quarta-feira, 17 de maio de 2017

O maravilhoso mundo dos achocolatados

por Paulo Neto

Eu acho que a maioria de nós passámos na infância por um período em que beber leite tal como ele vinha no pacote sem acrescentar mais nada é das coisas menos apetecíveis de ingerir. Pelo menos eu recordo-me de que entre os quatro e os nove anos, era-me inconcebível beber leite branco sem pelo menos deitar um pouco de açúcar. Ocasiões houve onde também os meus pais deitavam um pouco do café que faziam de manhã ao pequeno-almoço no meu leite. Mas claro que durante essa período, a minha forma preferencial de consumir leite era dissolvendo nele umas boas colheradas de um qualquer achocolatado solúvel. E felizmente, vivia-se então numa época onde a oferta de marcas de achocolatados era maior que nunca, se bem que fui praticamente fiel a duas marcas.

Entretanto, à medida que me aproximava dos dez anos, devo ter pensado para comigo que era altura de deixar de ser menino e passar a beber o leite tal como ele veio do pacote para o copo sem juntar nada, como qualquer garoto com idade de dois dígitos que se preze. E embora tenha continuado até hoje a apreciar muito beber ocasionalmente leite com chocolate, foi o fim do período da minha mais intensa relação com os achocolatados.  

Neste texto, pretendo recordar algumas das marcas mais populares de achocolatados solúveis dos anos 80. Qual destas era a vossa preferida?

Coqui: É curioso como praticamente todas as marcas de achocolatados da minha infância continuam disponíveis nas prateleiras dos supermercados, prontas a deliciar as novas gerações. É o caso do Coqui que se manteve firme no mercados apesar de há já várias décadas não se lhe conhecerem campanhas ou anúncios televisivos. O único anúncio que me recordo é ainda da primeira metade dos anos 80 que terminava em freeze frame com uma rapariga de cabelo encaracolado a erguer bem alto um copo de leite com Coqui enquanto se ouvia o jingle: "Leite só com Coqui!" 
Produzido pela empresa Disfala da Amadora, mesmo sem grandes campanhas, o Coqui pode não ter tantos adeptos quanto outras marcas, mas sem dúvida que os que tem são fidelíssimos. Aconselho uma visita ao site ofical da marca. Tal é a constância do Coqui que a embalagem de lata com losangos pouco mudou desde 1969. Não me lembro de ter provado alguma vez leite com Coqui, mas recordo-me de ver em casa de algumas pessoas. Há também quem recorde que por vezes traziam copos de vidro como oferta.



Ovomaltine: Esta marca de origem suíça continua bastante popular em todo o mundo. Eu só me recordo ter provado uma ou duas vezes em casa de familiares. O que mais me recordo era de um jingle radiofónico: "Ovomaltine é sabor, Ovomaltine é vigor!". Porque sim, era uma das marcas de achocolatados que eram publicitadas com os benefícios de dar energia em actividades específicas. E aparentemente a principal particularidade do Ovomaltine era conter extractos de ovo na sua composição. Embora a embalagem de Ovomaltine tenha passado por várias alterações desde a sua primeira produção em 1904, o fundo laranja tem sido uma constante.



Alsa Chocdrink: Já falámos aqui do momento em que a Alsa, por excelência a grande marca das mousses de chocolate, aventurou-se também no mercado dos achocolatados com o Chocdrink, durante uma análise a um bloco publicitário de 1991, que continha um anúncio onde um grupo de miúdos se reúne em casa de um deles para beber esse divino néctar achocolatado. Não sei se o Chocdrink continua à venda ou se Alsa voltou a dedicar-se somente às sobremesas instantâneas, mas recordo-me que o sabor era assaz delicioso e que tinha uns grãos semelhantes ao do Nescafé.

(Anúncio a partir de 0:59:)



Milo: Creio que nunca provei Milo, mas lembro-me bastante bem de ver nas mercearias as embalagens de lata de cor verde com a imagem de um atleta. Como aliás se pode ver neste anúncio de 1983, era outra marca de achocolatados que promovia como uma fonte de energia para a actividade física, sublinhando que era um produto "vitaminado". (Embora hoje em dia seja algo discutível como um produto rico em açúcar ocupe um lugar de destaque numa alimentação saudável).
O Milo andou vários anos desaparecido das prateleiras dos supermercados nacionais, mas desde há alguns anos (creio que desde que a "Caderneta de Cromos" lamentou a sua ausência cá em Portugal), regressou aos nossos estabelecimentos comerciais.





Toddy: Criado em 1930 pelo porto-riquenho Pedro Santiago, Toddy permanece como o mais popular achocolatado da América Latina, tendo o seu sucesso chegado também à Península  Ibérica. Embora também houvesse a vertente de leite em chocolate numa garrafa (tipo UCAL), o achocolatado em pó teve mais sucesso em Portugal, sobretudo quando oferecia o famoso Toddy-cóptero, uma traquitana colorida que entreteve muito petiz nos anos 80. Eu lembro-me de ter tido pelo menos dois Toddy-cópteros.




Recordo-me também de um anúncio televisivo sobre um miúdo que está à baliza num jogo de futebol e não consegue defender os remates da equipa adversária. Perante a frustração do garoto, o treinador aproxima-se dele e canta-lhe em playback o jingle brasileiro: "Já tomou o seu Toddy hoje?". Outra coisa que recordo do Toddy é que foi o único a também ter um pó solúvel com sabor a morango.


Nesquik: Revelação chocante: nunca gostei de Nesquik! Gostava muito das mascotes; primeiro o Cangurik e depois o coelho Quicky, mas das vezes que bebi achei o sabor algo sofrível. Mas não há como negar que foi sempre talvez a marca líder, ou não viesse do gigante Nestlé.

No entanto, sempre muito fã dos Cereais Nesquik com aquelas deliciosas bolas de chocolate.
Em mais um caso de um anúncio que não está no YouTube mas de que me recordo, havia aquele em que um adulto em voz-off perguntava a um miúdo: "Gostas de leite?" ao que o garoto fazia uma cara feia. De novo o adulto "E com Nesquik?", e então o miúdo exclamava: "Haha!". O que confirmava que eu estava longe de ser o único a torcer o nariz ao leite branco não adoçado.



Cola Cao: E chegámos às minhas marcas de eleição. O Cola Cao foi sem dúvida um dos meus achocolatados preferidos de sempre. Não só por ser dos mais icónicos, com a sua eterna embalagem de plástico amarela e tampa vermelho mas também porque era dos que tinham um sabor a chocolate mais apurado. 

Tal como outras marcas também o Cola Cao, a mais popular criação do grupo alimentar espanhol Nutrexpa, apostava forte numa ligação às actividades de desporto. Por exemplo, lembro-me de uma campanha de anúncios anos 80 em que vários petizes viam os seus treinadores e /ou ídolos desportivos em acção até que estes se dirigiam para eles e diziam "agora tu, campeão" se fosse um rapaz ou "vamos, agora tu" se fosse uma rapariga ao que os garotos, após emborcarem um copo de leite com Cola Cao, se lançavam com afinco na ginástica, nos remates de futebol ou qualquer que fosse o desporto, terminando com o mitico jingle: "Cola Cao, ajuda com força, Cola Cao". Também encontrei este anúncio de 1986 com vários petizes em actividade física.



Como se essa ligação com o desporto não fosse suficiente, a Cola Cao também associou-se aos Jogos Olímpicos. Muitos recordam que por altura dos Jogos Olímpicos de 1984 em Los Angeles, vinham também com as embalagens uns bonecos semelhantes aos da Playmobil que seriam os atletas que entrariam a acção num estádio olímpico feito de cartão que acho que era preciso encomendar, enviando os rótulos das embalagens e nos Jogos Olímpicos de Seul em 1988, ofereciam t-shirts e sweatshirts oficiais do evento. 




Suchard Express: Não obstante, o meu achocolatado de eleição era o Suchard Express (ou como dizia a minha mãe, o Chuchar Express). Primeiro, era o que na minha opinião tinha o melhor sabor. Segundo, era o que era mais delicioso nessa outra instituição de infância que é comer achocolatados em pó à colherada, até ter os dentes e os lábios todos castanhos. Terceiro, era o que se dissolvia melhor no leite. E quarto, tinha o mais mítico anúncio a achocolatados de sempre, do começo em estilo banda desenhada, ao cão São Bernardo com a embalagem de Suchard Express na coleira, passando pelo inevitável torcer de nariz do rapaz ao ver um copo de leite ("Leite? Salvo!") aos pais a entrarem sorrateiramente no quarto, culminando com o pai a beber o copo de leite e Suchard Express, copo esse onde parece que o São Bernardo andou previamente a meter as fuças. 



 E agora, caros leitores da Enciclopédia de Cromos, digam qual era o vosso achocolatado preferido? Será um destes, ou outro que porventura foi esquecido neste texto?


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