quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Um Amor Inevitável (1989)

por Paulo Neto

2016 não quis terminar sem juntar mais uns nomes à sua grande ceifa de celebridades e entre o Natal e o fim de ano, despedimo-nos de George Michael, Carrie Fisher e a mãe desta, Debbie Reynolds.
Carrie Fisher permanecerá para a eternidade como a ultra-lendária Princesa Leia da saga "A Guerra das Estrelas". Mas eu - revelação chocante! - nunca me interessei muito pelo universo "Star Wars", o único filme inteiro que eu vi foi o infame Episódio 1 "A Ameaça Fantasma" (sim, o do Jar-Jar Binks) e só sei da história dos episódios 4 a 6 muito por alto. Talvez por isso, é-me particularmente fácil dissociar Carrie Fisher do seu papel mais mítico, até porque Fisher ao longo dos sessenta anos que esteve neste mundo foi muito mais que a princesa Leia: foi o fruto da união de duas estrelas como Eddie Fisher e Debbie Reynolds (e mais tarde enteada de Elizabeth Taylor), foi Hollywood no seu mais melhor mais cintilante e no seu pior mais excessivo, foi actriz com inúmeras aparições em filmes e séries de televisão, foi uma escritora de sucesso, foi alguém com um apurado sentido de humor e até lhe foi dada a permissão rara em Hollywood para uma mulher para envelhecer como um ser humano normal.



Tudo isto para dizer que o papel de Carrie Fisher que mais me marcou foi o de melhor amiga de Meg Ryan no filme "Um Amor Inevitável", um papel secundário mas em que Fisher arrasa em cada cena que aparece.  É uma personagem que facilmente podia cair na caricatura da mulher desesperada mas a quem Fisher consegue dar bastante dignidade. No original "When Harry Met Sally", "Um Amor Inevitável", filme de 1989 realizado por Rob Reiner e escrito por Nora Ephron, é um clássico da comédia romântica, com Billy Crystal e Meg Ryan no papel de um homem e uma mulher cuja relação vai-se gradualmente transformando de antipatia a amizade e por fim em amor.



Em 1977, Harry Burns (Crystal) e Sally Albright (Ryan), viajam de Chicago para Nova Iorque onde vão iniciar as suas carreiras após a universidade. A viagem é pautada por grandes discussões sobre as relações entre homens e mulheres, com os dois a terem opiniões bastante divergentes. Harry acredita que um homem e uma mulher não podem ser apenas amigos porque a parte sexual, mútua ou unilateral, acaba sempre por se meter no caminho. Sally irrita-se com algumas das tiradas dele e com a sensação de que ele se está a tentar engatá-la, mesmo sendo namorado de uma amiga dela.


Cinco anos mais tarde, os dois reencontram-se num avião: Sally namora com Joe (Steven Ford), um vizinho de Harry e este está noivo de Helen (Harley Kozak). Durante o voo, os dois conversam sobre a vida desde que se viram pela última vez e sobre o inevitável tópico de relações entre homens e mulheres. Harry procura excepções na sua teoria da impossibilidade de um homem e uma mulher serem apenas amigos mas não consegue.


Passados mais cinco anos, Harry e Sally reencontram-se novamente e desta vez Harry deixa as regras e teorias de lado e propõe que eles sejam amigos. Os dois acabam por ser um fonte de apoio mútuo já que os dois terminaram as suas relações: Sally terminou com Joe porque ela queria ter uma família e ele não e Harry viu o seu casamento acabar quando Helen o trocou por outro. Pelo meio, vão tendo conversas sobre o seu tópico preferido, relações entre homens e mulheres, e os dois vão apreciando cada vez mais a companhia um do outro.
Durante uma saída a quatro, os melhores amigos de Harry e Sally, Jess (Bruno Kirby) e Marie (Carrie Fisher) apaixonam-se e rapidamente ficam noivos. Já Sally e Harry vêm a sua amizade num impasse depois de os dois terem sexo num momento vulnerável quando Harry consola Sally que ficou triste com a notícia do noivado do seu ex Joe, com a tensão a culminar numa grave discussão durante o casamento de Jess e Marie. A amizade entre ambos parece perdida até que na noite de Ano Novo, Harry declara-se a Sally, confirmando que há muito que os dois estavam apaixonados, mas eram teimosos demais para o admitir.
Ao longo do filme, vão surgindo depoimentos de vários casais idosos que relatam a forma como se conheceram e se apaixonaram, sendo o último testemunho dos próprios Harry e Sally que relatam como foi o casamento de ambos, três meses depois de terem reatado.



Com muito conteúdo do filme baseado nas experiências pessoais do realizador Rob Reiner, da argumentista Nora Ephron, do produtor Andy Scheimann e do próprio Billy Crystal, "Um Amor Inevitável" deixou a sua marca no género da comédia romântica graças aos seus diálogos vivos e acutilantes. Por exemplo, ajudou a estabelecer alguns conceitos que agora tornaram-se comuns como "mulher de alta manutenção" e "namoro de transição". Juntamente com "Conta Comigo" e "A Princesa Prometida", ajudou a confirmar Rob Reiner como um realizador de topo e catapultaria Nora Ephron para grande sucesso como argumentista e mais tarde também realizadora. A química entre Billy Crystal e Meg Ryan também foi uma mais-valia, bem secundados pelo resto do elenco, sobretudo Carrie Fisher, mas já lá vamos.



Porque sim, importa falar sobre a mais famosa cena do filme, aquela em que Sally simula um orgasmo no meio de um restaurante cheio de gente, em que todos ficam especados a olhar para ela com um ar atónito. Tudo começa quando Harry afirma que nenhuma uma mulher fingiu orgasmos com ele e Sally demonstra que é bastante fácil para uma mulher fingi-los e que provavelmente já houve quem fingisse com ele. Segue-se a tal simulação que termina com Sally a voltar à sua refeição com um olhar vitorioso, Harry com ar comprometido de quem perdeu uma discussão e uma mulher no restaurante a dizer para o empregado: "Quero o mesmo que ela!" (Essa mulher era Estelle Reiner, a mãe do realizador. A filha adoptiva deste, Tracy Reiner, também entrou no filme como Emily, uma jovem doceira que surge como namorada de Harry numa cena de um encontro de amigos em casa de Jess). O restaurante existe mesmo em Manhattan, de seu nome Katz's Delicatessen, tornou-se obviamente local de romaria e sobre a mesa onde Ryan e Crystal filmaram a cena existe este sinal:




Mas se a dupla protagonista domina o filme, Carrie Fisher não deixa Billy Crystal e Meg Ryan brilharem sozinhos no papel de Marie, a amiga de Sally que anda há dois anos envolvida com um homem casado que apesar dos esforços dela (como por exemplo comprar um grande bouquet de rosas e fingir que foi outro homem que lhe deu) não pretende deixar a esposa mas que acaba por se apaixonar por Jess, o melhor amigo de Harry, quando os dois são apresentados. À medida que o filme avança, Marie e Jess dão a entender que torcem secretamente para que Harry e Sally fiquem juntos também. 



Sem dúvida que Nora Ephron, sabendo do apurado sentido de humor de Carrie Fisher, terá feito questão em providenciar a sua personagem com algumas deixas geniais. E Fisher é exímia e hilariante em cada cena que entra. Por exemplo, nesta primeira cena em que Marie aparece, Sally revela a ela e a Alice (Lisa Jane Persky), outra amiga, que acabou tudo com Joe. A primeira reacção de Marie é exclamar "O Joe está disponível?" e a segunda é sacar do seu ficheiro de contactos para arranjar alguém para Sally, culminando com ela a dobrar um ficha quando lhe dizem que um dos seus contactos está casado (que como já se viu, não é necessariamente um impedimento para Marie).



Por fim destaque para a banda sonora, cheia de vários standards de jazz interpretados por Harry Connick jr.

Trailer:


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