sexta-feira, 4 de abril de 2014

Mafalda - série animada (1982)

por Paulo Neto

Apesar de ser uma fanático da televisão desde que me entendo por gente, a primeira vez que reparei nesse acontecimento sazonal que era uma nova grelha de programação na rentrée de Outono foi em Outubro de 1986. Havia três factores fulcrais que fizeram com que o petiz de seis anos reparasse na nova grelha da RTP nessa altura. Primeiro, a RTP1 tinha esta lendária vinheta geométrica que parecia reflectir o facto de eu nesse Outono ter começado a primeira classe, a iniciar a minha instrução. 




Segundo, porque depois da telenovela (na altura, a que estava em exibição era "Corpo a Corpo", a tal que tinha como uma das personagens o Diabo himself), havia o lendário tandem de uma "História ao Fim do Dia" (que o David Martins já abordou aqui) e o mais lendário jingle do "Vitinho" cantado por Isabel Capelo ("Está na hora da caminha..."). Os meus pais bem queriam que me fosse deitar após esse bloco, até porque nesse ano lectivo eu tinha aulas logo às 8 da manhã, mas sempre que conseguia escapar a esse recolher obrigatório, eu ficava a ver um pouco mais televisão. E era certo e sabido se naquele dia dava alguma série minha preferida como o "ALF" ou "Dempsey & Makepeace", só ia para a cama uma vez findo o episódio.

Terceiro, porque entre o Telejornal e a telenovela havia todos os dias de segunda a sexta um pequeno cartoon animado da Mafalda, a primeira adaptação da famosa tira de BD para desenhos animados, datada de 1982. Foi graças a série animada, que eu e a minha geração descobriu a pequena contestatária de farta cabeleira negra criada pelo ilustrador argentino Joaquín Lavado, conhecido como Quino.

Reza a história que Quino tinha criado inicialmente Mafalda sob uma encomenda para uma campanha dos electrodomésticos Mansfield (sendo que a personagem devia ter um nome começado por M). Essa campanha acabou por não se concretizar mas Quino acabou por aproveitar a personagem para ilustrar as tiras publicadas em diversas publicações argentinas entre 1964 e 1973. Como é sabido, foram anos de grandes transformações tanto na Argentina como no mundo e Mafalda ia abordando tudo com um misto de inocência e mordacidade. E aos poucos surgem os seus companheiros: Felipe, o tímido vizinho perdido entre a sua imaginação fértil e a dureza da realidade; Manelinho, o filho do merceeiro local e tal como o pai, capitalista e conservador; Susaninha com as suas manias pequeno-burguesas e o seu sonho de ser uma dondoca com vasta prole; Miguelito, egocêntrico e filosófico que partilha com Mafalda o seu ódio por sopa (tem medo do mar porque lhe parece uma sopa de massa gigante!); a diminuta mas bem expressiva Liberdade; e Gui, o irmão mais novo de Mafalda, o único que na sua inocência é capaz de desarmar até a irmã com as suas perguntas. Sem esquecer obviamente os pais de Mafalda (Angel e Raquel), sempre em palpos de aranha para responder às profundas questões da filha. Umberto Eco chegou a equiparar as personagens de Mafalda às dos Peanuts (Charlie Brown, Snoopy e companhia) de Charles Schulz, na forma como ambas as tiras mostram crianças que, dentro da sua infantilidade, agem e pensam como adultos.



O sucesso de Mafalda não se fez esperar e não tardou até que a tira fosse publicada em toda a América Latina, Espanha, Itália e Portugal (onde o primeiro livro foi publicado em 1970). Desde 1973, só muito periodicamente é que Quino voltou a desenhar a sua pequena heroína, nomeadamente para causas nobres como em 1977, por ocasião da elaboração da Carta dos Direitos da Criança das Nações Unidas.


Com a exibição dessa série animada da Mafalda em Portugal em 1986, toda uma nova geração neste país redescobriu a pequena contestatária. Para mim e para os meus amigos, que éramos da idade das personagens, era como se Mafalda, Felipe, Manelinho, Susaninha, Miguelito e Liberdade fossem nossos colegas de escola. Nessa altura, ver esses desenhos animados da Mafalda após o Telejornal eram um dos pontos altos do meu dia. Como era pequeno demais para perceber as piadas mais elaboradas, ria-me sobretudo das coisas mais simples como as tentativas da Mafalda para não ter de comer sopa ou voar com uma caixa de cartão na cabeça e um jacto de gasosa.



Essa redescoberta de Mafalda em Portugal proporcionou toda uma vaga de merchandising: não só foram reeditados e os livros já publicados como foram lançados volumes com tiras inéditas, como surgiu toda uma panóplia de material escolar e cadernetas de cromos. Recordo também que os bolos Cake Bar da Dan Cake também traziam cromos da Mafalda, o que era um motivo extra para pedinchar aos meus pais por uma Cake Bar sempre que eu ia ao café ou à mercearia. Embora o material escolar fosse de umas cores ameninadas, admito que cheguei a ter um ou outro caderno da Mafalda e uma agenda escolar.

Entretanto já houve mais séries animadas da Mafalda, como uma produzida em Espanha em 1993 e outra mais recente de 2010. Em 2009, Mafalda teve direito ao seu monumento em Buenos Aires.
     

Episódios da série de 1982 (não encontrei as dobragens em português, só em castelhano da Argentina) :










quinta-feira, 3 de abril de 2014

Babyvea (1979)


Adorável mini-foto-novela protagonizada por um bebé que exige ser bem tratado, obviamente com produtos "Babyvea".
Detalhe das embalagens dos vários produtos "Babyvea:
Perguntei à minha mãe, e esta não era a marca que usávamos cá em casa. Mas também fui bem tratado!

Publicidade retirada da revista TV GUIA 46, de 22 a 28 de Dezembro de 1979.

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quarta-feira, 2 de abril de 2014

Alentejo Sem Lei (1991)

por Paulo Neto

Quando eu vi esta mini-série em 1991, confesso que achei uma grande seca. Tantas imagens paradas, as falas das personagens eram-me imperceptíveis e - sacrilégio! - Herman José a fazer de mau, e nem sequer um vilão cómico? Por tudo isto, não guardei nenhumas saudades da série. Até que em 2007, os Gato Fedorento dedicaram-lhe um tesourinho deprimente, dissecando os diálogos e as gaffes técnicas, e eu fiquei com curiosidade em rever, algo que só consegui recentemente graças à reposição na RTP Memória.









"Alentejo Sem Lei" foi o mais parecido que alguma vez houve de inserir o imaginário do faroeste americano numa parte da história de Portugal, onde o Alentejo mostra-se tão agreste como uma pradaria do Texas. Na segunda metade do século XIX, ainda na ressaca da Guerra Civil (1828-1843) que opôs liberais (apoiantes de D. Pedro IV) e absolutistas (apoiantes de D. Miguel), o Alentejo torna-se uma terra de bandidos e malteses. O Bando do Zarolho, outrora acérrimo defensor da causa miguelista, vê-se a recorrer ao banditismo para sobreviver, assaltando montes. O líder é o Major Heitor (Carlos Daniel), o tal "Zarolho". Ana Rita, a "Morgada" (Rita Blanco), criatura bravia e indomável, é a sua protegida, filha do anterior chefe do bando. Há também o silencioso mas intrépido Sargento Ferro (Rogério Samora) e os imbecis Negas (Adriano Luz) e Fininho (António Feio). Durante um assalto, o Major perde-se de amores pela delicada Marianita (Rita Loureiro), que lhe corresponde e que foge com eles rumo a Espanha.


No encalço do bando, estão Geraldo (Fernando Luís), um exímio atirador que pretende vingar o pai morto pelo Major e nutre uma inesperada atracção por Ana Rita, Joaquim da Silva (Nuno Melo) o ingénuo noivo de Marianita que, movido pelos ideais românticos, vem de Lisboa para resgatar a amada, e Cara Rota (Vítor Norte). Mas o maior perigo para o bando é o perverso Capitão Galamba (Herman José), um aristocrata ex-miguelista que passou para o lado dos liberais e que se tornou um sanguinário caçador de prémios. (Trata-se de um dos raros papéis de Herman José que se podem considerar dramáticos, ou pelo menos não tão cómicos quanto isso.) Como é evidente, o desfecho será trágico e cheio de tiros sob o impiedoso calor do Alentejo.



Realizado por João Canijo, "Alentejo Sem Lei" foi exibido na RTP1 em três episódios em Janeiro de 1991. Do elenco fizeram ainda parte Miguel Guilherme, Maria Vieira, Canto e Castro, Márcia Breia, Cremilda Gil e Isabel de Castro como a narradora (que vem-se a saber ser a bisneta de Ana Rita e Geraldo). Destaque ainda para o conhecido produtor de cinema Paulo Branco no papel de Preto, o cegamente leal esbirro do Capitão Galamba.




Segundo o site Brinca Brincando, João Canijo teve a ideia para a série lendo livros de Brito Camacho, como "Gente Rústica" e a partir de histórias que ouvira na infância sobre os seus antepassados e gentes da terra onde cresceu.
Embora ainda com algumas partes que eu achei um bocado aborrecidas, a minha revisão de "Alentejo Sem Lei" foi feita com mais interesse. Pelas figuras tragicómicas e por alguma rudimentarização técnica (talvez intencional), aproxima-se mais do western-spaghetti made in Itália do que do western americano. Como disse José Diogo Quintela no tesourinho, pode-se dizer que é um western-açorda.

"Alentejo Sem Lei" também uma das poucas séries portuguesas que já foram editadas em DVD, em 2008, com comentários do realizador, dos actores e de Manuel João Vieira, responsável pela banda sonora.

A série também está disponível no portal de arquivos da RTP.

Excertos:



    

    

Bionic Six (1987)


"Bionic Six" é das tais séries que não tenho recordação de ter sido exibida em Portugal, mas à qual assisti vários episódios, cortesia de algúm canal de televisão espanhol lá para inicio/meio dos anos 90, onde passou com o nome "La Familia Biónica". Não tenho a certeza, mas creio que via os episódios no horário do pequeno almoço(1), logo antes de partir para mais um dia de escola. No Brasil ficou conhecida por "Os Seis Biônicos".

O título, principalmente o espanhol, pinta um bom retrato da premissa básica: uma família biónica, os Bennett, que também era polticamente correcta e multi-étnica, e que graças aos seus implantes cibernéticos combatem o Mal. Basicamente uma mistura do Quarteto Fantástico (o patriarca de ambas familias tem os lados da cabeça grizalhos) com o The Six Million Dollar Man.
É visível a influencia do estilo do estúdio de animação japonês no resultado final, mas não é um anime, e foi co-produzida nos States, ao gosto das sensibilidades ocidentais.
O genérico inicial:
A razão para os implantes, é - como hábito em histórias de origem de heróis e vilões - trágico. O homem da casa, Jack Bennett é um piloto de testes, já com habilidades cibernéticas, com o nome de código Bionic-1. Durante umas férias de familia nos Himalais, os Bennett são expostos a uma misteriosa radiação que os deixa em estado de coma. Apenas Jack foi imune à radiação, e o inventor Professor Amadeus Sharp aplica implantes biónicos aos Bennett, na esperança de os salvar. O tratamento resulta, e todos são agraciados com extraordinárias habilidades, e começam a agir como uma equipa de super-heróis: os Bionic Six
Os Bionic Six: No topo, da esquerda para a direita: Rock-1, Bionic-1 e I.Q.
Abaixo, da esquerda para a direita: Karate-1, Mother-1 e Sport-1.
 O rolling call é o seguinte:
  • Jack Bennett "Bionic-1" - Engenheiro, piloto de testes e agente secreto nas horas vagas. As máquinas com que foi aumentado dão-lhe sentidos de visão e audição sobre-humanos, além de raios ópticos. Voz de John Peterson (Thundercracker, Kup e outros em "The Transformers", General Flagg em "G.I. Joe", etc).
  • Hellen Bennett "Mother-1" - Esposa de Jack. Os seus poderes são de estilo mental, entre telepatia e precognição. Profissionalmente, além de tratar da lida doméstica como uma boa dona de casa (imagino eu, não me recordo), é oceanografa e bióloga marinha. Voz de Carol Bilger, que pouco mais tem no currículo.
  • Eric Benner "Sport-1" - O estereótipo do adolescente branco norte-americano obcecado com baseball e tacos de baseball e tudo o que tem a ver com baseball. Filho biológico de Jack e Hellen. Basicamente tem os poderes do Magneto dos X-Men. Voz de Hal Rayle (Snarl e Sharpnell em "The Transformers").
  • Meg Bennet "Rock-1" - A outra filha biológica do casal, mais nova que Eric. Como adolescente estilosa e apaixonada por música, os seus poderes são sónicos, além da super-velocidade. Voz de Bobbi Block (Roxy em "Jem", Samantha em "New Kids On The Block").
  • J.D. Bennet "IQ" - O mais velho dos filhos dos Bennett, J.D. é obviamente adoptado (a não ser que os Bennett tivessem alguns antepassados africanos), e os seus poderes são super-força e super-inteligência (como se vê pelo nome de código). Voz de Norman Bernard (Bickerstaff em "Academia do FBI").
  • Bunjiro Bennett "Karate-1" - Tal como hábito nos créditos de séries, deixei para o fim o elemento asiático. E como todos os esterótipos asiáticos, o japonês "Bunji" é proficiente em artes marciais, com agilidade e reflexos grandemente ampliados pelos implantes. Voz de Brian Tochi (Takashi em "Revenge Of The Nerds", Leonardo nos 3 primeiros filmes imagem real das Tartarugas Ninja).

A sequência de transformação, ao melhor estilo super-sentai ou maho shojo:

Um livro ilustrado "Bionic Six - Super Picture Book".
Além do já mencionado Prof. Sharp (Allan Oppenheimer, o Skeletor em "He-Man..." e Ming O Impiedoso, em "The New Adventures Of Flash Gordon", entre outros), outro membro da equipa era o gorila mecânico, ,comic relief e ajudante com apetite por latas de aluminio F.L.U.F.F.I. (Neil Ross, o Ace McCloud de "Centurions"e Green Goblin na série dos 90 do "Spider-Man").
O obrigatório antagonista é o irmão mais velho e feio do Prof. Sharp: Dr. Scarab, nom de guerre do Dr. Wilmer Sharp (Jim MacGeorge). Outros vilões são pessoas encantadores como: Glove, Madame-O, Chopper, Mechanic, Klunk, entre outros capangas e robots diversos.
Algum do merchandising:




Nunca mais revi os episódios, não sei se resistiram à passagem do tempo, mas do que me recordo era uma série divertida de se ver, principalmente para quem gosta de sci-fi e acção.
 
NOTAS:
(1) Encontrei recentemente informação que passava na Espanha à "hora do almoço", que no horário de Portugal era 11:45. Talvez eu esteja errado, ou esta fosse uma repetição.



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terça-feira, 1 de abril de 2014

Grundig Super Color (1979)

Breve, mas colorida publicidade ao último modelo (na altura): "Grundig Super Color", com écran de 66 cm, a cores.

Publicidade retirada da revista TV GUIA 46, de 22 a 28 de Dezembro de 1979.

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segunda-feira, 31 de março de 2014

Sagres (1979)

Marca presente desde a década de 40 do Século XX, a cerveja "Sagres" tem aqui um anúncio vistoso, apenas com garrafas a formar um padrão em espiral.
Detalhe da garrafa da altura:


Publicidade retirada da revista TV GUIA 46, de 22 a 28 de Dezembro de 1979.

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sábado, 29 de março de 2014

Silence 4 "Borrow" (1998)

por Paulo Neto

Lembro-me perfeitamente da primeira vez que ouvi o "Borrow" dos Silence 4. 


Foi ao ouvir na Antena 3 a gala dos Prémios Blitz 1997, algures em Março de 1998. Durante a segunda metade dos anos 90, estes prémios, promovidos pelo mítico jornal semanário dedicado à música (hoje em dia convertido em revista mensal), foi o mais parecido que Portugal teve com uns Brit Awards ou uns Grammys. Em cada ano que a iniciativa durou, teve lugar uma gala de entrega de prémios no Coliseu dos Recreios com várias actuações. Nessa mesma cerimónia de 1998, até havia uma actuação de uma estrela internacional na pessoa de Ben Harper
Ora uma das primeiras actuações dessa noite foi de uma banda de Leiria que estaria longe de imaginar que apenas alguns meses mais tarde, com a edição do seu álbum de estreia, irá conhecer um sucesso a uma escala de proporções raramente vistas no panorama musical português.

Formados em 1995, os Silence 4 não demoraram a impressionar vencendo nesse mesmo ano o Festival Termómetro Unplugged (no ano anterior os vencedores foram os Blind Zero) e um dos seus primeiros registos em disco surgiu na compilação de 1997 “Sons de Todas as Cores”, na forma de uma versão de “A Little Respect” dos Erasure, que não tardaria a ser um dos seus mais célebres hits (e que em Portugal, até ultrapassou a versão original em popularidade). 




Foi também pegando numa canção existente, o refrão de "One Of Us" dos ABBA, que os Silence 4 iniciaram, à laia do prefácio, a sua actuação de "Borrow" nesses Prémios Blitz. Seguiu-se uma introdução em guitarra e eis que a voz de David Fonseca arrancou com um "You're never with me, you're never near me...". agarrando a minha total atenção para nunca mais a largar. Juntou-se depois a voz de Sofia Lisboa primeiro em harmonia, depois ouvindo-se isolada na recta final ("It may seem a little hollow, but I will try again tomorrow..."). Terminada a canção fiquei abismado e pensei: "Esta canção e esta banda merecem ter um grande sucesso." Oxalá fosse assim tão fácil para mim prever os números dos Totoloto.


O Verão de 1998 seria marcado em Portugal por duas combinações de uma palavra com um número: Expo 98 e Silence 4. Em Junho, com o álbum de estreia “Silence Becomes It” nos escaparates e com “Borrow” a rodar amplamente nas rádios e o respectivo videoclip no recém-criado Sol Música da TV Cabo, a banda vê-se a braços com um êxito colossal, que decerto nem nos seus melhores sonhos teria imaginado. Os discos de platina e semanas no n.º 1 do top de álbuns sucedem-se, os concertos e as aparições em programas de televisão multiplicam-se. Canções como “Borrow”, o já referido “A Little Respect”, “My Friends”, “Angel Song”, “Old Letters” e “DyingYoung” andam nas bocas do povo. Não há cidade, certame ou evento que não queira requisitá-los para um concerto. 


O sucesso explica-se - dentro daquilo que algo assim poderá ser explicável - com canções bem produzidas (Mário Barreiros, ex-Bandemónio, começava a ser um produtor de nome firmado), uma sonoridade semi-acústica que tanto podia ser alegremente expansiva como sedutoramente introspectiva, e uma saborosíssima conjugação da voz máscula e emotiva de David Fonseca com a voz angelical e serena de Sofia Lisboa, sem esquecer evidentemente uns exímios Tozé Pedrosa na bateria e Rui Costa no baixo. (Para o público feminino, o facto de David Fonseca não ser nada feio também não prejudicou nada.) 





Os Silence 4 também têm o mérito de encabeçar uma pequena grande revolução no panorama musical português, a par de bandas como os The Gift e os Belle Chase Hotel, que também se estrearam em disco nesse ano de 1998. Salvo alguns casos pontuais (Teresa Maiuko, Joker, Blind Zero), resistia ainda uma certa noção de que cantar em inglês em Portugal era um atentado à pátria, mas a qualidade do repertório dos Silence 4 (que incluía duas canções em português), bem como o das outras bandas referidas, era tão inegável que esse preconceito acabou por ceder. Até o simples facto das três bandas serem originárias da zona Centro (Leiria, Alcobaça, Coimbra) em vez da habitual dicotomia Lisboa-Porto teve o seu quê de inovador.




Os Silence 4 apenas perdurariam por mais três anos e para um segundo álbum, “Only Pain Is Real”, de 2000 (que ainda assim também foi campeão de vendas). Em 2003, David Fonseca iniciou uma igualmente frutuosa carreira a solo que o solidificou como um dos melhores intérpretes e compositores que este país viu nascer. Em 2014, para alegria dos fãs, o grupo reuniu-se a título excepcional para um breve série de concertos sob repto lançado por Sofia Lisboa, após esta ter recuperado de uma leucemia. Os concertos e uma reedição do material da banda têm permitido aos fãs matar saudades e conquistar uma nova geração. 
   



Sempre achei que o mal dos Silence 4 (e por conseguinte, de David Fonseca, the solo artist) foi terem nascido em Portugal. Fossem eles de qualquer outro país da Europa Ocidental, e talvez “Borrow” fosse hoje um clássico internacional dos anos 90. Mas pronto, ficou um clássico só nosso, um daqueles temas que marca uma geração tuga. E a verdade é que ainda sabe tão bem ouvi-lo.

    


sexta-feira, 28 de março de 2014

Heidi - Avôzinho / Olha O Sol - Cantado em Português

O monumental êxito do anime "Heidi" (1974) - a mais famosa adaptação de "Heidi's years of learning and travel" (Heidis Lehr- und Wanderjahre), a primeira parte da novela "Heidi", escrita por Johanna Spyri em 1880, sobre a jovem orfã Heidi que vai viver nos agrestes Alpes com o avô paterno - tornou inevitável o lançamento da banda sonora, que no nosso país até esteve disponível em várias versões. A que hoje nos ocupa e me veio parar à colecção pessoal há uns meses é a versão de Marcelo Duran.
O single é composto por dois temas, cantados em português. Os arranjos são da autoria de Luis Cobos, tal como a produção, em conjunto com Phonogram. As versões originais são os temas dos créditos iniciais e finais, e foram cantados por Kayoko Ishū e Kumiko Ohsugi ("Marco", "Doraemon"), respectivamente.
Além dos títulos, a capa frontal (no inicio do artigo) e traseira (abaixo) não contém qualquer elemento que a identifique inequivocamente à série animada.

Heidi [Polydor / Phonogram - 2063 011]
No Lado 1:
"Avôzinho" (Oshiete) - Eriko Kishida / Takeo Watanabe, na Versão de Marcelo Duran; o über-famoso tema dos créditos iniciais, cantado por milhões de crianças e adultos nos anos cromos, e ainda hoje em dia.


No Lado 2:
"Olha O Sol" (Mattete Goran) - Eriko Kishida / Takeo Watanabe, na Versão de Marcelo Duran;


Até ao momento, não encontrei online estas versões específicas, por isso deixo estes videos para recordarem os temas:

Avôzinho - Genérico Inicial:




Olha O Sol - Genérico Final: "Olha O Sol" - Vídeo sem imagem, apenas som.


Nem nos discos, nem na capa está a informação dos cantores em português, mas o blog "O Meu Piu Piu" atribui o feito a Maria João e Coro. Mas como no mesmo artigo a editora e o número são diferentes do que tenho aqui indicado; talvez seja ainda outra versão.
Brevemente conto colocar aqui no blog, uma das outras versões portuguesas, cantada por Magda, e com arranjos de Shegundo Galarza.

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