sexta-feira, 29 de abril de 2016

O Bar Da TV (2001)

por Paulo Neto

A SIC cedo se apercebeu que cometeu um enorme erro ao recusar a proposta de Endemol para adaptar o "Big Brother" para Portugal, que acabou por ir para a TVI com o sucesso que se sabe, e a estação de Carnaxide tentou correr atrás do prejuízo e contra-atacar no ano de 2001 com outros reality-shows baseados na convivência forçada de um grupo de cidadãos anónimos. Primeiro foram os "Acorrentados" logo em Janeiro fazendo frente à estreia da segunda edição do "Big Brother", e quando esta queimava os últimos cartuchos, com "O Bar Da TV" que elevaria a faceta voyeurista e escandalosa deste tipo de programas a alturas ainda então por atingir.





Ao contrário do que seria de esperar, a versão original de "O Bar Da TV" não é holandesa e com chancela da Endemol, mas sim de uma produtora sueca, Strix. Desde a primeira edição na Suécia em 2000, o programa já foi adaptado em vários países como por exemplo Argentina, Cambodja, Eslovénia, Geórgia, Hungria, México e Polónia, onde chegou a haver uma edição em 2005 com concorrentes de vários países da Europa (tendo ganho um inglês). A única edição portuguesa foi transmitida pela SIC entre 13 Maio e 12 de Agosto de 2001 e foi das poucas que não foram produzidas pela Strix mas sim pela produtora de Ediberto Lima. A apresentação esteve a cargo de Jorge Gabriel, com Lili Caneças, que na altura fez furor na imprensa cor-de-rosa por ter feito um peeling que lhe retirou grande parte das rugas, como a comentadora oficial.





A dinâmica do programa era a seguinte: doze concorrentes teriam de viver numa casa em regime de isolamento e com câmaras por todo o lado enquanto trabalhavam num bar nas Docas de Lisboa, pelo que a grande diferença em relação ao "Big Brother" é que os concorrentes não só não estavam completamente isolados do mundo como aliás qualquer pessoa podia ir ao bar durante as horas de funcionamento e ver e falar com os concorrentes. Aliás o slogan do programa era "A novela da vida real em que você pode entrar". Os concorrentes estavam portanto mais cientes do que se passava no exterior e de quais eram as afinidades do público. Segundo as regras originais do programa, enquanto estavam a trabalhar no bar, os concorrentes tinham de seguir várias regras, como não chegarem atrasados, não consumir álcool e não retirar dinheiro da caixa para outros motivos que não pagamentos. As nomeações às quartas-feiras eram feitas pelo seguinte sistema: cada concorrente atribuía um ponto negativo a um colega e um ponto positivo a outro. O concorrente com mais pontos negativos seria o primeiro nomeado, o concorrente com mais pontos positivos apontava o segundo nomeado. Os dois nomeados eram depois sujeitos a votos e o mais votado para sair era expulso em cada domingo.



Antes da estreia do programa, 18 concorrentes pré-seleccionados foram revelados na revista TV Mais e no Big Show SIC. No primeiro programa os doze concorrentes escolhidos foram: Ana Raquel, 21 anos, brasileira residente em Braga; Carla Gonçalves, 22 anos,  de Lisboa; Eduardo Mendes, 26 anos, de Alhos Vedros; Francisco Véstia, 21 anos, de Santarém; Hoji Fortuna, 26 anos, angolano residente no Porto; João Vinagre, 27 anos, de Lisboa;  Leonel Lage, 27 anos, de Lisboa; Leonor Figueiredo, 24 anos, de Porto; Margarida Gomes, 22 anos, de Borba; Paulo Horta, 19 anos, de Lisboa; Raquel Barbosa, 19 anos, de Vilamoura; e Rita Brito, 22 anos, natural de Tomar e residente no Porto.
Com as saídas extra-competição de Ana Raquel e Leonor, estas foram substituídas por Sofia Borges, 24 anos de Lisboa e Rute Azevedo, 26 anos, de Barcelos. 

Como é habitual, encontrei pouquíssima informação na net, pelo que eis aquilo que recordo de memória e aviso que possivelmente algumas recordações podem não estar correctas.

- O tema do programa era interpretado por Hugo Piló, cantor nazareno ex-concorrente do "Chuva de Estrelas" e que integrou em finais dos anos 90 o grupo Santa Claus que teve algum sucesso com uma versão de "Lilás" de Djavan.

Hoji Fortuna

- Um pouco à semelhança do Zé Maria no "Big Brother", Hoji afigurou-se desde muito cedo como o grande favorito à vitória, com o público a ser novamente sensível ao concorrente "outcast". Com a sua vitória, o angolano tornou-se no primeiro vencedor estrangeiro de um reality-show português.

Ana Raquel

Leonor Figueiredo

- Além do mais famoso incidente do programa, a primeira semana foi bastante atribulada. Além de ser dona do objecto que terá causado esse famoso incidente, Ana Raquel foi a primeira concorrente a ser expulsa do programa por violação das regras. Se não estou em erro, teria conseguido infiltrar o namorado dentro da casa e teria tido sexo com ele.
Leonor, que era a única concorrente que já tinha sido casada e mãe, recebeu no terceiro dia a notícia que o ex-marido teria aproveitado a entrada dela no programa para desaparecer com a filha de ambos, pelo que a portuense teve de desistir do programa para esclarecer essa situação e lidar com a disputa da custódia da sua filha.



Eduardo Mendes

Sofia Borges

João Vinagre

Leonel Lage

- A desinibição era aliás uma característica geral dos concorrentes, sobretudo os masculinos, que protagonizaram algumas cenas de nudez, até porque ao contrário do "Big Brother" que tinha as câmaras ao alto nos chuveiros, nos chuveiros da casa do Bar a câmara estava de frente pelo que não deixava muito para a imaginação. Leonel, João e Eduardo eram os mais ousados.  

- Como não podia deixar de ser, alguns casalinhos formaram-se entre os concorrentes nomeadamente João com Carla e Eduardo com Sofia. Também houve alguma proximidade entre Francisco e Raquel, que motivou algum "shipping" por parte do público.

Francisco Véstia


Raquel Barbosa

- Apesar de não ter nenhum concorrente que pudesse considerar o meu favorito, aqueles que me lembro de gostar mais eram Francisco e Raquel.  Como temos um amigo em comum, por vezes aparece no meu Facebook alguns posts de Francisco. E Raquel era para mim a rapariga mais bonita do programa, uma prova de que há pessoas que são mais sexys com óculos do que sem eles. (Além de mim, claro!)

Carla Gonçalves

Rute Azevedo
- Quanto a inimizades, a mais célebre foi aquela entre Carla e Rute. A lisboeta e a minhota tiveram vários momentos tensos, como aquele em que Rute terá inadvertidamente (?) atirado um chinelo a Carla.

Paulo Horta

- Paulo Horta foi o primeiro concorrente assumidamente homossexual de um reality-show português. 

- A meio do jogo, quatro concorrentes previamente eliminados - João, Margarida, Raquel e Sofia - foram eleitos pelo público para regressarem ao programa. Tendo sido o segundo eliminado, João conseguiu conquistar depois forte apoio do público para voltar ao programa e acabou por ser o outro finalista. À parte das saídas de Ana Raquel e Leonor, creio que a ordem de eliminações do programa terá sido a seguinte: Rita, João, Margarida, Rute, Paulo, Raquel, Sofia, novamente Margarida e Sofia, Eduardo, novamente Raquel, Carla, Francisco e Leonel, com Hoji a vencer João na final.

Rita Brito

- Na fase final do programa, o bar era gerido por duas equipas, cada uma liderada pelos dois finalistas e com três ex-concorrentes escolhidos por estes. Hoji escolheu Margarida, Rita e Sofia e João optou por Carla, Eduardo e Raquel.  

Margarida Gomes

- Mas como é evidente, o incidente pelo qual todos ainda recordam "O Bar da TV" foi aquele que envolveu a concorrente Margarida Gomes e os seus pais, Miquelina e Teodomiro. Jovem religiosa, recatada, dedicada aos estudos e à música e assumidamente virgem, Margarida parecia um peixe fora de água e a antítese de todos os outros concorrentes. No entanto, a jovem alentejana não pareceu incomodar-se com isso e nem com as farras iniciais da casa, que terão passado por alguns strip-teases masculinos e femininos. Durante uma delas, terá mesmo visto um vibrador, que Ana Raquel trouxera para a casa, a ser-lhe passado na cara. E terá sido esse o motivo que fez com que os seus pais se tivessem deslocado desde Borba até Lisboa para convencerem a filha a desistir do programa, indignados com o nível de depravação e alegando que estavam a sofrer na pele a indignação da população de Borba. Mas o que poderia ser apenas um acto de excesso de zelo por parte dos pais que não souberam bem ao que a sua filha tinha ido (tinham afirmado que aceitaram a participação da filha para que ela trouxesse cultura e religião ao programa - pois...), acabou rapidamente por se tornar algo bem surreal que suscitou indignação geral dos telespectadores por dois motivos. Um deles era o simples facto da SIC transmitir em directo uma conversa privada entre uns pais e uma filha apenas para ganhar audiências com essa exploração gratuita. E outro foi o teor da conversa propriamente dita com a mãe de Margarida a recorrer a chantagem emocional, deixando para a história frases como "Já não podemos viver em Borba", "Já não posso ir ao supermercado, já não posso ir à missa", "O teu pai não fez a barba" e "Ele traz uma gravata preta porque está de luto", enquanto a filha chorava baba e ranho. A certo ponto, o próprio Ediberto Lima interveio a favor de Margarida para acalmar os ânimos. Mas o incidente marcaria o início de fim da parceria entre o produtor brasileiro e a SIC bem como até do próprio Emídio Rangel, o homem que nos anos 90 levara a estação de Carnaxide a uma fulgurante ascensão. Mas no fim de contas, Margarida continuou no programa, tendo inclusivamente participado na fase final na equipa de Hoji e até a dona Miquelina acabou por comparecer regularmente nas galas de domingo. Actualmente não existe na net as imagens desse infame episódio, mas existe uma faixa em que frases proferidas pela dona Miquelina Gomes surgem sob batida techno, numa composição criada por alguém que responde pelo nome de DJ Porco.


Eu não acompanhei "O Bar Da TV" com o entusiasmo fervoroso com que segui os dois primeiros "Big Brothers", até porque eu encarei o programa como quase toda a gente - uma forma desesperada da SIC de correr atrás do prejuízo, tentando esgravatar por baixo para ganhar audiências (algo que hoje por hoje infelizmente parece ser a regra), mas admito que via quando calhava. Pelo que me recordo, as audiências do programa até não eram más mas ainda assim longe das dos "Big Brother", pelo que por isso, aliado a todas as polémicas, não se avançou para mais edições.

Aliás, hoje em dia, serão muitos poucos que se lembram dos nomes dos concorrentes, além da Margarida de Borba. A grande maioria deles regressou alegremente ao anonimato depois do final do programa e só alguns foram vistos no pequeno ecrã posteriormente. Sofia Borges foi concorrente na rubrica "Vou Ser Uma Estrela" do programa "SIC 10 Horas" que foi ganha pela futura concorrente dos Ídolos, Raquel Guerra. Reparei em Francisco Véstia no papel de um dos vilões num dos episódios da série "Uma Aventura" e em 2007, quando foi finalista do casting para o novo apresentador da MTV que viria a ser ganho por Ana Luísa Barbosa. E o vencedor Hoji Fortuna dedicou-se à representação, tendo sido visto em "Os Malucos Do Riso" e em pequenos papéis em telenovelas ("Morangos Com Açúcar", "A Outra", "Fascínios") e desde 2008 que prossegue a sua carreira de actor nos Estados Unidos.



Excertos do programa:




ACTUALIZAÇÃO: Entretanto descobri este vídeo onde Lili Caneças, a propósito do 20.º aniversário da SIC, fala da sua participação em "O Bar Da TV" com imagens não só do episódio da Margarida e seus pais, mas também o do vibrador.


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4 comentários:

  1. Lembro-me do Hoji aparecer na série Pan Am - http://www.imdb.com/name/nm1533685/?ref_=fn_al_nm_1

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    1. Sim, aparece uma cena dele nessa série no vídeo deste texto com imagens do seu trabalho como actor.

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  2. Eu o que me lembro melhor é da polémica da Margarida com os pais. Não segui atentamente o programa, só me lembro de algumas coisas.

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  3. Esse episodio da Margarida foi aos 20 pontos de rating quase, explodiu

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