domingo, 3 de junho de 2012

Os Amigos do Gaspar (1986)


João Paulo Seara Cardoso já tinha conseguido, com "A Árvore dos Patafúrdios" (1984), criar um universo fascinante com apenas um cenário. O seu projecto seguinte, "Os Amigos de Gaspar", que se estreou na RTP em 1986 no espaço infantil das manhãs de domingo, consolidou-o como o maior mestre nacional de animação com marionetas, tendo sido comparado com o lendário Jim Henson (com quem aliás, Seara Cardoso fez uma workshop). Infelizmente, o seguimento do seu trabalho em televisão acabou por ser breve. Mas para sempre ficam estas duas séries, que marcaram o panorama da animação nacional nos anos 80 e que ainda hoje vêem-se com agrado.
Ao contrário da "Árvore dos Patafúrdios", aqui reinam as figuras humanas. Numa pequena cidade algures em Portugal, Gaspar é o líder de um animado grupo de amigos pré-adolescentes. Sendo o mais maduro e responsável do grupo, é ele que assume o papel de líder. Enquanto os seus amigos entretêm com as tropelias próprias da idade, Gaspar interroga-se muito sobre o seu futuro e com questões mais adultas, e por vezes até se queixa da infantilidade dos comparsas. Mas mesmo assim, nunca recusa uma boa brincadeira com eles. Quem está sempre ao lado de Gaspar, é o animal de estimação deste, o Manjerico. Trata-se de uma estranha espécie de ouriço verde, muito espevitado e brincalhão. Embora todas as personagens parecem perceber tudo o que ele diz, nós só o ouvimos a repetir o célebre "Taio vaio saio" e a chamar "Gaspaio" ao dono.
Os seus amigos formam um grupo bastante unido, apesar de terem personalidades bem diferentes. Romão, que sonha em ser um músico famoso, é extrovertido e cheio de energia, ao passo que Farturas é introvertido, humilde e até um pouco taciturno. Clarinha é sensível e conciliadora enquanto Marta é temperamental e amua com facilidade. Existe ainda o Balú, o bicho de estimação de Clarinha, que tal como o Manjerico, é um animal de espécie indecifrável e com um discurso que só as personagens entendem.

Na primeira série, apenas entram dois adultos. Um é o Professor Fidebeque, o típico inventor chanfrado cujas invenções fazem as delícias de Gaspar e dos seus amigos. O outro é o mítico Guarda Serôdio, um beirão que trocou a enxada pelo apito de polícia e que é o desmancha prazeres do grupo de Gaspar. De bigode farfalhudo e voz cómica mas ríspida ("Ixto axim nã pode xer"), Serôdio está sempre a impor proibições, algumas bem ridículas, no parque onde os amigos brincam, tendo criado o CCPP (Código de Coisas Proibidas no Parque). Porém, Gaspar e os seus amigos arranjam sempre maneira de lhe passar a perna.
Como o Nuno Markl bem apontou no cromo que dedicou à série, apesar de já estarmos bem na década de 80, a personagem do Guarda Serôdio ainda era um resquício de crítica PREC. É fácil de ver na figura pacóvia mas autoritária de Serôdio uma caricatura do Estado Novo e nos amigos uma metáfora da liberdade recém adquirida.

Na segunda série, o elenco sofreu alterações. Clarinha e Balu saíram de cena, Marta ganhou uma marioneta mais bonita e a sua personagem amadureceu um pouco e surgiram cinco novas personagens. Nita, a irmã mais nova de Gaspar, que faz tudo para se integrar no grupo do irmão, se bem que eles a achem ainda muito criança. Pitágoras, o sobrinho e discípulo do Professor, também ele louco por inventar engenhocas. A Tia Felismina, dona da mercearia, que torna-se uma figura maternal para o grupo. O Senhor Pires, o típico velho rezingão, quase sempre com um barrete de pijama na cabeça, mas que não é indiferente à Tia Felismina. E o Neca, o preguiçoso ajudante na mercearia e presa fácil do autoritarismo do Guarda Serôdio.


Tal como nos "Patafúrdios", Sérgio Godinho envolveu-se na parte musical, escrevendo as letras da canções da série, musicadas por Jorge Constante Pereira. Em 1988, foi editado o disco "Sérgio Godinho canta com os Amigos do Gaspar". O tema principal era o famoso "É tão bom uma amizade" e cada episódio continha uma variante dessa canção.

Foram ao todo 37 episódios nas duas séries, tendo conquistado público e crítica. O Jornal "Se7e" referiu uma vez que a série até parecia ser estrangeira. E a pequenada foi conquistada pelas personagens, que se tornaram tão míticas como as da "Rua Sésamo".

João Paulo Seara Cardoso ainda fez mais duas séries para televisão no início da década de 90: "Mópi" e "No Tempo dos Afonsinhos" mas depois a sua obra limitou-se às artes de palco. Permaneceu ligado ao Teatro de Marionetas do Porto, de que foi fundador e director artístico, até ao seu falecimento em Outubro de 2010.

A RTP Memória tem permitido matar-nos saudades de Gaspar, Manjerico, Marta, Farturas, Serôdio e companhia, e apresentá-los a novas gerações, mas há muito que se impunha uma edição de DVD e Blue Ray da série.

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A série já foi cromada na Caderneta de Cromos:
O canal do Youtube "Amigos do Gaspar Blog" tem episódios: "AmigosdoGasparblog"

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Mais um belo texto do Paulo Neto!
Gostava de convidá-los a visitar o blog do Paulo Neto, um grande contribuidor para a "Enciclopédia de Cromos". Vão lá, comentem e digam que vão da minha parte: "Estou-me Nas Tintas": http://estoume-nastintas.blogspot.pt 

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