O Festival da Eurovisão deste ano já lá vai, mas por aqui vamos recuar vinte e anos e recordar a edição de 1996. O 41.º Festival da Eurovisão teve lugar a 18 de Maio de 1996 no Spektrum de Oslo na Noruega. Esta era portanto a segunda vez que a Noruega organizava o certame após a edição de 1986 em Bergen. Os apresentadores foram Ingvild Bryn e Morten Harket, o vocalista dos famosíssimos A-Ha, que na altura tinha lançado um álbum a solo. Aliás Harket cantou um dos temas desse disco no início do espectáculo.
Por esta altura, o Festival da Eurovisão já tinha aberto as portas ao países da Europa de Leste, o que causou o problema de um número excedente de países candidatos para um limitado número de vagas e era sempre complicado determinar quais eram os países que ficavam de fora, só podendo voltar a marcar presença no evento dois anos depois. Em 1996, a solução encontrada foi a de uma pré-eliminatória com 29 países, para determinar os 22 que se juntariam à anfitriã Noruega no Festival propriamente dito. Um júri de cada país ouviu gravações audio de todas as canções e pontuou conforme o habitual sistema da Eurovisão. Os sete países eliminados foram Alemanha, Dinamarca, Hungria, Israel, Macedónia, Roménia e Rússia. A eliminação da Alemanha foi a mais controversa pois não só era/é um dos países que mais contribui financeiramente para a EBU como a sua canção, o tema techno "Planet Of Blue", era semelhante à do Reino Unido que se apurou confortavelmente. Particularmente infelizes foram também os afastamentos da Hungria que teve os mesmos pontos da Finlândia e eliminada apenas no desempate e da Macedónia que pretendia estrear-se no Festival nesse ano, algo que só aconteceu em 1998. Curiosamente, o tema da Macedónia era interpretado por Kalliopi, a cantora que representou esta antiga república jugoslava este ano.
Os países concorrentes presentes no Festival da Eurovisão de 1996 foram portanto Áustria, Bélgica, Bósnia-Herzegovina, Chipre, Croácia, Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Estónia, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Irlanda, Islândia, Malta, Noruega, Polónia, Portugal, Reino Unido, Suécia, Suíça e Turquia. Antes da actuação de cada país, era exibida uma mensagem de boa sorte de uma figura política - embaixadores, ministros, secretários de Estado e até primeiros ministros e Presidentes da República - do respectivo país. No caso de Portugal, foi o então primeiro ministro António Guterres a desejar boa sorte à nossa Lúcia Moniz. Os comentários para a RTP estiveram a cargo de Maria Margarida Gaspar, com Cristina Rocha a divulgar os votos do júri português.
Outra inovação deste ano foi o facto da parte da votações ter sido realizada num cenário virtual em "bluescreen".
Como é hábito, analisaremos as canções por ordem inversa à da classificação:
Jasmine (Finlândia)
Amila Glamocak (Bósnia-Herzegovina)
Depois de ter passado résvés na pré-eliminatória, a Finlândia não conseguiu evitar mais um último lugar para a sua história, somando apenas 9 pontos. No entanto, acho que a canção finlandesa até nem era das piores. O tema "Niin kaunis on taivas" ("tão belo que é o céu") foi interpretado por Jasmine Valentin, que tinha raízes ciganas. No final da actuação, Jasmine atirou à assistência a rosa amarela que estava presa na sua guitarra.
Em 22.º lugar com 13 pontos ficou a Bósnia-Herzegovina que, apesar das dificuldades da guerra no país, já ia na quarta participação consecutiva no Festival. A Oslo levou a balada "Za nasu ljubav" ("pelo nosso amor") interpretada por Amila Glamocak, que tinha um look que fazia lembrar o da nossa Misia.
Regina (Eslovénia)
Antonio Carbonell (Espanha)
Um lugar acima com 16 pontos ficou (algo injustamente, digo eu) a Eslovénia. O tema "Dan najlpesih sanj" ("o dia do mais belo sonho") foi interpretado por Regina, nome artístico de Irena Jalsovec, que apresentou-se em palco com um vestido que revelava o seu estado de gravidez. Regina continua a ser uma das cantoras mais populares do seu país e tentou por diversas vezes voltar a representar a Eslovénia no Festival mas até agora sem sucesso.
Em 20.º lugar com mais um pontos ficou a Espanha, aquela que pessoalmente acho a mais fraca de todas as canções concorrentes (incluindo as eliminadas na pré-eliminatória). O tema "Ay que deseo!" foi escrito pelo conhecido grupo flamenco-pop Ketama mas a interpretação de Antonio Carbonell e sobretudo das cantoras do coro deixou muito a desejar. Não foi das escolhas mais felizes do nosso país vizinho.
L'Héritage des Celtes (França)
Marcel Palonder (Eslováquia)
A França optou por uma proposta étnica algo invulgar para a altura, com um tema cantado na língua bretã, "Diwanit Bugale" ("que as crianças floresçam") interpretado pelo colectivo L'Héritage Des Celtes, liderado por Dan Ar Braz, músico gaulês dedicado à música celta desde os anos 70. O colectivo, que incluía membros oriundos de França, Escócia e País de Gales, tinha conseguido algum sucesso com um disco de 1994. No Festival, obtiveram o 19.º lugar com 18 pontos.
Um lugar acima e com mais um ponto ficou a Eslováquia que participava pela segunda vez após a estreia em 1994. Marcel Palonder interpretou "Kým nás más" ("enquanto tiveres-nos a nós"), uma balada que evidenciava a musicalidade da língua eslovaca.
Kathy Leander (Suíça)
Lisa Del Bo (Bélgica)
Também pelo signo da balada se regeu a Suíça, com Kathy Leander, uma cantora que na altura repartia-se entre trabalhos como cantora e a profissão de bancária, a defender o tema "Mon coeur l'aime" ("o meu coração ama-o"), que ficou em 16.º lugar com 22 pontos. De referir que o director de orquestra da canção helvética era o português Rui Filipe Reis.
Os mesmos 22 pontos foram obtidos pela Bélgica que tinha uma das canções mais orelhudas, apesar de ser cantada em flamengo. Lisa Del Bo (de seu verdadeiro nome Renhilde Goosens) interpretou o tema "Liefde ist een kaarstpel" ("o amor é um jogo de cartas"). Dadas as semelhanças entre esta canção e a representante da Suécia no Festival de 2001, os autores da canção belga acusaram os da sueca de plágio. O processo foi resolvido com um acordo remuneratório entre ambas as partes.
Kasia Kowalska (Polónia)
Marianna Efstratiou (Grécia)
Na sua terceira participação, a Polónia ficou em 15.º lugar com 31 pontos. Kasia Kowalska interpretou a balada "Chce znac swój grzech" ("quero saber qual o meu pecado") mas infelizmente não esteve tão segura na actuação como na arrebatadora versão de estúdio. Ainda assim foi uma das minhas canções preferidas desta edição. Nos anos seguintes, Kasia Kowalska continuou a ser uma das cantoras mais bem-sucedidas do seu país. Em 1997, foi a voz de Esmeralda no filme da Disney "O Corcunda de Notre-Dame" e em 2001 ganhou o prémio MTV para melhor artista polaca.
Marianna Efstratiou voltou a representar a Grécia no Festival da Eurovisão em 1996, depois de já o ter feito em 1989. Mas se sete anos antes, ela se apresentara morena de cabelo curto, nesse ano surgiu com uma longa melena loura para cantar "Emeis forame to himona anixiatika" ("vestimos roupas de primavera no inverno"). Além de dois cantores de coro, durante a actuação também esteve em palco um bailarino de camisa transparente que por vezes interagia com Marianna, que no entanto parecia dar-lhe pouca atenção. A Grécia ficou em 14.º lugar com 36 pontos.
Anna Mjoll (Islândia)
Sebnem Paker (Turquia)
Anna Mjöll Oláfsdóttir foi a representante da Islândia, que obteve o 13.º lugar com 51 anos. O tema "Sjúbidu" (que é como quem diz "shoo-bee-doo") foi escrito por Anna e seu pai, um pianista de jazz, e na letra eram mencionados nomes como Louis Armstrong, Billie Holliday, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald, Frank Siniatra, Sammy Davis Jr, Elvis Presley e Dizzy Gillespie. Além de uma carreira no jazz, Anna Mjöll foi durante três anos cantora de coro nos concertos de Julio Iglesias.
A Turquia foi o primeiro país a actuar com a canção "Besinçi Mevsim" ("a quinta estação") interpretada por Sebnem Paker, que ficou em 12.º lugar com 57 pontos. Sebnem Paker voltaria a representar o seu país no Festival do ano seguinte com bem mais sucesso. Mas apesar do seu sucesso na música na altura, Sebnem acabaria por trocar as cantorias pelo ensino, sendo actualmente professora do ensino secundário.
Miriam-Christine (Malta)
George Nussbaumer (Áustria)
Malta e Áustria repartiram o 10.º lugar com 68 pontos. Miriam Christine Borg, nascida no Brasil e adoptada por malteses da ilha de Gozo, então com 17 anos, foi a representante maltesa, defendendo o tema "In a woman's heart". Entre as vozes do coro estava Georgina Abela, que representara o país em 1991. A participação de Miriam Christine no Festival serviu para iniciar uma bem-sucedida carreira no seu país que se prolonga até hoje. Tal como a participante eslovena, também Miriam tentou por várias vezes regressar ao Festival mas por enquanto esta continua a ser a sua única participação no certame.
A Áustria levou um tema gospel "Weil's dr guat got" ("porque te sentes bem"), cantado no dialecto da região de Voralberg. Região essa de onde era originário o intérprete George Nussbaumer, que era invisual de nascença. (Até então o único outro cantor invisual a participar no Festival tinha sido o espanhol Serafin Zubiri em 1992). O tema e a interpretação de Nussbaumer faziam lembrar o repertório de Ray Charles.
Constantinos (Chipre)
Gina G. (Reino Unido)
Chipre ficou em nono lugar com 72 pontos graças a uma balada, "Mono yia mas" ("só para nós") interpretada por Constantinos Christoforou, então com 19 anos. Constantinos tomou-lhe o gosto e viria a representar Chipre mais duas vezes, em 2002 com membro da boyband One e em 2005 novamente a solo. No Festival da Eurovisão de 2016, ele foi o porta-voz dos votos da Grécia.
Em oitavo lugar com 77 pontos ficou o Reino Unido, tido como o principal favorito. Era a primeira vez que um tema euro-dance competia no Festival, "Ooh...Ah...Just a little bit" interpretado pela australiana Gina G. que surgiu em palco num vestido mirrorball. O resultado ficou aquém das expectativas, apesar de Portugal ter dado 12 pontos. Ainda assim, o tema foi o mais bem-sucedido comercialmente, tendo chegado ao n.º 1 do top britânico e até alcançou algum sucesso nos Estados Unidos onde foi nomeado para um Grammy. Gina G. teve mais um punhado de singles no top britânico nos meses seguintes e em 2005 competiu na pré-selecção do Reino Unido para o Festival desse ano.
Maxine & Franklin Brown
Lúcia Moniz (Portugal)
A Holanda obteve o sétimo lugar com 78 pontos, com o dueto entre Maxine e Franklin Brown, nomes pelos quais eram conhecidos os cantores Goony Burmeester e Franklin Kroonenberg. O tema "De eerste keer" ("a primeira vez") soava um bocado demodé (não destoaria no Festival de 1986) mas era compensado pela boa disposição e profissionalismo dos dois intérpretes, apesar da grande diferença de alturas entre os dois.
E ei-nos chegado a Portugal que nesse ano conseguiu aquele que até hoje o nosso melhor resultado de sempre. (Que tristeza que em mais de 50 anos de participação nem sequer termos um top 5 para a mostra, mas pronto…) Confesso que queria gostar mais deste canção do que eu realmente gosto e que há várias canções portuguesas da Eurovisão de que gosto bem mais, mas reconheço-lhe o devido valor. "O meu coração não tem cor" tinha letra de José Fanha e música e orquestração do saudoso Pedro Osório e foi exemplarmente interpretado por Lúcia Moniz, na altura ainda com 19 anos e sem ainda adivinhar a sua extremamente bem-sucedida carreira tanto como cantora como actriz. A curiosa fusão entre o folclórico e o moderno e a seguríssima actuação em Oslo por parte não só de Lúcia (que também tocava cavaquinho) como também dos cantores do coro (Laura Ferreira, Fernanda Lopes, Telmo Miranda e Manuel Lourenço) acabou por convencer a Europa, que deu a Portugal um total de 92 pontos, incluindo doze pontos Chipre e Noruega. Nesse ano, surgiram também as primeiras experimentações de efeitos durante as actuações, que no caso de Portugal consistiram em converter o ecrã a preto e branco, sempre que Lúcia Moniz cantava "o meu coração não tem cor."
Maarija-Liis Ilus & Ivo Liina (Estónia)
Maja Blagdan (Croácia)
A Estónia estreou-se no certame de forma discreta em 1994, mas logo na sua segunda participação alcançou um excelente quinto lugar com o tema "Kaelakee hääl" ("o som de um colar") cantado em dueto por Maarja-Liis Ilus e Ivo Linna. Apesar da diferença de idades (ela tinha então 16 anos e ele 46), as vozes de ambos combinaram bem na balada romântica que obteve 94 pontos. Maarja voltou a representar o seu país no ano seguinte, mas desta vez a solo.
O quarto lugar (98 pontos) da Croácia foi algo surpreendente. até porque foi das canções que se apurou por pouco na pré-eliminatória, mas a interpretação de Maja Blagdan em "Sveta ljubav" ("amor sagrado"), que incluía notas impossivelmente agudas a la Mariah Carey causou impacto. Ainda hoje é o melhor resultado deste país, apenas igualado em 1999.
One More Time (Suécia)
A canção da Suécia, que foi a mais votada na pré-eliminatória, ficou em terceiro lugar com 100 pontos. O grupo One More Time interpretou o tema "Den Vilda" ("o selvagem"), uma primorosa balada de contornos étnicos e de fortes arranjos vocais. Um dos elementos de grupo, Peter Grönvall, é filho de Benny Andersson dos ABBA, fruto do primeiro casamento deste com Christina Grönvall, (antes da relação com Anni-Frid Lynstaad). A esposa de Peter, Nanne Grönvall, iniciou uma popular carreira a solo na Suécia após a dissolução do grupo em 1997.
Elisabeth Andreasen (Noruega)
Elisabeth "Bettan" Andreassen, a representante da Noruega, o país-anfitrião, era uma veterana nestas andanças eurovisivas, pois já ia na sua quarta participação, embora a primeira a solo. Em 1982, representou a Suécia como metade do duo Chips, em 1985 venceu pela Noruega integrando outro duo feminino, as Bobbysocks, e em 1994 esteve novamente pela Noruega em dueto com Jan Werner Danielsen. Nascida na Suécia e filha de pais noruegueses, Bettan possui dupla nacionalidade e sempre dividiu a carreira entre os dois países. Graças ao tema "I evighet" ("para a eternidade") e apesar de não ter tido quaisquer doze pontos, a Noruega conseguiu o segundo lugar e 114 pontos.
Eimear Quinn (Irlanda)
Mas pela quarta vez em cinco anos, a Irlanda acabaria por ser o país vencedor, alargando para sete o seu número de vitórias, o que ainda constitui um recorde. E para mim, esta terá sido a vitória mais merecida da Irlanda dos seus quatro triunfos dos anos 90. Com "The Voice", um tema com forte influência celta, e a voz angelical de Eimear Quinn, a Irlanda amealhou 162 pontos, vencendo de forma clara. Até então membro do grupo coral Anúna, esta canção marcou o início da carreira a solo de Quinn, que desde então tem actuado um pouco por todo o mundo.
Se hoje praticamente todos os países apostam em canções cantadas em inglês, não deixa de ser interessante recordar estes tempos onde o Festival da Eurovisão tinha canções em tantas línguas diferentes, ainda para mais nesta altura onde se descobria a musicalidade dos idiomas leste-europeus
Eimear Quinn com o troféu da vitória
Transmissão da RTP do Festival da Eurovisão 1996 (sem a parte da votações)
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Os anos 90 assistiram a uma revitalização do cinema europeu, com várias obras produzidas no Velho Continente a reunir grande aceitação do público, pois nem só de películas hollywoodescas vive o cinéfilo. No caso do cinema britânico, foi quase um renascer das cinzas depois de uma série de flops na segunda metade dos anos 80 ter ameaçado a indústria cinematográfica britânica.
E entre os títulos marcantes do cinema made in UK da década de 90 está sem dúvida "Trainspotting", que depressa ganhou o estatuto de filme culto, daqueles que marcou toda uma geração. Estreado no ano de 1996, o filme era realizado por Danny Boyle, adaptando o livro de 1993 de Irvine Welsh.
O filme narra as aventuras e desventuras de um grupo de toxicodependentes de Edimburgo no início dos anos 90: Mark Renton (Ewan McGregor) o narrador, o adorável imbecil Spud (Ewen Bremner), o vigarista Sick Boy (Jonny Lee Miller) e Begbie (Robert Carlyle) que não consome droga mas em compensação é um psicopata que adora brigar com quem se cruza no caminho. A eles também se junta Tommy (Kevin McKidd), o amigo desportista e certinho de Renton, que também cai na droga depois de ser deixado pela namorada. A personagem feminina com mais destaque é Diane (Kelly MacDonald), uma rapariga de 15 anos que seduz Renton numa saída à noite fazendo passar-se por mais velha e que depois chantageia-o com isso.
Entre desintoxicações e recaídas e uma série de acontecimentos trágicos - uma quase morte por overdose, a morte de uma bebé filha de Alison (Susan Vidler), uma toxicodependente amiga do grupo, e a infecção de Tommy com o vírus HIV - Renton decide deixar a Escócia e começar uma nova vida em Londres. Mas o passado apanha-o quando o resto do grupo ocupa o seu apartamento e força-o a alinhar na venda de uma grande quantidade de heroína. Só que no final, será Renton a rir por último.
Entre as cenas mais marcantes do filme, estão a do mergulho para a sanita da casa de banho mais nojenta da Escócia (na verdade aquele cocó era chocolate), a do ataque laxativo de Spud em casa de uma rapariga com quem passou a noite e a alucinação de Renton com a referida falecida bebé a trepar pelo tecto.
Com um humor negríssimo, uma excelente fotografia, uma realização acutilante de Boyle e sobretudo grandes interpretações de todo o elenco, "Trainspotting" conquistou público e crítica. O argumento, adaptado por John Hodge, ganhou o BAFTA de Melhor Argumento Adaptado e foi nomeado para o Óscar. O British Film Institute elegeu-o o 10.º melhor filme britânico de sempre e uma votação pública de 2004 como o melhor filme escocês de sempre.
Eu só vi "Trainspotting" em 2007. Tinha curiosidade para o ver desde a sua estreia, mas também tinha receio pois acho que o meu eu de 16 anos ficaria demasiado impressionado. Por isso foi o meu eu de 27 anos que viu "Trainspotting" e soube apreciá-lo melhor. Gostei sobretudo do facto como à superfície parece fazer a apologia da droga já que as personagens referem frequentemente a forte sensação do "high" que a heroína provoca ("pensem no melhor orgasmo que já tiveram, multipliquem por vinte e ainda estarão a milhas do que é") e pelo facto do filme não julgar as personagens por consumirem droga por si só mas sim por outros actos que cometem (tráfico, roubos, violência, negligência), mas acaba no fundo por ser bastante anti-droga, deixando transparecer subtilmente toda a degradação e destruição que provoca em quem consome. Além da droga, o filme também foca a exploração da pobreza urbana na Escócia.
"Trainspotting" acabou por catapultar o realizador e os actores, então praticamente desconhecidos, para outros níveis. Quando Ewan McGregor deu por si, já tinha Hollywood a seus pés. Danny Boyle passou a ser realizador de topo conquistando a glória máxima com "Quem Quer Ser Bilionário". Robert Carlyle protagonizou outro inesperado sucesso britânico dos anos 90, "Ou Tudo Ou Nada", e foi o vilão em "007-O Mundo Não Chega". Ewen Bremner foi visto em "Sntach - Porcos & Diamantes", "Black Hawk Down", "Pearl Harbour" e "Alien vs. Predador". Kevin McKidd é agora conhecido como Dr. Owen Hunt de "Anatomia de Grey". Jonny Lee Miller entrou em filmes como "Dracula 2000" e "Aeon Flux", deu cartas na televisão em "Eli Stone" e "Elementar" e foi o primeiro a quem Angelina Jolie chamou de marido. Kelly MacDonald que se estreava em cinema neste filme entrou em filmes como "Elizabeth", "Godsford Park", "À Procura da Terra do Nunca", "Este País Não É Para Velhos" e no tomo final da saga Harry Potter, além de ter sido a voz original da Princesa Merida no filme "Brave".
Outro aspecto em que "Trainspotting" venceu foi na banda sonora, que produziu dois discos campeões de vendas, que incluíam temas de Blur, New Order, Brian Eno, Primal Scream, Lou Reed, Elastica e Joy Division. Mas as duas canções mais marcantes da banda sonora de "Trainspotting" foram sem dúvida aquelas que respectivamente abrem e fecham o filme: o trepidante "Lust For Life" de Iggy Pop, um original de 1977 composto em parceria com David Bowie, que o filme apresentou a uma nova geração e que toca enquanto Renton diz o seu famoso monólogo "Choose Life"; e "Born Slippy" dos Underworld que se tornaria um dos êxitos das pistas de dança do verão de 1996 e que pôs muita gente a gritar a plenos pulmões "lager lager lager" ou "mega mega white thing".
Trailer:
Iggy Pop "Lust For Life"
Underworld "Born Slippy.NUXX"
A sequela de "Trainspotting" encontra-se actualmente em rodagem e tem estreia para Janeiro de 2017.
Publicidade retirada da revista Almanaque do Patinhas Nº 6, de 1980. Uploader original desconhecido. Imagem Editada por Enciclopédia de Cromos.
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Os dias chuvosos deste mês de Maio fizeram-me recordar a série "Chuva De Maio", exibida na RTP em seis episódios entre Abril e Junho de 1990. Foi um daqueles programas do tempo do monopólio da RTP que eu nunca esqueci, quiçá pelo facto de tentar aliar o drama telenovelesco aos números musicais, algo relativamente inédito na altura e porque desde sempre tive esta fantasia de soltar o Gene Kelly que há em mim e começar a cantar e a dançar num sítio qualquer e todas as pessoas à minha volta também juntam-se para o número. A série também tinha a particularidade de ter um elenco que juntava actores conhecidos a nomes fora do mundo da representação, como era o caso dos protagonistas, o fadista António Pinto Basto e a bailarina Sandra Nobre.
Rodrigo (António Pinto Basto) e Mariana (Sandra Nobre)
A série era da autoria do bailarino e coreógrafo Zé Arantes, escrita em parceria com Rosa Lobato Faria a partir de uma ideia de Thilo Krassmann. A história podia ser a de uma típica telenovela não fosse o facto em vários momentos, as personagens desatassem a cantar e a dançar.
Sara (Sofia Brito)
Joana (Ana Luís)
Teresa (Carmen Dolores)
Rodrigo Freitas (António Pinto Basto) é um decorador de interiores numa fase muito complicada: está desempregado, sente-se culpado pela morte da sua esposa Marta (Maria João Lucas) num acidente de automóvel há um ano, e Sara (Sofia Brito), a sua filha de dez anos, tornou-se uma fedelha insuportável e revoltada desde a morte da mãe. A gota de água surge quando Sara maltrata Joana (Ana Luís), uma bailarina com quem Rodrigo tem saído. Desesperado e com o apoio do seu amigo Fernando (Norberto de Sousa), Rodrigo leva Sara para passar uns tempos a casa da sua mãe Teresa (Carmen Dolores), na esperança que a paciência e a sabedoria ajudem a arrefecer o temperamento da neta.
João (Curado Ribeiro)
Malu (Laura Soveral)
Miguel (João Baião)
Mariana Mendes Sobral (Sandra Nobre) vive numa herdade no Alentejo, com os pais João (Curado Ribeiro) e Malú (Laura Soveral) e os seus quatro irmãos: Eduardo (Alfredo Azinheira), Miguel (João Baião) e dois gémeos (André e Eduardo Parente). Cansada da autoridade excessiva do pai, Mariana resolve fugir de casa a meio da noite rumo a Lisboa. Mas pelo caminho, sofre um acidente do qual Rodrigo é testemunha.
Mariazinha (Margarida Carpinteiro)
Naná (Teresa Miguel)
Mariana e Rodrigo não demoram a apaixonar-se um pelo outro. Quando João descobre através de um detective (Carlos Santos) sobre o romance dos dois, contrata Naná (Teresa Miguel), uma antiga amante sua que é cantora de cabaret, para seduzir Rodrigo e afastá-lo de Mariana. Tal acaba por acontecer, mas ao saber que Mariana é filha de João, Naná revela tudo a Rodrigo. Enquanto isso, Mariana muda-se para casa da sua tia Mariazinha (Margarida Carpinteiro), uma mulher excêntrica, com vários amigos do meio artístico com os quais Mariana simpatiza imediatamente, em especial Luís Filipe (Zé Arantes).
Entretanto, Miguel também revolta-se contra o pai e vai para Lisboa, arranjando emprego como assistente de Rodrigo num projecto de renovação de um hotel e acabando por se apaixonar por Joana.
No final, tudo acaba bem. Mariana e Rodrigo fazem as pazes e marcam casamento. Após um percalço, Sara aceita Mariana. Durante o casamento, João aparece dando a bênção à filha e ao genro. E no fim, todos dançam sob a chuva de Maio que abençoa a boda.
Ao rever "Chuva De Maio" na RTP Memória, confirmei a sensação que tinha tido ao longo de estes anos sobre a serie: que em teoria era uma ideia interessante mas que na prática foi um resultado medíocre. Não só o argumento era fraquinho como as interpretações eram demasiado básicas, até as dos nomes mais credenciados como Curado Ribeiro e Margarida Carpinteiro. Embora na altura António Pinto Basto tivesse toda a pinta de um galã de telenovelas, a sua prestação na série deixou bem claro que o melhor era dedicar-se apenas aos fados.
Uma muito jovenzinha Patrícia Tavares
Como já foi dito, o elenco da série tinha muitos nomes fora do mundo da representação como era o caso de Sandra Nobre, do autor Zé Arantes (que para além do argumento e do papel de Luís Filipe, foi também director de actores e das coreografias), da ex-Doce Teresa Miguel e de Sofia Brito, que na altura fazia parte dos Onda Choc. Além disso, também contou com cameos de Rosa Lobato Faria, Joel Branco, Patrícia Tavares (então com 12 anos), Felipa Garnel e do acordeonista e sapateador Michel de Roubaix, conhecido apenas por Michel. Todos os actores deram a sua voz às canções, excepto Sandra Nobre que foi substituída por Paula Oliveira. Por tudo isto, "Chuva De Maio" valeu mais pelo que foi cantado e dançado do que pelo que foi representado.
Segundo o site "Brinca, Brincando", de onde vêm estas imagens, as cenas íntimas e o seu contexto terão gerado alguma controvérsia. Sandra Nobre referiu a uma revista que a sua mãe estranhou o facto de Rodrigo e Mariana terem ido para a cama pouco depois de se conhecerem. Pelos vistos, algo ainda puxado para o Portugal de 1990.
Os pouquíssimos excertos que existem no YouTube estão relacionados com a personagem de Teresa Miguel.
Há ainda este curtíssimo excerto de uma cena entre Curado Ribeiro e João Baião:
Hoje recuamos até ao ano de 1991 para a 36.ª edição do Festival da Eurovisão que teve lugar a 4 de Maio desse ano no estúdio 15 da Cinecittá em Roma, na virtude da Itália ter vencido no ano anterior. Inicialmente o evento estava previsto ter lugar em San Remo, onde se realiza anualmente o famoso festival de música, mas com a Guerra do Golfo e as tensões crescentes na Jugoslávia, foi mudado para Roma, considerado um local mais seguro.
Vinte e dois países concorreram, com destaque para o regresso de Malta que não participava desde 1975. Já no ano anterior, Malta quis participar mas como na altura as regras limitavam o número de países participantes em 22, tal não foi possível. Mas a ausência da Holanda (porque no dia do Festival o país celebrava a recordação dos mortos da Segunda Guerra Mundial) permitiu o regresso de Malta. Esta foi também a última participação da República Socialista Federal da Jugoslávia que nesse ano começaria a desmembrar-se e a embrenhar-se num sangrento conflito armado e a primeira da Alemanha após a reunificação.
Foi uma edição que ficou na história por ter tido uma organização bastante caótica, com um palco que parecia uma acumulação de vários elementos de cenários de filmes, uma orquestra impreparada, vários problemas de som (que felizmente não foram sentidas na transmissão televisiva), uma realização deficiente (a certa altura nas votações, deixaram de mostrar o quadro das votações, logo quando havia uma interessante luta pela liderança) e uma dupla de apresentadores aos arames. Mas em compensação, foi uma edição com colectivamente talvez um dos conjuntos de canções concorrentes com maior qualidade.
A apresentação esteve a cargo de Toto Cutugno e Gigliola Cinqueti, os cantores responsáveis pelas duas vitórias italianas no Festival: ele no ano transacto e ela no então já longínquo ano de 1964 com o clássico "No Ho L'Etá". Acusando a sua inexperiência nas lides da apresentação, Toto e Gigliola tiveram algumas dificuldades, sobretudo para se fazerem entender fora da língua italiana. De vez em quando, antes da actuação de alguns países, Toto trocou algumas palavritas com os intérpretes como foi o caso da nossa Dulce Pontes (a quem Toto chamou de "belissima"). Cutugno e Cinqueti também tiveram uma boa dose de calinadas durante a hora das votações, o que levou a várias intervenções do escrutinador da EBU, Ralph Naef. No início da transmissão foi emitido um videoclip do tema "Celebration" de Sara Carlson, cantora americana radicada em Itália, filmado nas ruínas de Tivoli. Os comentários para a RTP estiveram a cargo de Ana do Carmo e a porta voz dos votos de Portugal foi Maria Margarida Gaspar.
Outra particularidade desta edição foram os postais ilustrados que consistiam nos intérpretes de cada país a cantarem uma conhecida canção italiana, enquanto imagens de locais italianos surgiam no ecrã bem como a bandeira do respectivo país. Por exemplo, Dulce Pontes cantou "Dio Come Ti Amo" de Domenico Modugno e a grega Sofia Vossou o famosíssimo "Caruso" de Lucio Dalla. No início da transmissão foi exibido o videoclip "Celebration" de Sara Carlson, uma cantora americana radicada em Itália, filmado nas ruínas romanas do Tivoli.
Como é habitual, vamos recordar as canções por ordem inversa da classificação.
Thomas Forstner (Áustria)
Baby Doll (Jugoslávia)
Nesse ano, o sempre indesejado último lugar foi para a Áustria, com zero pontos. Em 1989, Thomas Forstner tinha conseguido um dos melhores resultados do seu país, um quinto lugar com uma canção escrita por Dieter Bohlen dos Modern Talking. Mas dois anos, sofreu um revés da fortuna ao não conseguir convencer a Europa com a canção "Venedig im Regen" ("Veneza à chuva"). O facto de estar vestido como se fosse patinar no gelo não ajudou.
Em 21.º lugar, com apenas um ponto ficou a Jugoslávia que, apesar do magro resultado, teve sem dúvida uma das actuações mais memoráveis. O tema "Brazil" foi interpretado por Baby Doll, nome pelo qual era conhecida a cantora sérvia Dragana Saric que fazendo jus ao stagename, surgiu em palco como se fosse a materialização da boneca Barbie. E além de duas bailarinas e duas cantoras do coro, Baby Doll também fez-se acompanhar por um Ken dançarino que mostrou alguns dos seus movimentos de breakdance durante o solo de guitarra. Não deixa de ser curioso que a Jugoslávia tenha enviado um tema tão alegre e descomplexado no mesmo ano onde o país viria a implodir numa terrível guerra (e para aumentar a ironia, a final nacional jugoslava desse ano tinha sido realizada em Sarajevo).
Kaija (Finlândia)
Anders Frandsen (Dinamarca)
Em 20.º lugar com seis pontos ficou a Finlândia. Kaija Kärkinen interpretou "Hullu yö" ("noite louca"), uma balada rock que pessoalmente acho que não merecia tão fraco resultado mesmo se a coreografia dos três elementos do coro fosse algo embaraçosa.
A Dinamarca classificou-se na posição acima com 8 pontos. "Lige der hvor hjertet lar" ("onde o coração bate" era um balada ultra-romântica interpretada por Anders Frandsen. Lamentavelmente Frandsen foi encontrado morto em 2012, com 51 anos.
Atlantis 2000 (Alemanha)
Just 4 Fun (Noruega)
A recém-reunificada Alemanha ficou em 18.º com 10 pontos. O tema "Dieser Traum darf niemals sterben" ("este sonho nunca deve morrer") foi interpretado pelo grupo Atlantis 2000, um sexteto no qual se destacavam a loiríssima Jutta Niedhart e o Harry Potter de meia-idade Alfons Weindorf. A canção falava das mudanças da reunificação da Alemanha e as esperanças acarretadas por esse acontecimento.
A Noruega apostava forte com o colectivo Just4Fun que incluía dois repetentes nestas andanças: Hanne Krogh que tinha sido a representante do país em 1971, ainda muito jovenzinha, e sobretudo em 1985 como metade do duo Bobbysocks que alcançou a primeira vitória norueguesa; e Eirikur Hauksson, de farta melena ruiva, que além de ser uma figura conhecida do rock nórdico, fez parte do trio ICY que em 1986 foram os primeiros representantes da Islândia no Festival da Eurovisão. Os outros membros do quarteto eram Marianne Antonsen e Jan Groth. Esta foi a única vez que a Noruega escolheu uma canção directamente, sem fazer o Festival da Canção lá do sítio, mas a ideia não compensou até porque o tema "Mrs. Thompson" não correspondia à soma das partes e ficou-se pelo 17.º lugar com 14 pontos.
Clouseau (Bélgica)
Stefan & Eyfi (Islândia)
Na posição seguinte ficou a Bélgica, que se fez representar pelos Clouseau (como o inspector da Pantera Cor-de-Rosa), uma banda rock flamenga liderada pelos irmãos Koen e Kris Wauters. A banda era muito popular na Bélgica e na Holanda e a Roma trouxeram o tema "Geef het op" ("deixa-te disso") que teve 23 pontos. (Ana do Carmo comentou que o refrão tinhas muitas parecenças com "Proud Mary".) Os Clouseau continuam a editar discos e a actuar no seu país.
A Islândia ficou em 15.º lugar com 26 pontos, com a balada "Draumur um Nínu" ("um sonho com Nina"), também conhecida apenas como "Nina". Os intérpretes foram o duo Stefan & Eyfi, que é como quem diz Stefan Hilmarsson e Eyjólfur Kristiansson (o da bandana roxa que também era o autor e compositor da canção). Stefan já representara a Islândia em 1988, como parte de outro duo Beat-Hoven. Apesar do seu resultado discreto, "Nina" acabaria por se tornar uma das canções mais amadas na Islândia, daquelas que ainda hoje põe toda a gente a cantar em uníssono nos bares de Rejkjavik.
Sarah Bray (Luxemburgo)
Sofia Vossou (Grécia)
Izel, Can & Reyhan (Turquia)
Ao longo da sua história no Festival, era costume o Luxemburgo fazer-se representar por cantores de outros países. Mas nesse ano recorreu a uma cantora natural do grão-ducado, Sarah Bray (de seu verdadeiro nome Monique Wersant), que interpretou um tema com letra da sua autoria, "Un baiser volé" ("um beijo roubado"), que ficou em 14.º lugar, com 29 pontos.
Um lugar acima, com 36 pontos ficou a Grécia. Sophia Vossou interpretou "I Anixi" ("primavera") um interessante tema pop com influências de ópera e jazz, mas a actuação ficou celebremente prejudicada pelo desafinado solo de saxofone. Apesar de uma carreira musical prolífica, Sophia Vossou tornar-se-ia mais conhecida no seu país como apresentadora de rádio e televisão.
Nos anos 80 e princípios dos anos 90, havia sempre de se esperar algo fora "out of the box" por parte da Turquia no Festival da Eurovisão. 1991 não foi excepção, com esse país a trazer uma espécie de "Grease" à moda de Istambul com o tema "Iki dakika" ("dois minutos"), interpretado pelo trio formado por Izel Çeliköz, Reyhan Karaca e Can Ugurluer. Com 44 pontos, obtiveram o 12.º lugar, suficiente para ser um dos melhores resultados da Turquia até então, apenas suplantado pelo nono lugar de 1986. Nos anos seguintes, Izel teve uma bem-sucedida carreira a solo.
Kim Jackson (Irlanda)
Samantha Janus (Reino Unido)
Elena Patroclou (Chipre)
Com 47 pontos, a Irlanda e o Reino Unido empataram no 10.º lugar. A representante irlandesa foi Kim Jackson que interpretou "Could it be that I'm in love", uma canção escrita por Liam Reilly, que tinha representado a Irlanda precisamente no ano anterior.
O Reino Unido fez-se representar pela loiríssima Samantha Janus e o tema "A message to your heart" cuja letra lembrava as desigualdades entre os países desenvolvidos e os do terceiro mundo. Este acabou por ser o único momento notório de Samantha Janus como cantora, já que viria a ser bem mais conhecida no seu país como actriz em várias séries como "Game On" (exibida na RTP2), na telenovela "Eastenders" e em filmes como "Kingsman".
Depois ter estado presente três vezes como cantora de coro, nesse ano Elena Patroclou finalmente teve a oportunidade de representar Chipre como intérprete principal. Fê-lo com "S.O.S.", canção de temática ecológica que obteve um respeitável nono lugar com 60 pontos.
Dulce Pontes (Portugal)
Peppino Di Capri (Itália)
Pela primeira vez em onze anos, Portugal ficou entre os dez primeiros e durante algum tempo na votação, chegou a andar no top 5, acabando por ficar em 8.º lugar com 62 pontos. A canção "Lusitana Paixão" dispensa comentários, sendo sem dúvida uma das melhores canções que levámos ao Festival da Eurovisão. Dulce Pontes era então sobretudo conhecida por fazer parte do grupo de cantores residentes do programa "Regresso Ao Passado" de Júlio Isidro mas nos anos seguintes, a cantora natural do Montijo tornar-se-ia uma das nossas vozes com maior sucesso internacional.
No lugar acima, com 89 pontos, ficou a canção de Itália,"Comme è ddoce o'mare" interpretado em dialecto napolitano por Peppino Di Capri. Nascido Giuseppe Faiella em Nápoles e criado na célebre ilha de Capri (daí o nome artístico), Di Capri era já um grande nome da canção italiana e um dos percursores do rock transalpino. O seu tema mais conhecido internacionalmente é "Champagne", que aliás foi o que ele cantou no postal ilustrado.
Georgina & Paul Giardimaina (Malta)
Sandra Simó (Suíça)
O pequeno arquipélago de Malta tinha participado três vezes no Festival nos anos 70 sem grande sucesso, mas o seu regresso dezasseis anos depois da sua última participação foi auspicioso, obtendo o sexto lugar com 106 pontos. A canção "Could it be" era uma balada num dueto entre Georgina Abela e Paul Giordimaina, e foi escrita por Paul Abela, marido de Georgina.
Se Portugal impressionou com a sua lusitana paixão, a Suíça não brilhou menos com a sua paixão helvética na voz da bonita Sandra Simó, conquistando o quinto lugar com 118 pontos. Apesar de ser natural de Zurique, do alemão ser a sua língua materna e de ter uma mãe espanhola, grande parte do seu repertório em musical era em italiano e foi neste idioma que actuou em Roma com "Una canzone per té". Actualmente, é mais conhecida no seu país como apresentadora de televisão sob o seu verdadeiro nome Sandra Studer, tendo inclusivamente sido comentadora do Festival da Eurovisão para televisão da Suíça germânica.
Sergio Dalma (Espanha)
Duo Datz (Israel)
A Espanha era uma das favoritas à vitória com o baladão "Bailar Pegados", interpretado por Sergio Dalma, nome artístico do catalão Josep Capdevilla. E lembro-me nesse ano de torcer tanto por Espanha como por Portugal. A canção espanhola ficaria no quarto lugar com 119 pontos. Sergio Dalma tornou-se a partir de então um dos mais populares cantores no país vizinho, já se perdendo a conta aos seus discos de platina.
Com 139 pontos, Israel alcançou a medalha de bronze, graças ao bem alegre tema "Kan" ("aqui") interpretado pelo Duo Datz, formado pelo casal Moshe e Orna Datz, que eram a modos como que os Broa De Mel lá do sítio. Mas os contrário dos nossos Gorgal que continuam juntos, os Datz separaram-se em 2006 ao fim de 21 anos de casamento.
A luta pela vitória em 1991 acabou por ser mais renhida de sempre, pois deu-se um empate no primeiro lugar com 146 pontos entre França e Suécia. Como ambos os países também tiveram o mesmo número de 12 pontos, o desempate acabou por ser pelo maior número de 10 pontos atribuídos dando a vitória à Suécia, que assim somava o terceiro triunfo dos seis que este país actualmente conta. (Se as actuais regras de desempate se aplicassem na altura, pelo maior número de países a pontuar cada canção, teria ganho a França). Mas apesar da disputa renhida, as duas canções não podiam ser mais diferentes.
Amina (França)
Carola (Suécia)
A França tinha uma proposta exótica no tema "C'est le dernier qui a parlé qui a raison" ("quem fala por último é que tem razão") interpretado pela franco-tunisina Amina Annabi, um tema de forte inspiração magrebina. Além de uma celebrada carreira musical, Amina também tem uma activa carreira como actriz, tendo entrado por exemplo no filme "Um Chá No Deserto" de Bernardo Bertolucci. Quando a Tunísia participou nos Jogos Sem Fronteiras em 1992, utilizou esta canção nos filmes das cidades tunisinas que competiram no programa.
Oito anos depois da sua primeira participação em 1983 onde foi terceira, Carola Hagqvist voltou a representar a Suécia e venceu desta vez, com a canção "Fangad av en stormvind" ("apanhada num vendaval"), um tema pop dançável. Carola actuou acompanhada por dois enérgicos bailarinos, mas o principal marco da actuação foi uma ventoinha apontada à sua cara durante toda a performance. Mais tarde veio-se a saber que houve um problema de som durante a actuação que fez com que as pessoas presentes no local não ouvissem a voz de Carola, mas tal não aconteceu na transmissão televisiva.
Uma das cantoras mais populares do seu país e também uma das mais controversas, sendo sempre muito seguida pela imprensa cor-de-rosa e pelo seu envolvimento num controverso culto evangélico, Carola continua bem activa na música e é considerada uma das mais célebres estrelas do universo do Festival da Eurovisão. Em 2006, voltou a representar a Suécia no Festival da Eurovisão desse ano tendo ficado em quinto lugar.
Festival da Eurovisão 1991 completo (transmissão RTP):