terça-feira, 5 de junho de 2012

A Cor Púrpura (1985)

Olá a todos, chamo-me Paulo Neto. Alguns podem conhecer-me como o arquivista na página do Facebook da Caderneta de Cromos, que quando alguém publica mensagem, tipo "Já há cromo dos Kalkitos?", leva logo com um comentário meu a dizer "Sim, foi o cromo n.º 91, (29.1.2010) e vem no 1.º livro". Já agora, aproveito para dizer que não tenho a lista dos cromos gravada no cérebro, até o meu não dá para tanto.
De alguns tempos para cá, tenho colaborado com esta Enciclopédia e dado o valor positivo dado à minha contribuição, o David (Cine 31) fez-me o obséquio de me elevar a convidado especial do blogue, pelo que doravante posso escrever os meus textos directamente aqui, em vez de enviar por e-mail como o fiz até agora. Posto isto, vamos ao que interessa.
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Convencionou-se dizer que foi  com "A Lista de Schindler" (1993) que Steven Spielberg deixou de ser um ET e provou que também era capaz de realizar filmes sérios. Mas creio que tal já tinha sido provado oito anos antes quando chamou a si a realização de "A Cor Púrpura", uma adaptação do romance homónimo de Alice Walker, laureado com o prémio Pulitzer.

Decerto que o nome de Spielberg terá levantado alguns sobrolhos de desconfiança. O homem que andou a brincar aos tubarões e aos extra-terrestres iria transpor para filme um romance que pintava todo um fresco da realidade dos negros norte-americanos no Estados do Sul no início do século XX? Mas quando "A Cor Púrpura" finalmente estreou nos ecrãs, não restaram muitas dúvidas que Steven Spielberg cumprira a missão.




Ao longo de 154 minutos, o filme narra a história de Celie Harris (Whoopi Goldberg), como conseguiu encontrar o seu caminho e a sua voz num mundo onde parecia condenada a ter o seu espírito eternamente vergado. Vemo-la inicialmente em 1909 na Geórgia, com catorze anos, maltratada e abusada por aquele que chama de pai (só muito mais tarde, ela descobre que na verdade era seu padrasto), de quem tem dois filhos que lhe são prontamente retirados. Mais tarde, o padrasto força-lhe a casar com Albert Johnson (Danny Glover) um viúvo com mais posses e igualmente abusivo. Sob o jugo do homem com quem casou mas que a trata sobretudo como criada e escrava (nem sequer pode tratá-lo por outra forma que não por "Mister"), Celie sofre novos maus tratos e agressões que a tornam uma mulher apagada, acanhada e com vergonha até de sorrir. O seu único conforto é a sua irmã mais nova, Nettie (Akosua Busia), o único ser que lhe deu algum afecto ao longo da sua existência e que lhe ensinou a ler. Mas irritado com a cumplicidade das duas irmãs e frustrado por Nettie recusar os seus avanços, Albert força Nettie a ir-se embora e esconde as cartas que esta envia a Celie.


Os anos vão penosamente passando para Celie até ao dia em que Albert traz para casa, Shug Avery (Margaret Avery), uma cantora vivida e paixão antiga de Albert. Apesar de um primeiro encontro atribulado, Celie e Shug tornam-se grandes amigas. Shug vai incutindo confiança, afecto e amor-próprio em Celie e esta vai lentamente desabrochando.



Outra mulher que inspira Celie é Sofia (Oprah Winfrey) que se casa com Harpo (Willard Pugh), o filho de Albert. Tal como Celie, Sofia sofreu abusos ao longo de vida por parte dos homens, mas ao contrário da sogra, recusa-se a tolerar os maus tratos e nunca se faz rogada em dizer o que pensa. Esses traços da sua personalidade acabam por virar-se contra Sofia, ao fazer um rude comentário a Miss Millie (Dana Ivey), a mulher do Mayor, acabando envolvida numa cena de pancadaria onde esmurra o próprio Mayor em retaliação, pelo que acaba presa e severamente ferida. A uns anos na prisão, seguem-se outros a trabalhar como criada de Miss Millie, que acabam por envelhecer, desmoralizar e quase quebrar Sofia.


Quando Shug regressa, agora casada, ela ajuda Celie a descobrir as cartas de Nettie que Albert tinha escondido. Ficamos a saber que Nettie tem estado numa missão em África com o casal que adoptou os filhos de Celie, descrevendo nas cartas todas as suas aventuras na selva africana. Encorajada por descobrir que a irmã e os filhos aindam estão vivos, Celie encontra por fim as forças para enfrentar Albert e deixá-lo de vez. Desta vez, é Celie que inspira uma recém-libertada Sofia a voltar ao que era dantes.
Com um negócio de costura e uma casa herdada do seu verdadeiro pai, Celie é finalmente uma mulher feliz e dona do seu destino. E ainda não sabe que o seu reencontro com Nettie será facilitado pela pessoa mais improvável...



Apesar da sua duração, "A Cor Púrpura" é um filme que se vê bem sem se dar pelo tempo. É fácil envolver-se na história e encantar-se com todo o microcosmos retratado no filme (excelente a fotografia de Allen Davieu). Spielberg demonstrou pela primeira vez a sua capacidade de abordar temas sérios, medindo o sentimentalismo na dose certa e imprimindo o humor nos momentos apropriados. A adaptação foi tida como bastante fiel ao livro, com a principal diferença a opção de não tornar tão física a relação entre Celie e Shug (no romance, uma relação sexual entre as duas é abertamente descrita), de forma a ter uma classificação etária menos restringida.

Mas sem dúvida que o grande trunfo do filme são as interpretações. Na altura, seria difícil de imaginar que Whoopi Goldberg notabilizar-se-ia mais pela comédia e que Oprah Winfrey seria a rainha da televisão americana. Idem aspas para Danny Glover, que ainda não sabia que o seu papel mais mítico na saga "Arma Mortífera" ainda estava para vir. Margaret Avery tem aqui o papel da sua vida (originalmente rejeitado por Tina Turner). Como a principal personagem branca, deixando a dúvida sobre será uma mulher apenas ignorante, infantil e caprichosa mas não necessariamente cruel ou alguém que hipocritamente se diz progressiva face a questões raciais, o desempenho de Dana Ivey é igualmente marcante.
De referir também dois nomes conhecidos em papéis menores: Laurence Fishburne como um músico de blues e co-proprietário do speakeasy local e Rae Dawn Chong como Squeak, a namorada de Harpo durante a ausência de Sofia. Para rematar todo o projecto, a direcção musical esteve a cargo de Quincy Jones, sendo pois um dos raros filmes de Spielberg sem partitura de John Williams.

O único grande desaire de "A Cor Púprura" seria nos Óscares ao não conseguir nenhuma estatueta apesar das onze nomeações (incluindo Melhor Filme e para as actuações de Goldberg, Winfrey e Avery), compartilhando com "A Grande Decisão" o pouco invejado recorde de mais nomeações para um filme sem Óscares. Quanto a prémios, ficou-se pelo Globo de Ouro de Melhor Actriz de Drama para Whoopi Goldberg e o primeiro prémio do Sindicato dos Realizadores para Spielberg. Em 2007, "A Cor Púrpura" foi adaptada para uma peça musical, com produção executiva de Oprah Winfrey.

O Elenco de "A Cor Púrpura" em 2010

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1 comentário:

  1. Welcome to the team! :D

    Um filme que me surpreendeu muito, porque não costumo ser fã de dramas, mas este é muito bom!

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