sexta-feira, 13 de abril de 2012

Agua na Boca

Excelente texto do Paulo Neto sobre o concurso erótico-maroto "Água na Boca" (Colpo Grosso), que animava as noites de sábado na SIC no inicio dos anos 90:


"A 6 de Outubro de 1992, fazia-se história em Portugal. Com o seu hino interpretado por Dulce Pontes, Nucha, Tó Leal e Gustavo Simões e o seu logotipo colorido, a SIC, propriedade de Francisco Pinto Balsemão, iniciava a era da televisão privada em Portugal. Terminava assim o longo monopólio da RTP, quando o único zapping possível era entre dois canais e ás vezes nem isso. Aliás, foi a partir dessa época que se deu o boom das televisões com telecomando. Bem vistas as coisas, excepto para quem tinha parabólica (e mais tarde TV Cabo), mudar de canal tendo só dois canais com telecomando parecia um acto de preguiça extrema, podendo muito bem levantar-se do sofá e carregar nos botões, já com quatro canais um telecomando revelava maior utilidade.

No começo a SIC voou baixinho. Como tudo o que é novo cá, primeiro estranha-se, depois entranha-se com mais ou menos rapidez. Mas tal como “A Amiga Olga” no advento da TVI, um programa do início da SIC capturou logo a imaginação do povo portuga. Era um concurso cujo formato que desde 1989 tinha vários franchisings em vários países europeus e no Brasil. No Brasil era “Cocktail”, na Alemanha era “Tutti Frutti” (também acessível via parabólica), em Espanha era “Ay que Calor!”. Na SIC passava a versão italiana de título original “Il Colpo Grosso”, mas que em Portugal será sempre recordado pelo nome de “Água na boca”.

A permissa do programa? Maminhas! Nove anos depois do célebre episódio rocambolesco da transmissão do filme “Pato Com Laranja”, onde um plano de maminhas desnudadas causou enorme controvérsia, com a chegada da SIC, veio um programa onde vários pares de maminhas se punham alergamente à mostra por sessão, a um horário não tão tardio como isso.

O concurso era apresentado pelo comediante Umberto Smaila, um senhor que parecia um primo italiano do Pedro Barroso, secundado por uma moçoila de origem britânica chamada Amy. Não me lembro o apelido dela, mas o que ninguém esqueceu sobre Amy é que o tamanho dos seus peitos era equiparável à soma dos de Pamela Anderson e Samantha Fox juntos! Bem, talvez seja um exagero, pelo menos não eram seios tão grotescos como os de uma senhora já desaparecida que dava pelo nome de Lolo Ferrari, mas eram, digamos, bem impressionantes! Mas, por acaso, embora ela estivesse sempre vestida com vestes reduzidas e amplos decotes, não me recordo se alguma vez Amy mostrou os seus seios em toda a sua dimensão no programa. Mas não faltava quem o fizesse. A começar pelas assistentes, as raparigas Chin-Chin, cada uma representado uma fruta (morango, cereja, limão, tangerina, ananás, kiwi e mirtilo). Quem não se lembra do hino delas? Digamos que as Chin-Chin eram como que o elo perdido entre as Spice Girls e os Milli Vanilli, já que era bem claro que não eram elas que cantavam o seu tema.
Até porque eram de várias nacionalidades e o italiano delas devia estar limitado a meia dúzia de palavras. Pelo menos duas palavras elas sabiam, como se explicará adiante. Mas isso pouco importava, eram todas belas e esculturais, e como representavam cada uma um fruto, não era de admirar que ouvissem piropos como “Eh, fruta da boa” ou “Eu descascava-te toda”. E cada um dos telespectadores assíduos tinha a sua preferida. A minha era a da cereja, que estou em crer que se chamava Angélique.


O programa tinha um cenário a fazer lembrar um navio de cruzeiro e os jogos assemelhavam-se aos dos típicos jogos de casino, como o “vinte e um” e a “slot machine”. Havia dois concorrentes: um homem e uma mulher. Para angariarem mais dinheiro para apostarem nos jogos, havia dois recursos. Um deles era mandar despir as “estrelas internacionais” que vinham de vários pontos da Europa, sendo que cada peça que estas meninas tiravam significava mais crédito na conta dos concorrentes. O outro era os próprios concorrentes darem o corpo ao manifesto e subirem um palco para eles próprios despirem-se e depois continuarem o resto do jogo em roupão. Nos casos mais extremos, elas ficavam de mamas ao léu e em cuecas e eles num maillot tipo fato de banho nos anos 20. Sim, pode-se falar de tratamento desigual, mas como a maioria da audiência era masculina, não deviam haver muitas vozes a insugirem-se contra isso. Eu cheguei a ver senhores de uma certa idade como concorrentes e a terem de relutante e literalmente baixarem as calças em palco. Já as concorrentes eram sempre mulheres ainda relativamente jovens, se bem que algumas não tinham propriamente as formas esculturais das Chin-Chin.

E estas participavam activamente nos jogos mais famosos. Um deles era pura e simplesmente adivinhar qual delas albergava debaixo de soutien um estrela dourada autocolante a cobrir o mamilo (em vez do habitual autocolante do fruto correspondente). O outro era o jogo do “Quente e frio” e a dinâmica era semelhante ao do célebre concurso “Jogo de Cartas” da RTP. Mas em vez de adivinhar se a carta seguinte era para cima ou para baixa, os concorrentes tinham que descobrir se na carta seguinte uma moçoila aparecia com mais ou menos roupa, dizendo “frio” ou “quente”, conforme o caso. Ou melhor, diziam em italiano, “fredo” ou “caldo”. Atrás deles, as Chin-Chin davam os seus palpites para influenciar e/ou confundir, com umas a dizer em coro “Fredo!” e outras “Caldo!”. Pelo menos essas palavras em italiano, elas sabiam.
O último jogo era o da roleta e em caso da vitória, não só o concorrente levava o prémio final (que julgo que era um cruzeiro a sério) como o espectador tinha um bónus. Além das Chin-Chin e das estrelas internacionais, havia uma super-estrela que no final do programa atrevia-se a ir onde as outras não se atreviam, ou seja fazia um strip-tease integral. Nada de muito vulgar, limitava-se a tirar a tanga que todo o outro mulherio mantinha como barreira final.

“Água na boca” dava aos sábados à noite, depois da meia-noite. Nos serões de televisão ao sábado, o “Parabéns” do Herman José reinava supremo. (O Herman, como não podia deixar de ser, chegou a parodiar o “Água na boca”, dizendo que representava o fruto marmelo). Mas não eram os poucos que logo no início da SIC, trocavam a expectativa de saber se os concorrentes do Parabéns ganhariam o prémio final para apreciar o festim de maminhas, qual salada de frutas.



Mesmo na altura, vistas bem as coisas, o programa não tinha mais nada de emocionante e a maioria das piadas do Umberto Smaila perdiam-se na tradução. Mas com tanta animação e cor como o hino e o logotipo da SIC, o canal de Balsemão dava os seus primeiros passos rumo à forma como marcou o panorama audiovisual português para o resto dos anos 90. Era como se de repente, tivesse aparecido mais um novo sabor de Sugus."


O texto do Paulo Neto já tinha sido abordado no cromo sobre o Colpo Grosso:
No Sapo é possível aceder a vários (bastantes) vídeos dos momentos que todos os espectadores aguardavam: o stripteaseSAPO - Colpo Grosso


Muito obrigado ao Paulo Neto pelo magnifico texto! Aproveito para dizer aos leitores que podem contribuir com sugestões, ou mesmo textos da vossa autoria, para aumentar a Enciclopédia de Cromos! Basta mencionar no Facebook da Enciclopédia ou para o meu e-mail cine31@gmail.com!

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3 comentários:

  1. Xiça! Não me lembro muito bem de ver isto na SIC. Mas começa a fazer sentido o fervor que tinha em ter uma televisão só minha no meu quarto para ver sozinho... se eu até a meteorologia da SIC adorava ver sem perder (até "batia" records... eheheh).
    Este tipo de programas eram mesmo do tempo em que a tv era pedagógica... Quando passava da meia-noite havia sempre muito para "ver" e "aprender". Hoje já não passam nada assim... fogo!
    O que vai ser das próximas gerações, carago, que podem ver tudo a qualquer hora do dia na net...

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  2. eheheh deve ter sido a época em que mais records foram "batidos" em Portugal LOL sem Internet tinha que se aproveitar o que havia "á mão" ;-)

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  3. Correcção: não foi feito não um, mas sim dois cromos! Para além do 971, há também o 969... e também foi falado no cromo "As primeiras parabólicas parte 2 - o ataque da trungalhunga" (cromo 503) onde aparece o genérico do "Tutti Frutti" da RTL e a música do Cin Cin! É como se o tema do 1, 2, 3 fosse todas as semanas "lingerie".

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