terça-feira, 26 de abril de 2016

Desastre Nuclear de Chernobyl (1986)





26 de Abril de 1986. Uma data marcada em fogo atómico na memória colectiva do Mundo: o desastre nuclear de Chernobyl. Numa década em que a Guerra Fria ainda lançava a sua sombra de medo de uma eventual guerra nuclear, o que se passou em Chernobyl (ou Chernobil) foi a maior amostra - até ao momento, e excluindo os bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki décadas antes - do que poderia ser a ameaça atómica.





Classificado 7 na Escala Internacional de Acidentes Nucleares ( o topo da escala, tal como o mais recente acidente nuclear de Fukushima), tudo aconteceu durante uma experiência para testar a redução de potência nos reactores 3 e 4. Este teste contra as normas de segurança causou um mal funcionamento do reactor 4 e uma grande explosão de vapor que destruiu a cobertura de protecção, que conduziu a um incêndio, novas explosões e ao sobreaquecimento do reactor (mais de 2000ºC) que causou o temível derretimento nuclear. Durante a catástrofe, 31 pessoas morreram, mas ao longo dos anos contabilizam-se milhares de mortes e casos de cancro e deformidades causados pela radioactividade libertada para o ambiente, com gravíssimas consequências para os habitantes ( e os seus descendentes ) de Chernobyl, Pripyat (onde moravam os trabalhadores da Central Nuclear) e muitas vilas circundantes da então República Socialista Soviética da Ucrânia - actual Ucrânia - que são ainda hoje zonas desertas onde o fantasma da radioactividade está bem presente.



Na altura, o governo da União Soviética tentou abafar o caso, mas admitiu o que se passou quando outros países detectaram aumento de radioactividade na atmosfera. Nos dias seguintes, mais de uma centena de milhares de pessoas foram evacuadas.



As recordações deste desastre são daquelas inesquecíveis para quem viveu a época, como a tragédia do Challenger (link) por exemplo.


Um pormenor fascinante é que - excluindo a zona do reactor - a catástrofe é invisível ao olho humano que apenas pode captar o abandono dos edifícios (recheados dos pertences deixados para trás na pressa da evacuação) e áreas urbanas - envelhecidas por falta de manutenção e por acção da natureza - e não a nociva radioactividade e a sua contaminação, que deverão demorar vários séculos a desaparecer. 





Curiosamente, um artigo de 2016, por altura do 30º aniversário do acidente, revela que na Ucrânia o lobby a favor da energia nuclear ganha força. Parece que nem o testemunho das ruas vazias e doentes é suficiente para enterrar de vez a roleta russa...

A imprensa nacional, tal como a maioria do Mundo, só começou a falar do assunto alguns dias depois.
Naturalmente, uma das preocupações era se a radiação poderia alcançar e afectar Portugal.
Como hábito, clique sobre as imagens para as aumentar e facilitar a leitura:

Excerto da capa do "Diário de Lisboa" de 29 de Abril de 1986: "Acidente nuclear na URSS"

O desenvolvimento:



Excerto da capa do "Diário de Lisboa" de 30 de Abril de 1986: "Chernobyl: O maior acidente nuclear até hoje".
 A continuação na mesma edição adiantava que "poderão ter morrido cerca de duas mil pessoas".


Suplemento "Sete Ponto Sete" do "Diário de Lisboa" de 06 de Maio de 1986 com 3 páginas dedicadas ao desastre:






Como sempre, o leitor pode partilhar experiências, corrigir informações, ou deixar sugestões aqui nos comentários, ou no Facebook da Enciclopédia: "Enciclopédia de Cromos"Visite também o Tumblr: "Enciclopédia de Cromos - Tumblr".

sexta-feira, 22 de abril de 2016

A Tragédia de Hillsborough (1989)



A Tragédia de Hillsborough [15/04/1989] foi um dos maiores desastres mundiais relacionados com futebol, e o maior do género na Inglaterra. A tragédia saldou-se em 96 mortos e quase 800 feridos no Estádio Hillsborough, em Sheffield, durante o jogo Liverpool FC e Nottingham Forest. 

Na altura os relatórios oficiais apontavam a culpa dos esmagamentos para os comportamentos impróprios dos fãs, mas revisões recentes confirmam que a tragédia ocorreu por sobrelotação do estádio Hillsborough e falta de controle das autoridades para a impedir.

Uma descrição bastante detalhada de todos os acontecimentos e repercussões na Wikipédia: “Hillborough Disaster” (em inglês).

Uma pequena reportagem:



Um documentário da BBC (de 2014) "Hillsborough - How They Buried The Truth":

 Novamente recorro ao inestimável acervo online do "Diário de Lisboa" para conhecer a reacção da imprensa nacional da época:

Excerto da capa do "Diário de Lisboa" [17/04/1989]
 Além do obrigatório espaço na primeira capa, o "Diário de Lisboa" publicou um texto emotivo pela mão de Neves de Sousa: "Para onde vais, Futebol?"
"Diário de Lisboa" [17/04/1989]
"...subitamente, a festa futebolística transmudou-se para tragédia, o riso deu lugar às lagrimas, a alegria virou (em cada rosto) amargura e a mais forte das tristezas".
Podem clicar na foto acima para ler melhor, além dos poucos factos ainda conhecidos, Neves de Sousa comenta a violência, a rivalidade que transbordam dos campos de jogo para o quotidiano da sociedade. Um pouco de generalização, é certo, mas algumas das situações apontadas continuam relevantes na actualidade.




Texto original: "Mini-Cromos - A Tragédia de Hillsborough [15/04/1989]".

Como sempre, o leitor pode partilhar experiências, corrigir informações, ou deixar sugestões aqui nos comentários, ou no Facebook da Enciclopédia: "Enciclopédia de Cromos"Visite também o Tumblr: "Enciclopédia de Cromos - Tumblr".

"Freed From Desire" Gala (1996)

por Paulo Neto

O euro-dance reinou em força nos anos 90 e a Itália era uma das potências desse género. E foi precisamente de terras transalpinas que em 1996 surgiu mais um grande hit que reinou nas pistas de dança por essa Europa fora, interpretado por uma cantora milanesa cujo nome parecia indiciar uma carreira artística.



Gala Rizzatto nasceu em Milão a 6 de Setembro de 1972. Os seus pais deram-lhe esse nome em homenagem a Gala Dalí, (de seu verdadeiro nome Elena Diakonova) que fora esposa e musa do poeta Paul Éluard e do pintor Salvador Dalí. Por isso, não é de estranhar que Gala tenha tido inclinação para as artes, tendo deixado a Itália aos 17 anos para estudar numa escola de artes em Boston. Mais tarde, mudou-se para Nova Iorque onde trabalhou como fotógrafa e começou a interessar-se pela cultura  underground e das discotecas da Big Apple, onde começou por fazer uma perninha como cantora.

O seu primeiro single foi "Everyone Has Inside" que obteve algum sucesso em Itália e Espanha, mas foi o single seguinte que se tornou um êxito global. Reza a lenda que Gala gravou uma cassete demo para um DJ europeu em troca de uma fotografia e que uma das músicas dessa demo era "Freed From Desire".

Graças à poderosa batida house e ao "na na na na" irresistível de trautear, "Freed From Desire" não tardou a conquistar as pistas de dança e as tabelas de música por essa europa fora desde o seu lançamento em Outubro de 1996. No baile de Carnaval da minha escola no 11.º ano, foi a música mais tocada. O tema foi n.º 1 em França (onde vendeu mais de um milhão de exemplares) e Bélgica, e top 5 em diversos países. Apesar de ter sido tardiamente editado no Reino Unido em Julho de 1997, chegou ao n.º 2 do top e vendeu mais de 600 mil cópias em terras britânicas.


Mas apesar do sucesso do tema, a letra causou alguma confusão juntos dos ouvintes, já que a pronúncia inglesa de Gala deu azo a imensos mondegreens. Por exemplo, no repetido verso "He's got his strong beliefs", havia quem ouvisse "His God is Taiwanese", "He's got his trampoline" ou "He's got a strong police". E no refrão, quando Gala diz "mind and senses purified", eu pensava que era "my incense is purified" e há registos de quem achava que era "minus tension purifying", "minor senses Uruguay" ou "minor sex securified".



O single seguinte de Gala foi "Let A Boy Cry". Embora não tão potente na parte instrumental, o tema ganhava ao predecessor em termos de interpretação e melodia, já que não só a pronúncia de Gala era bem mais perceptível como a letra tinha uma mensagem importante. "Let A Boy Cry" falava sobre a heteronormatividade da sociedade e como muitos adolescentes sentem receio em expressar a sua atracção por pessoas do mesmo sexo e/ou ter comportamentos e interesses fora daqueles convencionados para o seu género, sob medo das represálias dos outros. Uma situação pela qual Gala, assumidamente bissexual, passou na sua juventude. O videoclip também veiculava essa mensagem. "Let A Boy Cry" foi mais um hit internacional para Gala, tendo sido n.º 1 em Itália, França e Bélgica.





Seguiu-se o single que acompanhou o lançamento do seu álbum, ambos intitulados "Come Into My Life". O single foi n.º 1 em Espanha e Itália. Uma das canções do álbum tinha a participação de Tonino Ballardo dos Gipsy Kings. Embora não tenha tido tanto sucesso como os anteriores, recordo-me também ouvir nas rádios nacionais o single final, "Suddenly". O disco valeu a Gala vários prémios como o de Melhor Artista Internacional no Midem de Cannes e de Cantora do Ano para a revista italiana "Musica e Dischi".




Gala nunca mais igualaria o sucesso alcançado nessa altura, mas continua ainda hoje a editar música como artista independente e a actuar um pouco por todo o mundo, além de também continuar a fazer alguns trabalhos de fotografia. Em 2009, lançou o segundo álbum "Tough Love" e em 2014, actuou durante os Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi, onde à luz das leis anti-LGBT da Rússia, fez questão de abrir o seu concerto com "Let A Boy Cry". Além disso, o seu maior hit "Freed From Desire", já teve algumas reedições com novas remisturas ao longo dos anos em 2003, 2008 e 2011. Gala também regravou uma versão acústica para o filme "Up For Love", com Jean Dujardin, a estrear este ano.  

Gala Rizzatto em 2012

Gala "The Beautiful" (2014)



          
  

terça-feira, 19 de abril de 2016

Roque E Role (1988-89)

por Paulo Neto

Nos anos 80, havia bastantes programas na RTP onde os cantores e bandas musicais da nossa praça apareciam para apresentar o seu repertório. Em 1988, no mítico espaço infanto-juvenil "Juventude e Família" conduzido pelo mítico Lecas, estreou o programa "Roque e Role" onde vários grupos e intérpretes nacionais não só actuavam diante de uma jovem plateia como respondiam às questões colocadas pelos jovens espectadores. 
Os dezoito programas foram todos gravados em 1987 mas o programa só estreou em Outubro de 1988. Os primeiros quinze programas foram exibidos em sábados consecutivos até Janeiro de 1989, os três últimos só foram para o ar alguns meses depois e de forma mais espaçada entre Julho e Setembro de 1989. O que explica que por exemplo, que nos programas dos Ministars e dos Onda Choc estes cantassem músicas de álbuns mais antigos quando já tinham editados discos mais recentes.

A maioria dos programas de "Roque e Role" estão disponíveis no YouTube, para as quais este artigo fornece um link.

1. Tó Sequeira: (link) No primeiro programa, o convidado era Tó Sequeira, um simpático senhor com um ainda mais simpático bigode que nos anos 80, era presença habitual em vários programas da RTP, incluindo infantis, como "Ora Agora Conto Eu". E é da sua autoria a definitiva versão nacional da clássica cantilena country "Singing Round The Mountain": o "Fui De Visita À Minha Marrocos", que aliás também deu título a uma famosa mini-série infantil da RTP de 1985, ainda hoje bastante recordada. Eu próprio já vi actuar Tó Sequeira ao vivo uma vez em 1992, mas desde então nunca mais soube dele. O que é feito de Tó Sequeira?     



2. Xutos & Pontapés: (link) o ano de 1987 tinha sido o ano de consagração dos Xutos que com o clássico álbum "Circo de Feras" agarraram o ceptro de maior banda rock nacional. Claro que neste programa não podiam faltar hits como "Contentores", "N'América", "Sou Bom" e sobretudo "A Minha Casinha".  



3. Ministars: (link) Os Ministars era um grupo infantil composto por membros do Coro Infantil de Santo Amaro de Oeiras que fazia versões de conhecidos temas internacionais. O projecto foi uma ideia de José Niza, adaptando para Portugal este conceito de grupo infantil originalmente criado na Holanda, também sob o nome de Ministars. O sucesso dos Ministars nacionais foi imediato junto de miúdos e graúdos. Quando o "Roque e Role" deles foi para o ar, já tinham editado o segundo álbum e estavam prestes a lançar o terceiro, mas no programa interpretaram canções do primeiro álbum, que incluíam versões de "Wake Me Up Before You Go-Go", "Life Is Live" ou "Rock Me Amadeus" que acabaram por ser tão míticas para a sua geração como os originais. Desse primeiro álbum também fazia parte "Cantar Em Português", uma espécie de canção-assinatura do grupo que era uma versão de "Love Is All", tema de 1976 da autoria de Roger Glover, cantado por Ronnie James Dio.  



4. Badaró: (link) Já falámos aqui sobre a vida de Manlio Hedair Badaró, o brasileiro que veio a Portugal para um espectáculo de uma companhia brasileiro e que por cá acabou por ficar até à sua morte em 2008, deixando muitos sucessos no teatro e televisão nacional. Na altura, Badaró teve muito sucesso com o programa "O Grande Pagode" onde recuperou a sua mítica personagem do Chinesinho Limpopó, que era co-apresentado por uma muito jovem mas já artisticamente activa Ana Malhoa. Chegou a ser editado depois um disco com as músicas desse programa, mas não sei se terão sido apresentadas nesta emissão do "Roque e Role".  


5. José Barata Moura: (link) este conhecido professor catedrático e futuro reitor da Universidade de Lisboa continuava a ser um ídolo da pequenada e por isso, foi mais uma oportunidade para ouvir temas bem conhecidos de José Barata Moura.


6. Raúl Indwipo: já então a única metade viva dos Duo Ouro Negro, Raúl Indwipo interpretou canções tanto dos tempos da parceria com Milo McMahon como do seu repertório a solo.



7. Carlos Paião: (link) este programa foi exibido a 26 de Novembro de 1988, precisamente três meses depois do trágico e cruelmente prematuro falecimento de Carlos Paião. Foi com grande emoção que muitos telespectadores puderam assistir a esta emissão (recordo-me da minha mãe até ter chorado) onde Carlos Paião interpretou temas tão célebres como "Cinderela" e "Marcha do Pião da Nicas" e até fez algumas brincadeiras envolvendo efeitos sonoros com dois dos pequenos membros da assistência.  

8. José Jorge Letria: Figura de proa do jornalismo e da poesia nacional, José Jorge Letria revisitou alguma da sua obra dedicada ao público infantil.


9. Carlos Alberto Vidal /Avô Cantigas: (link) Nesta emissão, Carlos Alberto Vidal respondeu às perguntas dos mini-espectadores como ele próprio mas interpretou as canções na pele do seu eterno avatar Avô Cantigas, onde não faltaram músicas do seu famoso álbum "Histórias do Corpo Humano" como "O Esqueleto Anacleto" e "O Cigarro e O Formigo".


10. Carlos Alberto Moniz:  (link) É conhecido o vasto repertório de Carlos Alberto Moniz para o público infantil. Esta emissão pode-se ouvir temas como "Jardim Zoológico da Pernas Para o Ar", "Olha o Céu Dentro do Chapéu" e "Uma História Ao Fim Do Dia".


11. Onda Choc: (link) Surgidos no mesmo ano dos Ministars, os Onda Choc formaram com aqueles durante anos a fio uma mítica dicotomia de grupos infantis que cantavam versões de êxitos internacionais. À data da exibição do programa já estavam a editar o quarto álbum "Na Minha Idade" mas aqui interpretaram faixas do segundo álbum "Namoro" com famosas versões de "Nothing's Gonna Stop Us Now", "Take My Breath Away", "Walk Like An Egyptian" e a famigerada versão de "La Bamba" que menciona a Ria de Aveiro.


12. Ana Faria: (link) Seguiu-se a mentora dos Onda Choc, Ana Faria que interpretou temas do seu célebre álbum "Brincando Aos Clássicos", com a colaboração do seu queijinho, perdão, filho mais novo Pedro. Uma emissão onde não faltou a famosa cantiga do Luís que queria ir a Paris.


13. Delfins: (link) Longe de imaginar o nível de sucesso que teriam na década seguinte, a banda de Miguel Ângelo apresentou alguns dos mais famosos hits dos seus primeiros anos como "A Baía de Cascais", a sua versão de "Canção do Engate" que se tornou tão mítica quanto o original de António Variações e "O Caminho da Felicidade", também conhecida como "forte como um leão", que viria a ser o título do multi-platinado álbum best of da banda.


14. Lena Coelho & Banda Sucesso / Afonsinhos do Condado: (link) Este foi o único programa com duas bandas diferentes. A Banda Sucesso foi o primeiro projecto pós-Doce de Lena Coelho, com uma imagem e presença em palco ainda mais arrojadas do que nas Doce, claramente influenciados pelos Transvision Vamp. Como a banda só editaria duas canções: "Fintas de Amor" e "Sucesso", o resto do programa foi ocupado pelos Afonsinhos Do Condado, onde não faltou o hit "A Salsa das Amoreiras". A página de Facebook do clube de fãs de Lena Coelho tem várias imagens da sua actuação neste programa.


15. Carlos Mendes: (link) o intérprete de "A Festa Da Vida" e "Amélia dos Olhos Doces" apresentou neste programa temas do seu famoso álbum infantil "Jardim Jaleco" de 1978.


16. Herman José: (link) Com o Herman, a diversão estava garantida nesta emissão onde revisitou alguns dos seus célebres hits como "A Cor do Teu Baton", "Serafim Saudade" e "Vamos Lá Cambada".


17. Radar Kadafi: (link) foi em 1987 que a banda lisboeta liderada por Luís Gravato fez-se notar no panorama musical nacional quando editou o seu único álbum "Prima Donna" que incluía o hit "40 graus à sombra"

18. Paulo de Carvalho: (link) O cantor de "E Depois Do Adeus" continuava a ter muito sucesso nos anos 80, graças aos álbuns "Desculpem Qualquer Coisinha" e "Um Homem Português", tendo sido interpretados neste programa músicas desses discos. No entanto, a emissão pecou pela ausência do grande hit "Os Meninos de Huambo". 


Vídeo de actuação dos Xutos & Pontapés "N'América"


Fotografias do site "Brinca Brincando"


sexta-feira, 15 de abril de 2016

Concurso TV Guia (1981)


Já há muito que não tínhamos um post sobre a famosa "TV Guia". Hoje um anúncio de uma página ao concursi "TV Guia" de 1981. Os prémios, sendo os anos 80 só podiam ser em grande. Não tão grande como um apartamento em Massamá, mas uma meia dúzia de viagens ao "Walt Disney World", perto de  Orlando nos EUA! Portanto o concurso contou com "o apoio da revista Mickey e Viagens Nascimento"

Publicidade retirada da revista Pato Donald Nº 3, de 1981. 
Uploader original desconhecido. Imagem Editada e Recuperada por Enciclopédia de Cromos.


Como sempre, o leitor pode partilhar experiências, corrigir informações, ou deixar sugestões aqui nos comentários, ou no Facebook da Enciclopédia: "Enciclopédia de Cromos"Visite também o Tumblr: "Enciclopédia de Cromos - Tumblr".

terça-feira, 12 de abril de 2016

Logótipo humano do Euro 2004 (1999)

por Paulo Neto

Dá para acreditar que daqui a dois meses vai começar o terceiro Europeu de futebol depois do Euro 2004? Ainda tenho bem presente toda a enorme antecipação vivida em Portugal nos anos anteriores ao início do "nosso" Euro (apenas comparável à da inauguração da Expo 98 e da passagem do milénio em tempos mais recentes) bem como o ambiente de euforia vivido ao longo do torneio. Claro que a festa acabou em tragédia grega e que depois vieram as passas do Algarve (e de Leiria, de Aveiro e tudo o mais), mas isso são outros quinhentos.



Em 1998, em plena Expo-euforia e vivendo um período de rara prosperidade onde era fácil de acreditar que estava a poucos passos de entrar no "clube dos ricos" e que o dinheiro surgia por geração espontânea, sem pensar se haveria alguma pesada factura a pagar algures no futuro, Portugal virava-se para a sua próxima oportunidade de afirmação internacional. E foi então que se decidiu apostar numa candidatura ao Campeonato Europeu de Futebol de 2004. Inicialmente até se tinha pensado numa candidatura conjunta com Espanha, mas com os nuestros hermanos a preferirem uma candidatura isolada, a Federação Portuguesa de Futebol decidiu avançar também com a sua própria candidatura. Além das duas candidaturas ibéricas, havia também uma candidatura conjunta de Áustria e Hungria. Mas cedo se percebeu que a verdadeira disputa iria ser ibérica, quase como uma batalha de Aljubarrota ou de um David luso contra um Golias espanhol.

As quatro caras principais da nossa candidatura ao Euro 2004 (pois...)

A candidatura de Portugal, - cujas principais figuras eram Gilberto Madaíl, o então presidente da FPF, Miranda Calha, o então Secretário de Estado do Desporto, José Sócrates (pois...), então Ministro Adjunto detendo a tutela do desporto e Carlos Cruz (pois...) - não se poupou a esforços, conseguindo por exemplo o apoio de figuras do futebol como Ronaldo, Pelé e Zidane. Mas aquele que foi tido um dos maiores trunfos da candidatura portuguesa foi o anúncio publicitário que foi filmado no dia 24 de Julho de 1999 no Estádio Nacional no Jamor, onde foi formado um enorme logótipo humano formado por mais de 34 mil pessoas de todo o país. E eu fui uma delas.



Infelizmente não tenho fotografias desse dia, pelo que tudo o que tenho são as memórias a serem escritas neste texto.




No Verão de 1999, eu tinha dezanove anos e estava nas férias após o meu primeiro ano universitário. Já sabia da iniciativa do logótipo humano através da comunicação social e estava interessado em participar. Soube que em Torres Novas, as inscrições eram na antiga biblioteca municipal e fui lá inscrever-me. Passados dias recebi a acreditação para entrar no estádio com alguns vales para trocar por produtos dos patrocinadores do evento (por exemplo gelados Olá, pastilhas Max Air, latas de Coca-Cola) e a informação com os horários da viagem. Também vinha um texto, "O Diário do Tiago", com um relato ficcionado do que aconteceria nesse dia. Vinha ainda indicado que eu ficaria na fila 7 do logótipo, ou seja, seria dos que ficaria mais à esquerda.
Nesse sábado, éramos cerca de cinquenta em Torres Novas para irmos até ao Jamor. Fomos de camioneta até ao Entroncamento para apanharmos o comboio até à Gare do Oriente, apanhando aí um dos autocarros da Carris disponibilizados para o efeito até ao Jamor. Dos torrejanos que foram comigo, eu só conhecia uma rapariga chamada Virgínia, que conhecia do secundário e por isso, fiquei junto ao grupo dela durante quase todo o dia.




Ao longo da tarde, enquanto todos os participantes se juntavam nas bancadas do Estádio Nacional antes de serem chamados ao relvado para formar ao logótipo, várias bandas nacionais actuaram num palco montado para o efeito. Recordo-me de que, quando estava a entrar no Estádio (onde por acaso nunca tinha estado antes), os Entre Aspas estavam em palco a cantar o seu hit da altura, "Esqueci o Nome das Coisas". Sei que estavam muitas das bandas nacionais mais populares da altura (por exemplo André Sardet, Black Company e os D'Arrasar), mas além dos Entre Aspas, só me recordo dos Pólo Norte, dos Hands On Approach que actuaram já depois do logótipo ter sido formado, e dos Excesso que durante a sua actuação o Estádio inteiro rompeu numa berraria, metade (maioritariamente feminina) a gritar de júbilo, metade (maioritariamente masculina) a vaiar e a gritar mimos que me abstenho de reproduzir.
Embora ocasionalmente eu prestasse atenção às actuações musicais, esse período dentro do estádio estava a ser um bocado secante. Como se sabe, as bancadas do Estádio Nacional não são nada confortáveis, além de que o recinto oferecia pouco abrigo ao enorme calor daquela tarde. E ainda bem que vim bem servido de sandes e bebidas, pois se fosse só a contar com aquilo que podia ir trocar no estádio com os vales da acreditação, tinha passado fome. Por exemplo, eu pensava que a Olá tinha disponibilizado vários tipos de gelados, mas afinal o único que estavam a dar era o Magnum de menta.

Até que chegou a hora de ir para o relvado formar o logótipo, que como se sabe tinha o desenho de um jogador. Consoante a sua posição, cada um recebia uma espécie de poncho com capuz, do mesmo material de uma T-shirt, de cor branca, preta, vermelha ou verde que tinham à frente impresso uma miniatura do logótipo. Eu fiquei com um branco. No entanto, primeiro que tudo ficasse composto foi mais uma seca. Pelo ecrã gigante, via-se que havia alguns buracos por preencher, bem como uma mão cheia de gente que continuava nas bancadas recusando-se a descer ao relvado (afinal tinham ido lá para quê?). Os membros da organização convenceram quem estava no  relvado a vaiar essas pessoas. 
O calor continuava tão abrasador que os bombeiros lançavam mangueiras de água sobre nós.





Finalmente, com alguns membros da organização e voluntários (e até Eusébio e o primeiro-ministro António Guterres) também a juntarem-se à moldura humana, o logótipo lá se compôs, ainda meio manhoso, mas nada que não se corrigisse em pós-produção. E o grande momento chegou: Ana Matias, a conhecida expert de marketing desportivo, lançou a deixa para que todos gritassem a uma só voz: "Portugal, we love football!". Após três gritos em uníssono, uns ginastas estrategicamente colocados por entre a multidão executaram a manobra previamente ensaiada de fazer mover a perna do jogador, tipo desenho animado, para fazer chutar na bola. E aí, a bola gigante colocada no canto inferior esquerdo do relvado abriu-se, soltando muitos balões vermelhos e verdes. Por fim, tocou o hino nacional que todos cantámos a uma só voz e esse foi para mim o momento mais emotivo. Para terminar, o célebre rocketman da cerimónia dos Jogos Olímpicos de 1984 sobrevoou o campo. 

Quando por fim houve ordem para dispersar, resolvi ficar no relvado para assistir à actuação dos Hands On Approach, que na altura faziam sucesso com os seus hits "My Wonder Moon" e "Silent Speech". Ao som deste último, vi-me a fazer parte de um comboio humano que se movimentou ao longo do relvado. A alegria de ter feito parte daquele acontecimento era geral.  
Como ao sair do estádio, perdi-me da Virgínia e dos outros, acabei por entrar no primeiro autocarro da Carris que encontrei de volta à Gare do Oriente. E vi-me no meio de um grupo de malta do Norte que passou todo o percurso em cânticos de louvor ao FCP e a Pinto de Costa e de, digamos, escárnio a Lisboa e ao Benfica e eu só pensava que estaria em apuros se algo em mim revelasse o meu benfiquismo. Até me preparei mentalmente para dizer que era da Académica de Coimbra, caso algum deles me questionasse. Felizmente que nenhum deles reparou em mim. 

A viagem de volta à casa foi feita nas calmas, com muitos de nós, incluindo eu, ainda a ostentar o respectivo poncho que usado na formação do logótipo. (Sei que a minha mãe guardou-o não sei onde e que eu planeava usá-la para assistir a um dos jogos do Euro, mas não só não vi nenhum jogo do Euro 2004 ao vivo como nunca mais soube do poncho).

Só no dia seguinte, com os media em peso a falarem sobre o assunto, é que reparei na verdadeira dimensão daquilo tudo. Segundo dados oficiais, 34 309 pessoas estiveram no relvado a formar o logótipo, que bateu dois recordes do Guinness: o maior logótipo humano em termos de dimensão e número de participantes e o anúncio publicitário com maior número de figurantes, batendo o célebre anúncio da British Airways.             
Com a candidatura austro-húngara a braços com problemas, sobretudo devido a uma crise na federação de futebol magiar (a Áustria viria a ter bem mais sucesso ao aliar-se a outro vizinho, a Suíça, para organizarem o Euro 2008), e a candidatura espanhola em interregno de campanha, quiçá a cheirar umas hipotéticas favas contadas da vitória, a iniciativa acabou por ter grande impacto, não só em Portugal mas além-fronteiras. Ali estava a prova de que os portugueses, com mais ou menos desenrascanço, com mais ou menos desorganização, eram capazes de muita coisa, havendo vontade e paixão. Será que este remate colectivo iria dar em golo, que é como diz, em Euro 2004?

A resposta soube-se no dia 12 de Outubro de 1999, na cidade alemã de Aachen. A expectativa estava no ar e o apuramento da selecção nacional para o Euro 2000 nesse fim de semana anterior parecia ser um bom presságio. Eu estava na Faculdade numa fila para tratar das minhas inscrições nas cadeiras do 2.º ano do curso, quando alguém que estava ao telemóvel revelou o veredicto que momentos antes se tinha ouvido da boca do então presidente da UEFA, o sueco Lennart Johansson: Portugal iria receber o Euro 2004! E eu não deixei de sentir um pouco de orgulho ao pensar que dei o meu contributo.

O que aconteceu depois é uma outra história. Outra história também será aquela em que, segundo agora conta Carlos Cruz, tal conquista também se fez através de manobras menos lícitas. Mas para sempre ficam as memórias de um verão de 1999, que foi particularmente marcante para mim pelos seus vários altos e baixos, e de vários "firsts" da minha vida. Que também são as memórias do tempo de um Portugal cheio de auto-estima e que não tinha medo em sonhar alto, um tempo que, como escreve Pedro Marques Silveira neste excelente artigo do site ZeroZero, agora não só parece distante como quase irreal.  

No Facebook, existe uma página de nome "Participei no Logótipo Humano Euro2004". Se tal como eu, também participaram façam like e deixem o vosso testemunho. E já agora, deixem os vossos testemunhos aqui também.





             

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...