François" (o nome do seu marido, François Meintrop), só veria a luz do dia em 1989, já quando o interesse na cantora tinha esmorecido. 
No entanto, mesmo sem nunca ter sequer aproximado o sucesso de "Voyage Voyage", Desireless nunca mais deixou de fazer música e actuar ao vivo. Desde 2012 que tem feito a sua carreira em dueto com o compositor Antoine Aureche e o seu disco mais recente, "Desirless Chante Apollinaire", é de 2017. Entretanto "Voyage Voyage" continua a ser incluído em várias festas e compilações dos anos 80 por esse mundo fora.  





Desireless "L'expérience humaine" (2011)



De entre as versões do tema, destaque para a cover de 2008 da cantora belga Kate Ryan e a versão em espanhol de 1991 da boyband mexicana Magneto com o título "Vuela Vuela".  







segunda-feira, 17 de agosto de 2020

O drama dos piolhos e o Quitoso

por Paulo Neto




Desconheço quais são os actuais níveis de propagação de Phtiraptera, vulgo piolhos, junto da população infantil e os avanços científicos no seu combate. Mas como alguém que cresceu nos anos 80 e 90, era um flagelo bastante frequente entre o meu círculo de colegas e amigos de infância e acho que foram poucos os anos de entre os meus primeiros sete de escolaridade em que eu não fui afectado por um ataque dessas malditas criaturas. Era todo um suplício, e como se não bastasse a infernal comichão no couro cabeludo, devido às picadas dos bichinhos e suas respectivas incubações de lêndeas, havia a abordagem tipo Mortal Kombat da minha mãe ao tratar disso, não dando tréguas tanto aos piolhos como à minha cabeça. Assim que eu sabia que havia piolhos a habitar na minha cabeça, era certo e sabido que, durante pelo menos uma semana, ia levar todos os dias com a minha mãe lavar-me a cabeça com o champô da farmácia como quem lava roupa num tanque e depois a passar-me com um pente fino para apanhar os piolhos, pente esse que parecia uma garra super afiada a golpear-me a cabeça. Mas apesar do tormento, eu não me queixava por aí além pois antes isso do que continuar a ter uma civilização de piolhos na cabeça.
Mas que não se pense que eu era um garoto com falta de higiene. Apesar de só no final da adolescência é que passei a tomar banho todos os dias (assim obrigava o meu odor corporal), eu até era um miúdo relativamente asseado. E embora a falta de higiene capilar contribua para complicar infecções causada por piolhos, estes na verdade até preferem cabelos limpos. 



Além disso, eu estava longe de ser o único atingido por esse flagelo. Frequentemente, se um dos meus colegas apanhasse piolhos, era uma questão de tempo até que uma boa parte de turma também os pegasse. Aliás, lembro-me que no quinto ano, tive uma colega de turma que sofria algum bullying por ter fama de piolhosa. E eu não me orgulho nada disto, até porque eu era dos que mais se davam com ela, mas quando apanhei piolhos nesse ano lectivo, tomei logo essa minha colega como a principal suspeita, já que era minha colega de carteira nas aulas de Ciências Naturais.
A última vez que me lembro de ter piolhos foi para aí com doze ou treze anos e desde então, tanto quanto sei, esses bichinhos nunca mais me atormentaram.  


E como é óbvio, falar de combate aos piolhos nos anos 80 e 90 é falar da marca líder desse ramo, o Quitoso. Acho que no máximo só usei champô Quitoso uma ou duas vezes, com a minha mãe preferir outra marca que entendia ser mais eficiente, mas sem dúvida que em termos de marketing Quitoso, com as suas duas variantes loção e champô, era imbatível. (Uma vez perguntei à minha mãe porque é que não punha apenas a loção em vez de lavar-me a cabeça e ela respondeu que a loção não resultava e tinha-se de andar todo o dia com o cheiro.)
E depois havia o famoso anúncio televisivo que foi emitido durante largos anos e é de uma concisão e secura admiráveis.  A câmara percorre uma sala de aula com muitas crianças de bibe entretidas a escrever nos cadernos quando de repente se detém sobre um rapazinho que coça a cabeça com um ar perturbado, enquanto uma voz-off vai declamando: "Piolhos? Lêndeas? Quitoso elimina-os totalmente! Quitoso, loção e champô. Quitoso!"




Na "Caderneta de Cromos", Nuno Markl comparou este anúncio ao prólogo de um filme de terror em que aparentemente ainda está tudo normal até que de repente foca-se na primeira vítima de uma ameaça terrível que não tardará a alastrar-se.  

Mas se em Portugal, o Quitoso não dourava pílulas quanto ao calvário dos piolhos, na América Latina, a abordagem do Quitoso era mais fofucha e, há que dizê-lo, deveras irrealista. Veja-se este anúncio do Uruguai com uma mãe toda sorridente a encarar os piolhos do filho como se fosse uma inconveniência menor e o rebento a dizer no fim "Te quiero mucho, mamá!". 



Imagino o terror de muitas crianças uruguaias ao descobrir a dura realidade de apanhar piolhos e a desilusão ao verem as mães delas a transformarem-se em impiedosos Rambos capilares, ao contrário da mãe do anúncio. Ou como está escrito num dos comentários deste vídeo no YouTube: 

Ninguna mamá dice esa frase....más bien dicen algo como: "¡Vení para acá que te voy a sacaar esos piojossssssssssssss!¡Que vengas!Quedate quieeeeeeeeto!!!"

Também há este anúncio em espanhol, de cujo exacto país de origem não pude apurar, de uma mãe a aconselhar-se com um simpático farmacêutico. Aqui existe uma preocupação materna mais credível, mas a musiquinha alegre e o sorriso da mãe a pentear o cabelo da filha ainda está num nível irreal.


Mas aparentemente com o tempo, as coisas ficaram um bocado mais realistas quanto ao drama dos piolhos na América do Sul, a julgar por este anúncio chileno de 2019, com quatro petizes a coçar a cabeça energicamente como que apanhados no meio de um surto piolhoso.


Artigos relacionados:
YSOL 206, outro piolhicida: http://enciclopediadecromos.blogspot.com/2014/03/ysol-206.html
Anúncio do Quitoso em imprensa (1987): http://enciclopediadecromos.blogspot.com/2014/02/quitoso-1987.html

domingo, 6 de maio de 2012

Publicidade 1986


Outros tempos, outras marcas, em que ainda havia reclames a adubos e produtos agrícolas  e livros na TV!
Depois do post dedicado à publicidade televisiva de 1988, hoje vamos voltar a 1986:

Na RTP, em 1986:

Anúncios: Renault 9 e 11, Sabão "Migo", Collants "DIM", Aspiradores "Nilfisk GS80"*, revista de tricot "Modamalha", "Tokalon", "Metrópole Seguros", Biblioteca Fundamental da Língua Portuguesa, Azofosfato 14-36-0 "SAPEC adubos", ar condicionado "FNAC", "Ford Fiesta", revista "Maria".

E no canal LUSITANIATV, no Youtube, mais uma série de anúncios de 1986:

Publicidade 1986, Parte 1
Anúncios: "Cambridge School", shapoo "Linic", fichas de cozinha "Correio da Manhã", pilhas "Daimon", "Sagrup" Consórcios de Concessionários General Motors, "Memórias de um Sargento e Milícas" da Biblioteca Fundamental da Língua Portuguesa, "Constantino", Lotaria do Capricórnio, "Alka-Seltzer", "Fiat" Uno, "O Jornal", Exame Gratuito "Fiat", aspiradores "Hoover", fichas de cozinha "Correio da Manhã", preservativos "Durex" extra safe, "Memórias de um Sargento e Milícas" da Biblioteca Fundamental da Língua Portuguesa, vinho "Porto Ferreira", Lotaria do Capricórnio, pasta dentífrica "Sensodyne".

Publicidade 1986, Parte 2
Anúncios: "A Jangada de Pedra" de José Saramago (Ed. Caminho), Fundição de Oeiras, espumante "Real Fundação", "Os Intérpretes" de Wole Soyinka (Edições 70), Biblioteca de Bolso Dom Quixote, "História do Corpo Humano" do Avô Cantigas, "Montepio Geral", "Ford Fiesta".

Mais vídeos de 1986:

Publicidade 1986, Parte 3 ( e Publicidade 1991)
Anúncios: Ano Europeu da Segurança Rodoviária, filme "A Felicidade da Srª Blossom", Tintas "Dyrup", "Citroën AX", Sotto Casa (Banco Pinto & Sotto Mayor), separador "Lotação Esgotada", "Conversas à Quinta-Feira" (Círculo de Leitores), mensagem Boas Festas "EPAC", Pastilhas "Valda", "Fernando Pereira com Humor e carinho", separador "Lotação Esgotada".

Publicidade 1986, Parte 4
Anúncios: cerveja "Löwenbräu", "Paços de Ferreira 86 - 3ª Feira Industrial e Agrícola",licor de café "Dómuz", "Português Sem Passaporte" de Roberto Leal, "Quinta da Aveleda", iogurtes "Longa Vida", cerveja "Bohemia", detergente "Colon", Wolkswagen, tintas Tartaruga "Robbialac", Canderel cristalizado, pneus Michelin, "Linea", "Mokambo", malhas "Tiffany", Lotaria Nacional (205º aniversário), Escovas Limpa-Vidros "Bosch", Aspirina "Bayer", caldos "Maggi", detergente "Soflan", "Emplastro Leão", On Fire "Impulse", óleo de soja "Ibersoja", Toffee Crisp, "Dentyne" (Adams), whisky "William Lawson's", "Abanderado", detergente loiça "Bigic", iogurte "Pecado dos Anjos" (Longa Vida), Laboratório "Upjohn", "Banco de Fomento Nacional", xarope "Diacol", Chocolate "Belleville" (Favorita), "Parasitas de Deus" de Fernando Semedo (Ed. Caminho)

Publicidade 1986, Parte 5
Anúncios: Crédito Citroën, pudim "Boca Doce", "Martini", lâmpadas Softone "Philips", camisas "Victor Emmanuel", "Helix" (Shell), "Opel", mousses "Mimosa", shampoo "Silkience", "Colgate" anti-tártaro, Fernando Pereira no Coliseu, "Atlas de Portugal" (Selecções do Reader's Digest), "Carlsberg" Pilsener, iogurte "Pecado dos Anjos" (Longa Vida), tinta plástica Stucomat "Robbialac", "Grant's", batatas fritas "Super Douradas" (Longa Vida), Troféu RTC Maratona Sagres 500, Totobola, "Neobradoral", revista "Marie Claire", "25e anniversaire Edit Piaf" (EMI, Valentim de Carvalho", cerveja "Tuborg",revista "Marie Claire", VideoCenter SGO, fascículos "Guerra Moderna" (Nova Cultural), Totobola, m´quina lavar roupa "Philco", Fernando Pereira no Coliseu, Empréstimo do Bicentenário do Ministério das Finanças.

Publicidade 1986 RTP1:
Anúncios: Detergente liquido "Superpop limão", farinha de trigo "Espiga" Superfina, frigoríficos "Ariston".

* Os aspiradores Nilfisk já foram cromados: 
"Caderneta de Cromos 516 - 'Aspiradores Nilfisk' [Ouvir/Dowload Podcast]"

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Sport Goofy no Mundo do Desporto - Os Jogos Olímpicos (1983)

por Paulo Neto

O Pateta pode não ser a mais atlética das personagens Disney mas nos anos 80, esteve associado ao desporto de várias maneiras, através da designação de Sport Goofy. Nos anos 40 e 50, a Disney produzira várias curtas metragens de temática desportivo em estilo paródio-documentário sobre vários desportos com o Pateta a ilustrar as regras e as práticas de cada modalidade em toda a sua habilidade (ou falta dela), muitas delas exibidas por cá no "Clube Amigos Disney", e em 1987 essa ideia foi recuperada num mini-filme de 20 minutos, "Sport Goofy in Soccermania". Além disso havia também na altura toda um merchandising ilustrado com imagens do Pateta vestido de forma desportiva, desde roupa e têxteis-lar a material escolar e livros educativos, e até um jogo para o Atari. O sucesso deste alter-ego desportivo do Pateta até inspirou uma loja de artigos de desporto no Entroncamento a denominar-se "Goofy Sport".  

Há dias, o David Martins, ao saber do meu interesse por tudo o que é relacionado com os Jogos Olímpicos, deu-me a conhecer um livro de 1983 sobre a história dos Jogos Olímpicos até aquele momento. Tratava-se de um volume da série de livros "Sport Goofy no Mundo do Desporto", editada por Círculo de Leitores.


De entre as imagens da capa, quero destacar a maior delas, ao centro, com dois adolescentes canadianos, Stéphane Préfontaine e Sandra Henderson, ele francófono, ela anglófona, escolhidos para acender a pira olímpica nos Jogos Olímpicos de 1976 em Montreal, representando a juventude canadiana e mundial. A Wikipédia conta que durante anos houve uma lenda urbana de que Stéphane e Sandra ter-se-iam casado. 

No livro são explicados os significados dos símbolos olímpicos, como os anéis entrelaçados, o percurso da tocha olímpica, o juramento olímpico dos atletas e a cerimónias protocolares de entrega de medalhas.

 


No livro são ainda descritos os desportos que na altura faziam parte do programa olímpico, quer nos Jogos de Verão, quer nos de Inverno, com recurso a imagens de cenas desportivas de edições passadas dos Jogos Olímpicos (sobretudo as três mais recentes em Munique 1972, Montreal 1976 e Moscovo 1980, e dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1976 em Innsbruck, na Áustria) e, como não podia deixar de ser, a divertidas ilustrações do Pateta em plena acção desportiva.




Nesta página existe mesmo uma participação especial do BFF do Pateta, o Rato Mickey, na ilustração de cima, sobre uma fotografia da atleta alemã (da então República Federal da Alemanha) Heide Rosendahl, campeã olímpica do salto em comprimento em 1972. 


Em jeito de antevisão, existe também um menção a dois desportos que se estreariam no programa daquela que seria à data a próxima edição dos Jogos Olímpicos: a ginástica rítmica e a natação sincronizada. O livro termina com uns quadros com factos e dados sobre as edições passadas dos Jogos Olímpicos. Por exemplo, há a menção ao facto de Eddie Eagan ser (ainda hoje) o único atleta a ganhar medalhas de ouro tanto em Jogos Olímpicos de Verão (boxe, 1920) e de Inverno (bobsled, 1932). 



Curta-metragem: "Pateta, Campeão Olímpico"



"Sport Goofy in Soccermania" (1987)


Para terminar, falta referir um produto do avatar Sport Goofy que foi exclusivo dos nossos irmãos brasileiros. Em 1983, a jovem cantora Ana Paula Aguiar gravou um single com duas versões em português do Brasil de duas canções produzidas pela Disney: "Pateta Supercampeão" ("You Can Always Be Number One") e "Cuidado Com O Pateta" ("Watch Out For Goofy", incluída no disco "Mickey Mouse Disco", do qual já se falou por aqui). E claro que se impunha que Ana Paula fosse fotografada para a capa do disco ostentando um par de perneiras, essa peça de roupa tão eighties.   


Ana Paula "Pateta Supercampeão"




Ana Paula "Cuidado Com O Pateta"









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