quarta-feira, 16 de julho de 2014

Herman Enciclopédia (1997-98)

por Paulo Neto

Depois de ter passado toda a primeira metade da década de 90 a desdobrar-se na apresentação entre os concursos "Parabéns", "A Roda da Sorte" e "Com a Verdade M'Enganas" (sic) e depois de uma revisão da carreira no programa Herman Total em 1996 (no qual foram exibidos os dois últimos episódios de "Humor de Perdição", que na altura não foram para o ar devido a uma suspensão abrupta do programa), Herman José estava pronto a demonstrar mais uma vez que era o rei do humor nacional. E em 1997, regressou com mais um programa que marcou toda uma época: "Herman Enciclopédia". Foram duas temporadas, exibidas na RTP entre 1997 e 1998, que deixaram um sem-fim de skteches e personagens míticas.


O programa era uma espécie de "enciclopédia virtual" onde a cada episódio se analisava um tema que dava a azo a uma quantidade de sketches: "Portugal", "Homem/Mulher", "Grandes Tragédias". Foi também aqui que a empresa Produções Fictícias, encabeçada por Nuno Artur Silva,  revelou-se um viveiro de novos talentos na escrita humorística, revelando nomes como Nuno Markl e João Quadros. No elenco fixo do programa estavam Maria Rueff, José Pedro Gomes, Miguel Guilherme, Joaquim Monchique, Lídia Franco, Cristina Cavalinhos e Alice Pires





Uma das rábulas recorrentes era que envolvia um grupo de ferrenhos tripeiros furiosos com a Expo 98 ir ter lugar em Lisboa, preparam secretamente a "Expo Nobenta e Seite" para envergonhar os "mouros". São eles o Engenheiro Paços de Ferreira (Herman), o Dr. Mega Ribeira (Gomes), Dra. Antonieta Antas Afonso (Rueff) e Arquitecto Jorge Towney (Guilherme). Este último tinha a sua condição portuense constantemente questionada, sobretudo por Mega Ribeira que ao menor faux-pas, acusava: "ESTE HOMEM NUM É DO NORTE!" 



Igualmente inesquecível era a Melga Shop, que parodiava o universo das televendas. Em cada semana, o inventor Melga e o apresentador Mike apresentavam um novo e fabuloso (?) produto, sempre em dobragem devidamente fora de sincronia e repetindo amiúde: "Fantástico, Melga!" "Fantástico, Mike!" 




Com o ascendente interesse sobre a vida do jet-set nacional documentada na imprensa cor-de-rosa, impunha-se uma paródia às tias cá do burgo. E assim surgiu a "Supertia" Batata Prelada Capelo, na missão de tornar Portugal mais chique. Um dos episódios contou com a participação da tia-mor Lili Caneças, no papel de outra "super-heroína" que vem ajudar a Supertia quando é atingida por uma bola de golfe de marca branca (pois a "possidonite" era a kriptonite da Supertia). 



Na segunda temporada, a personagem do fadista Felisberto Desgraçado teve direito a uma telenovela, "Mãezinha, Não T'Apagues", onde o pobre Desgraçado sofria com o estado vegetativo da sua Mãezinha (Alice Pires) e o cancro da próstata da sua Felismina.



Os "Monólogos Secretos" acabaram por ser mais lendários que o programa que os inspirou ("Conversas Secretas"  programa de entrevistas conduzido por Baptista Bastos que passava na altura na SIC). Nestes sketches, Artista Bastos monopolizava as conversas entrevistava vários convidados, invariavelmente perguntando-lhes onde estavam no 25 de Abril.   



Lauro Dérmio apresentava o espaço cinematográfico, sempre com tradução simultânea de português para um diz-que-é-uma-espécie-de-inglês. No final, havia sempre oportunidade de vermos um trailer de um filme, ou como diria o próprio Lauro Dérmio, "Lesse luque éte da treila!". Um episódio marcante foi aquele em que Herman desmancha o sketch num incontrolável ataque de riso ao tentar dizer: "Não pirilamparás a mulher do próximo!" 





Mas claro está que os momentos mais lendários eram aqueles em que surgia o Diácono Remédios, que rapidamente se juntou ao rol das personagens mais míticas de Herman José, no mesmo pedestal dos José Estebes e da Maximiana. Na qualidade de provedor da Enciclopédia, acérrimo defensor da moral e dos bons costumes (e subtilmente anti-comunista), o Diácono não se fazia arrogado em interromper a emissão do programa sempre que entendia que o conteúdo dos "soquetes" resvalava para níveis pouco apropriados. Sempre proferindo o bordão: "O artista é um bom artista, não havia necessidade".




Mas para desgosto do Diácono, na segunda temporada apareceu a sua mãe, a Dra. Ruth Remédios, sexóloga credenciada e desinibida (inspirada na célebre sexóloga americana Ruth Westheimer), também ela com o seu bordão. "As opiniões são como as vaginas: cada tem a sua e quem quiser dá-la, dá-la." Certo? Certo.

Outros sketches inesquecíveis:

Diácono Remédios contra o baladeiro de intervenção ("eu gosto de panquecas, quecas, quecas...")




O Juiz Decide: Pai Natal contra Menino Jesus



O "Big Show Chique"



Herman Geographic - "O Português"
 

Direito de Antena - Os Partidos P.E.N.I.S e P.E.I.D.A.





  
  


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7 comentários:

  1. Confesso-me pouco apreciador do Herman (sempre com abuso da piadola sexual barata), mas reconheço que este programa foi, de facto, muito bem elaborado, com conteúdo, carisma e piada. Para mim, o melhor programa de sempre do Herman (menção honrosa para o Tal Canal, que também teve um ou outro squetch com algum valor). O artigo salienta bem as personagens mais carismáticas. Ainda me lembro de ver o episódio do (contagiante) ataque de riso do Lauro Dérmio. :)

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    1. Esse episódio foi épico. A minha fase menos favorita do Herman foi precisamente quando ele foi para a SIC, em que essas piadolas baratas foram elevadas ao cubo. Ou a minha noção de humor já tinha mudado na altura :) Mas dos programas mais antigos, que tenho revisto, esta Herman Enciclopédia continua a ser o meu favorito

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  2. HILARIANTE! Um programa em que Herman José usa todo o seu talento para fazer um dos melhores, e mais engraçados, programas de sempre.
    Gostei imenso dos gajos do "Puorto", e fartei-me de rir quando eles diziam "Este homem não é do norte caralho". E diziam o palavrão com quantos dentes tem na boca.
    Um humor descontraído, e despido de preconceitos, tal e qual como aprecio no Herman.
    Curiosidade: quando o Herman veio actuar na "Noite de São João" de Alcácer do Sal do ano corrente, muitas pessoas más cá da terra disseram mal do Herman até dizer chega! Falaram que ele já não é como era no "Tal Canal", e que era muito malcriado, pois disse palavrões à frente de crianças.
    Se vissem o "Herman Enciclopédia", diriam outra coisa bem diferente, e não trouxessem crianças para o espectáculo.
    Um dos melhores programas de sempre da TV, sem dúvida.

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  3. Ando há imenso a tentar lembrar-me onde vi esta cena...num dos sketches (que não me lembro se era do Herman Enciclopédia :s) ou era o Herman a esfregar as mãos na cara de outra personagem ou então estavam a esfregar as mãos na cara dele (não me consigo mesmo lembrar!) enquanto diziam "oh menino, oh menino" (mas com sotaque, tipo, meneino lol) - aliás, isto de esfregar as mãos na cara de alguém era recorrente no Herman (por exemplo, este: https://www.youtube.com/watch?v=ZEE9CawEwnw ). Penso que era uma situação dramática, do género alguém tinha morrido ou algo assim...sei que é um tiro no escuro, mas alguém se lembra disto??

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