domingo, 13 de setembro de 2020

Golo! Golo! Golo! (1995)

 por Paulo Neto

Ora aqui está um tesourinho televisivo esquecido dos anos 90. Lembro-me que dava na RTP1 ao fim da tarde de segunda a sexta e que estreou em 1995 mas não me lembro quanto tempo durou. 

A premissa do programa "Golo! Golo! Golo!" era bem simples. Num cenário que replicava a grande área de um campo de futebol com uma baliza em evidência, um telespectador em casa inscrito via telefone interagia carregando com a tecla 5 do seu telefone fixo (ainda estávamos a uns anitos da massificação dos telemóveis), fazendo disparar a bola embutida num canhão robótico, tentando marcar golo na baliza defendida por um guarda-redes convidado, muitas vezes de uma equipa do escalão principal do futebol nacional (na altura, ainda denominado de 1.ª Divisão).


  

Ao que eu pude apurar, a ideia original do programa era da Turquia e foi depois vendida a vários países como Argentina, Espanha, Indonésia, Brasil e claro, Portugal. A apresentação estava a cargo de Jorge Correia, secundado pela inconfundível voz-off de António Macedo e por um grupo de oito cheerleaders (duas delas eram Filomena Nascimento, que viria a apresentar "O Templo Dos Jogos" na SIC, e Sofia Cerveira, que viria tornar-se uma conhecida apresentadora, primeiro na RTP e depois na SIC). E, numa daquelas coincidências boas demais para ser verdade, elas eram coreografadas por João Frango! O programa era filmado em directo no Zona Mais, uma discoteca em Lisboa que na altura a RTP converteu como um dos seus estúdios. 

Mas vamos lá esmiuçar este episódio de "Golo! Golo! Golo!" onde o guarda-redes convidado era Ivo, que então defendia as cores do Sporting Clube Farense e na assistência estava a claque do clube algarvio, os South Side Boys. Na altura, o Farense era presença assídua na 1.ª Divisão e vinha da sua melhor classificação de sempre na época anterior, um quinto lugar e o acesso à Taça UEFA, com o histórico Paco Fortes nos comandos da equipa. 

Estando nós nos anos 90, estávamos na era das linhas de valor acrescentado, e o número de telefone para participar no programa era daqueles com o célebre indicativo 0641, com cada minuto chamada a custar 186 escudos e o valor mínimo da chamada de 460 mérreis (cerca de 2,30 euros). 

Ivo Soares ou Ivo tout-court, o guarda-redes convidado, era uma figura do futebol algarvio. Natural de Moncarapacho, começara nas escolas do Olhanense, passou no escalão juvenil para o Farense e também jogou emprestado noutros clubes da região como os Leões de Tavira e o Louletano. (O único clube fora do Algarve onde jogaria na sua carreira foi no Sporting de Espinho). Então com 24 anos, Ivo era na altura o guarda-redes titular do Farense, face à lesão do guardião principal, o nigeriano Peter Rufai. 

Valter Santos, de 14 anos e residente em Pinhel, foi o primeiro telespectador concorrente. Os seus três remates pelo canhão robótico (Nuno Markl quando do episódio da "Caderneta de Cromos" dedicado a este programa, chamou-lhe de "caranguejola") entraram na baliza, não dando hipóteses a Ivo de se mexer. Com cada golo a valer dez contos da moeda antiga (cerca de 50 euros), Valter ganhou 30 contos.

O segundo concorrente, José Nuno Martins de Guimarães (que a julgar pela voz, devia ter uma idade semelhante à do concorrente anterior), marcou os dois primeiros golos no canhão mas o terceiro remate foi parar às mãos de Ivo.   


Mas não foram só os telespectadores manobrando o canhão que tiveram oportunidade de marcar golo à baliza defendida por Ivo. "Golo! Golo! Golo!" tinha também convidados em estúdio para fazer o gosto ao pé e neste programa, o convidado era nada mais nada menos que a lenda da música nacional Fernando Tordo, que na altura lançava o seu 19.º álbum. Equipado com uma camisola da Bélgica (?), o cantor de "Cavalo À Solta" e "Adeus Tristeza" fez três remates, tendo marcado o primeiro e chutado os outros dois para cima. 
Também um membro da assistência presente em estúdio teve a hipótese de rematar para marcar um golo a Ivo, mas ao contrário de Fernando Tordo, o espectador de seu nome Nuno também manobrava a caranguejola com um telemóvel existente no estúdio. Mas ao contrário dos telespectadores, Ivo defendeu dois remates e só deixou escapara o terceiro.

Para terminar, mais um telespectador para rematar no canhão-caranguejola. António Moreira marcou dois golos, com o terceiro a ser defendido por Ivo. Por ter sido o único a marcar três golos, o primeiro telespectador, Valter Santos de Pinhel, recebeu um prémio adicional de 200 contos (cerca de 1000 euros) em compras nas Lojas Singer (que já se sabe que patrocinavam tudo quanto era concurso nos anos 90). O guarda-redes Ivo, por ter feito quatro defesas, ganhou cinco contos por cada uma, num total de 20 contos que declarou oferecer à Casa de Rapazes Aboim-Ascensão de Faro. 

Na ficha técnica, pode-se ler "Consultor Especial: Humberto Coelho". Como puderam comprovar, foi um tesourinho com uma boa dose de cringe. Jorge Correia, mais conhecido como jornalista desportivo, não estava muito à vontade na apresentação de entretenimento. Os espectadores no estúdio estavam um tanto atolados e as cheerleaders não faziam muito mais do que agitar os pompons com o entusiasmo de uma couve de Bruxelas.  

Quanto a Ivo Soares, como muitos outros futebolistas, transitou de jogador para treinador, começando no Juventude Campinense (onde na época 2007/08, ainda defendeu a baliza) e passou por outros clubes algarvios como o Olhanense, o Lusitano de Vila Real de Santo António, o Louletano, treinando actualmente o clube da sua localidade natal, o Moncaparachense, onde joga o seu filho João Soares, não como guarda-redes, mas como médio-avançado esquerdo. 

De acordo com este vídeo do canal YouTube brasileiro Switcher, o programa fez muito mais sucesso no Brasil sob o nome de "Gol Show", apresentado pelo eterno mago da televisão brasileira Sílvio Santos. As dinâmicas eram diferentes em relação a outros países porque os telespectadores ganhavam mais ou menos prémios consoante acertassem na baliza, não só quando marcavam golos aos guarda-redes convidados (como por exemplo o lendário José Luís Chilavert do Paraguai), mas também se acertassem na trave, na barra ou num pequeno orifício no canto superior da baliza que era o que dava direito ao prémio maior. Além disso, os telespectadores não carregavam nas teclas de telefone para disparar a bola do canhão mas sim dizendo Gol. E em 1998, alguém conseguiu que a bola acertasse no orifício que dava a o prémio maior e pela primeira vez num concurso televisivo do país-irmão, foi atribuído um prémio de um milhão de reais. 


A estreia de "Gol Show" no Brasil em 1997, com a presença de José Luis Chilavert,
onde Sílvio Santos explica como trouxe o programa para o Brasil e mostra imagens das versões de outros países, incluindo Portugal. 


Cromo da "Caderneta de Cromos" sobre "Golo! Golo! Golo!": (Soundcloud)

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