terça-feira, 3 de novembro de 2015

Jogo De Cartas (1989-1992)

por Paulo Neto

Um dos grandes nomes da representação nacional, Nicolau Breyner já há muito que era presença habitual nos programas da RTP quer em programas de humor como "Nicolau No País Das Maravilhas" e "Eu Show Nico", quer em telenovelas como "Vila Faia" e "Origens" ou séries como "Os Homens da Segurança". Mas em 1989, Nicolau Breyner conduziu aquele que ainda é hoje é o seu trabalho mais recordado como apresentador. "Jogo De Cartas", uma adaptação do original americano "Card Sharks", estreou na RTP a 18 de Setembro de 1989 no horário antes do Telejornal e esteve um ano no ar, sendo substituído por "A Roda Da Sorte".





Em cada programa, dois concorrentes competiam para chegar à fase final. Alternadamente, um dos concorrentes tinha de adivinhar a percentagem das pessoas que respondiam afirmativamente a uma pergunta feita por sondagem telefónica e o outro teria de dizer se achava que o número era maior ou menor. O concorrente que acertasse o palpite avançaria no jogo de cartas propriamente dito que consistia em tentar adivinhar se a carta virada teria um valor maior ou menor do que a carta que estava exposta ao lado, dizendo "para cima" ou "para baixo". 


Nesta fase, era habitual a assistência bradar bem alto "para cima" e "para baixo" para ajudar (ou confundir) o concorrente e quando o palpite estava certo, Nicolau exclamava quase em grito de guerra: "PARA CIMAAAAA!" "PARA BAIXOOOO". Foi aliás um dos primeiros concursos com uma extremamente activa interacção entre apresentador e a assistência (apesar de só no último programa é que os membros dela apareceram filmados). Se o concorrente falhasse o palpite, a oportunidade passava para o adversário e repetia-se o processo. Cada ronda de jogo continuava até que um dos concorrentes conseguisse acertar cinco vezes no valor da carta seguinte ou decidisse parar o jogo, para responder a uma nova pergunta de sondagem e, caso ganhasse, ter a oportunidade de substituir a carta em jogo.
Aqueles que nos primórdios da SIC viram o "Água Na Boca" decerto notaram as semelhanças entre este jogo e um dos jogos desse programa, o "Frio Ou Quente" (ou "Fredo / Caldo") que em vez de cartas de jogar tinham fotos com moçoilas com mais ou menos roupa.

Os concorrentes convertiam os pontos alcançados em contos de escudos, suponho que em compras nas Lojas Singer, então patrocinador de tudo o que era concurso. O concorrente com mais pontos acumulados seguia para a segunda fase onde apostaria o dinheiro alcançado bem como mais algum que Nicolau Breyner lhe adicionava em cada palpite sobre se a carta seguinte fosse "para cima" ou "para baixo", ganhando o dinheiro que restasse ao fim de dez apostas-palpites. No final, teria a oportunidade de ganhar um automóvel se respondesse correctamente a uma pergunta de cultura geral. Caso errasse, transitava para o programa seguinte, podendo participar num máximo de três programas consecutivos.



Outras presenças míticas eram das assistentes eram as assistentes do programa, Felipa Garnel e Maria João Lopes, que Nicolau Breyner tratava por Pipinha e Janeca. Havia um gag recorrente em que Nicolau fingia zangar-se com elas caso as cartas que elas traziam para trocar durante o jogo eram pouco favoráveis. Pelo contrário se Felipa Garnel trazia uma carta mais apetecível, era certo e sabido que Nicolau exclamaria "PIPINHAAA!". Se este foi o único momento de notoriedade de Maria João "Janeca" Lopes, os mais atentos já tinham visto Felipa Garnel em "Os Homens Da Segurança", tendo depois colaborado de novo com Nicolau Breyner em "Euronico" (onde por exemplo representou a Dinamarca nos sketches do Mercado Comum) e posteriormente apresentado programas na SIC como "Mundo VIP" e "Confiança Cega".  

O site Brinca Brincando (de onde provêm todas as imagens deste texto) recorda alguns momentos insólitos do programa: uma concorrente que delirou com um berbequim por ser, segundo ela, um electrodoméstico que muito apreciava; outra concorrente que implorou a Nicolau Breyner por mais pontos, certa de que assim receberia mais do que aqueles que Nico atribuía a todos os concorrentes na segunda fase; e um programa em Nicolau Breyner apresentou sempre de óculos escuros, após o aval da assistência no início do programa.




Após um ano de interregno, "Jogo De Cartas" voltaria à RTP na rentrée de 1991, desta vez no horário da manhã, com gravações nos estúdios do Porto e apresentação de Serenella Andrade. As assistentes eram Marta Leal, Patrícia Pereira e Patrícia Bonneville, sendo que uma das Patrícias era tratada por Paty. Mesmo sem o sucesso da edição apresentada por Nicolau Breyner, também esta edição conseguiu um público cativo e manteve o hábito de interacção com a animada assistência. Esta reedição esteve no ar entre Setembro de 1991 e Julho de 1992. 

Apesar da sua simplicidade, "Jogo De Cartas", sobretudo na era Nicolau Breyner, foi um concurso que teve bastante sucesso, com também os telespectadores de todas as idades a quererem dar o seu palpite nas suas casas e a exclamar "Para cima!" ou "Para baixo!". Como o concurso também era perfeitamente fácil de reproduzir em casa com cartas normais, lembro-me de fazer algumas recriações com os meus primos. Inclusivamente, essas brincadeiras tinham direito a uma Janeca residente, já que uma das minhas primas chama-se Maria João. (Curiosamente também tenho uma prima chamada Filipa mas na altura era pequena demais para fazer de Pipinha.)
Até então, tinham sido raros os concursos estrangeiros adaptados para Portugal, pelo que certamente o sucesso de "Jogo de Cartas" foi um dos factores do boom de concursos na programação da RTP nos anos seguintes, como "A Roda Da Sorte", "Casa Cheia", " O Preço Certo", "Palavra Puxa Palavra", "O Trevo Da Sorte" e "Entre Famílias", a maioria deles também adaptados de originais americanos. Infelizmente não existem imagens do programa no YouTube.

Em 2007, no programa da RTP "Superconcurso", dedicado aos concursos exibidos na história da RTP, uma das emissões foi dedicado ao "Jogo De Cartas" com depoimentos de Nicolau Breyner, Serenella Andrade, Felipa Garnel e Maria João Lopes.

Maria João Lopes, a Janeca, em 2007

       

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5 comentários:

  1. Por acaso, gostaria de ver um dia destes esse concurso. Ouvi falar muito dele, e lembro-me de ver o "Superconcurso" do Jorge Gabriel, e fiquei fascinado com o jogo.
    Pelo que eu vejo, foi assim que começou a avalanche de concursos de excelência que a RTP passou a transmitir, como é o caso do "Preço Certo", ainda em escudos e sem o grande Fernando Mendes, da épica "Casa Cheia" do Carlos Ribeiro, e de outros tantos, que puseram a Nação Portuguesa a sonhar com uma esperança de vida e futuro melhores.

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    1. Infelizmente não há nada no Youtube. Sim, recordo-me desses tempos em que não só havia concursos na televisão, como qualquer grande empresa lançava aqueles concursos tipo "envie um rótulo da embalagem" pelo correio, onde quase inevitavelmente havia a possibilidade de ganhar um automóvel e toneladas de electrodomésticos.
      Eu recordo-me muito bem do sucesso da primeira temporada do Preço Certo do Carlos Cruz (longe de Portugal imaginar onde ele iria parar anos mais tarde). O Nicolau Breyner depois substituiu-o nas duas temporadas seguintes mas não teve tanto sucesso e o concurso só regressou com a chegada do euro. E para mim a melhor fase da Casa Cheia ainda foi a do Fernando Pereira.

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    2. Por acaso, infelizmente nunca vi a fase do Fernando Pereira, mas não duvido da sua opinião. Sòmente lembro-me de ver o Carlos Ribeiro a apresentar o concurso, aos anos que isto já foi, tinha eu os meus 3 anos de idade.

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  2. Xiiii, já não me lembrava disto.. obrigado :-)

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    1. De nada. É para que a Patrícia e toda a gente tenha estas recordações que este blog existe.

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