sexta-feira, 6 de maio de 2016

Festival da Eurovisão de 1991

por Paulo Neto

Este ano, tal como em 2013, Portugal não participa no Festival da Eurovisão, mas em compensação este mês iremos recordar aqui duas edições do certame onde Portugal teve dois dos seus melhores resultados de sempre, pelo que é algo que nunca é demais recordar, até porque é sabido que o nosso país nunca primou por grandes resultados.



Hoje recuamos até ao ano de 1991 para a 36.ª edição do Festival da Eurovisão que teve lugar a 4 de Maio desse ano no estúdio 15 da Cinecittá em Roma, na virtude da Itália ter vencido no ano anterior. Inicialmente o evento estava previsto ter lugar em San Remo, onde se realiza anualmente o famoso festival de música, mas com a Guerra do Golfo e as tensões crescentes na Jugoslávia, foi mudado para Roma, considerado um local mais seguro.
Vinte e dois países concorreram, com destaque para o regresso de Malta que não participava desde 1975. Já no ano anterior, Malta quis participar mas como na altura as regras limitavam o número de países participantes em 22, tal não foi possível. Mas a ausência da Holanda (porque no dia do Festival o país celebrava a recordação dos mortos da Segunda Guerra Mundial) permitiu o regresso de Malta. Esta foi também a última participação da República Socialista Federal da Jugoslávia que nesse ano começaria a desmembrar-se e a embrenhar-se num sangrento conflito armado e a primeira da Alemanha após a reunificação.



A apresentação esteve a cargo de Toto Cutugno e Gigliola Cinqueti, os cantores responsáveis pelas duas vitórias italianas no Festival: ele no ano transacto e ela no então já longínquo ano de 1964 com o clássico "No Ho L'Etá". Acusando a sua inexperiência nas lides da apresentação, Toto e Gigliola tiveram algumas dificuldades, nomeadamente na pronúncia dos títulos e compositores das canções, pelo que abordaram a tarefa com descontracção e informalidade. Por exemplo, antes da actuação de alguns países, Toto e Gigliola trocavam algumas palavritas com os intérpretes como foi o caso da nossa Dulce Pontes (a quem Toto chamou de "belissima"). Os comentários para a RTP estiveram a cargo de Ana do Carmo e a porta voz dos votos de Portugal foi Maria Margarida Gaspar.

Outra particularidade desta edição foram os postais ilustrados que consistiam nos intérpretes de cada país a cantarem uma conhecida canção italiana, enquanto imagens de locais italianos surgiam no ecrã bem como a bandeira do respectivo país. Por exemplo, Dulce Pontes cantou "Dio Come Ti Amo" de Domenico Modugno e a grega Sofia Vossou o famosíssimo "Caruso" de Lucio Dalla.

Como é habitual, vamos recordar as canções por ordem inversa da classificação.

Thomas Forstner (Áustria)

Baby Doll (Jugoslávia)

Nesse ano, o sempre indesejado último lugar foi para a Áustria, com zero pontos. Em 1989, Thomas Forstner tinha conseguido um dos melhores resultados do seu país, um quinto lugar com uma canção escrita por Dieter Bohlen dos Modern Talking. Mas dois anos, sofreu um revés da fortuna ao não conseguir convencer a Europa com a canção "Venedig im Regen" ("Veneza à chuva"). O facto de estar vestido como se fosse patinar no gelo não ajudou.
Em 21.º lugar, com apenas um ponto  ficou a Jugoslávia que, apesar do magro resultado, teve sem dúvida uma das actuações mais memoráveis. O tema "Brazil" foi interpretado por Baby Doll, nome pelo qual era conhecida a cantora sérvia Dragana Saric que fazendo jus ao stagename, surgiu em palco como se fosse a materialização da boneca Barbie. E além de duas bailarinas e duas cantoras do coro, Baby Doll também fez-se acompanhar por um Ken dançarino que mostrou alguns dos seus movimentos de breakdance durante o solo de guitarra. Não deixa de ser curioso que a Jugoslávia tenha enviado um tema tão alegre e descomplexado no mesmo ano onde o país viria a implodir numa terrível guerra (e para aumentar a ironia, a final nacional jugoslava desse ano tinha sido realizada em Sarajevo).

Kaija (Finlândia)

Anders Frandsen (Dinamarca)

Em 20.º lugar com seis pontos ficou a Finlândia. Kaija Kärkinen interpretou "Hullu yö" ("noite louca"), uma balada rock que pessoalmente acho que não merecia tão fraco resultado mesmo se a coreografia dos três elementos do coro fosse algo embaraçosa.
A Dinamarca classificou-se na posição acima com 8 pontos. "Lige der hvor hjertet lar" ("onde o coração bate" era um balada ultra-romântica interpretada por Anders Frandsen. Lamentavelmente Frandsen foi encontrado morto em 2012, com 51 anos.

Atlantis 2000 (Alemanha)

Just 4 Fun (Noruega)

A recém-reunificada Alemanha ficou em 18.º com 10 pontos. O tema "Dieser Traum darf niemals sterben" ("este sonho nunca deve morrer") foi interpretado pelo grupo Atlantis 2000, um sexteto no qual se destacavam a loiríssima Jutta Niedhart e o Harry Potter de meia-idade Alfons Weindorf. A canção falava das mudanças da reunificação da Alemanha e as esperanças acarretadas por esse acontecimento.
A Noruega apostava forte com o colectivo Just4Fun que incluía dois repetentes nestas andanças: Hanne Korugh que tinha sido a representante do país em 1971, ainda muito jovenzinha, e sobretudo em 1985 como metade do duo Bobbysocks que alcançou a primeira vitória norueguesa; e Eirikur Hauksson, de farta melena ruiva, que além de ser uma figura conhecida do rock nórdico, fez parte do trio ICY que em 1986 foram os primeiros representantes da Islândia no Festival da Eurovisão. Os outros membros do quarteto eram Marianne Antonsen e Jan Groth. Esta foi a única vez que a Noruega escolheu uma canção directamente, sem o seu Festival da Canção local, mas a ideia não compensou até porque o tema "Mrs. Thompson" não correspondia à soma das partes e ficou-se pelo 17.º lugar com 14 pontos.

Clouseau (Bélgica)


Stefan & Eyfi (Islândia)

Na posição seguinte ficou a Bélgica, que se fez representar pelos Clouseau (como o inspector da Pantera Cor-de-Rosa), uma banda rock flamenga liderada pelos irmãos Koen e Kris Wauters. A banda era muito popular na Bélgica e na Holanda e a Roma trouxeram o tema "Geef het op" ("deixa-te disso") que teve 23 pontos. Os Clouseau continuam a editar e a actuar no seu país.
A Islândia ficou em 15.º lugar com 26 pontos, com a balada "Draumur um Nínu" ("um sonho com Nina"), também conhecida apenas como "Nina". Os intérpretes foram o duo Stefan & Eyfi, que é como quem diz Stefan Hilmarsson e Eyjólfur Kristiansson (o da bandana roxa que também era o autor e compositor da canção). Stefan já representara a Islândia em 1988, como parte de outro duo Beat-Hoven. Apesar do seu resultado discreto, "Nina" acabaria por se tornar uma das canções mais amadas na Islândia, daquelas que ainda hoje põe toda a gente a cantar em uníssono nos bares de Rejkjavik.

Sarah Bray (Luxemburgo)
Sofia Vossou (Grécia)

Izel, Can & Reyhan (Turquia)

Ao longo da sua história no Festival, era costume o Luxemburgo fazer-se representar por cantores de outros países. Mas nesse ano recorreu a uma cantora natural do grão-ducado, Sarah Bray (de seu verdadeiro nome Monique Wersant), que interpretou um tema com letra da sua autoria, "Un baiser volé" ("um beijo roubado"), que ficou em 14.º lugar, com 29 pontos.
Um lugar acima, com 36 pontos ficou a Grécia. Sophia Vossou interpretou "I Anixi" ("primavera") um interessante tema pop com influências de ópera e jazz, mas a actuação ficou celebremente prejudicada pelo desafinado solo de saxofone. Apesar de uma carreira musical prolífica, Sophia Vossou tornar-se-ia mais conhecida no seu país como apresentadora de rádio e televisão.  
Nos anos 80 e princípios dos anos 90, havia sempre de se esperar algo fora "out of the box" por parte da Turquia no Festival da Eurovisão. 1991 não foi excepção, com esse país a trazer uma espécie de "Grease" à moda de Istambul com o tema "Iki dakika" ("dois minutos"), interpretado pelo trio formado por Izel Çeliköz, Reyhan Karaca e Can Ugurluer. Com 44 pontos, obtiveram o 12.º lugar, suficiente para ser um dos melhores resultados da Turquia até então, apenas suplantado pelo nono lugar de 1986. Nos anos seguintes, Izel teve uma bem-sucedida carreira a solo.

Kim Jackson (Irlanda)

Samantha Janus (Reino Unido)

Elena Patroclou (Chipre)

Com 47 pontos, a Irlanda e o Reino Unido empataram no 10.º lugar. A representante irlandesa foi Kim Jackson que interpretou "Could it be that I'm in love", uma canção escrita por Liam Reilly, que tinha representado a Irlanda precisamente no ano anterior.
O Reino Unido fez-se representar pela loiríssima Samantha Janus e o tema "A message to your heart" cuja letra lembrava as desigualdades entre os países desenvolvidos e os do terceiro mundo. Este acabou por ser o único momento notório de Samantha Janus como cantora, já que viria a ser bem mais conhecida no seu país como actriz em várias séries como "Game On" (exibida na RTP2), na telenovela "Eastenders" e em filmes como "Kingsman".
Depois ter estado presente três vezes como cantora de coro, nesse ano Elena Patroclou finalmente teve a oportunidade de representar Chipre como intérprete principal. Fê-lo com "S.O.S.", canção de temática ecológica que obteve um respeitável nono lugar com 60 pontos.

Dulce Pontes (Portugal)
Peppino Di Capri (Itália)

Pela primeira vez em onze anos, Portugal ficou entre os dez primeiros e durante algum tempo na votação, chegou a andar no top 5, acabando por ficar em 8.º lugar com 62 pontos. A canção "Lusitana Paixão" dispensa comentários, sendo sem dúvida uma das melhores canções que levámos ao Festival da Eurovisão. Dulce Pontes era então sobretudo conhecida por fazer parte do grupo de cantores residentes do programa "Regresso Ao Passado" de Júlio Isidro mas nos anos seguintes, a cantora natural do Montijo tornar-se-ia uma das nossas vozes com maior sucesso internacional.
No lugar acima, com 89 pontos, ficou a canção de Itália,"Comme è ddoce o'mare" interpretado em dialecto napolitano por Peppino Di Capri. Nascido Giuseppe Faiella em Nápoles e criado na célebre ilha de Capri (daí o nome artístico), Di Capri era já um grande nome da canção italiana e um dos percursores do rock transalpino. O seu tema mais conhecido internacionalmente é "Champagne", que aliás foi o que ele cantou no postal ilustrado. 

Georgina & Paul Giardimaina (Malta)
Sandra Simó (Suíça)

O pequeno arquipélago de Malta tinha participado três vezes no Festival nos anos 70 sem grande sucesso, mas o seu regresso dezasseis anos depois da sua última participação foi auspicioso, obtendo o sexto lugar com 106 pontos. A canção "Could it be" era uma balada num dueto entre Georgina Abela e Paul Giordimaina, e foi escrita por Paul Abela, marido de Georgina.
Se Portugal impressionou com a sua lusitana paixão, a Suíça não brilhou menos com a sua paixão helvética na voz da bonita Sandra Simó, conquistando o quinto lugar com 118 pontos. Apesar de ser natural de Zurique, do alemão ser a sua língua materna e de ter uma mãe espanhola, grande parte do seu repertório em musical era em italiano e foi neste idioma que actuou em Roma com "Una canzone per té". Actualmente, é mais conhecida no seu país como apresentadora de televisão sob o seu verdadeiro nome Sandra Studer, tendo inclusivamente sido comentadora do Festival da Eurovisão para televisão da Suíça germânica.

Sergio Dalma (Espanha)
Duo Datz (Israel)

A Espanha era uma das favoritas à vitória com o baladão "Bailar Pegados", interpretado por Sergio Dalma, nome artístico do catalão Josep Capdevilla. E lembro-me nesse ano de torcer tanto por Espanha como por Portugal. A canção espanhola ficaria no quarto lugar com 119 pontos. Sergio Dalma tornou-se a partir de então um dos mais populares cantores no país vizinho, já se perdendo a conta aos seus discos de platina.
Com 139 pontos, Israel alcançou a medalha de bronze, graças ao bem alegre tema "Kan" ("aqui") interpretado pelo Duo Datz, formado pelo casal Moshe e Orna Datz, que eram a modos como que os Broa De Mel lá do sítio. Mas os contrário dos nossos Gorgal que continuam juntos, os Datz separaram-se em 2006 ao fim de 21 anos de casamento.

A luta pela vitória em 1991 acabou por ser mais renhida de sempre, pois deu-se um empate no primeiro lugar com 146 pontos entre França e Suécia. Como ambos os países também tiveram o mesmo número de 12 pontos, o desempate acabou por ser pelo maior número de 10 pontos atribuídos dando a vitória à Suécia, que assim somava o terceiro triunfo dos seis que este país actualmente conta. (Se as actuais regras de desempate se aplicassem na altura, pelo maior número de países a pontuar cada canção, teria ganho a França). Mas apesar da disputa renhida, as duas canções não podiam ser mais diferentes. 

Amina (França)
Carola (Suécia)

A França tinha uma proposta exótica no tema "C'est le dernier qui a parlé qui a raison" ("quem fala por último é que tem razão") interpretado pela franco-tunisina Amina Annabi, um tema de forte inspiração magrebina. Além de uma celebrada carreira musical, Amina também tem uma activa carreira como actriz, tendo entrado por exemplo no filme "Um Chá No Deserto" de Bernardo Bertolucci. Quando a Tunísia participou nos Jogos Sem Fronteiras em 1992, utilizou esta canção nos filmes das cidades tunisinas que competiram no programa.

Oito anos depois da sua primeira participação em 1983 onde foi terceira, Carola Hagqvist voltou a representar a Suécia e venceu desta vez, com a canção "Fangad av en stormvind" ("apanhada num vendaval"), um tema pop dançável. Carola actuou acompanhada por dois enérgicos bailarinos, mas o principal marco da actuação foi uma ventoinha apontada à sua cara durante toda a performance. Mais tarde veio-se a saber que houve um problema de som durante a actuação que fez com que as pessoas presentes no local não ouvissem a voz de Carola, mas tal não aconteceu na transmissão televisiva.
Uma das cantoras mais populares do seu país e também uma das mais controversas, sendo sempre muito seguida pela imprensa cor-de-rosa e pelo seu envolvimento num controverso culto evangélico, Carola continua bem activa na música e é considerada uma das mais célebres estrelas do universo do Festival da Eurovisão. Em 2006, voltou a representar a Suécia no Festival desse ano tendo ficado em quinto lugar.     



Festival da Eurovisão 1991 completo (comentários em alemão):







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