quinta-feira, 21 de junho de 2012

Pedra Sobre Pedra (1992)

por Paulo Neto

Depois de se ter feito a melhor telenovela de sempre ("Tieta", como afirmei aqui), o que criar a seguir? Uma outra grande telenovela, evidentemente! Foi certamente esse o pensamento dos autores de "Tieta", Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn e o realizador Paulo Ubiratan.



Estreada em Janeiro de 1992 no Brasil e em Setembro do mesmo ano em Portugal na RTP, "Pedra Sobre Pedra" é uma daquelas novelas ainda hoje recordadas com saudade pelos telespectadores de ambos os lados do Atlântico. Muitos dos ingredientes que fizeram o sucesso de "Tieta" também estão presentes: paixões proibidas, humor, intriga policial, mistério sobrenatural, crítica de costumes e vingança, e toda a magia bucólica do Nordeste brasileiro como pano de fundo.



Na cidade de Resplendor, outrora considerada a capital nacional dos diamantes, o poder é disputado há várias gerações por duas famílias rivais, os Pontes e os Batista. Os actuais líderes da contenda são Murilo Pontes (Lima Duarte) e Pilar Batista (Renata Sorrah). Murilo e Pilar estiveram noivos, mas quando Pilar desconfia que Murilo é o pai da filha da sua melhor amiga Eliane (que acaba por morrer no parto), diz não em pleno altar e acaba por casar com o rival Jerónimo Batista. Vinte e cinco anos mais tarde, Pilar e Murilo são inimigos viscerais, perpetuando o ódio e a guerra entre as duas famílias.
Murilo casou-se com Hilda (Eva Wilma) de quem teve um filho, Leonardo (Maurício Mattar). No casarão da família também vivem a sua irmã Gioconda (Heloísa Mafalda), beata pérfida, os sobrinhos Úrsula (Andrea Beltrão) e Ivonaldo (Marco Nannini), juntando-se mais tarde a mulher e a filha deste, Rosemary (Elizângela) e Daniela (Patrícia Furtado). 
Pilar enviuvou de Jerónimo, de quem teve uma filha, Marina (Adriana Esteves) além de ter criado a filha de Eliane que recebeu o nome da mãe (Carla Marins). A restante família Batista só tem mais dois membros vivos: Carlão (Paulo Betti), o boémio cunhado de Pilar, dono do Grémio Recreativo que é um misto de salão de jogos e bordel local, co-gerido por Adamastor (Pedro Paulo Rangel), que teve sempre uma paixão secreta pelo sócio; e Dona Quirina (Miriam Pires), trisavó de Marina, dona de uma lucidez impressionante para os seus mais de cento e vinte anos.
Decididos a continuar a contenda, Murilo e Pilar querem que a eleição para o novo prefeito da cidade seja disputada entre Leonardo e Marina. Só que estes, quais Romeu e Julieta, apaixonam-se, encontrando-se secretamente numa cabana enquanto fingem ser rivais por causa dos pais.
Cândido Alegria (Armando Bógus) também está interessado no poder de Resplendor (e em Pilar). Dono da estalagem local, enriqueceu ao matar o seu sócio português e fará tudo para se aproveitar da rivalidade das famílias para conseguir os seus intentos. Para isso, conta com a ajuda de Eliane, sem saberem que afinal são pai e filha. 


Mas outro ponto importante da trama é aquele que envolve Jorge Tadeu (Fábio Jr.). Fotógrafo charmoso e sedutor, acaba por seduzir várias mulheres casadas da cidade como Úrsula, Rosemary, Ximena (Nívea Maria), a mulher do dentista Kléber (Cecil Thiré), o prefeito cessante, e a sensual e ingénua Suzana (Isadora Ribeiro), cujo marido sobrevive em estado vegetativo ("vegetando que nem quiabo!"). A cada uma dessas mulheres ele atribui o nome de uma fruta tropical. Só que essa faceta de conquistador serve sobretudo para Jorge Tadeu conseguir executar a sua verdadeira missão sem levantar suspeitas: foi contratado por Pilar para descobrir um novo filão de diamantes. Jorge Tadeu acaba por ser assassinado e após a sua morte, nasce na cidade uma árvore que permite a quem comer as flores que ele apareça de novo. 


Outras personagens marcantes de Pedra Sobre Pedra: Francisquinha (Arlete Salles), a maior força da autoridade da cidade, se bem que não seja oficialmente a delegada (pois, como ela repete constantemente, "Delegado é o meu marido!"); Queiroz (Nelson Xavier), o marido desta, que tem uma amante e um filho ilegítimo; Sérgio Cabeleira (Osmar Prado), que sofre estranhas alterações em noite de Lua Cheia; a prostituta Alva (Lília Cabral), astuta e ambiciosa; Sete Estrelas (Raymundo de Souza), cúmplice de Cândido Alegria e interessado em Suzana; e os ciganos Iago (Humberto Martins), Vida (Luiza Thomé) e Tibor (Eduardo Moscovis) que se envolvem respectivamente com Eliane, Carlão e Daniela. 

Ao elenco da novela, juntou-se mais tarde dois actores portugueses, Suzana Borges e o falecido Carlos Daniel, que fizeram de Inês e Ernesto Soares, os descendentes do sócio de Cândido Alegria, que aparecem em Resplendor para investigar o que aconteceu ao tio-avô, que desconfiam ter sido assassinado e para reclamar as terras de que são herdeiros. Após um período inicial onde os dois sentem as habituais discrepâncias (sobretudo linguísticas) entre portugueses e brasileiros, os dois irmãos acabam por se integrar na cidade. Inês fica interessada em Leonardo e Ernesto apaixona-se pela prostituta Lola (Tânia Alves), sem saber que é a menina regular de Murilo Pontes no Grémio. A RTP foi co-produtora da telenovela, financiando 20% da produção.



Com mais uma história cativante e excelentes interpretações do elenco, "Pedra Sobre Pedra" foi mais um triunfo da Rede Globo e vinte anos depois, ainda é bastante recordada. Foi a última telenovela de Armando Bógus, que viria a falecer no ano seguinte e a primeira telenovela de actores como Eduardo Moscovis, Carla Marins e Daniela Faria, que veio a Portugal em 2002 para o "Big Brother Famosos" e que por cá vive desde então.

De referir ainda que durante a estreia da telenovela em Portugal, a RTP atribuía vários prémios: a cada intervalo, Eládio Clímaco fazia perguntas sobre a telenovela a serem respondidas em linhas de valor acrescentado. Durante os sorteios, Eládio estava acompanhado de Maria Arlene, a primeira esposa de José  Castelo Branco e assistente do concurso "Arca de Noé". Foi a primeira grande estratégia da RTP de concorrência televisiva, pois a SIC tinha estreado nessa altura.  




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5 comentários:

  1. Gostaria de ver esta novela um dia destes.
    Pelo que eu sei, depois da "Vila Faia" e da "Chuva na Areia", foi a única novela que mais vezes foi reposta na RTP, com grande e enorme sucesso.
    Foi reposta em 1995, no horário das 18 horas, em 1996, no horário das 10 horas, em 2000, no horário das 14 horas, e em 2002, no horário das 18 horas.
    Imagino que o genérico fosse uma verdadeira polémica, pois transformar árvores em mulheres nuas é de artistas. Cheguei a ouvir que muitos adolescentes se excitaram com o genérico desta novela.
    Talvez a RTP/Memória transmita um dia destes esta novela, pois com a nova direcção, tudo é possível.

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    1. Se tiveres o serviço NOS, esta telenovela está actualmente em exibição no canal Globo.

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    2. Infelizmente não tenho. E trata-se de um dos canais que eu gostava de ter. O que tenho é o pacote modesto da Cabovisão, com 29 canais, e com antena ligada ao televisor. Mas sinceramente gostava de ter. Paciência.

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  2. Uma das melhores novelas de sempre com o melhor elenco a interpretar de forma alegre e divertida o seu papel.Destaco o falecido ator Armando Bógus (Candido Alegria)que,apesar de doente,desempenhou com todo o seu talento a mais divertida personagem da novela apesar de ser o vilão....Parabéns a todos os atores brasileiros que desde sempre fazem valer a pena "prenderem-me"à TV.Abraço a todos!

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    1. Realmente é raro ver hoje em dia transparecer no pequeno ecrã essa diversão. Os poucos excertos de novelas actuais que assisto consistem na maioria de crimes, discussões e insultos, que se eventualmente forem divertidas de filmar pouco mais transparecem do que uma frieza de "faço o meu trabalho para receber o cheque"...

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