quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Marina, Marina (1992-93) e Ora Bolas, Marina (1993-95)

por Paulo Neto

O humor, particularmente em Portugal, parece ser um universo quase exclusivamente masculino. Enquanto a lista de homens que fazem e fizeram rir a nação é bem extensa, o humor nacional, pelo menos na vertente televisiva, só teve até agora quatro leading ladies: Ivone Silva, Ana Bola, Maria Rueff e Marina Mota.


Depois de ter sido uma menina-prodígio do fado e de brilhar no teatro, Marina Mota viria a tornar-se nos anos 90 presença regular na televisão. Claro que antes Marina já tinha várias presenças no pequeno ecrã, em programas como "Canto Alegre" (1989), em rábulas dos programas "A Quinta do Dois" e "1, 2, 3" ao lado do então marido Carlos Cunha sob as personagens do Zé da Viúva e Maria da Conceição e no Festival da Canção de 1989, onde o seu tema "Partir de mim" ficou em segundo lugar, apenas batido pelo "Conquistador" dos Da Vinci.

Carlos Cunha e Marina Mota em "Marina, Marina"

Mas foi em 1992, com a sitcom "Marina, Marina" (que passava às sextas-feiras à noite na RTP) que Marina Mota se estreou como protagonista em televisão. A série era uma adaptação do lendário "I Love Lucy", que é considerada como a mãe de todas as sitcoms, adaptando-o para a realidade portuguesa da primeira metade dos anos 90. Juvenal "Juju" Loureiro (Carlos Cunha) é um ex-emigrante em França que conquistou sucesso como cançonetista, tornando-se proprietário de uma casa de espectáculos, o Ça Va. A esposa de Juju, Marina (Marina Mota), convencida que é dotada de mais talento artístico do aquele que realmente tem, também ambiciona entrar no mundo do espectáculo, algo que o marido tenta sempre evitar, consciente da tendência de Marina para o desastre. Em cada episódio, víamos Marina a meter-se em diversas encrencas, para entrar no meio artístico ou por outro motivo qualquer, normalmente arrastando consigo Juju ou o casal vizinho, Alfredo e Beta Pires (os malogrados Henrique Viana e Raquel Maria).

Henrique Viana e Raquel Maria em "Marina, Marina"

Infelizmente não encontrei no YouTube excertos de "Marina, Marina", mas foi um programa que me marcou imenso na altura e ainda hoje recordo-me de vários episódios. Um em que Marina tem de repetir vários takes de um anúncio a Vitaprotovegamidomina, um produto pseudo-medicinal (e altamente alcoólico), outro em que para entrar num espectáculo de comédia, Marina contrata um palhaço (Virgílio Castelo) e vê-se a ensaiar um sketch cómico-psicótico, outro em que Marina e Juju vêem-se algemados sem chave à vista ou ainda um em que Marina e Beta tentam sabotar a transmissão de um jogo de futebol para que os maridos lhe dêem atenção e acabam por ser confundidas por duas criminosas procuradas pela polícia. Tinha alguns desses episódios gravados numa cassete de vídeo que eu e o meu irmão vimos imensas vezes e repetíamos algumas deixas mais cómicas. Com um registo fiel ao de Lucille Ball mas ao mesmo tempo bem pessoal, Marina Mota fez rir Portugal e consolidou-se como uma estrela da televisão.


O passo seguinte foi dado na SIC em 1993, com "Ora Bolas, Marina" onde além de Marina Mota, Carlos Cunha e Raquel Maria, faziam também parte do elenco principal Natalina José e Fernando Ferrão. Tratava-se de um programa de sketches que podiam ir de dramatizações de anedotas populares (num estilo percursor dos "Malucos do Riso") a encenações de números do teatro de revista. Entre as rábulas mais recorrentes estavam: os terríveis Bitucha e Cunhinha sempre a pôr a professora Alzira de cabeça em água; as conversas do outro mundo entre as defuntas Adosinda, Arlete e Capitolina, três almas penadas de um cemitério; as canções do grupo rock Us-Batná-Vó versionando temas conhecidos com letras de crítica social; e a minha preferida: a maluca que telefonava para todo o lado e que reclamava ferozmente de tudo e mais alguma coisa, ao ponto de se esquecer que era ela que tinha telefonado e ficar ofendida por "lhe terem ligado a incomodá-la". Tudo enquanto repetia o bordão "Estou farta de gente maluca até à peruca!".

Os terríveis Bituxa e Cunhinha


A maluca que telefonava para todo o lado a reclamar

A desinibida vocalista dos Us-Batna-Vó






"Ora Bolas, Marina" teve três temporadas, exibidas na SIC entre 1993 e 1995, às terças-feiras à noite.


Com João Baião em "Era Uma Vez" numa versão mais adulta do conto do "Alfaiate Mata-Sete"

Marina Mota continuou a ser presença regular no pequeno ecrã televisiva nos dez anos seguintes em programas como "Marina Dona Revista", "Era Uma Vez" (onde se reproduziam versões não muito infantis de contos infantis), "Um Sarilho Chamado Marina" (uma nova adaptação de "I Love Lucy") e (já na TVI) "Bora Lá, Marina". Também produziu séries como "Barba e Cabelo", "Cuidado com o Fantasma" e "As Pupilas do Senhor Doutor".



Tal como falar em Lucille Ball é falar do seu marido Desi Arnaz, também é impossível lembrar Marina Mota sem falar de Carlos Cunha. Antes de "Marina, Marina", Carlos Cunha era talvez mais conhecido do grande público (por exemplo, no programa "Ponto & Vírgula" de Ivone Silva e como o já referido Zé da Viúva e o seu bordão "Esta carola não pára!") mas não teve problemas em delegar o protagonismo à sua esposa.
E como se não bastasse já tanto paralelismo, tal como Lucy e Desi, Marina e Carlos mantiveram uma boa relação pessoal e uma longa colaboração profissional após a separação, anunciada em 1996, que na altura foi recebida com alguma tristeza, já que eram um dos casais mais queridos pelos portugueses.

Nos últimos anos, Marina Mota tem preferido apostar essencialmente no teatro, aparecendo na televisão esporadicamente como na telenovela "Fascínios". É precisamente na próxima telenovela da TVI, "Destinos Cruzados" que vamos voltar a vê-la no pequeno ecrã.

Genérico de "Ora Bolas, Marina" (quem não se lembra da canção "Estas bolas são redondas"?)


Sketch "Bituxa e Cunhinha":


Sketch "As Defuntas":


Us-Batná-Vó:






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10 comentários:

  1. O ora bolas marina tinha momentos tão maus que se tornavam bons, e marcou muito uma época.

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  2. Dois dos melhores programas de sempre da TV portuguesa.
    Infelizmente não vi a primeira série da "Marina, Marina", pois essa série, ao lado da adaptação televisiva do programa infantil do Rádio Clube Português "As Lições do Menino Tonecas", e do programa de variedades "Noite de Reis" da lindíssima Fernanda Serrano, nunca foi reposta na RTP/Memória, mas a minha mãe chegou a ver, e ela, tal e qual como eu, é fã desta grande actriz que é a Marina Mota.
    Do segundo, lembro-me perfeitamente. A minha mãe chegou a gravar excertos do "Ora Bolas Marina" em VHS, e eu via, e revia, os excelentes fados que ela cantava, os maluquíssimos "Us-Batná-Vó", e todos os excelentes sketches do programa, que eram hilariantes, de mijar a rir.
    Destes programas de música e humor é que a nossa televisão precisa hoje, para não falar dos programas de anedotas teatralizadas para televisão, como o épico "Malucos do Riso", que nunca perdi, e que foi uma mania feita por Vasco Santana na rubrica "A Anedota da Semana" em 1958, na RTP, meses antes dele morrer.
    Digamos que Marina Mota seguiu as pisadas de Ivone Silva, pois a Ivone também fazia grandes programas deste género, como o "Ponto e Vírgula" ou o histórico "Sabadabadu".
    Dois programas históricos, sem dúvida.

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    1. Pelo que pude apurar, a série Marina, Marina nunca foi exibida na RTP Memória alegadamente por questões de direitos de autor.

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  3. Nunca fui fã hardcore, mas via, e gostava dos segmentos dos "Us-Batná-Vó".

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  4. Descontração para quem via e talento de quem fazia. Brilhante a Marina

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  5. Nao vai ser so memoria.... vai ser realidade... vou postar no youtube os episodios de marina marina que tenho... sao poucos mas espero que gostem... gravados da rtp na altura pelo meu pai.... canal youtube david sucesso

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    1. Boa iniciativa David, ficamos a aguardar!
      Cumprimentos,

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  6. Gravei um pouco de um episódio do Marina Marina que tinha numa cassete:

    https://www.youtube.com/watch?v=0qZhaIOCNrs

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    1. Diz que "Este vídeo não está disponível."

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    2. Não sei o que aconteceu. Está aqui a parte 2: https://www.youtube.com/watch?v=0qZhaIOCNrs

      A parte anterior vou ter de fazer upload outra vez.

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