sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Dilogia trágico-amorosa de Mónica Sintra (1998-99)

por Paulo Neto 

Mónica Alexandra Correia Cachopo nasceu a 10 de Junho de 1978 em Lisboa, tendo adoptado como stagename o nome da cidade onde cresceu, Sintra. Embora inserida na gaveta da música pimba, muito por culpa da temática dos dois temas que analisamos hoje, Mónica Sintra foi sempre um caso atípico dentro do género, já que raramente foi vista a usar roupas demasiado reveladoras ou em bamboleios frenéticos em palco, preferindo fazer-se notar pelas suas interpretações vocais e pelo seu repertório. E ainda bem porque, para ser sincero, até acho que Mónica Sintra não é de todo má cantora. No entanto, o momento mais decisivo da sua carreira e que a tornou um nome conhecido junto do grande público é indubitavelmente também o mais cromo. Se como já vimos, ainda hoje o repertório de Ágata é sobretudo lembrado através da sua histórica trilogia trágico-conjugal, os dois grandes hits de Mónica Sintra compõem uma dilogia trágico-amorosa: "Afinal Havia Outra" e "Na Minha Cama Com Ela", as faixas-título dos seus álbuns de 1998 e 1999 respectivamente. Isto apesar de ter outros êxitos ao longo de uma carreira que se mantém solida até aos dias de hoje.    



Além de ter integrado em 1992 o grupo Jovens Cantores de Lisboa dirigido por Ana Faria e de já ter dois álbuns em nome próprio - "Tu És O Meu Herói" de 1995 e "Bola de Cristal" de 1997 - a afirmação de Mónica Sintra deu-se em 1998 com o seu terceiro álbum e a faixa que dava nome ao disco, "Afinal Havia Outra". Mas cá para mim, a canção devia chamar-se "Afinal Eu Era A Outra", pois nela Mónica Sintra cantava a sua desilusão ao descobrir, ao fim de ignorar os vários alertas que a preveniram de tal, que o seu amado era um aparentemente respeitável marido e pai de família e que a relação entre ambos era um part-time afectivo extra-conjugal.


Não consegui encontrar o videoclip no YouTube mas recordo-me de uma cena em que Mónica observava escondida o seu amásio a sair do carro com a sua legítima a dar-lhe o braço e duas crianças a brincarem com uma bola. O povo logo trauteava o refrão: "Afinal havia outra/ E eu sem nada saber, sorria/ E por ele andava louca/ P'ra ser sua mulher um dia/ Afinal havia outra/ Uma família, um lar, uma casa/ E eu era no fim de contas/O amor das horas vagas." e o disco vendeu-se que nem pãezinhos quentes, chegando à dupla platina. Eu até me lembro de ouvir uma personagem a cantar esse refrão na dobragem portuguesa da série animada "Life With Louie" que passava na altura na SIC.  



Em 2006, o tema voltou a ganhar destaque no programa dos Gato Fedorento "Diz Que É Uma Espécie de Magazine", quando David Fonseca cantou uma versão com tradução literal em inglês, provando como cantavam os Clã, "a língua inglesa fica sempre bem". Meses mais tarde, num concerto do David Fonseca na minha cidade, este confessou que teve um sonho em que ao cantar num concerto essa versão,  Mónica Sintra surgia de surpresa em palco e os dois terminavam a canção em dueto - pelo que tinha evitado fazê-lo desde então.


Tal sonho nunca se materializou, mas em 2009, no programa "5 Para A Meia-Noite", Mónica Sintra devolveu o favor a David Fonseca cantando-lhe uma versão em português de um dos seus temas. 



Após o sucesso de "Afinal Havia Outra", o disco seguinte não se fez esperar e em 1999 o dito foi editado de seu título "Na Minha Cama Com Ela". Lembro-me de pensar, antes de ouvir a canção e julgando apenas pelo título, que seria sobre alguma experiência de Mónica Sintra nos prazeres sáficos, quiçá derivada da desilusão narrada no anterior opus musical. Mas na verdade, tratava-se de mais outro devastador conto de traição e desilusão amorosa, onde ela se via agora do outro lado da barricada: desta vez ela era a mulher legítima que se deparava com o seu cônjuge no leito conjugal com outra flausina, apanhando um trauma para toda a vida.


O videoclip era bem ilustrativo mostrando Mónica Sintra numa sessão de psicoterapia recordando em flashback imagens desse fatídico momento e de ela a conduzir desnorteada sem destino. No papel do macho adúltero estava João Lourenço, que viria mais tarde a participar na terceira edição do Big Brother. E uma vez mais, repetiu-se o sucesso de vendas e o refrão que ficaria na memória: "Na minha cama com ela/ Tu e ela no meu quarto/ Perdido nos braços dela/ Mesmo em frente ao meu retrato/Na minha cama com ela/ Tu e ela na loucura/ Perdido nos braços dela/ E muito mais que uma aventura/O teu corpo junto ao dela/Na minha cama com ela".






De entre as versões do tema, há que destacar a paródia "Na Minha Marquesa Com Ela", interpretado por Maria Rueff no sketch "Carnaval dos Hospitais" do "Herman SIC" e uma versão de Bruno Nogueira para o seu aclamado projecto musical "Deixem O Pimba Em Paz" (que recomendo vivamente ser visto em concerto). 

Embora sem repetir tais picos de sucesso, a carreira de Mónica Sintra continua bem activa. A cantora tem também dado a cara para apoiar algumas causas como a dos bombeiros, ocupação que exerceu paralelamente aos inícios da sua carreira musical, e a luta contra os distúrbios alimentares, tendo assumido ter sofrido de episódios de anorexia e bulimia a partir da adolescência, que relatou no livro "A Um Passo Do Abismo".    


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