quinta-feira, 25 de junho de 2020

Conheces A Tua Terra? (1985-86) - Parte 2

por Paulo Neto

Em 2014, o David Martins tinha criado aqui um artigo no blogue ao descobrir um programa da RTP dos anos 80 intitulado "Conheces A Tua Terra?" em que a sua cidade de Olhão era uma das localidades por onde o dito programa tinha passado, ainda que a informação fosse escassa.

Até que este ano, o site dos arquivos da RTP disponibilizou o programa, originalmente transmitido na RTP 1 aos Sábados de manhã entre 21 de Dezembro de 1985 e 22 de Março de 1986. Confesso que não me recordava nada do programa mas ao ver nessa site achei bastante interessante na forma como encapsulou um Portugal dos anos 80 onde as distâncias entre as diferentes regiões eram maiores que actualmente e que guardava muitos tesouros turísticos que a televisão tinha abordado pouco até então. Além de que viajar pelo país naquele tempo sem telemóveis, com menos vias de comunicação e ainda sendo possível fazer campismo selvagem em algumas zonas deveria ser uma autêntica aventura.





"Conheces A Tua Terra?", da autoria de Santos Careto, consistia em acompanhar as viagens de um grupo de cinco jovens lisboetas - um rapaz, Fausto, e quatro raparigas, Isabel, Paula, Tina e Xana - mais um cão, o pastor-alemão Barsuk por várias localidades do país, sendo que em cada uma delas, encontram outros jovens que lhes mostram os ex-libris locais e ensinam-lhes sobre a história e a cultura da sua terra, havendo sempre um contacto cordial entre os jovens e as pessoas de gerações mais idosas. 
O programa não tinha uma componente ficcional à parte o início do primeiro episódio, onde Fausto conhece Tina, enquanto joga à bola e inadvertidamente atinge-a com uma bolada. Mas após o percalço, os dois engraçam um com o outro, passam de se tratarem por você a tratarem-se por tu e durante uma conversa a propósito de Miguel Torga, Fausto sugere que os dois façam uma viagem nas férias de Verão que se avizinham a descobrir alguns recantos não muito conhecidos de Portugal. A rapariga hesita, não sabendo se os pais a deixam ir, a não ser que os acompanhe uma amiga, e o seu cão Barsuk também terá de ir. Por fim, os dois acabam por partir juntamente com o cão e as outras três raparigas, Isabel, Paula e Xana.
Os cinco protagonistas eram apenas referidos pelos seus nomes, sem sequer indicarem os seus apelidos, mas o site "Brinca Brincando" descobriu que a Isabel era a actriz Isabel Simões que entrou em várias séries e telenovelas e o Fausto era Fausto Matias, bailarino e coreógrafo, que apareceu em outros programas como "Cacau da Ribeira". Deduzo que a Paula também estava ligada à dança, já que, juntamente com Fausto e Isabel, participou em alguns números de dança, como por exemplo no primeiro episódio ao som "Sisters Are Doing It For Themselves" dos Eurythmics e Aretha Franklin.


No final de cada episódio, instalados nas suas tendas, os cinco jovens combinavam entre si qual o próximo destino da viagem e um deles quebrava o "fourth wall" para dizer aos telespectadores onde tinham decidido ir a seguir.

Depois de atravessar o Tejo de barco até ao Barreiro, o grupo vai de comboio até Alcácer do Sal. Logo na estação encontram dois jovens alcacerenses que lhes indicam o caminho até ao castelo e vão explicando mais sobre a terra no sempre delicioso sotaque alentejano. Visitam também a Igreja dos Mártires e aprendem a jogar ao chinquilhão e à malha. No castelo, deparam com uma bela vista do vale do Sado.
No segundo episódio, o grupo e os guias locais vão até às salinas onde encontram um jovem que lá trabalha e que lhes explica como funcionam e o traje típico de trabalhador das salinas e que depois os acompanha numa visita pela vila do Torrão e numa subida ao Monte da Tumba para verem as escavações arqueológicas. No Centro de Dia de Alcácer do Sal, onde os idosos se distraem a jogar ao dominó ou a fazer malha e cestos, enquanto se vai cantando à moda alentejana e uma senhora ensina a receita para fazer pinhoadas. Para terminar, uma actuação do rancho folclórico local. O grupo decide rumar ao Algarve e opta por Monchique como seu novo destino.


Depois de uma boleia de carroça, chegados até Monchique, o grupo encontra mais um jovem local, João, que os apresenta a mais três amigos, Paula, Rui e Lena, e os quatro tornam-se os guias dos lisboetas pela terra. Visitam a Igreja Matriz e depois uma adega onde se faz aguardente de medronho. Num restaurante, eles provam alguns pratos típicos como a assadura de porco e a morcela com arroz e assistem a um cantar à desgarrada.
O segundo episódio em Monchique começa com vários planos da rua da localidade e com uma, digamos, criativa encenação de um grupo teatro local. O grupo e os guias monchiquenses encontram o senhor Jacinto que lhes explica como funcionava o Pisão, um engenho hidráulico para lavar as lãs. Depois de um terno momento de brincadeira entre Tina e Barsuk, tempo para visitar o senhor Virgílio, um marceneiro que explica como se fazem as cadeiras de tesoura. A próxima paragem é nas termas das Caldas de Monchique, onde todos apreciam a paisagem e reflectem sobre a importância das águas termais (que já os romanos sabiam dos seus benefícios) e sobre a poluição das águas. Para terminar, mais uma actuação de um rancho folclórico e o grupo, decidido a ir à praia já que estão no Algarve, escolhe por rumar à ilha da Armona em Olhão.

Por razões óbvias, impõe-se que o David Martins dedique um futuro cromo a estes dois episódios, para dar a sua visão de autóctone sobre o que aqui foi mostrado.
O grupo apanha a boleia até Olhão na carripana descapotável de João Bento, que será um dos seus três guias olhanenses. Enquanto vagueiam pelas labirínticas ruas da parte da velha da cidade, os guias explicam que Olhão ganhou o seu nome devido a um grande olho de água que havia na zona e a partir do século XVII foi ganhando mais independência face à confraria de Faro. (E foi precisamente em 1985, o ano em que a série foi filmada que Olhão foi elevada a cidade - curiosamente o mesmo ano que Torres Novas!) É também exaltada a histórica bravura dos olhanenses, que chegaram a América e a África nos seus périplos piscatórias e se bateu para resistir contra os franceses durante as invasões napoleónicas. Visitam a capela-mor e depois seguem-se imagens de barcos no porto. O primeiro episódio de Olhão termina com mais um número de dança ao som "Take Me To Heaven" de Sylvester, para indiferença dos trolhas ali perto que continuam o seu trabalho, e com um refrescante banho numa piscina.
No segundo episódio em Olhão, alfacinhas e olhanenses passam pelo Cinema-Teatro e pelo mercado, onde não falta uma Ti Maria a vender o típico litão e Isabel aproveita a presença de um amolador para amolar uma tesoura. Numa praça faz-se aeromodelismo e manobras com carros telecomandados e crianças brincam ao pião, com papagaios de papel e um jogo que parece ser uma variante do basebol. Com uma Paula muito animada na proa, o grupo segue de barco até à ilha da Armona. Depois de um banho, aprendem como se faz a apanha da ameijoa. Para terminar, mais uma actuação de um rancho f...Não, antes uma almoçarada com caldeirada de peixe e a decisão de prosseguir viagem para Castro Marim

Chegados à estação de comboios de Castro Marim, o grupo encontra duas guias castromarinenses, a Céu e a Manuela, que lhes indicam o parque de campismo da Praia Verde. Encontram mais dois jovens locais que lhes mostram os acompanham até à praia, onde o Barsuk vai-se refrescar. Visitam depois o castelo onde decorrem escavações arqueológicas. A professora Ana Arruda explica as origens do castelo, que ao que tudo indicam, remontam até à idade do bronze. Já a fortaleza Afonsina data do século XIII, mandada construir por D. Afonso III. O primeiro episódio em Castro Marim termina com a inevitável actuação de um rancho folclórico com os lisboetas e os locais numa roda do corridinho.
Na visita à reserva natural, o Sr. José Luís fala-lhes sobre as espécies de fauna e flora que por lá habitam e denuncia ocorrências de caça ilegal na zona. A próxima paragem é nas salinas locais, onde Xana parece fascinada pelos montes de sal aí extraídos. No Azinhal, conversam uma senhora a fazer renda de bilros, assim como o Sr. Salvador em Odeleite que faz cestos. Para terminar, não um rancho folclórico mas sim o ensaio da banda filarmónica local.

Episódio 9 - Juromenha (concelho do Alandroal)
Cansadíssimos após andarem dezasseis quilómetros do Alandroal à Juromenha, o grupo encontra dois rapazes que lhes revelam que vai haver lá festa nesse dia. Visitam o castelo onde um senhor explica a importância que teve em várias batalhas, como a das Linhas de Elvas e salienta o paradoxo da vila, apesar de pertencer ao concelho do Alandroal, eclesiasticamente pertencer a Elvas e judicialmente a Vila Viçosa. O grupo almoça com os locais com uma caldeirada de peixe pescado no Guadiana, que termina com o senhor Augusto a recitar um poema sobre Juromenha, lamentando o declínio da terra. Segue-se mais um número de dança, com Fausto, Isabel, Paula e Xana vestidos de homens/mulheres das cavernas ao som de "Tarzan Boy" dos Baltimora, que vem-se a saber que era um sonho de Fausto. Por fim, surprise, surprise, uma actuação do rancho folclórico local. (Atenção, não tenho nada contra ranchos folclóricos, até porque foi através de um que as duas pessoas responsáveis pela minha existência começaram a namorar.)
Ao comprar umas mantas a dois vendedores vindos de Minde que vão a caminho da feira de Borba, o grupo decide que vai ser esse o seu próximo destino da viagem.

Episódio 10 - Minde (concelho de Alcanena)
Aproveitando a boleia do vendedor de mantas, o grupo chega a Minde e encontram dois jovens locais, Henrique e Dalila que vão ser os guias. Estes contam-lhes que a zona por onde passam é uma lagoa de Inverno devido às chuvas e à impermeabilidade dos solos que cobrem todo o terreno e que de Verão é uma mata. À entrada de uma gruta, o Sr. Crispim fala-lhes sobre a exploração geológica no polje de Minde e depois encontram o Sr. João Alves que lhe fala sobre a sua vida de pastor. Ao entrarem na zona do Eiteiro, Dalila explica que os pedregulhos antigos que encontram pelas ruas serviram como suporte na construção das casas. A próxima passagem é no coreto local, onde os lisboetas observam os painéis de azulejos alusivo à tecelagem local e a fachada da Casa Açores, seguindo-se passagens pela casa onde nasceu o pintor Alfredo Roque Gameiro e a igreja da Nossa Senhora da Assunção. Segue-se uma conversa com a D. Maria Amélia, que durante anos a fio foi a parteira local que fala sobre a sua experiência nesse ofício e os baptizados de antigamente (e no seu relato ela menciona Torres Novas!). Depois os jovens observam dois tipos de tecelagem em dois teares diferentes, um manual e outro mecânico. Por fim, uma nota gastronómica com uma senhora a explicar como se fazem as roquinhas a.k.a. coscorões, um daqueles fritos habituais nas mesas natalícias. No acampamento, os cinco jovens decidem seguir para a Mata de Margaraça. Mas vamos voltar ao episódio de Minde daqui a pouco…

Episódio 11 - Mata da Margaraça (concelho de Arganil)
Este é o único episódio sem um jovem guia local a conduzir o grupo de lisboetas. Assim que os jovens montam a tenda na Relva Velha, são recebidos pelo Sr. Adelino que lhes oferece uma broa e lhes conta sobre a história da Mata da Margaraça, bem como a sua fauna e flora. Os cinco jovens e Barsuk vão se embrenhando pela mata, admirando as árvores e as plantas e convivendo de perto com alguma da fauna (incluindo um rato morto?). Chegados à estação meteorológica, observam um jovem, António, a manobrar os aparelhos que medem a temperatura, o vento e a humidade da mata. Depois de imagens de uma procissão e das ruas da aldeia, o grupo vão até uma loja onde se vendem colheres de pau e, curiosos em saber como elas são feitas, visitam um artesão que lhes mostra todas as etapas do processo, desde o corte de um tronco de árvore com uma serra eléctrica ao produto final. Por fim, a convite do Sr. Adelino, os jovens assistem a uma guitarra e onde uns dos senhores se afoita a puxar Tina para um pé de dança. O próximo destino, Sortelha, é escolhido ao acaso no mapa. 

Episódios 12 e 13 - Sortelha (concelho do Sabugal)
Enquanto sobem até às muralhas, Fausto lê uma descrição de Hipólito Raposo sobre Sortelha. Convenientemente sentados à entrada do castelo estão os três jovens guias locais, Fátima, Luís e Zé Carlos. O nome de Sortelha deve-se à forma anelar da muralha e antes de 1855, chamava-se Sortília. Tina descobre uma fonte romana que se chama a fonte de mergulho que tem uma porta secreta. No alto do castelo fica a igreja matriz e próximo dali uma sepultura romana onde Paula se afoita a lá deitar. Depois é tempo de ir ao encontro das gentes da população local, como o Sr. António Maria conta uma lenda religiosa e uma queijeira que lhes ensina a fazer o queijo da Serra (pré-ASAE). Uma viagem de burro leva o grupo até Dirão Da Rua onde um grupo de mulheres contra a lenda de São Cornélio, terminando numa cantoria e roda de dança. 
O segundo episódio em Sortelha começa com os jovens e os guias vão até ao castelo e depois ao monumento natural da Cabeça da Velha (o nome diz tudo). Pelo caminho encontram Sra. Adélia que leva papas de milhos aos homens que malham o centeio. E depois de uma demonstração dos jogos da malha e da moeda, a visita termina, claro, com um rancho folclórico. Antes do regresso a Lisboa, tempo para mais uma número da dança, este mais improvisado (desta vez não consegui identificar a canção). Chegados a Lisboa, os cinco jovens despedem-se ficando no ar a hipótese de uma nova viagem no ano seguinte. Uma vez que o programa não foi até ao Norte do país, calculo que se tivesse havido uma segunda temporada, subir-se-ia até lá. 


A música de género parecia ser uma tema de música tradicional portuguesa mas afinal era de origem estrangeira: "Hocus Pocus" tema de 1981 do guitarrista britânico Gordon Giltrap.

E agora, uma surpresa. Eu consegui descobrir Henrique Lobo, um dos jovens guias do episódio de Minde, no Facebook (onde temos dois amigos em comum) e aproveitei para lhe colocar algumas perguntas às quais ele respondeu e ao qual muito agradeço! 

Dalila e Henrique, os jovens guias do episódio de Minde


Como é que o Henrique e a Dalila foram escolhidos para entrar no programa?
Se bem me lembro fui dos escolhidos por ser amigo de um dos contactos da RTP. A Dalila foi escolhida quase ao acaso, era para ser uma amiga minha, mas como foi gravado em Agosto ela não estava, e a Dalila estava.

Quanto tempo é que andaram lá a gravar em Minde?
A duração de gravação foi de três dias (das 8 da manhã até cerca das 18/19 horas). Foi gravado nos dias 16, 17 e 18 de Agosto [de 1985].

Que tal eram os jovens lisboetas? Eram simpáticos?
Eram cinco estrelas, super simpáticos, nada a apontar.

Como é que foi para as gentes de Minde ter a televisão lá a filmar?
Em Agosto, naquela época, Minde estava na época alta de férias, a população da terra estava reduzida a menos de metade, mas a malta que cá estava recebeu bem a equipa da RTP.

Como é que foi depois ver o programa na televisão?
O episódio só passou no ano seguinte em Janeiro [na verdade foi a 22 de Fevereiro]. Foi giro ver o trabalho de três dias em pouco mais de vinte minutos. Na altura em que passou, ainda havia poucos videogravadores VHS, foi difícil conseguir uma cópia.

E ao rever agora, como foi olhar para trás para esses tempos?
Rever agora foi mais intenso que naquela época. Dou hoje mais valor agora do que na altura.




quinta-feira, 18 de junho de 2020

Automan (1983 - 1984)


"Automan" estreou nos EUA no dia 15 de Dezembro de 1983. Exibida mais tarde na televisão publica portuguesa com o título “O Homem Automático”, “Automan” foi uma série de ficção cientifica de curta duração que provavelmente gozou mais sucesso fora das fronteiras natais dos EUA. Apenas 12 dos seus 13 episódios foram exibidos e hoje em dia é mais recordada pelo visual copiado do visionário “Tron” (1982) e pelo belíssimo automóvel que fazia curvas de 90 graus sem desacelerar. O twist é que se em “Tron” as aventuras se passavam dentro de um computador, o herói “Automan” ganhava vida no “mundo real” para combater o crime da forma que o seu criador, o polícia/génio da informática Walter Nebicher, não podia. Outra criação de Walter, o cintilante Cursor (e tarado, a julgar pelo genérico de abertura), era capaz de materializar objectos úteis, como o Autocar que mencionei antes (um belíssimo Lamborghini Countach LP400 delineado em azul florescente), helicóptero, avião ou mota. O ponto fraco de Automan é que o programa de inteligência artificial necessita grandes quantidades de energia da rede eléctrica para se tornar visível e poder interagir com o mundo.
"Diário de Lisboa" [23-11-1984]

"Automan" materializou-se na RTP-1 no dia 24 de Novembro de 1984 (a substituir "Buck Rogers no Século 25" no horário antes do "TOP Disco") e continuou a animar os fins de tarde de Sábado até 16 de Fevereiro de 1985.

O criador da série foi não outro que Glen A. Larson, autor de sucessos como O Justiceiro, Galactica, Buck Rogers, ou a também cancelada prematuramente “Manimal”, que aliás, partilhou uma cena com “Automan”, mas filmada de ângulos diferentes. ainda sobre a sua ligação a “Tron”, um dos produtores da série foi o produtor do filme, Donald Kushner.
Abertura de Automan


Este era um dos cromos que tinha há mais tempo no estado de "rascunho", quase do inicio do blog. Eu tinha a intenção de rever os episódios e só depois finalizar o artigo, mas até agora não aconteceu.
Como puderam ver no vídeo acima, nos papéis principais tínhamos:

Desi Arnaz Jr. como Walter. Arnaz Jr, filho de Lucille Ball e Desi Arnaz marcou presença no pequeno ecrã desde o final dos anos 50.

Chuck Wagner como Automan e Otto J. Mann, a sua falsa "identidade secreta". Além desta e outras passagens pela TV, Wagner trabalhou mais no teatro musical, além de ser director, professor e  historiador do teatro musical.

Heather McNair como a polícia Roxanne, a única conhecedora do segredo de Walter e Automan.

Robert Lansing como Tenente Jack Curtis, um polícia durão, mas que apoia Walter.

Gerald S. O'Loughlin como Capitão Boyd, descrente das novas tecnologias que odeia computadores.


Anda pelo Youtube um documentário de 40 minutos extraído da edição DVD britânica:




A cantora Laura Branigan participou do episódio 9, "Murder MTV", como uma...cantora. Vídeo de duas actuações no episódio [Link].


Um dos primeiros cromos da Caderneta de Cromos de Nuno Markl foi dedicado ao Homem Automático:


Apesar da curta duração, "Automan" teve direito a alguma acção nas prateleiras de brinquedos: "Automan - Toy Archive".
Pessoalmente, dos episódios que vi só me recordo mesmo do visual futurista das viaturas e do herói Automan.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Falar Português (1989)

por Paulo Neto


Antes de se destacar pela sua carreira na política, nomeadamente como Presidente da Câmara de Sintra e mais tarde como deputada no Parlamento Europeu, Edite Estrela era sobretudo conhecida pela sua carreira académica em prol da língua portuguesa, não só pela sua obra publicada sobre esta temática mas sobretudo devido às suas aparições na televisão para debater sobre como falar e escrever bem na nossa língua. Ao ponto de durante muito tempo, Edite Estrela era quase um sinónimo de todo aquele ou aquela que se apressava a corrigir quem dava algum pontapé no português. Lembro-me de algumas vezes, ao tentar corrigir alguns colegas da escola quando, por exemplo, diziam "tu fizestes" em vez de "tu fizeste" ou "amanda a bola" em vez de "atira a bola", levava como resposta um "Lá estás tu armado em Edite Estrela!"
Nascida em Belver, concelho de Carrazeda de Ansiães, a 28 de Outubro de 1949, Edite Estrela licenciou-se em Filologia Clássica em 1973 e foi professora de Literatura Portuguesa entre 1973 e 1986. Em 1984, estreou-se na apresentação em televisão com "Bem Dizer, Bem Escrever", seguindo-se em 1986 o programa "Crónicas de Bem Dizer" e três anos mais tarde, em "Falar Português" tendo como parceiro de autoria e apresentação o professor catedrático João David Pinto-Correia (desconheço se ele tinha algum parentesco com a Clara e a Margarida), natural do Funchal e falecido em 2018.



"Falar Português" foi exibido na RTP 1 após o Telejornal entre 30 de Janeiro e 28 de Abril de 1989, num total de 60 programas com cerca de seis minutos cada. Em cada programa, Edite Estrela e João David Pinto-Correia abordavam não só os erros mais comuns que os portugueses faziam ao dizer e/ou escrever certas palavras, mas também por exemplo os significado de algumas expressões em latim usadas no nosso vocabulário (afinal deve dizer-se statu quo e não status quo, a não ser que seja para referir a famosa banda rock britânica) ou alguns termos regionais (por exemplo o "garoto" de Lisboa e o "pingo" do Porto). Lembro-me que foi neste programa que por exemplo, ao contrário do que eu ouvia sempre dizer, aprendi que o substantivo grama é masculino quando se refere à unidade de peso ("duzentos gramas de farinha" e não "duzentas gramas") e só é feminino quando é sinónimo de relvado (a "grama do jardim"). Como estávamos num tempo em que a programação da RTP era preponderante no entretenimento do país, "Falar Português" foi um programa popular na altura: recordo-me de por exemplo eu e os meus colegas de escola falarmos com a nossa professora sobre o que tinham ensinado no programa do dia anterior (na altura eu estava no 3.º ano do 1.º ciclo) e muitos telespectadores enviavam cartas aos apresentadores sobre algumas das suas dúvidas de gramática e/ou ortografia ou sugerindo que eles falassem sobre algum determinado tema, o que acontecia amiúde. E claro, inspirou programas futuros como "Cuidado Com A Língua".





Inicialmente Edite e João David apareciam num cenário que tinha como fundo uma enorme ilustração de um livro onde estavam escritos as duas primeiras estrofes dos "Lusíadas", mas posteriormente foram filmando o programa em vários sítios como em bibliotecas, escritórios ou salas de estar (não sei se das suas próprias casas ou de outrem). Embora João David Pinto-Correia estivesse bem, não havia dúvida que o carisma e a telegenia de Edite Estrela davam a esta mais destaque. "Falar Português" encontra-se actualmente disponível para visualização no site dos arquivos da RTP.        

O tema do genérico era "Moon Dance", tema de 1986 do compositor e harpista suíço Andreas Vollenweider, que mais tarde também seria utilizado no "Agora Escolha".

terça-feira, 2 de junho de 2020

Hits do Euro-dance - Parte 1

por Paulo Neto

Goste-se ou não, é inegável que o euro-dance foi um dos géneros musicais que definiram os anos 90. E sim, eu confesso que era um tipo de música que eu gostava de ouvir na altura e que fui frequente comprador das colectâneas de dance-music editadas pela Vidisco ao longo da década. Como tal, eu pensei em iniciar aqui uma série para recordar os grandes hits do euro-dance e para começar elegi quatro dos meus preferidos, que curiosamente são todos do ano de 1994. Um deles, devido ao que se passa no mundo, tem sido muito recordado recentemente.

Ice MC "Think About The Way"


Foi em terras italianas que o britânico Ian Campbell ou Ice MC descobriu uma fórmula de sucesso ao conjugar o seu rap com batidas de italo-house, com o produtor Roberto Zanetti (conhecido nos anos 80 pelo seu grupo Savage que teve o hit internacional "Don't Cry Tonight"). Em 1989, o seu primeiro single de estreia "Easy" fez sucesso na Alemanha, Áustria, França e Suíça e no ano seguinte, foram editados outros temas se seguiram como "Cinema", faixa-título do seu álbum de estreia, onde Campbell ia debitando nomes de estrelas de Hollywood (Badaró chegou a fazer uma versão em que listava cançonetistas portugueses) ou "OK Corral", com matizes western. Depois do álbum seguinte "My World" (1991) ter passado despercebido, o projecto mudou de fórmula com Ian Campbell a abandonar o rap tradicional para o estilo raggamuffin e com vozes femininas a cantarem o refrão, fórmula essa que viria a se tornar bastante comum em vários discos de euro-dance. O primeiro single do álbum "Ice 'N' Green", "Take Away The Colour" tinha a participação de Simone Jay, mas para os single seguintes e restantes faixas, a voz feminina que se ouvia era da italiana Alessia Aquillani, ou Alexia.
E chegamos a "Think About The Way" que eu descobri na colectânea Dance Mania 94 e que se tornou rapidamente uma favorita pessoal. A conjugação entre a batida eurodance, o raggamuffin supersónico de Ice MC e a voz de Alexia era de facto vencedora. Lembro-me que certa vez eu e um primo meu sentámo-nos a ouvir a canção para ver se conseguíamos perceber em conjunto o que Campbell dizia nas suas partes mas as únicas palavras que fomos capazes de perceber eram as nacionalidades: "American", "Chinese", "African", "Colombian", "Jamaican" e por aí fora
No videoclip, era uma actriz que fazia playback das partes de Alexia mas esta apareceu nos seguintes. Em 1996, "Think About The Way" seria imortalizado com o seu uso no filme de culto "Trainspotting", ilustrando uma sequência irónico-turística da cidade de Londres, para onde o protagonista Mark Renton decide recomeçar a vida.



Ice MC viria a ter mais alguns hits como "It's A Rainy Day" (n.º 1 do top italiano) e "Russian Roulette", mas nos anos seguintes seria Alexia a obter mais sucesso a solo com temas como "Me And You", "The Summer Is Crazy" e "Uh La La La".


Cappella "Move On Baby"


Natural de Brescia, Gianfranco Bortolotti tornou-se DJ para pagar os seus estudos universitários e descobriu uma inesperada vocação para tal. Aos poucos foi ganhando status e estabelecendo contactos que resultaram na fundação o seu próprio estúdio e a sua própria editora, Media Records, que fez com que Bortolotti editasse intensivamente o seu repertório sobre vários alias como Club House, Anticappella, 49ers e Fits Of Gloom. Mas o seu projecto preferencial tinha o nome de Cappella, sob o qual foram editadas no final dos anos 80 as faixas acid-house "Bauhaus" e "Helyom Halib". Em 1993, o projecto Cappella foi renovado para produzir faixas de techno-pop que se tornaram grandes êxitos como "U Got 2 Know" e "U Got 2 Let The Music". Por esta altura, as duas caras do projecto eram dois cidadãos ingleses, o rapper Rodney Bishop e a bailarina Kelly Overett que surgiam nos videoclips e nas capas dos discos. E em 1994, o single "Move On Baby" tornou-se mais um sucesso e o meu tema preferido de Cappella. Dois anos mais tarde, "Move On Baby" seria amplamente utilizado no famoso programa da SIC "Agora Ou Nunca", sobretudo durante a entrada do apresentador Jorge Gabriel.



Outros dois singles dos Cappella foram editados em 1994, "U & Me" and "Move It Up", mas depois Bishop e Overett foram afastados do projecto quando ficou claro que as vozes que se ouviam não eram as deles, sobretudo devido em actuações em que Kelly Overett teve de cantar ao vivo como no programa "Top Of The Pops". Veio-se a descobrir que as vozes que se ouviam em "Move On Baby" eram as de Ricardo Overman e Eileina Dennis. (Ainda assim, Rodney Bishop e Kelly Overett editariam ambos singles em nome próprio e com as suas vozes.) O projecto Cappella continuaria mais uns anos com outras vozes e caras, e um eventual regresso de Bishop, destacando-se temas como "Tell Me The Way" e "Turn It Up And Down".
   

Gloworm "Carry Me Home"


Antes de conhecer um grande sucesso internacional enquanto membro dos Faithless, um dos projectos do produtor britânico Rowland "Rollo" Armstrong (irmão da cantora Dido) foi os Gloworm onde a cara do projecto era o cantor gospel americano Sedric Johnson. "I Lift My Cup" foi o primeiro single, mas o grande hit foi "Carry Me Home", onde Johnson cantava sobre as dificuldades e alegrias da vida quotidiana. E era precisamente o fortíssimo desempenho de vocal de Sedric Johnson sobre as batidas de Rollo que brilhava ao longo da faixa e a tornava uma audição apelativa, sobretudo no refrão "Alone, alone, I did everything I could do…".




A voz feminina que se ouvia em "Carry Me Home" era a de Pauline Taylor, que foi ainda mais notória no terceiro e último single do projecto Gloworm "Young Hearts". Em 1995, Sedric Johnson e Pauline Taylor chegaram a actuar em alguns programas e discotecas em Portugal, mas a digressão por terras lusas foi algo abruptamente interrompida devido a problemas de Johnson nas cordas vocais. 

Corona "The Rhythm Of The Night"


Devido às semelhanças nominais com uma das designações do vírus que tem assolado o mundo, recentemente este grupo de euro-dance e o seu maior hit tem sido sobejamente relembrado.
Nos anos 80, o italiano Francesco Bontempi obteve alguma notoriedade internacional com faixas italo-disco que assinou sob o nome Lee Marrow. Em 1993, Bontempi iniciou outro projecto sob o nome de Corona com a cantora Giovanna Bersola, também conhecida por Jenny B a cantar no primeiro single "The Rhythm Of The Night" (cuja melodia nos versos foi decalcada do tema "Save Me" de Say When). No entanto, quem seria a cara pelo projecto seria a brasileira Olga de Souza que aparecia a dançar e a rodopiar alegremente no videoclip passado num parque de diversões. A versão mais conhecida de "The Rhythm Of The Night" contém um sample de "Playing With Knives" dos Bizarre Inc e existe um remix com a participação do já referido Ice MC.




O projecto Corona continuou com mais alguns hits como "Baby Baby", "Try Me Out", "I Don't Wanna Be A Star" e "The Power Of Love", com Olga de Souza como a cara do projecto mas com a britânica Sandy Chambers a ser a voz (embora Souza cantasse em algumas actuações ao vivo). O projecto Corona ainda está activo com novos produtores e ao que consta já com algumas canções cantadas de facto por Olga de Souza, que tem a sua própria label. Por seu turno, Jenny B continuou a dar vozes a faixas de euro-dance em que outras mulheres apareciam a fazer playback da sua voz como "The Summer Is Magic" de Playahitty ou "You & I" de J.K, mas também foi editando música em nome próprio, em inglês e italiano, e foi devidamente creditada em alguns outros temas, como por exemplo "Gonna Get Your Love" dos S-Sense (2000).
Quanto a "The Rhythm Of The Night", ainda hoje continua a ser um clássico imprescindível em festas dos anos 90, o refrão inspirou algumas versões alternativas como "Is this a Reebok or a Nike?" ou, no Brasil, "Jesus humilha Satanás" , recebeu uma inspirada cover dos Bastille em 2013 (emparelhada com outro clássico euro-dance "Rhythm Is A Dancer") e em 2019 foi amplamente samplado em "Ritmo (Bad Boys For Life)" dos Black Eyed Peas com J Balvin. E claro, durante a quarentena, não faltou quem o tenha tocado em casa ou das suas varandas.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

MacGyver (1985-1992) Parte 2



Com Parte 2 não indico que escrevi sobre o remake, mas apenas que vou juntar algumas observações que fiz desde que comecei a rever a série na RTP Memória. Para mais detalhes, (re)leiam a Parte 1: "MacGyver"(1985-92).


Portanto, a RTP Memória voltou a emitir os episódios, finalmente num horário que me convinha e embarquei com gosto nesta viagem de rever as aventuras de MacGyver e amigos. E foi incrível a quantidade de detalhes que tinha apagado da memória, bem como todos os que ainda estavam presentes, cerca de três décadas depois. E vendo os episódios diariamente, ao invés de um episódio por semana, como estávamos condenados antigamente, permitiu notar toda uma série de evoluções, modificações e ajustes, bem como  a personalidade inconstante do protagonista ao longo das várias temporadas, não falo em pormenores picuinhas, mas por exemplo a hesitação em ir salvar um jovem amigo a caminho de um provável destino mortal num pais desconhecido quando umas dezenas de episódios antes MacGyver fez de tudo para salvar o mesmo jovem. Principalmente no inicio, MacGyver era quase tão mulherengo como o agente 007 que tentavam imitar, mas em versão low budget gadgets. Há um vídeo que recomendo imenso porque faz um apanhado desses pormenores mais interessantes, incluindo o uso de imagens de outros filmes em sequências inteiras (Youtube "The Three Faces of MacGyver: Part 1 - Mac of All Trades").

Mas além de tudo, do pouco que recordava desta série que via religiosamente aos final dos Domingos à tarde não me lembrava que era tão divertida e dinâmica. Há alguns anos vi um episódio ao calhas num canal de cabo e quase adormeci, no entanto ao rever confirmo que é muito bem editada e resiste bem ao tempo. 



Também não tinha ideia que personagens como o adorável sacana Jack Dalton (o amigável traficante que constantemente coloca MacGyver em apuros), Penny Parker (aquela versão musical de Cleopatra foi...inesquecível) ou Murdoc (o delicioso over the top némesis imortal de MacGyver, vivido pelo actor inglês e rocker Michael Des Barres, que descobri hoje voltou a surgir no remake de MacGyver. Mas como estou a pensar dar uma segunda chance a essa série, não pesquisei mais...) tinham aparecido em tantos episódios, o que foi um agradável bónus.

E nem me recordava dos irmãos Colton, que tiveram direito a episódio especial para tentar lançar uma série protagonizada pela peculiar família de caçadores de recompensas. Mas foi um spin-off que não se concretizou.

Entremeados com os capítulos mais bombásticos,  apareciam alguns episódios preocupados com causas que infelizmente, mais de 3 décadas depois não tiveram grandes melhoras: liberdade e direitos humanos dos cidadãos na China (com referências directas ao Massacre de Tian An Men), a caça furtiva aos rinocerontes (negros) para alimentar o comércio da perversa medicina tradicional chinesa, racismo, desigualdade social, etc. E à medida que a série se aproximava do final, esses episódios - mais baratos? - de causas e comentários sociais aumentaram, mas sem no entanto serem moralistas. MacGyver por exemplo, tentava compreender os argumentos dos ambientalistas e dos madeireiros, e evitava ser o tradicional "salvador branco" que ia resolver os problemas dos locais (literalmente no dia seguinte a escrever isto o episódio do dia tem um místico oriental a afirmar que MacGyver é "o tal" ) . Mas aposto que ele ia acabar por complicar muito a vida de alguns personagens, se estes continuassem a existir depois da foto com os créditos no final de cada episódio, pelo menos nas primeiras temporadas ainda em Guerra Fria com os soviéticos e outros ditadores de meia tigela.
Curiosamente dos episódios que vi o mais pateta não é nenhum daqueles que o MacGyver sonha ser um cowboy, mas "Harry's Will", com vários cameos (como o Scotty de "O Caminho das Estrelas"), cenas ridículas e um tipo de humor slapstick que contrasta com o habitual na série.
E falando no Oeste Selvagem, no segundo episodio western, uma das "mulheres de MacGyver" é a ex-actriz porno Traci Lords, famosa pelo escândalo que abalou a indústria de filmes para adultos nos anos 80, visto que ela ainda não era adulta quando actuou na maioria da sua filmografia (que teve que ser banida ou editada nos EUA), pormenor que na época que o episódio passou na RTP eu desconhecia. (Aposto que muito espectador português sócio de clube de vídeo a reconheceu imediatamente..) Mas Lords não desistiu e conseguiu desde os anos 90 construir uma carreira de actriz em cinema e TV. 

Falando de episódios invulgares, se não tivesse terminado na sétima temporada, estou certo que ainda veríamos MacGyver no Espaço a combater alguns refugos da Galáctica depois de MacGyver bater com a cabeça na secção de ficção cientifica da biblioteca. A maioria dos vilões das ultimas temporadas pareciam saídos de um desenho animado, e tornou-se um pouco frustante ver o corajoso herói que enfrentou tantos perigos durante sete anos várias vezes agir como uma criança assustada e impotente para reagir, só para permitir acomodar a metragem do episódio. Mas foi bom recordar o trauma infantil que foi a causa da aversão que o nosso herói tem a armas de fogo.
No episódio que o chefe/melhor amigo Pete aguarda a operação aos olhos, ambos recordam aventuras passadas, e num dos flashbacks  é chocante comparar o tamanho gigante a que a gadelha de MacGyver chegou na 5ª temporada:

E falando nisso, há pouco tempo consegui uma cópia em VHS de um dos poucos episódios duplos da série, neste caso os dois primeiros dessa temporada, "Legend Of The Holy Rose". Com a minha temática favorita: caça ao tesouro!
Pete Thorton foi presença constante ao longo  da série e quando o actor Dana Elcar desenvolveu glaucoma, também o seu personagem Pete ficou progressivamente cego e participou em alguns dos episódios da temporada final. 

Uma curiosidade relacionada com Dana Elcar é que consta que o actor e o seu duplo na série - Don S. Davis - eram frequentemente confundidos. Podem vê-lo na foto abaixo, é o careca. Quase gémeos...

Anos depois, Don S. Davis seria o chefe do MacGyver, isto é, do Coronel O'Neill em "Stargate SG-1" (a continuação do "Stargate" de 1994), o segundo papel marcante da vida do actor Richard Dean Anderson.

Mais do que numa época pré-Internet podíamos imaginar, muitas vezes os episódios de séries eram emitidos fora de ordem cronológica, mas poucos casos serão tão flagrantes como o final de MacGyver, que foi emitido em penúltimo! E apesar de ter pesquisado para o artigo que escrevi em 2016 - Parte 1: "MacGyver"(1985-92), ainda consegui ter várias surpresas, como a do episódio final SPOILERS em que MacGyver encontra o seu filho que desconhecia existir. 

Com a quantidade de ex-namoradas, amigas e mulheres bonitas em perigo que MacGyver ajudou e confortou ao longo de sete temporadas e dois telefilmes, aposto que tem mais filhos que o Julio Iglesias, espalhados por essa Terra...
Estou agora a pensar rever os telefilmes "MacGyver: Lost Treasure Of Atlantis" e "MacGyver: Trail To Doomsday" (respectivamente "MacGyver: o Tesouro Perdido da Atlântida" e "MacGyver: Conspiração Internacional" nos ecrãs nacionais) ambos de 1994, e talvez recomeçar o remake no ar desde 2016. Talvez...



terça-feira, 19 de maio de 2020

Apanhados (1992-93; 1995)

por Paulo Neto


Os programas de televisão em que são pregadas partidas a cidadãos comuns, vulgo "apanhados", são tão antigos quanto a história da televisão. Não sei se o conceito foi inventado anteriormente em algum outro país, mas tanto quanto sei esse conceito começou nos Estados Unidos em 1948 sobre o título "Candid Camera", que aliás provinha de uma versão radiográfica intitulada "Candid Microphone" e de algumas curtas metragens cinematográficas. Várias encarnações do programa foram produzidas na televisão americana (a mais recente em 2014) e lembro-me que algumas delas chegaram a passar na RTP e na TVI em meados dos anos 90, quando o apresentador era Dom DeLuise. Claro que o conceito não tardou a ser adaptado para outros países, alguns mantendo programas nesses moldes na sua programação até hoje.



Em Portugal, foi Joaquim Letria o creditado por trazer os "apanhados" para a televisão portuguesa, integrados nos programas que conduziu para a RTP. Primeiro em 1980 para o programa "Tal & Qual" (que tinha o mesmo nome do jornal que fundou nesse ano e que duraria até 2007), mais tarde em 1987/88 no programa "Já Está" (onde a rubrica tinha o título de "Fotomaton") e em 1990/91 para o programa que tinha o seu nome. E claro, por essa altura, os filmes com essa mesma temática da saga sul-africana "Gente Gira"  faziam furor por cá. 



O sucesso desses quadros era tal que se impunha um programa autónomo. E foi assim que o programa obviamente intitulado "Apanhados" foi uma das mais aguardados estreias da RTP1 para a rentrée de 1992 (quando muito em breve a SIC iria iniciar as suas transmissões). Foram 26 programas emitidos nas noites de segunda-feira entre 14 de Setembro de 1992 e 8 de Março de 1993.

Joaquim Letria aparecia no início de cada quadro, explicando a respectiva situação. Embora já tivesse aparecido na televisão antes, sobretudo na pele do palhaço Fraldinha, foi aqui que Guilherme Leite teve o seu primeiro grande momento de notoriedade televisiva. Houve também uma situação em que a lendária apresentadora da RTP Helena Ramos entrevistava pessoas enquanto estas iam sendo maquilhadas exageradamente e a actriz Adelaide João protagonizou também duas situações. Consegui identificar também dois dos futuros comparsas de Guilherme Leite nos "Malucos do Riso": Ildeberto Beirão e Amadeu Caronho. O site "Brinca, Brincando" (de onde provêm várias das imagens aqui utilizadas) descobriu também que a actriz Sandra B. foi uma das vítimas que foram apanhadas numa das situações.






Eu costumava gravar os "Apanhados" para o meu pai ver quando chegava a casa e houve uma situação que rapidamente se tornou a favorita de toda a nossa família e que revimos vezes sem conta: a do manequim vivo, em que aquele famoso homem-estátua (não me recordo do nome do senhor) fazia-se passar por um manequim que de repente se mexia, para susto dos incautos clientes que andavam pela loja.


Outras situações que eu recordo: pessoas que tentam falar de uma cabine telefónica mas mesmo ao pé está uma daquelas motas a fazer aqueles ruídos insuportáveis, o homem que dá um sermão num clube de vídeo aos clientes que alegadamente teriam alugado filmes pornográficos, uma pilha de caixas que cai num supermercado com uma actriz disfarçada de repositora a culpar os transeuntes, a senhora numa farmácia que pede a outras pessoas para a ajudarem a comprar preservativos com sabor, uma freira que pede para lhe ajudarem a escrever uma carta com conteúdos não lá muito castos, pessoas que são convidadas a fazer um anúncio a um sumo que vem-se a provar ser intragável ou viajantes que acabam de chegar ao aeroporto de Lisboa e uma equipa de televisão os confunde com alguém importante. 

Estes "Apanhados" foram um sucesso de audiência e provocaram vários risos pelo país fora, mas o programa acabaria em tons amargos: Manolo Bello, o criador das situações apanhadas, desentendeu-se com Joaquim Letria, alegando que este lhe pagara menos que o previsto e o próprio Letria fartou-se de ser conotado como "o senhor dos Apanhados" e deste rótulo estar a ofuscar todo o seu vastíssimo trabalho enquanto figura de proa da comunicação social portuguesa.


Ainda em 1993, Manolo Bello recuperaria o formato dos "Apanhados" da SIC em "Minas E Armadilhas" (que futuramente terão o seu próprio artigo), novamente com Guilherme Leite entre os protagonistas das situações. 



Mesmo assim em 1995, uma nova encarnação dos "Apanhados" com treze episódios exibidos na RTP1 entre 20 de Maio e 3 de Setembro desse ano , em que os Black Company, na altura vivendo ao máximo o sucesso do seu hit "Nadar", faziam vários sketches que eram elos de ligação entre as diversas situações. Desta vez a autoria das situações esteve a cargo do francês Jean-Yves Lafesse e entre os pregadores de partidas estavam os actores António Melo e Maria João Abreu (que então ainda não eram tão conhecidos do grande público como o são actualmente), bem como participações especiais de Roberto Leal e Margarida Pinto Correia

Margarida Pinto Correia numa das situações apanhadas


As duas encarnações dos "Apanhados" estão disponíveis no site de arquivos da RTP:
- A era Joaquim Letria: https://arquivos.rtp.pt/programas/apanhados/
- A era Black Company: https://arquivos.rtp.pt/programas/apanhados-temporada-ii/

No Youtube podem ser vistos alguns excertos como por exemplo esta situação em que, 18 anos antes do casamento entre pessoas do mesmo sexo ter sido legalizado em Portugal, Guilherme Leite e o seu cúmplice fazem-se passar por um casal que se quer casar e que pede a pessoas na rua para serem a sua testemunha. (E se não me falha a memória existiu posteriormente uma situação idêntica mas com um casal de mulheres.)


4.º programa (5/10/1992)
que inclui o apanhado do anúncio ao sumo intragável:

domingo, 10 de maio de 2020

A Rede (1995)

por Paulo Neto


Em 1995, a internet dava ainda os primeiros passos para a sua massificação (aliás, acho que foi nesse ano que eu ouvi pela primeira vez a palavra "internet") mas foi nesse ano que Hollywood abordou pela primeira vez o ciberterrorismo e os perigos dessa nova forma de comunicação. E quem melhor para protagonizar um filme desses do que Sandra Bullock, que então vivia os seus primeiros anos de estrelato e que dera provas em filmes de acção como "Homem Demolidor" e sobretudo "Speed - Perigo Em Alta Velocidade"? Esse filme foi "A Rede" ("The Net") realizador por Irwin Winkler, que há dias apanhei por acaso numa noite de zapping televisivo e fiquei a ver.



Em "A Rede", Bullock é Angela Bennett, uma especialista em analisar sistemas informáticos, que vive em Venice, na Califórnia, trabalhando a partir de casa para a empresa Cathedral em São Francisco. Angela vive uma vida solitária e dedicada ao trabalho e as suas interacções com outros são quase exclusivamente via online ou por telefone, excepto algumas visitas à sua mãe (Diane Baker), internada por sofrer de Alzheimer. Um dos seus colegas envia-lhe uma disquete cujo link com o símbolo de "pi" dá acesso a informações sobre um novo sistema informático de segurança, "The Gatekeeper" (o "Guardião") mas antes de saber mais, o colega morre misteriosamente num acidente de avião.


De férias no México, Angela conhece um atraente inglês chamado Jack Devlin (Jeremy Northam), mas o que começa por ser um romance de férias toma um rumo perigoso quando ela descobre que Jack quer matá-la por causa dessa disquete. Após alguns dias inconsciente devido ao acidente de barco resultante desse confronto, Angela fica estupefacta ao saber que a sua identidade foi completamente roubada: foi dada como tendo feito o check-out do hotel e do carro alugado, os seus cartões de crédito foram invalidados e ao regressar aos Estados Unidos, descobre que alguém fez-se passar por ela para vender a sua casa e todos os seus pertences e devido às suas poucas interacções pessoais, nenhum dos vizinhos pode confirmar que ela é a verdadeira Angela. Em troca disso, a sua identidade agora é de alguém chamada Ruth Marx, que consta dos dados da polícia como procurada por ter hackeado os seus sistemas de segurança. Sem mais ninguém para a ajudar, Angela recorre a um ex-namorado Alan Champion (Dennis Miller) que a instala num hotel e promete contactar um amigo no FBI para a ajudar. 




Através de uma password que roubou da carteira de Devlin, Angela descobre que este trabalha para uma sociedade secreta, os Pretorianos, que pretendem controlar o espaço cibernético através do "Guardião", acedendo a dados secretos de bancos, de instituições públicas e até do governo americano, e que estiveram por trás da morte do Secretário de Defesa americano Michael Bergstrom (Ken Howard), um opositor desse sistema, que se suicidou por pensar que contraiu o vírus da SIDA, uma falsa informação que foi manipulada. Depois de sobreviver a mais uma perseguição de Devlin, Angela descobre que ele também provocou a morte de Alan, ao trocar os seus dados no hospital onde estava internado, recebendo uma dose letal de insulina.  
Com Devlin e a polícia no seu encalço, Angela ruma a São Francisco numa corrida contra o tempo para descobrir a verdadeira Ruth Marx (Wendy Gazelle) que ocupou o seu lugar, denunciar Jeff Gregg, o CEO da empresa do "Guardião" e líder dos Pretorianos, e provar a sua inocência.



Apesar de já parecer extremamente datado aos olhos de 2020, sobretudo na parte da tecnologia (quando uma disquete era o suprasumo do armazenamento de informação), "A Rede" ainda é um filme que se vê bem e beneficia do efeito "cápsula do tempo" de nostalgia dos anos 90. Sandra Bullock é uma vez mais competente como protagonista, embora seja pouco verosímil que alguém como ela vivesse uma vida tão solitária. No entanto, as suas mensagens sobre os perigos da internet e aquilo que expomos nela, bem como a capacidade das grandes empresas para aceder a informações pessoais e controlar muita coisa com isso, permanece bem actual vinte e cinco anos depois. 
O filme gerou também uma série em 1998 e uma sequela directa para o mercado de vídeo de 2006.

Trailer:





segunda-feira, 4 de maio de 2020

Festival da Eurovisão 1985

por Paulo Neto

Este ano, por causa das razões que se sabem e pela primeira vez desde a criação do certame, não haverá Festival da Eurovisão. Mas aqui na Enciclopédia de Cromos continuamos a recordar edições passadas e desta vez recuamos até 1985.





O 30.º Festival da Eurovisão teve lugar a 4 de Maio de 1985 na arena Scandinavium na cidade sueca de Gotemburgo. Participaram 19 países, tantos quanto no ano anterior, mas os Países Baixos e a Jugoslávia estiveram ausentes devido ao dia do evento coincidir com datas pouco propícias a celebrações nesses países mas em contrapartida regressaram Grécia e Israel, ausentes no ano anterior. Nesta edição foi prestada uma devida atenção aos autores e compositores das canções, sendo estes os protagonistas dos postais ilustrados em que eles visitavam vários locais da área metropolitana de Gotemburgo. Deste modo, os intérpretes só participaram nos postais ilustrados caso tivessem contribuído para a composição das respectivas canções. (Foi o caso da nossa Adelaide Ferreira, creditada como autora da letra da canção que defendeu.)
Ainda assim, neste ano foram vários os intérpretes que regressaram à Eurovisão. Foi também o caso da apresentadora Lill Lindfors, que tinha representado a Suécia em 1966. Lindfors acabaria por protagonizar um dos momentos mais marcantes do espectáculo, que ficaria para a história da Eurovisão: chegada a altura de iniciar as votações, um aparente acidente de vestuário deixou-a sem saia e de cuecas à mostra em pleno palco! Perante o burburinho geral, logo a seguir ficou-se a saber que tinha sido tudo uma partida, com Lill Lindfors prontamente a desdobrar a blusa que trazia vestida num outro vestido.
Os comentários para a RTP estiveram a cargo de Eládio Clímaco enquanto Maria Margarida Gaspar foi a porta-voz dos votos portugueses. 

Como é habitual, abordaremos as canções por ordem inversa da classificação:

Linda Lepomme (Bélgica)

Alguém tem de ficar em último e nesse ano a fava calhou à Bélgica, que recebeu somente sete pontos da Turquia. Linda Lepomme era mais conhecida como actriz no seu país mas também ocasionalmente dava mostras como cantora. Em Gotemburgo, interpretou a balada "Lat me nu gaan" ("deixa-me ir"). Mas por norma, a Bélgica saía-se pior no idioma flamengo do que em francês e este ano não foi excepção. Mas no ano seguinte, as coisas correriam melhor para as cores belgas. Muito melhor... 

Adelaide Ferreira (Portugal)

Com apenas dois pontos da Turquia, Portugal passou quase todo o período das votações na cauda da tabela, mas os sete pontos da Grécia, o último país a votar, salvou-nos da lanterna vermelha. Adelaide Ferreira começou por dar cartas no início dos anos 80 durante o boom do rock português, com canções como "Baby Suicida" e "Trânsito" elevando-a ao estatuto de roqueira-mor nacional. Mas seria através das baladas que o seu repertório viria a deixar maior legado. Em 1984, Adelaide Ferreira alcançou o melhor resultado de sempre de Portugal no Festival da OTI, o segundo lugar com "Vem No Meu Sonho". Em 1985 venceu o Festival da Canção com "Penso Em Ti (Eu Sei)", que como já falámos aqui foi uma edição mítica que deixou para a posterioridade o "Umbadá" de Jorge Fernando e onde participaram nomes como os Delfins, Alexandra, uns bem jovens Nuno e Henrique Feist e Wanda Stuart (então Vanda Pereira). Igualmente mítico foi o videoclip da canção filmados nos Açores, com Adelaide a protagonizar um melodrama romântico com laivos de sobrenatural. Apesar do parco resultado, Adelaide Ferreira não saiu de mãos a abanar já que foi votada (creio que pela imprensa lá presente) como a mais bem vestida, graças ao ultra-vistoso vestido desenhado pelo malogrado José Carlos. 

Lia Vissi (Chipre)

Takis Binyaris (Grécia)

As pátrias-irmãs de Chipre e Grécia partilharam o 16.º lugar com 15 pontos. Depois de ter feito coro pelas canções da Grécia de 1979 e 1980, Lia Vissi teve nesse ano a oportunidade de participar como solista pelo seu país de nascença, Chipre, interpretando "To katalava arga" ("apercebi-me tarde demais"), uma canção da sua autoria. A sua irmã mais nova, Anna, representou Chipre na Eurovisão em 1982 e a Grécia em 1980 e 2006.
Takis Biniaris representou a Grécia com a romântica balada "Miazoume" ("nós somos parecidos"). Com a camisa branca e o papillon com que se apresentou em palco, dava a ideia que tinha vindo directamente de um restaurante onde tinha servido à mesa.

MFÖ (Turquia)

Paloma San Basilio (Espanha)

Também houve um empate no 14.º com Espanha e Turquia a receberem 36 pontos. A Turquia fez-se representar pelo trio MFÖ (iniciais dos primeiros nomes dos membros da banda: Mazhar Alanson, Fuat Güner e Özkan Ugur). Podia-se quase sempre contar com a Turquia para trazer algo exótico à Eurovisão e o tema que trouxeram, "Didai didai dai", era bastante solarengo e dava para imaginar a ouvir algo assim numa bela praia na costa de Antalya. Os MFÖ regressaram ao Festival em 1988 e continuam no activo, mais de quarenta anos depois da formação do trio.
Nesse ano, a vizinha Espanha apostou forte com uma das suas mais famosas divas, Paloma San Basilio. Desde 1975 que San Basilio fazia sucesso em Espanha e na América Latina, não só em disco mas também em musicais (foi a protagonista da primeira adaptação de "Evita" em língua espanhola) e o tema que defendeu em Gotemburgo, "La fiesta terminó", era feito à medida do seu talento. Mas nesta edição de 1985 as baladas foram como que preteridas pelos temas mais mexidos e este 14.º lugar de Espanha ficou a saber a pouco.

The Internationals (Luxemburgo)


Pino Gasparini & Marielle Ferré (Suíça)

O Luxemburgo foi representado por um colectivo internacional: Margo (holandesa), Franck Olivier (luxemburguês), Diane Solomon (americana), Malcolm Roberts (inglês), Chris Roberts (alemão) e Ireen Sheer (inglesa radicada na Alemanha). Embora creditados no certame com os nomes dos seis intérpretes, por vezes esta colaboração é referida sobre a designação The Internationals. Dos seis, a única com experiência eurovisiva era Ireen Sheer que tinha representado o Luxemburgo em 1974 e a Alemanha em 1978. Em uníssono cantaram "Children, Kinder, Enfants" em francês, tendo também gravado versões em alemão e inglês e uma versão trilingue. O Luxemburgo ficou em 13.º lugar com 37 pontos, destacando-se 10 pontos de Portugal.   
A Suíça foi outro país que apostou em intérpretes repetentes nestas andanças, a saber Pino Gasparini (em 1977 com membro da Pepe Lienhard Band) e Mariella Farré em 1983. Apesar de ambos terem raízes italianas e a sua canção se intitular "Piano, piano", cantaram em alemão e ficaram em 12.º lugar com 39 pontos.

Hot Eyes (Dinamarca)

Roger Bens (França)

O duo Kirsten & Soren, também conhecido como Hot Eyes, já tinham representado a Dinamarca no ano anterior e voltariam a fazê-lo em 1988. Nas outras duas participações, Kirsten Siegaard actuou grávida, mas nesta prestação, foi Léa, a filha de Soren Bundgaard, que com nove anos ficou para a história como a mais jovem pessoa a fazer parte de uma actuação no Festival da Eurovisão, um recorde que ficará para sempre já que desde 1990 só maiores de 16 anos é que podem participar seja como for. A canção dinamarquesa tinha um título complicado para quem não é nórdico: "Sku' du spørg' fra no 'en?" ("gostarias de saber?") e falava sobre duas pessoas que se encontram na discoteca e descobrem que são amigos de infância há muito desencontrados. A Dinamarca ficou em 11.º lugar com 41 pontos.
Roger Bens destilou charme francês para cantar "Femme dans ses rêves aussi" ("mulher também nos seus sonhos"), todo um elogio ao sexo feminino e rendeu à França o décimo lugar com 56 pontos, incluindo um 12 da Grécia.

Sonja Lumme (Finlândia)

Gary Lux (Áustria)


Tal como Portugal, a Finlândia é um país pouco habituado a lugares entre os dez primeiros no Festival da Eurovisão pelo que o nono lugar com 58 pontos alcançado nesse ano foi um resultado muito positivo para as cores finlandesas. E verdade seja dita, "Eläköön elämä" ("que viva a vida") é uma das melhores canções finlandesas da história da Eurovisão, um energético tema pop-rock interpretado por Sonja Lumme e onde os quatro membros do coro se moviam em sincronia. Além da sua carreira como cantora, Sonja Lumme também se destacou no seu país como actriz no teatro e na televisão. 
Nascido no Canadá, Gary Lux estava presente pela Áustria pelo terceiro ano consecutivo. Depois de em 1983 ter participado como membro do grupo Westend e em 1984 ter feito coro para Anita Spanner, Lux agora apresentava-se como solista para cantar "Kinder dieser Welt" ("as crianças deste mundo") conseguindo o oitavo lugar com 60 pontos. Um dos compositores da canção, Mick Jackson, compôs também o famoso tema disco "Blame It On The Boogie". Entre os músicos que o acompanharam em palco, estava Rhonda Heath que em 1977 representou a Alemanha como membro dos Silver Convention. Gary Lux viria a representar novamente a Áustria em 1987, além de fazer coro nas canções austríacas de 1993 e 1995.

Al Bano & Romina Power (Itália)

Maria Christian (Irlanda)

Nove anos depois, o célebre duo Al Bano e Romina Power voltou a representar a Itália. Casados desde 1970, a dupla teve vários sucessos internacionais nos anos 70 e 80 como "Felicitá" e "Ci Sará". Em Gotemburgo cantaram "Magic Oh Magic", ficando em sétimo lugar com 78 pontos (12 de Portugal). As três cantora do coro estavam vestidas de verde, branco e vermelho formando a bandeira italiana. Al Bano e Romina acabariam por se divorciar em 1999, cinco anos depois do desaparecimento da sua filha mais velha Ylenia. No Festival da Eurovisão de 2000, Al Bano integrou o coro para a canção da Suíça. Em 2007, Romina Power (filha do actor de Hollywood Tyrone Power) deixou Itália para regressar à sua América natal onde vive desde então, mas muito de vez em quando ainda acede em actuar com o ex-marido.
A Irlanda foi o primeiro país a actuar, ficando em sexto lugar com 91 pontos, com Maria Christian a cantar "Wait until the weekend comes". Christian foi a primeira cantora invisual (sofre de cegueira legal desde os nove anos) a actuar na Eurovisão. Segundo a Wikipedia, Maria Christian vive actualmente em França, na região da Lorena, com o seu marido e os seus sete filhos. Em 2016, concorreu à versão irlandesa do The Voice e este ano, concorreu à versão francesa, entretanto interrompida devido à pandemia.




Izhar Cohen (Israel)

Vikki (Reino Unido)

E perguntam vocês: qual é a minha canção preferida da Eurovisão de 1985? É ainda a mesma pela qual o Paulo de cinco anos torceu na altura! Israel apostava forte ao trazer de novo Izhar Cohen, o vencedor da edição de 1978 com o clássico "A-Ba-Ni-Bi" e a canção com que regressou sete anos depois, "Olé Olé", era igualmente alegre e energética. Uma inesperada figura de destaque na natação foi a bailarina de azul que tinha um microfone preso na roupa e que soltou um desafino no primeiro refrão, mas por obra do destino no meio da elaborada coreografia, o microfone caiu-lhe, impedindo-a de desafinar mais.
Ainda assim, Israel teve um honroso quinto lugar com 93 pontos. Actualmente, Izhar Cohen retirou-se do mundo artístico e é dono de uma joalharia. No Festival da Eurovisão de 2019 em Telavive, foi o porta-voz dos votos do júri israelita.   
Vikki Watson foi a representante do Reino Unido com o tema "Love is...", que ficou em quarto lugar com cem pontos. Em palco, Vikki começou a actuação sentada numa cadeira, levantando-se e afastando-se gradualmente a partir dela do primeiro refrão, uma metáfora ao tema da canção, sobre o medo de arriscar por amor. Actualmente, Vikki Lawson dedica-se a produzir música new age e composições para filmes e televisão sob o nome de Aeone.

Kikki Danielsson (Suécia)

Ao contrário a diferença final de dezoito e vinte pontos do primeiro classificado para o segundo e terceiro posto, ao longo das votações três países foram disputando renhidamente a liderança. O terceiro lugar foi para a Suécia com 103 pontos. Depois de ter representado o seu país em 1982 como parte do duo Chips, Kikki Danielsson apresentava-se a solo cantando "Bra vibrationner" (que não, não quer dizer "soutien vibratório", mas sim "boas vibrações"). Kikki Danielsson continua no activo até hoje e tentou mais quatro vezes regressar à Eurovisão pela Suécia (e uma pela Noruega), a mais recente em 2018.


Wind (Alemanha)

A Alemanha parecia ter a vitória quase certa a cinco votações do fim, mas depois a sorte acabou por favorecer o eventual país vencedor, e acabou por ficar em segundo lugar com 105 pontos. O grupo Wind, formado para competir na pré-selecção alemã, com Rainer Höglmeier e Petra Scheeser como vocalistas, interpretou "Fur alle" ("para todos"), uma balada midtempo. Os Wind voltariam a representar na Alemanha em 1987 (ficando novamente em segundo lugar) e 1992, embora apenas Petra Scheeser e o baterista Samy Khalifa tenham estado nas três participações. Com um constante renovar de membros, o grupo Wind ainda hoje se mantém activo na Alemanha.

Bobbysocks (Noruega)

Mas seria a Noruega a vencer com 123 pontos, graças ao duo Bobbysocks e o tema "La det swinge". O duo era formado por Hanne Krogh e Elisabeth Andreassen, ambas já com experiência eurovisiva: em 1971, uma jovem Krogh de 14 anos tinha sido a representante norueguesa, enquanto Andreassen tinha representado a Suécia em 1982 no duo Chips...Sim, a sua parceira da altura Kikki Danielsson foi neste ano sua adversária. Krogh e Andreassen continuaram a actuar e a gravar discos como Bobbysocks até 1988, decidindo depois cada uma apostar numa carreira a solo e ambas voltariam a representar a Noruega na Eurovisão: Hanne Krogh em 1991 como parte do grupo Just 4 Fun e Elisabeth Andreassen em 1994 e 1996.   


As Bobbysocks com Lys Assia, a vencedora do
primeiro Festival da Eurovisão em 1956.



Foi a primeira vitória da Noruega na Eurovisão (que entretanto voltou a ganhar em 1995 e 2009), na altura um feito impressionante pois na altura era o país que tinha ficado mais vezes em último lugar. (Aliás, com mais cinco últimos lugares desde então, num total de onze, a Noruega continua a ser o país detentor desse recorde pouco invejável.) A apresentadora Lill Lindfors fez questão de referir esse facto na altura de dar os parabéns às Bobbysocks, dizendo-lhes: "Devo dizer-vos que estou francamente feliz que isto aconteceu porque a Noruega ficou tantas vezes em último lugar que vocês mereceram!", ao que Hanne Krogh respondeu: "Tu estás feliz? Como é que julgas que nós estamos?". "La det swinge" tornou-se rapidamente um clássico da Eurovisão e lembro-me de na altura ouvir na rádio a versão em inglês "Let it swing".

Festival da Eurovisão 1985 (comentários da BBC)






O "acidente" de Lill Lindfors: 


Actuação na Gala dos 60 anos da Eurovisão (2015): 




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