sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Ferrero Rocher (1990-)

por Paulo Neto

Cada vez mais parece que o mês de Novembro é uma antecâmara para tudo o que acontece no mês de Dezembro. Não fosse o dia de Todos Os Santos (actualmente desprovido do estatuto de feriado) e o São Martinho e dir-se-ia que Novembro era um mês desprovido de identidade própria em Portugal e que os últimos dois meses do ano era como que um mega-mês ininterrupto. Ainda sou do tempo em que só mesmo no início de Dezembro, quando muito nos últimos dias de Novembro, é que começava a overdose de anúncios natalícios da televisão e tudo o mais relacionado com a quadra. Hoje em dia, é certo em sabido que mal começa Novembro, já vamos ter esse bombardeamento.

Este ano, não é excepção, por entre os novos anúncios da Popota e outras prematuras promoções natalícias, temos os anúncios aos chocolates e bombons com que nós alegremente enchemos o bandulho todos os anos por esta quadra. No entanto, foi com alguma admiração que descobri que a chocolateira Ferrero comemora este ano os 25 anos em Portugal daquela que é a sua piéce-de-resistance: os bombons Ferrero Rocher.

Pois foi nos idos de 1990 que o Ferrero Rocher surgiu em Portugal (surgiu originalmente em Itália em 1982). A chocolateira italiana já tinha uns anos antes conquistado o mercado infantil com os ovos Kinder Surpresa e preparava-se para vencer no mercado adulto (que não é nada menos guloso que o infantil). Se não estou em erro, o Mon Chéri já cá andava por estas bandas um ou dois anos antes, mas embora também seja uma marca muito apreciada e cumpra funcionalidades semelhantes, nunca teve a unanimidade do Ferrero Rocher.



Assim que chegou a Portugal, o Ferrero Rocher venceu pela sua combinação magistral de simplicidade, elegância e gulodice. A saborosa bola composta por uma rugosa carapaça de chocolate e avelã e uma fina camada de wafer que esconde uma pasta de chocolate e praliné e uma avelã inteira. Tudo isto envolvido num chamativo papel prata de cor dourada com um pequeno autocolante com o logótipo e uma forma em papel castanho. (Gostava de saber se mais alguém além de mim também gosta volta e meia de comer a carapaça de modo a manter a camada seguinte de wafer mais ou menos intacta e só então comer o resto, ou de arrancar à dentada aquele restinho de cola que fica na forma castanho depois de descolarmos o papel dourado. Não devo ser o único, certo?)



Não tardou portanto a ser uma dos mais recorrentes presentes de Natal, fosse na semítica caixinha com apenas três bombons, fosse nas opulentas caixas maiores, nomeadamente aquela em forma de pirâmide. Até porque uma caixa de Ferrero Rocher, fosse qual fosse, era sempre uma boa solução para prendas de última hora ou para aquelas pessoas a quem não ligamos muito mas que não obstante às quais se quer obsequiar. Tal era o apelo à gula que os bombons inspiravam, que mesmo os receptores das prendas que punham aquele ar ofendido de "Que falta de imaginação! Vê-se mesmo que compraste isto à última da hora" ou "Vê-se logo que não queres saber pêva de mim!" não se chateavam por aí além pois o rancor ficava adoçado ao primeiro bombom degustado. E assim tem sido de há 25 anos para cá.
Para aumentar a mística, existe ainda a política da Ferrero em vários países, Portugal incluído, de só se vender Ferrero Rocher no Inverno, com a explicação de que o tempo mais quente afecta a qualidade do chocolate. Porém, em países como os Estados Unidos e o México, os bombons vendem-se durante todo o ano. 


Mas claro está, outra imagem de marca são os anúncios televisivos protagonizados por um elegantíssima senhora de chapéu e vestido da cor do invólucro dos bombons e um motorista entradote e bonacheirão de nome Ambrósio. O primeiro deles, que creio que foi exibido pela primeira vez cá em 1992, com as duas personagens numa limusina, é tão mítico e duradouro que não há tuga que o saiba de trás para à frente os diálogos (com as vozes de Canto e Castro e Fernanda Figueiredo).


- Ambrósio, apetecia-me algo.
- Paramos para a senhora comer alguma coisa?
- Não. É que eu queria algo...bom.
- Compreendo, senhora.
- Apetecia-me Ferrero Rocher.
- Tomei a liberdade de pensar nisso, senhora.
(Abre-se uma portinhola na limusina de onde surge uma pirâmide de Ferrero Rocher).
- Oh, bravo, Ambrósio!

O anúncio teve algumas variantes como a da senhora a ter o seu retrato pintado ou no meio de um leilão. O próprio anúncio da limusina (sem dúvida o mais mítico anúncio a chocolates exibido em Portugal desde o lendário anúncio das Fantasias de Natal) teve algumas variações, como um acrescentar na voz da senhora: "Este Natal/Páscoa vou oferecer Ferrero Rocher a todos os meus amigos" ou "Lês sempre o meu pensamento."

E se na versão portuguesa, as mentes mais perversas conseguem apontar alguma marotice na conversa entre a madame e o chauffeur, a versão espanhola, se só se ouvir o audio, soa a um preâmbulo a um daqueles filmes dobrados em espanhol para o Canal Íntimo. E mesmo sabendo que a palavra "exquisito" quer dizer requintado em espanhol, tal vocábulo não deixa de soar...esquisito neste contexto.



A versão original dos anúncios é a italiana. No YouTube, existe um video que recompila todas as versões gravadas pelos actores, a senhora e o Ambrósio (aliás, Ambrogio), algumas inéditas por cá e que mostram que o Ambrósio/Ambrogio tinha pratadas de Ferrero Rocher nos mais diversos esconderijos prontos a satisfazer a gulodice da patroa.


Descobri entretanto que os actores dos anúncios são Lee Skelton, uma ex-modelo nascida em 1958 em New Jersey radicada há muitos anos em Itália, e Paul Williamson, um actor inglês nascido em 1929, que entrou em filmes como "O Turista Acidental" e "Emma" e em séries como "O Santo" e "A Minha Família".
Lee Skelton, a Madame do Ferrero Rocher na actualidade

Com ou sem Ambrósios na televisão, o certo é que Ferrero Rocher vai continuar a adoçar muitas quadras natalícias, em Portugal e não só.

    

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2 comentários:

  1. "Gostava de saber se mais alguém além de mim também gosta volta e meia de comer a carapaça de modo a manter a camada seguinte de wafer mais ou menos intacta e só então comer o resto" Definitivamente não era o único a fazer isso. Agora que penso nisso,acho que no meu caso isso tratava-se apenas de uma desculpa para comer mais chocolates ate conseguir separar todas as camadas. Este artigo foi um banho de nostalgia. Muito bom. Abraço

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    1. Muito obrigado pelas suas palavras, Pedro.

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