domingo, 5 de novembro de 2017

Sassá Mutema - O Salvador da Pátria (1989)

por Paulo Neto




Esta foi a primeira telenovela brasileira a ser exibida em Portugal ("Sassá Mutema") sob um título diferente daquele que tinha sido usado no Brasil ("O Salvador da Pátria"), uma particularidade que só muito raramente voltou a acontecer (assim de repente só me lembro de "Pátria Minha"/"Vidas Cruzadas" ou "Salvé Jorge"/"A Guerreira"). Da autoria de Lauro César Muniz, "Sassá Mutema" foi exibida no Brasil em 1989 e em Portugal em 1991. Em 1994, a SIC reexibiu a telenovela com o título original no genérico mas utilizando os dois títulos na promoção: "Sassá Mutema - O Salvador da Pátria". Curiosamente, esta foi a novela que precedeu a exibição de "Tieta" no Brasil e que sucedeu à mesma em Portugal. 

A telenovela era marcada por uma forte intriga política, a que não era estranho o facto de na altura o Brasil estar a passar por grandes transformações nesse âmbito, sobretudo com a corrida para as primeiras eleições presidenciais directas do país. Aliás houve quem tenha visto na personagem principal vários paralelismos com o candidato Lula da Silva. Porém acho que o maior marco da telenovela em Portugal foi o atípico par romântico principal. 

Sassá (Lima Duarte) e Clotilde (Maitê Proença)


Na fictícia Ouro Verde, região algures no interior do Brasil, Salvador da Silva, mais conhecido como Sassá Mutema (Lima Duarte) é um simples e humilde assalariado rural que se vê arrastado para uma rede de tramas e conspirações. Severo Toledo Blanco (Francisco Cuoco), dono de uma próspera plantação de laranjais, é o homem mais poderoso da região, casado com Gilda (Suzana Vieira), uma mulher calculista, que devido às suas ambições fecha os olhos às diversas infidelidades do marido. Para desviar as atenções do seu relacionamento com Marlene (Tássia Camargo), Severo decide propor um casamento de fachada desta com Sassá, a que os dois relutantemente aceitam. Porém o plano chega ao conhecimento de Juca Pirama (Luiz Gustavo), um radialista incendiário e socialista, que denuncia publicamente o caso. 

Severo (Francisco Cuoco) e Gilda (Suzana Vieira)
Juca Pirama (Luiz Gustavo)


No entanto, Marlene e Juca são encontrados com aparentes sinais de envolvimento sexual entre ambos e Sassá é incriminado como suspeito de um crime passional. Sassá tenta provar a sua inocência com a ajuda de Clotilde (Maitê Proença), uma pedagoga envolvida num programa de alfabetização dos trabalhadores de Ouro Verde, por quem o bóia-fria nutre uma paixão platónica. 
Mas quando se descobre que Juca Pirama, que se fazia passar por moralista e justiceiro, estava envolvido em negócios sujos, Sassá ganha popularidade junto da população e acaba por ser eleito prefeito de Tangará, uma das principais cidades da região. Abandonada por Severo, que entretanto se apaixonou por Bárbara (Lúcia Veríssimo), a neta de um dos correlegionários do seu partido, Gilda decide aproximar-se de Sassá e influenciá-lo conforme os seus intentos. 
Mas quando parecia que Sassá se tinha deixado corromper pelo poder e afastado daqueles que o inicialmente o apoiaram, o seu amor por Clotilde fá-lo reganhar a consciência e agir em prol do povo, denunciando uma rede de narcotraficantes que pretendia sediar-se em Ouro Verde. No final, Sassá obtém a felicidade junto de Clotilde, enquanto Gilda e Severo não têm outro remédio senão reatar o casamento, até porque vem-se a saber que Bárbara era a cabecilha da organização criminosa.        


A principal trama secundária de "Sassá Mutema" é a de João Matos (José Wilker), piloto de aviões e irmão de Juca Pirama, que é acusado injustamente de tráfico de drogas. Para fugir à Polícia e descobrir quem foi que o tramou, João assume a identidade de Miro Ferraz e acaba por se envolver com Marina Sintra (Betty Faria), uma rica fazendeira e a principal opositora política de Severo. Também recordo a personagem do engenheiro Paulo Silveira (Marcos Paulo), um sedutor e bon vivant que se envolve com várias mulheres ao longo da trama como Clotilde, Ângela (Lucinha Lins), a esposa de João, e as filhas de Marina, Camila (Mayara Magri) e Alice (Suzy Rêgo).

Bárbara (Lúcia Veríssimo) e Severo (Francisco Cuoco)
Marina (Betty Faria) e João (José Wilker)
Ângela (Lucinha Lins)


Do elenco fizeram ainda parte nomes como Maurício Mattar, Thales Pan Chancon, Flávio Migliaccio, Cecil Thiré, Gracindo Júnior, Aldine MullerCláudio Correa e Castro, António Calloni, Eduardo Galvão e Cláudio Cavalcanti

Ao que parece, a telenovela devia terminar com Sassá como Presidente do Brasil, mas devido aos cenários políticos e para evitar comparações e acusações de favorecimentos, a trama desviou-se da ascensão sócio-política do protagonista para passar a centrar-se sobretudo na luta contra uma rede de narcotráfico e crime organizado. 



Mas sem dúvida que o grande trunfo da novela foi o magistral desempenho de Lima Duarte no papel principal. O seu Sassá cativou os telespectadores no Brasil, sobretudo com os seus trejeitos e expressões como "Ieu?" e até o seu romance com Clotilde, apesar das diferenças sociais e de idade, encantou o público. 



Tal foi a popularidade de Sassá Mutema que, conforme recorda o site "Brinca Brincando", Lima Duarte veio a Portugal desempenhar a personagem para uma campanha de regresso às aulas do Continente.


Porém o bordão mais famoso da telenovela era aquele que Juca Pirama proferia estrondosamente no início das suas crónicas radiofónicas: "Meninos, eu vi!". Tanto a expressão como o nome da personagem provinham de um poema de Gonçalves Dias.



Da banda sonora, destaque para o tema do genérico "Amarra o Teu Arado a Uma Estrela" de Gilberto Gil, "Deus Te Proteja de Mim" de Wando que ilustrava as cenas de amor entre João e Marina (e que seria depois versionado por Nuno da Câmara Pereira), "Bem Que Se Quis" de Marisa Monte, tema associado à personagem de Bárbara, e dois hits internacionais dos anos 80 que voltaram a tocar nas rádios portuguesas aquando da exibição da telenovela: "One Moment In Time" de Whitney Houston e "Domino Dancing" dos Pet Shop Boys.    

Genérico:


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1 comentário:

  1. Ótima resenha. Revendo a novela, perceberemos que nada ou quase nada mudou, infelizmente. Guardadas as proporções e nomes, tudo me parece muito atual. Obrigada pela postagem!

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