sábado, 7 de fevereiro de 2015

Olhos de Água (2001)

por Paulo Neto

A TVI iniciou a sua ligação à teledramaturgia nacional logo no início das suas emissões em 1993 com a telenovela "Telhados de Vidro". Porém nos anos que seguiram, essa foi uma área pouco explorada pela estação de Queluz de Baixo, com poucas e honrosas excepções como a sitcom "Trapos & Companhia" (1994), até que em 1999 estreou "Todo o Tempo do Mundo", uma série com vários elementos de telenovela e um elenco all-star, que se tornou o prenúncio do que acabaria por se tornar uma das jóias da coroa do canal na viragem do século. Com alguma ajuda do fenómeno Big Brother, mas não só, "Jardins Proibidos" mostrou que as telenovelas nacionais podiam ombrear com as brasileiras da Globo, até então um dos bastiões do primetime da SIC. Mas o domínio chegaria em 2001, com "Olhos de Água", ainda hoje considerada uma das principais referências da produção de telenovelas nacionais. 



Da autoria de Tozé Martinho, Cristina Aguiar e Sarah Trigoso, "Olhos de Água" foi emitida entre 20 de Fevereiro e 6 de Outubro de 2001, num total de 180 episódios e contava a história do reencontro entre duas irmãs gémeas, ambas interpretadas por Sofia Alves.



Em 1975, as pequenas Leonor e Luísa vivem felizes em Moçambique, junto dos seus pais Sebastião e Jacinta. Mas durante as revoluções da independência de Moçambique, o casal da família é incendiado e os quatro são tragicamente separados. Resgatada pelo fiel jardineiro Tibane (Daniel Martinho), Luísa é levada para Lisboa onde será criada pela família materna. Por seu turno, Leonor é levada para Portugal por Angelina Serra (Cremilda Gil) e o seu marido, um casal de retornados com dificuldades em ter filhos que a criam como sua filha numa aldeia da Serra da Lousã.

Em 2001, as gémeas têm agora 28 anos e praticamente esqueceram todo o seu passado em África. Luísa é agora a líder das empresas da família Negrão, tendo sido criada pela sua tia solteira Natália (Eunice Muñoz) e o seu tio viúvo Henrique (Sinde Filipe). Como estes lhe contaram que a sua mãe morrera após lhe dar a luz, não sabe que foi adoptada nem que tem uma irmã. Luísa é uma mulher ambiciosa, inteligente, perspicaz e um pouco altiva. No passado, num gesto de rebeldia casou-se com Duarte (António Pedro Cerdeira), um restaurador de arte, de quem teve uma filha, Margarida (Mafalda Luís de Castro). Porém, por influência da família de Luísa que nunca aceitou o casamento, a relação não vingou, deixando ressentimento de ambas as partes que só Margarida consegue apaziguar. Mas no fundo, por detrás da animosidade, Luísa e Duarte continuam apaixonados.

António Pedro Cerdeira (Duarte) e Sofia Alves (Luísa)
Mafalda Luís de Castro (Margarida)

Já Leonor levou uma vida humilde mas feliz no campo. Mesmo contra a vontade de Angelina, que pretende que ela case com Zé Maria (Joaquim Nicolau), um amigo e eterno apaixonado da rapariga, Leonor decide mudar-se para Lisboa, alugando um quarto na Ajuda, em casa da mecânica Anita (Sílvia Rizzo), que torna-se a sua nova melhor amiga. 
O primeiro sítio onde Leonor vai procurar emprego é precisamente na sede das empresas dirigidas por Luísa e as duas acabam por se cruzar, ficando estupefactas por encontrarem alguém tão idêntico a elas. A partir daí Luísa dispõe-se a encontrar essa rapariga tão igual a si, mas tal não será fácil até porque Henrique e Natália farão tudo para que a sobrinha não encontre a irmã. 

Sílvia Rizzo (Anita), Sofia Alves (Leonor) e Ruy de Carvalho (Joaquim)
Pedro Lima (Ricardo)

Entretanto, Leonor arranja emprego na lavandaria de Araújo (Orlando Costa) que, fascinado por ela, aproveita todas as ocasiões para a assediar, sendo só impedido pela outra empregada Celeste (Anita Guerreiro), que põe o patrão em sentido. Além de Anita e Celeste, Leonor também trava amizade com vários habitantes do bairro, como Joaquim (Ruy de Carvalho), o dono da taberna onde várias personagens se reunem e Ernesto (Henrique Marques), um jovem órfão. Além de Araújo, também Duarte fica interessado em Leonor, ao rever nela uma versão mais amável de Luísa) e Zé Maria, por sugestão de Angelina, também vem para Lisboa na tentativa de a convencer a casar com ele. Mas quem acaba por conquistar Leonor é Ricardo (Pedro Lima), um advogado amigo de Duarte. Só que Ricardo é um homem mulherengo e mesmo amando verdadeiramente Leonor, não consegue deixar os seus hábitos de conquistador, para desilusão da rapariga.

As gémeas acabam por-se reencontrar numa altura em que ambas estão grávidas, Leonor de Ricardo e Luísa de uma breve reconciliação com Duarte (inicialmente só Leonor é que ficaria grávida, mas os autores tiveram que engravidar as duas porque Sofia Alves engravidou na vida real). Apesar de todas as diferenças, as duas tornam-se bastante unidas e ajudam-se mutuamente, sobretudo quando Luísa sofre uma doença renal e Leonor terá de lhe doar um rim. 

Manuel Cavaco (Sebastião "Bicas")

No final, além de ficarem felizes junto de Duarte e Ricardo e respectivos filhos, as duas irmãs reencontram os seus pais. Descobrem que o seu pai é Bicas (Manuel Cavaco), um sem-abrigo atormentado pela perda sua família em África, que é ajudado por Joana (Rita Salema), uma prima de Luísa, e pelo padre Carlos (Tozé Martinho), e que a mãe delas, Jacinta (Guida Maria), tornou-se freira e vive num convento.
Fernando Cabral, concorrente do Big Brother 2, viria a ter o papel de Samuel

Do elenco também fizeram parte nomes como Estrela Novais, Guilherme Filipe, André Gago, Delfina Cruz, Nuno Távora, Nuno Homem de Sá, Tareka, Pedro Cunha, Adelaide João e Cucha Carvalheiro. De destacar ainda Fernando Cabral, um concorrente da segunda edição do "Big Brother" que tinha mostrado dotes para a representação, ao ponto que logo após a sua eliminação do programa, a TVI atribuiu-lhe um papel secundário na telenovela, o de Samuel, um fiscal das Finanças que vem averiguar as irregularidades de Joaquim mas que acaba por fazer vários amigos na zona. Além de contracenar com Ruy de Carvalho, a TVI terá mesmo pedido aos autores que o jovem tivesse também uma cena com Eunice Muñoz.

Com uma trama tipicamente novelesca mas bem escrita e boas interpretações do elenco, sobretudo de Sofia Alves e Manuel Cavaco, "Olhos de Água" foi um sucesso de audiências, cimentando a TVI como novo líder do horário nobre, mesmo sem a muleta do "Big Brother". A novela foi também exibida no Brasil na Rede Bandeirantes e já foi reposta duas vezes, a mais recente das quais a partir deste mês de Janeiro nas madrugadas da TVI.

Por fim, não há como não lembrar o principal tema da novela, interpretado de forma epicamente ensurdecedora emotiva por Toy.



Duas vidas separadas pelo tempo
Dois destinos  numa história de amor
Duas lágrimas caindo no momento
Em que se acende a dor

Olhos de água, não deixam de sentir
Olhos de água, não podem desistir de procurar
O outro lado p'ra completar o sonho impossível de agarrar

A versão cantada por Toy surgia no genérico de abertura, mas no genérico final tocava a versão interpretada a meias pela sua irmã Leonor Ferrão e a cantora Ana Ritta (que também cantava um dos outros temas lacrimejantes da telenovela, aptamente intitulado "Estou Triste e Vou Chorar").


Excerto do 1.º episódio:


Excerto: 

                     

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