Para tentar refrescar este Verão escaldante nada melhor que recordar um gelado de outras épocas: "Polos" da Royal, gelados para preparar em casa. A publicidade ocupa quase toda a página com uma imagem da caixa dos gelados Polos, existentes nos sabores Laranja, Ananás, Morango e Cola. Decerto abasteceram muitos frigoríficos dos lares portugueses.
"Muito fácil de preparar...até as crianças preparam."
Publicidade retirada da revista Mickey Nº 76, de 1986.
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Hoje parece a coisa mais absurda do mundo, mas durante muito tempo acreditava-se que uma mulher, ao praticar corrida, estava a prejudicar a saúde. Não sem muita misoginia e presunção, nos anos 20 a comunidade médica era largamente da opinião de que entre outras consequências nefastas, mulheres que corriam teriam mais dificuldade em ter filhos ou envelheciam mais cedo.
Daí que a estreia do atletismo feminino nos Jogos Olímpicos de 1928 em Amesterdão não foi vista com muito bons olhos e, à parte uma atribulada prova de 800m nessa mesma edição, até 1960 as mulheres não correram mais que 200m em Jogos Olímpicos. E em 1980, a prova olímpica de maior distância ainda foram os 1500m.
Mas entretanto, as corridas femininas de longa distância já começavam a afirmar-se solidamente no panorama desportivo e desde os anos 70 que as mais famosas maratonas do mundo, como Boston e Nova Iorque, já incluíam a vertente feminina. Daí que se impunha que a prova feminina da maratona fizesse parte do programa dos Jogos Olímpicos de 1984.
Reza a história que se pode dizer que a primeira mulher maratonista olímpica foi a grega Stamatha Revithi. Impedida de participar na prova da maratona nos primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna em Atenas em 1896, nos quais apenas competiram homens, Revithi decidiu correr o mesmo percurso da primeira maratona olímpica no dia seguinte ao da prova oficial e apesar de ter parado várias vezes pelo caminho, chegou ao fim da corrida após cinco horas. Mas pelo menos, fez o percurso, o que não se pôde dizer de sete dos corredores da prova masculina.
88 anos depois, a primeira maratona olímpica feminina teve lugar no dia 5 de Agosto de 1984, com cinquenta atletas de 28 países na linha de partida. Para muita gente, o simples facto de tal prova acontecer foi motivo de grande emoção e a organização prestou as devidas honras no início da prova, com uma pequena cerimónia onde as atletas entraram no estádio atrás da bandeira do seu respectivo país. Por Portugal, estavam presentes Rosa Mota, Rita Borralho e Conceição Ferreira.
Rosa Mota, campeã europeia da maratona em 1982 em Atenas (quando nunca antes tinha corrido mais de 20 quilómetros, nem sequer em treino!), era uma das candidatas ao pódio. Mas as principais favoritas eram a americana Joan Benoit, recordista mundial da distância, e a norueguesa Grete Waitz, campeã mundial em 1983. Havia ainda que contar com a também norueguesa Ingrid Kristiansen, recordista mundial dos 10000 metros, a italiana Laura Fogli e a neozelandesa Lorraine Moller.
Joan Benoit (USA) a primeira campeã olímpica da maratona
No entanto, a vitória ficou decidida bem cedo, com Joan Benoit a arrancar isolada da frente da corrida aos 14 minutos, tomando a liderança que nunca mais perdeu. Pensando que a americana tinha cometido um enorme risco em atacar tão cedo e que não tardaria ceder, nenhuma das outras corredoras se atreveu a ir com ela. Mas foi mesmo Benoit foi a primeira a cortar a meta, com o boné branco que usara ao longo da corrida numa mão e uma bandeira americana na outra, com o tempo de 2 horas, 24 minutos e 52 segundos. Mais tarde Benoit declararia que ao entrar no túnel que dava para o estádio, pensou: "A minha vida vai mudar assim que eu passar este túnel."
Medalha de prata para Grete Waitz (NOR)
Rosa Mota ganhou o bronze para Portugal
Grete Waitz, que no dia anterior acordara com dores tão fortes nas costas que nem sequer conseguia manter-se de pé, terminou em segundo lugar, a cerca de minuto e meio de Benoit. Nos quilómetros finais, Rosa Mota conseguiu superiorizar-se a Ingrid Kristiansen para ser terceira, a apenas 39 segundos de Weitz.
Gabriela Andersen-Schiess (SUI)
No entanto, tanto quanto as três primeiras, a 37.ª classificada acabaria por fazer história na primeira maratona olímpica feminina. Vinte minutos depois de Joan Benoit, a suíça Gabriela Andersen-Schiess, então com 39 anos e a trabalhar como instrutora de esqui no estado americano do Idaho, entrou no estádio em sérias dificuldades, toda curvada, com o braço esquerdo suspenso e a perna direita rígida. Toda a gente presente no estádio ficou indecisa entre encorajar a atleta a terminar a prova ou pedir para que ela fosse auxiliada, mesmo que isso lhe custasse a desclassificação. Os membros do corpo médico repararam que ela transpirava abundantemente, o que era um bom sinal, e deixaram-na continuar. Sob a enorme ovação do público, a helvética terminou a volta final ao estádio em cinco minutos e 44 segundos, para cair nos braços dos socorristas que a esperavam na linha da meta.
Apesar do seu calvário, o estado de Andersen-Schiess não era tão grave como se pensava e recuperou rapidamente, recebendo alta médica ao fim de apenas duas horas.
E que não se pense que Gabriela Andersen-Schiess era uma atleta incipiente, já que em 1983 vencera duas maratonas nos Estados Unidos, em Sacramento e Mineápolis, e era a recordista nacional dos 10000m. Apenas cinco semanas depois da maratona, a helvética participou numa corrida no estado do Utah onde parte do percurso era feito em corrida e outra a cavalo. A atleta referiria mais tarde que o seu estado deveu-se em parte por ter falhado o último posto de reabastecimento de água, que a deixou a sofrer as consequências de desidratação naquele dia de intenso calor. Desde então, foi aprovada uma regra que permite ao corpo médico tocarem nos atletas para prestar assistência sem que estes sejam desclassificados.
Curiosamente, as duas atletas que terminaram a corrida logo a seguir a Andersen-Schiess foram as portuguesas Rita Borralho e Conceição Ferreira que tinham feito todo o percurso juntas e que cruzaram a meta de mãos dadas.
Outra atleta que passou por tormentos semelhantes aos de Andersen-Schiess foi a neozelandesa Anne Audain. Sentindo-se mal aos 27km devido a desidratação e não encontrando nenhum posto de assistência médica, acabou por desmaiar antes de poder terminar a prova. Felizmente, desmaiou mesmo ao pé de dois bombeiros que assistiam à corrida e que lhe prestaram os devidos socorros e levaram-na para um hospital.
A brasileira Eleonora Mendonça foi a última atleta a concluir a prova, em 44.º lugar, quase 28 minutos depois de Joan Benoit. Um quadragésima quinta corredora poderia também tê-lo feito, mas foi tramada pela sua lentidão. Leda Diaz das Honduras ficou desde muito cedo bem para trás na prova: aos 20km, já estava a mais de 27 minutos das restantes atletas. Mais preocupados em retomar o trânsito em Los Angeles e em cumprir os horários das provas do que com o ideal olímpico de que o importante é participar e chegar ao fim da corrida, os membros da organização da prova convenceram a hondurenha a desistir.
Voltando às três primeiras, o pódio da primeira maratona olímpica feminina acabou por ser altamente emblemático ao acolher três das melhores maratonistas de todos os tempos: Joan Benoit com o ouro, Grete Waitz (infelizmente falecida em 2011) com a prata e Rosa Mota com o bronze. A "menina da Foz" tornava-se assim a primeira mulher portuguesa a ganhar uma medalha olímpica, com o seu feito a inspirar as medalhas de bronze de António Leitão nos 5000m e de ouro de Carlos Lopes na maratona masculina, fazendo dos Jogos de Los Angeles uns dos melhores de sempre para as cores nacionais. Rosa Mota também transportou a bandeira portuguesa na cerimónia de encerramento.
E claro está, nos quatro anos que se seguiram, Rosa Mota foi indiscutivelmente a melhor maratonista do mundo, enchendo Portugal de orgulho com as suas conquistas que culminaram, já se sabe, na medalha de ouro dos Jogos Olímpicos de 1988 em Seul.
A prova da maratona feminina de 1984 no filme "16 Dias de Glória":
Antes do mais, devo dizer que a "minha" série "Missão: Impossível" não é a original dos anos 60 e 70 (1966-1973), embora também a tenha visto quando foi reposta por cá na RTP2 há uns anos, creio que em finais dos anos 90 ou inícios deste século, mas sim uma remake actualizada de duas temporadas de 1988 a 1990, que passou na RTP1 em horário nobre no início dos anos 90. Ao que parece, a cadeia americana ABC teve a ideia de fazer esse remake por causa de uma greve de argumentistas de 1988 que dificultou a recepção de novos guiões para a grelha da rentrée desse ano, e decidiu reabilitar a série, que contou de novo com Peter Graves no papel de Jim Phelps e que entre outros, tinha no elenco Jane Badler, a inesquecível Diana, a extraterrestre apreciadora de ratazanas, de "V - A Batalha Final", como um dos agentes da equipa. Como as despesas de produção desse modo assim o compensavam, essa remake actualizada de "Missão Impossível" foi toda filmada na Austrália.
Se hoje em dia, Hollywood parece não querer fazer outra coisa senão remakes e revisitações de tudo e de mais um par de botas, nos anos 90 as coisas não eram bem assim. Por exemplo, não era incomum que alguns filmes fossem convertidos em séries de televisão ("M.A.S.H." era então o caso mais célebre) mas o inverso era coisa rara, senão nunca vista. Por isso, havia muita expectativa quanto a uma adaptação cinematográfica da série "Missão:Impossível", sobretudo por ter Tom Cruise no papel principal e o consagrado Brian De Palma como realizador.
Cruise é Ethan Hunt, um dos agentes da IMF reunidos por Jim Phelps (Jon Voight) para uma missão, onde também participa Claire (Emmanuelle Béart), a esposa de Phelps. O que parecia ser uma missão relativamente simples - recuperar uma lista secreta de agentes da embaixada americana em Praga - acaba em desastre com todos os agentes mortos excepto Hunt. Este descobre que a missão era um embuste para apanhar um traidor dentro da IMF e que foi tramado para que se pensasse que fosse ele. Decidido a resolver o mistério e a limpar o seu nome, Hunt aposta no jogo duplo, aceitando a proposta de Max (Vanessa Redgrave), uma negociante de armas que esteve em contacto com o verdadeiro traidor sob o nome de código de Job, em entregar-lhe a lista dos agentes da IMF em troca de dinheiro e da verdadeira identidade de Job.
Com a ajuda de Claire, que afinal está viva, e de dois agentes dispensados da IMF, Luther Stickett (Ving Rhames) e Franz Krieger (Jean Reno), Hunt concretiza o seu plano e eventualmente, conclui que Phelps é o verdadeiro traidor e que Claire e Kriegel serão seus cúmplices, correndo contra o tempo para limpar o seu nome e denunciar aqueles que o atraiçoaram.
Do elenco fizeram também parte Kristin Scott Thomas, Emilio Estevez, Ingeborga Dapkunaité e Henry Czerny.
A adaptação cinematográfica de "Missão: Impossível" foi um grande sucesso de bilheteira, sendo o terceiro filme de maior sucesso de 1996. Tom Cruise, que andava até então mais interessado em papéis dramáticos com Óscar fisgado, reabilitou o seu estatuto como action hero. Desde então, já desempenhou o papel de Ethan Hunt em mais quatro sequelas. Porém também houve algumas críticas quanto às poucas ligações com a série original e a falta de densidade do argumento e vários dos actores da série original lamentaram o facto de Jim Phelps, o protagonista original, ser o vilão do filme. (Por esse mesmo motivo, Peter Graves declinou o convite para recuperar a personagem no filme).
A cena mais célebre do filme é aquele em que Ethan Hunt suspenso por cordas a aceder à lista dos agentes da IMF numa sala de segurança hipermáxima onde basta que uma gota de suor caia ao chão para accionar os alarmes. Cena essa que foi depois amplamente replicada e parodiada, por exemplo por Ben Stiller e Jeaneane Garofalo nos MTV Movie Awards desse ano.
Outro aspecto do sucesso do filme foi a banda sonora (ainda que apenas cinco das quinze músicas do álbum tivessem sido usadas no filme), nomeadamente a readaptação do tema original da série, da autoria de Lalo Schiffrin, por parte de Adam Clayton e Larry Mullen Jr. dos U2. Essa nova roupagem do tema foi um hit global e tem sido desde então usado em várias imitações e paródias da "Missão Impossível".
Enquanto o país vive a emoção de ver a Selecção Nacional de futebol ganhar o Euro 2016, nada como recordar aquele continua a ser o mais mítico hino de apoio à selecção. Creio que só a "Força" da Nelly Furtado está no mesmo patamar.
Em 1986, Herman José era já o indiscutível rei do humor televisivo nacional graças a programas tão míticos como "O Tal Canal" e "Hermanias". Em ambos os programas, surgia aquela que era uma das suas personagens mais lendárias, o José Estebes, o famoso comentador desportivo portuense, com o seu cerradíssimo sotaque do "Nuorte", as suas bochechas coradas e com um jarro de bom tinto sempre por perto para o que der e vier. Depois de Estebes, as palavras "substrato" e "pomada" ganharam novo significado. Segundo Herman José, a personagem foi inspirada por dois dos seus antigos managers, ambos nortenhos e cheios de pêlo na venta.
Nesse ano de 1986, Portugal disputaria pela segunda vez a fase final de um Mundial de Futebol, vinte anos após Eusébio e companhia terem brilhado no Mundial de 1966 de Inglaterra. As expectativas estavam altas, até porque dois anos antes no Europeu de 1984, a selecção teve uma prestação agradável, caindo apenas nas meias-finais contra uma França liderada por Michel Platini. A selecção nacional que iria marcar presença no Mundial do México contava com nomes como Bento, Carlos Manuel, Jaime Pacheco, Fernando Gomes, Paulo Futre, António Oliveira, Rui Águas e Augusto Inácio. Mas após um bom início com uma vitória sobre a Inglaterra, as coisas rapidamente rolaram para o descalabro não só dentro do campo com confrangedoras derrotas face à Polónia e a Marrocos (então apenas a segunda vitória de uma equipa africana sobre uma europeia num Mundial) como sobretudo fora devido ao infame Caso Saltillo. E Portugal foi-se embora do México pela porta pequena enquanto o torneio prosseguiu, terminando com o triunfo da Argentina liderada por um Diego Maradona tocado pela mão de Deus.
Mas se o Mundial de 1986 foi um descalabro para as cores nacionais, o hino de apoio à selecção era absolutamente vencedor. Bastava apenas o carisma de José Estebes e o génio criativo de Carlos Paião para tal, mas além disso havia todo um alinhamento all-star a acompanhar, com Luís Represas, Alexandra e Dany Silva a cantarem algumas partes e Vitorino, Marco Paulo, Jorge Fernando, Diana e Peter Peterson no coro. E o resultado só podia ser sensacional.
(Estebes - introdução)
Heróica e lusitana gente
Vamos em frente mas combictamente
(Estebes)
Bá lá cambada infantes desportistas
Homens de conquistas
Povo que és o meu
Bola redonda e onze jogadores em frente
Sem temores que as tácticas dou eu
Tragam as gaitas, as bandeiras e a pomada
Vamos dar-lhes uma abada,
Ensinar-lhes o que é bom
Vamos mostrar a esses carafunchosos
Por momentos gloriosos
Quem é a nossa selecçom
Bamos lá cambada, todas à molhada, qu'isto é futebol total
Deixem-se de tretas, forças nas canetas, que o maior é Portugal!
Bamos lá cambada, todas à molhada, qu'isto é futebol total
Deixem-se de tretas, forças nas canetas, que o maior é Portugal!
(Luís Represas)
É atacar agora e defender para fora
Uns são toscos e nem dão para aquecer
(Alexandra)
Suar a camisola e até jogar sem bola
E disfarçar para o árbitro não ver
(Estebes e Alexandra)
No intervalo, solteiros contra casados,
Fandangos, chulas e fados
Para aprenderem como é
(Estebes e Dany Silva)
Durante o jogo qualquer caso lá surgido
Só pode ser resolvido à cabeçada e ao pontapé
(Carlos Paião)
Bamos lá cambada, todas à molhada, qu'isto é futebol total
(Estebes)
Deixem-se de tretas, forças nas canetas, que o maior é Portugal!
(Todos)
Bamos lá cambada, todas à molhada, qu'isto é futebol total
Deixem-se de tretas, forças nas canetas, que o maior é Portugal!
(Alexandra)
Os portugueses já provaram muitas vezes
Saber ser uns bons fregueses das grandes ocasiões
(Luís Represas e Dany Silva)
Nesta jornada nem que seja à pantufada
Nós estaremos na bancada, muito mais que dez milhões
(Estebes)
Força Portugueses
(todos)
Viva Portugal, Portugal, Portugal!
Viva Portugal, Portugal, Portugal!
(Dany Silva)
Bamos lá cambada, todas à molhada, qu'isto é futebol total
Deixem-se de tretas, forças nas canetas, que o maior é Portugal!
(Estebes)
Bamos lá cambada, todas à molhada, qu'isto é efectibamente
Futebol total
Temos de ter coragem, muita força
Pensem nos vossos antepassados có nada
Muito orgulho, muita bivacidade
Vai lá... e um, dois, e um, dois
E vai lá...e cruza...e é golo, e é GOLO!
(todos)
Bamos lá cambada, todas à molhada, qu'isto é futebol total
Deixem-se de tretas, forças nas canetas, que o maior é Portugal!
O single foi campeão de vendas e recordo-me do refrão andar na boca de toda a gente. E recordo-me ainda, na ingenuidade dos meus seis anos, de achar estranho à expressão "força nas canetas", pois as únicas canetas que eu conhecia eram as de escrever e lá tiveram de me explicar que aquelas "canetas" que a canção falava eram na verdade as pernas. Gosto sobretudo da parte do solo de Dany Silva, que canta o refrão a dar uma no trovador africano e outra no soul singer.
A partir do Europeu e 1996, e à parte o Mundial de 1998, a presença de Portugal em Europeus e Mundiais de futebol tornou-se constante e a cada ocasião, foi-se acalentando o sonho de que seria possível Portugal ganhar uma grande competição, algo que finalmente se cumpriu em 2016, não sem muitas frustrações pelo caminho, em especial em 2004, na final do "nosso" Euro. Pelo que ainda parece tão inacreditável que finalmente milhões de portugueses viram Portugal a levantar o caneco.
Ao longo destes anos, houve algumas canções de apoio à Selecção a cada grande competição, mas nenhuma delas - à excepção da já referida "Força" que apesar das orgulhosamente exibidas raízes lusitanas de Nelly Furtado, não deixava de ser de origem importada - chegou perto da popularidade e genialidade do "Bamos Lá Cambada". Tal continua a ser sucesso que ainda hoje há miúdos que conhecem a canção, para não falar que faz parte da banda sonora da telenovela "Coração D'Ouro", actualmente em exibição na SIC. E como não podia deixar de ser, é essencial no repertório dos espectáculos com que, de há uns anos para cá, Herman José tem percorrido o país a actuar.
Herman José a cantar com Alexandra no programa "Dá-me Música" (2009)
Anúncio ao Passatempo Sugus de 1985. As explicações de participação e prémios do passatempo são relegados para o número seguinte da revista, que infelizmente não consegui encontrar.
Publicidade retirada da revista Heróis Disney Nº 17, de 1985.
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Hoje em dia é corrente dizer que existem demasiadas telenovelas na programação dos canais nacionais generalistas. Mas já nos anos 90, havia uma abundância de telenovelas, se bem que a oferta então era um pouco mais variada, quanto mais não fosse no que dizia respeito aos países de proveniência.
As telenovelas brasileiras continuavam a reinar supremas, pois para além daquelas da imperiosa Rede Globo, várias telenovelas de outras estações brasileiras foram exibidas, algumas até com assinalável sucesso por cá como "Pantanal" e "Xica Da Silva" da extinta Rede Manchete. Além disso, depois de cinco telenovelas portuguesas exibidas na RTP nos anos 80, a produção nacional entrou em expansão com a NBP (actual Plural) a produzir ininterruptamente telenovelas para a RTP, começando com "Cinzas" em 1992, seguindo-se outros títulos ao longo da década como "Desencontros", "Na Paz Dos Anjos", "Roseira Brava" ou "Terra Mãe".
E depois havia as telenovelas latino-americanas, made in México e Venezuela, dobradas em português do Brasil, que ao longo dos anos 90 foram presença habitual nos canais nacionais, sobretudo para o período da tarde. Mas ao contrário do que se possa pensar, este produto não era uma completa novidade em Portugal: sabiam que a primeira telenovela não brasileira exibida por cá foi o folhetim venezuelano "Doña Bárbara" nos idos de 1979?
Era habitual dizer-se mal destas telenovelas e apontar todos os seus factores risíveis: as tramas regadas de clichés (geralmente, a história girava à volta do amor proibido entre uma rapariga pobre e um rapaz rico), o overacting dos actores que ficava ainda mais extrapolado na dobragem, a falta de sincronia entre as vozes da dobragem e os movimentos das bocas dos actores, a pirosice dos figurinos e dos cenários e o excesso de dramatismo. Por algum motivo existe no Brasil a expressão "mais triste que novela mexicana." Ainda assim, estas telenovelas tiveram o seu público fiel e algumas delas alcançaram muito bons resultados de audiência e de share para os respectivos horários. Podia-se dizer que eram casos de algo tão mau que dava a volta e ficava interessante. Ou então havia aqueles que, como eu quando muito esporadicamente via alguns episódios, abordavam este produto com uma dose de humor.
A RTP, após a perda dos direitos de transmissão da Globo para a SIC, e a TVI pré-Big Brother foram as principais freguesas destas produções, com a primeira a optar sobretudo pela vertente mexicana e a segunda pela venezuelana. Mas até a SIC, apesar do seu bastião das telenovelas da Globo, também não resistiu ao apelo e chegou a transmitir duas telenovelas venezuelanas: "Mulher Proibida" e "Por Amar-te Tanto".
Já aqui falei da mítica telenovela infantil mexicana "Carrossel" e agora pretendo falar mais em pormenor de outras seis telenovelas latino-americanas que passaram por cá nos anos 90, três mexicanas e três venezuelanas. Não se trata de um top 6 pois só acompanhei com regularidade uma delas, mas creio serem estas as seis mais marcantes. Antes disso, importa mencionar outros títulos como "Prisioneira do Amor", uma das preferidas da minha avó, "Laços De Amor" (no original "Agujetas de Color de Rosa") com um deliciosamente açucarado tema pop no genérico e "Azul", que teve a particularidade de ser a única telenovela mexicana dobrada em português de Portugal, protagonizada por Kate Del Castillo, a actriz que recentemente fez notícia pelas suas aproximações ao barão da droga El Chapo.
"Morena Clara" (Venevisión, 1993)
É por demais sabido que, mais do que telenovelas, a Venezuela é especialista em produzir Misses. Já há várias décadas que este país se especializou em captar e "realçar" as beldades da nação para depois elas arrasarem nos concurso de beleza internacionais, sobretudo Miss Universo e Miss Mundo. Por isso, não é de estranhar que muitas dessas Misses se tenham tornado depois estrelas da teledramturgia venezuelana. Foi o caso de Astrid Carolina Herrera, coroada Miss Mundo em 1984 e protagonista de "Morena Clara", exibida na TVI em 1995.
Astrid Herrera na sua coroação como Miss Mundo em 1984
Astrid era Clara Rosa Guzmán, uma jovem renegada pelo pai, Emiliano Andara, um rico fazendeiro e abandonada pela mãe à nascença. Clara foi criada pela sua tia e cresceu numa favela de Caracas, ganhando a vida como vendedora ambulante. Durante uma revolta nas ruas da capital venezuelana, Clara conhece Valentín (Luis José Santander), um jovem advogado com aspirações políticas, e os dois apaixonam-se. O problema é que Valentín está casado com a pérfida Linda Prado (Gabriela Spanic), filha de Lisandro Prado (Henry Galue), o principal opositor político de Emiliano e os dois prometem fazer vida negra ao parzinho. Clara Rosa terá de lutar tanto pela felicidade junto de Valentín como para que Emiliano a reconheça como filha. Pelo meio, há uma sub-trama de corrupção política e lavagem de dinheiro.
"O Avô E Eu" ("El Abuelo Y Yo", Televisa, 1992)
"O Avô E Eu" foi uma telenovela infantil mexicana que se centrava na amizade entre Alejandra, uma menina rica e sonhadora, e Daniel, um menino de rua que tem por única companhia o seu cão Anselmo. Alejandra era a actriz polaco-mexicana Ludwika Paleta, a inesquecível Maria Joaquina de "Carrossel", Daniel era um muito jovem Gael Garcia Bernal, longe de se imaginar uma estrela de Hollywood. O outro protagonista da telenovela é Joaquín Rivera (Jorge Martinez de Hoyos), um velhote solitário e rezingão mas que se deixa afeiçoar por Daniel, a quem este chama de Avô. E de facto, vem-se a descobrir depois que eles são mesmo avô e neto.
Do elenco fazia parte ainda num papel secundário o actor Diego Luna com quem Bernal dividiu o protagonismo no filme "E A Tua Mãe Também", o filme que os revelou internacionalmente.
"Estrela" ("Cara Sucia", Venevisión, 1992)
Mais uma variação da história da rapariga pobre (que afinal vai-se a ver é filha de um homem rico) que se apaixona por um rapaz rico. Estrella (Sonya Smith) é uma jovem que vive na pobreza, vendendo jornais para sobreviver. Por causa disso, tem a alcunha de "Cara Suja". Estrella conhece e apaixona-se por Miguel Angel (Guillermo Davila), sem saber que este é filho de Horácio Almada (Humberto Garcia), o homem que matou a mãe de Estrela e incriminou o seu pai, usurpando a sua fortuna e os seus negócios. Como não podia deixar de ser, até que Estrella e Miguel Angel fiquem juntos no final vão ter que passar por imensos martírios, não só por causa de Horacio mas também de Santa (Gigi Zanchetta), a obcecada ex-namorada de Miguel Angel.
Exibida na TVI em 1994, "Estrela" chegou a ser na altura o programa mais visto da estação de Queluz de Baixo, ao ponto de não só ser exibida de segunda a sexta-feira como ter ao sábado um compacto dos cinco episódios da semana. A actriz americano-venezuelana Sonya Smith, que tinha aqui o seu primeiro papel de protagonista, foi tão carismática, que após o fim de "Estrela", a TVI exibiu outra telenovela protagonizada por Smith, "O Preço Da Paixão" ("Maria Celeste", 1994). Actualmente Smith entra em telenovelas produzidas nos Estados Unidos para o mercado latino-americano, como uma adaptação da telenovela brasileira "Fina Estampa". "Estrela" foi também a primeira telenovela latina a passar na Mongólia.
Foram muito poucas as telenovelas mexicanas de época que passaram em Portugal, nomeadamente este "Coração Selvagem". O protagonista era Juan Del Diablo (Eduardo Palomo), o filho ilegítimo de um rico fazendeiro que se torna pirata e envolve-se num quadrado amoroso em que os outros vértices são o seu meio-irmão Andrés (Ariel Lopez Padilla) e duas belas irmãs condessas, a doce e angelical Mónica (Edith Gonzalez) e a sensual e perversa Aimée (Ana Colchero). Além das intrigas entre a nobreza e o mundo dos piratas, a trama vivia sobretudo dos amores cruzados entre os quatro.
RIP Edith Gonzalez (1964-2019) e Eduardo Palomo (1962-2003)
Tida no México como uma das mais populares telenovelas de sempre, "Coração Selvagem" também conquistou algum público em Portugal, em grande parte devido ao carisma e ar de bad boy do protagonista Eduardo Palomo, infelizmente falecido em 2003 por ataque cardíaco. (Não sei se o Jack Sparrow ganharia a Juan Del Diablo numa luta mano-a-mano.) Salma Hayek foi uma das actrizes equacionadas para o papel de Mónica, tendo chegado a fazer testes de guarda-roupa antes da escolha final de Edith Gonzalez.
"Kassandra" (RCTV, 1992)
Esta é a telenovela venezuelana mais vendida de sempre, tendo sido exibida em 186 países. No YouTube é possível, por exemplo, encontrar excertos da telenovela com legendas em croata e dobragens em árabe.
Conforme o título indica, a protagonista é Kassandra (Coraima Torres), uma jovem que cresceu num circo cigano. Mas na verdade, ela não é realmente cigana e é neta de Alfonso Aroncha (Raúl Xiques), um rico fazendeiro, trocada à nascença por Herminia (Nury Flores), a segunda mulher deste.
Anos mais tarde, o circo volta à região, e Kassandra, apesar de prometida em casamento desde criança a Randu (Henry Soto), o líder da tribo cigana, tem um encontro romântico com Luís David (Osvaldo Rios), um dos filhos gémeos de Herminia. Algum tempo depois, Ignacio, o outro gémeo, descobre que Kassandra é a herdeira da fortuna do padrasto, e como tal afirma à jovem que foi com ele que ela teve o romance e convence-a casar-se com ele.
"Kassandra" foi protaginzada pela venezuelana Coraima Torres e pelo porto-riquenho Osvaldo Rios
Pouco após o casamento, Ignacio é assassinado. Ao saber disso, Luís David faz-se passar pelo irmão para descobrir quem o matou e embora suspeite fortemente de Kassandra, as memórias do romance entre ambos persistem. A verdadeira assassina é Rosaura (Loly Sanchez), a criada dos Aroncha, com quem Ignacio teve uma relação secreta.
"Kassandra" passou duas vezes na TVI. Eu vi alguns episódios da reposição no Verão de 1997, quando passava férias na Praia de Vieira, e algumas cenas eram tão hilariantes de tão absurdas, como aquela em que Kassandra descobre a arma que matou Ignacio e faz tudo o que qualquer pessoa inteligente faria que é passar as mãos por toda a pistola e deixar lá as impressões digitais. O facto da actriz Coraima Torres, apesar de muito bonita, ter o carisma de uma ostra não ajudava.
Mas giro, giro era o tema do genérico onde alguém troava o nome da personagem-título num canto cigano bem trinado: "Kassaaaaaaaaaandra!"
"Marimar" (Televisa, 1994)
Admito, eu vi esta telenovela mexicana, que deu na RTP em 1996, na qual Portugal conheceu pela primeira vez a cantora e actriz Thalía, hoje uma das maiores estrelas da música latino-americana (é daquelas estrelas que nem precisam de apelido). A história era mais uma vez a do amor entre uma rapariga pobre e um rapaz rico. Marimar vive com as avós numa cabana de uma pequena vila costeira mexicana e apaixona-se por Sergio Santibañez (Eduardo Capetillo), filho do homem mais rico da vila que sonha em ser futebolista. Os dois casam-se mas Angélica (Chantal Andere), madrasta do rapaz, não se conforma em ter uma nora pobretanas e congemina uma série de planos para acabar com a união. Acusa Marimar do roubo de uma pulseira (não sem antes obrigá-la a retirar a pulseira de uma poça de lama com os dentes), manda incendiar a cabana onde os avós da jovem acabam por morrer e forja a letra do enteado para escrever uma carta onde diz que Sergio nunca a amou.
Transtornada por todos estes acontecimentos, Marimar muda-se para a Cidade do México, onde é acolhida por Gustavo Aldama (Miguel Palmer), um homem rico que vem-se a saber é o seu pai biológico. Transformada numa mulher chique e elegante sob o nome de Bella Aldama, a rapariga planeia a sua vingança contra os Santibañez, embora no fundo continue apaixonada por Sergio.
Assim de repente, parece a típica trama dramática de telenovela mexicana, mas "Marimar" valia pelo desempenho de Thalía que enchia o ecrã com a sua frescura e carisma, tanto na fase pobre como na fase chique, além de ter muita química com Eduardo Capetillo, um galã da escola Tony Ramos, ostentando o seu peito super-peludo.
Mas o que eu adorava nesta telenovela era o facto de ter um cão falante. Ou melhor, Pulguento, o cão de Marimar, que falava em voz-off, como dá para ver no início desta cena.
A RTP exibiu posteriormente outras duas telenovelas protagonizadas por Thalía: "Maria do Bairro" (em que uma cena trágico-histérico-dramática tornou-se um vídeo viral nos Estados Unidos há uns anos) e "Rosalinda". Porém desde 2000, ano em que casou com Tommy Motolla, patrão da Sony Music e ex-marido de Mariah Carey, que Thalía dedica-se quase exclusivamente à música.
A Enciclopédia de Cromos tem o prazer de apresentar um novo convidado especial - Pedro Marta - que quis partilhar com os leitores as suas memórias da série da SIC encabeçada por Camilo de Oliveira e Nuno Melo: "Camilo & Filho Lda." exibida entre 1995 e 1996. Vou então passar a palavra ao Pedro Marta:
No ano em que a SIC ultrapassou a RTP nas audiências, o popular ator Camilo de Oliveira foi uma das grandes 'contratações' do canal para a área do humor, juntando-se a Guilherme Leite que assinava o estrondoso sucesso "Os Malucos do Riso". A primeira série de Camilo na SIC chamava-se "Camilo & Filho Lda." e consistia nas peripécias entre um pai (Camilo Chumbinho) e um filho (Alberto Chumbinho, interpretado por Nuno Melo), que viviam numa casa com poucas condições e que geriam um negócio de sucata.
Adaptada do original inglês "Steptoe and Son" e considerada uma das séries de maior audiência, "Camilo & Filho Lda." estreou a 10 de outubro de 1995 e teve apenas uma temporada de vinte e seis episódios. Para além dos dois protagonistas, que segundo os rumores se detestavam, contou com a participação especial de artistas consagrados como Alberto Villar, Alina Vaz, Manuela Cassola, Rui Mendes, Henrique Viana, Carlos César ou Artur Agostinho. Para além destes, Camilo de Oliveira trabalhou com a sua atual companheira, Paula Marcelo, que no segundo episódio ("A Cama"), dava vida a uma das 'namoradas' de Alberto Chumbinho.
A série terminou a 3 de maio de 1996, quase um mês depois de ter sido eleito o melhor programa de ficção e comédia na primeira edição dos "Globos de Ouro", apresentada por Catarina Furtado, João Baião e Ana Malhoa. Em 2003, o formato foi reposto em horário nobre, conquistando audiências semelhantes às de 1995 (cerca de 26% de rating), o que deixou Camilo bastante satisfeito: "Tudo isto se deve ao profissionalismo de uma equipa – liderada pelo produtor e realizador Jorge Marecos, que considero um irmão – que servia o programa e não o contrário", disse, na altura, ao Correio da Manhã.
Com uma grande dose de disposição e gargalhadas, "Camilo & Filho Lda." é intemporal: "A vida está difícil!", dizia Camilo, no final de cada episódio, sendo um dos seus célebres bordões.
Acrescento ao texto do Pedro Marta o vídeo do primeiro episódio, disponível no Youtube, tal como o resto da série:
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Já tiveram aquela sensação de algo que aconteceu quando eram mesmo muito pequenos e que quando cresceram, ficam na dúvida se aquilo ocorreu mesmo? Foi o caso deste programa que passou na RTP em 1984 e que me recordo de ter sido um grande acontecimento, quanto mais não fosse por ter tanta gente conhecida, mas que nos anos seguintes, pareceu cair no esquecimento e pouco ou nada se falou dele desde então. Foi preciso a Caderneta de Cromos (what else?) do Nuno Markl falar de "Abbacadabra" para eu confirmar que esse programa não foi fruto da minha imaginação. Eu tinha quatro anos na altura, e apesar de não recordar de grande coisa nem ainda reconhecer a música dos ABBA, nunca tinha esquecido do programa pelo simples facto de juntar duas coisas que eu já sabia identificar: gente que aparecia na televisão e personagens dos contos infantis.
Mas vamos a factos. "Mamma Mia" não foi o primeiro musical construído a partir da música dos ABBA. Em 1983, quando o lendário quarteto sueco tinha acabado de terminar, os irmãos franceses Alain e Daniel Boublil conceberam um espectáculo musical para televisão que adaptava algumas das músicas dos ABBA a uma história que envolvia várias personagens dos contos de fadas. Vários nomes da música francófona participaram como Daniel Balavoine (tragicamente falecido num acidente durante o Rally Paris-Dakar de 1986) e o belga Plastic Bertrand, o cantor de "Ça Plane Pour Moi", isto para além de uma participação especial da própria Anni-Frid Lyngstad dos ABBA. Tanto o programa de televisão como o disco fizeram tal sucesso em França que outros países não tardaram a fazer a sua própria adaptação. A versão britânica foi feita no teatro londrino ainda em 1983 e contava com a participação da diva do West End, Elaine Page. Além de Portugal, a Holanda também teve a sua própria versão em 1985.
A versão portuguesa esteve a cargo de Nuno Gomes dos Santos que também acumulou o papel de Pinóquio e das vozes de um dos Irmãos Metralha. A história era semelhante à da versão francesa, com apenas ligeiras alterações e utilizava as mesmas doze canções dos ABBA que o original francês.
Quatro crianças - João (João Cabeleira), Pedro (Pedro Cabeleira) e as gémeas (Ana e Joana) - são mandadas para o quarto de castigo, aparentemente por algo sem motivo (daí que a primeira canção se chame "Que Mal Fizemos Nós"). Uma dessas crianças, o João, sonha que as personagens dos contos infantis - Branca De Neve, Cinderela, Alice do País das Maravilhas, Pinóquio, Aladino, o Soldadinho de Chumbo e o Príncipe - vêm ter com eles para ajudar-lhes numa grande missão: derrotar a Rainha Má e os Irmãos Metralha. Mas não vai ser nada fácil, já que a Rainha Má tem um terrível computador, o PBX, que os vai capturando dentro de videocassetes. Mas claro que tudo acaba em bem.
Eis aqueles que participaram no disco, que então faziam parte da editora Orfeu: Fernando Correia Marques, na altura conhecido apenas como Fernando, vindo do hit pouco politicamente correcto "Carlitos", fez de Aladino (quiçá por ter ameaçar o tal Carlitos com uma "lamparina"); Suzy Paula, como o ídolo infantil que era na altura, não podia faltar num projecto assim e fez de Alice; Maria João - sim, a cantora de jazz - foi a voz da Branca de Neve; a locutora da RTP Helena Ramos, que nunca foi moça para recusar uma ocasional incursão na representação ou nas cantigas, era a Cinderela; o ex-cantor de intervenção Samuel era o Soldadinho; o papel da Rainha Má foi para a fadista Lenita Gentil; e António Manuel Ribeiro dos UHF era o Príncipe. José Nuno Martins fazia voz do locutor. Além de Nuno Gomes dos Santos, Zé da Ponte e Luís de Freitas eram as vozes dos Irmãos Metralhas e o coro dos Cravos na canção da Cinderela e do Soldadinho, sendo que na dita cuja, havia também o coro das Rosas constituído por Isabel Campelo, Inês Martins, Teresa Marta, Vanda e Ana Carvalho. Na última canção, Samuel e Lenita Gentil faziam também de dois professores.
Fernando Correia Marques como Aladino
Suzy Paula como Alice
Helena Ramos como Cinderela
António Manuel Ribeiro como o Príncipezinho
Lenita Gentil como a Rainha Má
Samuel como o Soldadinho
"Abbacadabra" foi filmado em Sintra, no Palácio da Pena, no Parque da Pena e no Colégio de São José. Na versão televisiva, a actriz Rosa Pelicano foi a Branca de Neve, fazendo playback da voz de Maria João e dava para ver bem que quem estava a fazer de Irmãos Metralha não eram os donos das vozes mas sim três bailarinos não identificados (aliás, um deles era seguramente uma Irmã Metralha). A realização esteve a cargo de João Serradas Duarte. O programa foi exibido pela RTP no dia de Natal de 1984.
Este era o alinhamento:
Que Mal Fizemos Nós (When I Kissed The Teacher) O Sonho do João (The Visitors) Abbacadabra (Take A Chance On Me) O Nariz do Pinóquio (Money Money Money) Aladino Fanfarrão (Supertrooper) Branca De Neve e o Espelho (I Wonder Departure) Rainha Má Superstar (Dancing Queen) Cinderela e o Soldadinho (I Let The Music Speak) Os Amigos (Fernando) Larguem A Cassete (I'm A Marionette) Branca De Neve e o Principezinho (Arrival) Não Basta Ralhar (Thank You For The Music)
A Caderneta de Cromos desenterrou "Abbacadabra" dos recantos das memórias de gente como eu, que nunca se tinha esquecido disso mas ainda faltava uma prova material em imagens do que tinha sido esse especial de televisão. E em pouco tempo, consegui duas recolhas. Primeiro, na rubrica "Retroescavadora" de Fernando Alvim na RTP Memória e a seguir, uma versão completa de "Abbacadabra" no YouTube, cortesia de um utilizador francês. (Merci beaucoup, Philippe Benabes!) Vejam só:
Não admira que eu tenha pensado durante anos a fio que eu tinha pensado que isto tinha sido fruto da minha imaginação, já que o conteúdo é tão alucinante e bizarro, mas também muito divertido. Desde António Manuel Ribeiro vestido de príncipe medieval com collants e boina com penacho a cantar o "Fernando" e Maria João e Suzy Paula a atirarem-se a "Take A Chance On Me", até Samuel e Helena Ramos num dueto romântico e Fernando Correia Marques numa versão de "Supertrooper" com pretensos arranjos medio-orientais, para já não falar do ponto alto que é ver e ouvir Lenita Gentil no papel de Rainha Má num versão de "Dancing Queen". Ou então a cena do confronto final, com a Rainha Má e os Irmãos Metralha (como é que a Disney nunca pensou numa história crossover de universos assim?) a cantarem "Larguem a cassete, temos um cacete". E o grande final ao som de uma versão de "Thank You For The Music" com imagens de crianças a brincar. (Mas não haveria um título melhor do que "Não Basta Ralhar".
O programa especial com cerca de 50 minutos, hoje parece muito rudimentar, mas para o Portugal de 1984, onde tudo andava a dez à hora, "Abbacadabra" teve sem dúvida as honras de uma superprodução da RTP. Digam lá que o disco não merecia uma reedição ou até um remake com artistas portugueses da actualidade?
O blogue "Fruta e Verdura" também disponibilizou as folhas com as letras das canções e os diálogos que também estão no disco.