sexta-feira, 1 de julho de 2016

Abbacadabra (1984)

por Paulo Neto

Já tiveram aquela sensação de algo que aconteceu quando eram mesmo muito pequenos e que quando cresceram, ficam na dúvida se aquilo ocorreu mesmo? Foi o caso deste programa que passou na RTP em 1984 e que me recordo de ter sido um grande acontecimento, quanto mais não fosse por ter tanta gente conhecida, mas que nos anos seguintes, pareceu cair no esquecimento e pouco ou nada se falou dele desde então. Foi preciso a Caderneta de Cromos (what else?) do Nuno Markl falar de "Abbacadabra" para eu confirmar que esse programa não foi fruto da minha imaginação. Eu tinha quatro anos na altura, e apesar de não recordar de grande coisa nem ainda reconhecer a música dos ABBA, nunca tinha esquecido do programa pelo simples facto de juntar duas coisas que eu já sabia identificar: gente que aparecia na televisão e personagens dos contos infantis.



Mas vamos a factos. "Mamma Mia" não foi o primeiro musical construído a partir da música dos ABBA. Em 1983, quando o lendário quarteto sueco tinha acabado de terminar, os irmãos franceses Alain e Daniel Boublil conceberam um espectáculo musical para televisão que adaptava algumas das músicas dos ABBA a uma história que envolvia várias personagens dos contos de fadas. Vários nomes da música francófona participaram como Daniel Balavoine (tragicamente falecido num acidente durante o Rally Paris-Dakar de 1986) e o belga Plastic Bertrand, o cantor de "Ça Plane Pour Moi", isto para além de uma participação especial da própria Anni-Frid Lyngstad dos ABBA. Tanto o programa de televisão como o disco fizeram tal sucesso em França que outros países não tardaram a fazer a sua própria adaptação. A versão britânica foi feita no teatro londrino ainda em 1983 e contava com a participação da diva do West End, Elaine Page. Além de Portugal, a Holanda também teve a sua própria versão em 1985. 

A versão portuguesa esteve a cargo de Nuno Gomes dos Santos que também acumulou o papel de Pinóquio e das vozes de um dos Irmãos Metralha. A história era semelhante à da versão francesa, com apenas ligeiras alterações e utilizava as mesmas doze canções dos ABBA que o original francês.

Quatro crianças - João (João Cabeleira), Pedro (Pedro Cabeleira) e as gémeas (Ana e Joana) - são mandadas para o quarto de castigo, aparentemente por algo sem motivo (daí que a primeira canção se chame "Que Mal Fizemos Nós"). Uma dessas crianças, o João, sonha que as personagens dos contos infantis - Branca De Neve, Cinderela, Alice do País das Maravilhas, Pinóquio, Aladino, o Soldadinho de Chumbo e o Príncipe - vêm ter com eles para ajudar-lhes numa grande missão: derrotar a Rainha Má e os Irmãos Metralha. Mas não vai ser nada fácil, já que a Rainha Má tem um terrível computador, o PBX, que os vai capturando dentro de videocassetes. Mas claro que tudo acaba em bem.



Eis aqueles que participaram no disco, que então faziam parte da editora Orfeu: Fernando Correia Marques, na altura conhecido apenas como Fernando, vindo do hit pouco politicamente correcto "Carlitos", fez de Aladino (quiçá por ter ameaçar o tal Carlitos com uma "lamparina"); Suzy Paula, como o ídolo infantil que era na altura, não podia faltar num projecto assim e fez de Alice; Maria João - sim, a cantora de jazz - foi a voz da Branca de Neve; a locutora da RTP Helena Ramos, que nunca foi moça para recusar uma ocasional incursão na representação ou nas cantigas, era a Cinderela; o ex-cantor de intervenção Samuel era o Soldadinho; o papel da Rainha Má foi para a fadista Lenita Gentil; e António Manuel Ribeiro dos UHF era o Príncipe. José Nuno Martins fazia voz do locutor. Além de Nuno Gomes dos Santos, Zé da Ponte e Luís de Freitas eram as vozes dos Irmãos Metralhas e o coro dos Cravos na canção da Cinderela e do Soldadinho, sendo que na dita cuja, havia também o coro das Rosas constituído por Isabel Campelo, Inês Martins, Teresa Marta, Vanda e Ana Carvalho. Na última canção, Samuel e Lenita Gentil faziam também de dois professores.
"Abbacadabra" foi filmado em Sintra, no Palácio da Pena, no Parque da Pena e no Colégio de São José. Na versão televisiva, a actriz Rosa Pelicano foi a Branca de Neve, fazendo playback da voz de Maria João e dava para ver bem que quem estava a fazer de Irmãos Metralha não eram os donos das vozes mas sim três bailarinos não identificados (aliás, um deles era seguramente uma Irmã Metralha). A realização esteve a cargo de João Serradas Duarte.

Este era o alinhamento:

Que Mal Fizemos Nós (When I Kissed The Teacher)
O Sonho do João (The Visitors)
Abbacadabra (Take A Chance On Me)
O Nariz do Pinóquio (Money Money Money)
Aladino Fanfarrão (Supertrooper)
Branca De Neve e o Espelho (I Wonder Departure)
Rainha Má Superstar (Dancing Queen)
Cinderela e o Soldadinho (I Let The Music Speak)
Os Amigos (Fernando)
Larguem A Cassete (I'm A Marionette)
Branca De Neve e o Principezinho (Arrival)
Não Basta Ralhar (Thank You For The Music)

A Caderneta de Cromos desenterrou "Abbacadabra" dos recantos das memórias de gente como eu, que nunca se tinha esquecido disso mas ainda faltava uma prova material em imagens do que tinha sido esse especial de televisão. E em pouco tempo, consegui duas recolhas. Primeiro, na rubrica "Retroescavadora" de Fernando Alvim na RTP Memória e a seguir, uma versão completa de "Abbacadabra" no YouTube, cortesia de um utilizador francês. (Merci beaucoup, Philippe Benabes!) Vejam só:


Não admira que eu tenha pensado durante anos a fio que eu tinha pensado que isto tinha sido fruto da minha imaginação, já que o conteúdo é tão alucinante e bizarro, mas também muito divertido. Desde António Manuel Ribeiro vestido de príncipe medieval com collants e boina com penacho a cantar o "Fernando" e Maria João e Suzy Paula a atirarem-se a "Take A Chance On Me", até Samuel e Helena Ramos num dueto romântico e Fernando Correia Marques numa versão de "Supertrooper" com pretensos arranjos medio-orientais, para já não falar do ponto alto que é ver e ouvir Lenita Gentil no papel de Rainha Má num versão de "Dancing Queen". Ou então a cena do confronto final, com a Rainha Má e os Irmãos Metralha (como é que a Disney nunca pensou numa história crossover de universos assim?) a cantarem "Larguem a cassete, temos um cacete". E o grande final ao som de uma versão de "Thank You For The Music" com imagens de crianças a brincar. (Mas não haveria um título melhor do que "Não Basta Ralhar".
O programa especial com cerca de 50 minutos, hoje parece muito rudimentar, mas para o Portugal de 1984, onde tudo andava a dez à hora, "Abbacadabra" teve sem dúvida as honras de uma superprodução da RTP. Digam lá que o disco não merecia uma reedição ou até um remake com artistas portugueses da actualidade?

O blogue "Fruta e Verdura" também disponibilizou as folhas com as letras das canções e os diálogos que também estão no disco.  


Episódio da Retroescavadora (RTP Memória): 
Caderneta de Cromos - Abbacadabra 1.ª Parte (16/3/2011):
http://podcastmcr.iol.pt/rcomercial/cdc02_160311.mp3
Caderneta de Cromos - Abbacadabra 2.ª Parte (21/3/2011):
http://podcastmcr.iol.pt/rcomercial/cdc01_210311.mp3






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1 comentário:

  1. Obrigada. Sempre que vejo o Maria Mia lembro-me do Abbracadabra, mas nunca o tinha encontrado. Obrigada.

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