quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Os Donos do Jogo (1994-97)


Numa das coincidências da vida, há cerca de um ano eu descobri que era colega de trabalho de um leitor/seguidor de longa data da Enciclopédia de Cromos. E pouco depois, esse meu colega, o Cláudio Assunção, também somou dois mais dois e percebeu que é que era o Paulo Neto dos textos que ele lia no blogue. Escusado será dizer que desde então o Cláudio segue os nossos passos com redobrada atenção. E foi  ele que me sugeriu um texto sobre este programa.

Jorge Gabriel Costa Mendes Fialho, conhecido apenas pelos seus dois nomes próprios, é uma das poucas personalidades televisivas que já tive a oportunidade de encontrar pessoalmente pois foi ele o meu padrinho das minhas duas aparições televisivas, enquanto apresentador dos dois concursos em que participei na RTP: "O Cofre" (2006) e "Sabe Mais Que Um Miúdo de Dez Anos (2007). (Se alguém tiver algum registo gravado das minhas passagens por esses concursos, por favor contacte-me!). Mas se hoje é uma das caras de longa data da RTP, foi na SIC que Jorge Gabriel deu os primeiros passos na televisão, como apresentador do magazine desportivo "Os Donos da Bola" em 1993 (além de passagens ocasionais pelo "Praça Pública"). E em 1994, ainda no âmbito no desporto, experimentou pela primeira vez o entretenimento com o concurso "Os Donos do Jogo".



Uma vez mais, a informação encontrada na internet foi muito escassa e incompleta. Sei apenas que o programa estreou a 24 de Agosto de 1994 e terá durado até 1997 e dava de segunda a sexta-feira a seguira ao Primeiro Jornal. A partir de 1995, com Jorge Gabriel a transitar para o horário nobre onde apresentaria programas como "Sim Ou Não" e sobretudo "Agora Ou Nunca", foi alternando na apresentação com Nuno Santos


Da autoria de Paulo Bordalo Pinheiro, "Os Donos do Jogo" tinha uma dinâmica simples. Em cada sessão, dois concorrentes respondiam a perguntas relacionadas com futebol e no ecrã via-se um campo de futebol com várias camisolas (geralmente representando o clube de que cada um dos concorrentes era adepto). Cada concorrente escolhia a sua táctica, por exemplo 4-3-3 ou 4-4-2, tendo em conta que o grau dificuldade de cada pergunta (as perguntas de grau 4 eram as mais fáceis, as de grau 1 ou 2 as mais difíceis). Sempre que um concorrente acertava, via-se uma das camisolas do ecrã a transformar-se num boneco a chutar uma bola. Caso o concorrente errasse a pergunta, o adversário ficava com a posse da bola e era ele a responder à pergunta seguinte. O objectivo era portanto responder o maior número de perguntas até conseguir marcar golo, ganhando o concorrente que tinha "marcado mais golos" (isto é, acertado mais perguntas sucessivas).     




Apesar da simplicidade do jogo e dos gráficos, sem dúvida que era um programa que fazia as delícias dos telespectadores apaixonados por futebol, que em casa também testavam os seus conhecimentos futebolísticos. Aliás, os telespectadores também podiam ganhar prémios com esses conhecimentos já que por vezes quando um concorrente errava uma pergunta, essa pergunta poderia ser utilizada para o jogo de casa para ser respondida pelos espectadores através de chamada telefónica. 


O blogue "Ainda Sou Do Tempo" refere que chegou a haver uma versão caseira deste jogo (de tabuleiro ou para computador?) que não teve grande sucesso.  

1.º programa


2.º programa



Programa do 1.º aniversário




Em 2008, no programa "Zé Carlos" dos Gato Fedorento, foi revelado que um dos concorrentes deste programa foi um muito jovem Ricardo Araújo Pereira (com um ainda mais jovem Tiago Dores na assistência)!






quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Mulherzinhas (1994)

por Paulo Neto

Publicado pela primeira vez em 1868, "Mulherzinhas" de Louisa May Alcott tornou-se um clássico da literatura juvenil e já há várias gerações que leitores em todo o mundo se encantaram com a história de quatro irmãs adolescentes que vão passando pelas diversas dores de crescimento enquanto o pai de ambas está ausente na Guerra Civil Americana (a história é baseada em experiências reais da autora). Este livro tem um lugar especial na minha vida como leitor pois foi o primeiro livro não-lá-muito infantil que eu li, tinha para aí uns oito ou nove anos, numa edição da Série Azul do Círculo Leitores, famosa por editar os livros da Condessa de Ségur mas também outros clássicos da literatura juvenil, da autores como Júlio Verne, Anne Bronte ou Charles Dickens.



"Mulherzinhas" também já foi adaptada várias vezes em cinema e televisão. Ao todo existem seis adaptações cinematográficas: duas no período do cinema mudo em 1917 e 1981, uma de 1933 protagonizada por Katharine Hepburn, uma de 1949 com umas bem jovens Elizabeth Taylor e Janet Leigh, a de 1994, da qual eu vou falar neste texto, e uma a estrear ainda este ano de 2019, realizada por Greta Gerwig e com Saoirse Ronan, Emma Watson, Timothée Chalamet e Meryl Streep. (Existe também uma versão de 2018 recontada na actualidade.) Tenho ainda de referir a adaptação em série anime de 1987 que passou na TVI nos anos 90.


Cartaz da adaptação de 1933

Elizabeth Taylor como Amy na versão de 1949


Uma cena da versão de 1949, que inspirou a capa
de uma edição do Círculo de Leitores.


Aliás o meu primeiro contacto com a história foi com a versão de 1949, que passou na RTP uns tempos antes de eu ter o livro, que aliás tinham a ilustração de uma cena desse filme na capa. No entanto ao ler constatei que essa versão fez uma alteração importante à trama ao reverter a ordem de nascimento das duas irmãs mais novas: no livro Amy é a mais nova e nesse filme, a irmã caçula é Beth, uma alteração que se deveu ao casting de Elizabeth Taylor como Amy (numa das raras vezes em que fez de loura) e a estrela infantil, Margaret O'Brien como Beth. (Meg e Jo foram respectivamente interpretadas pelas não menos célebres Janet Leigh e June Allyson.) 

Foi preciso esperar quase mais cinquenta anos para que Hollywood revisitasse a história até chegar a versão de 1994, realizada por Gillian Armstrong com Winona Ryder, Susan Sarandon, Claire Daines, Kirsten Dunst, Christian Bale, Eric Stolz, Trini Alvarado, Samantha Mathis e Gabriel Byrne. Tal como noutras adaptações, o filme condensa a história de "Mulherzinhas" e a sua sequela "Boas Esposas". (Existem ainda mais dois livros da série: "Homenzinhos", que eu também li, e "Os Rapazes de Jo").




No estado de Massachusetts, as quatro irmãs March tentam viver a vida com os seus parcos recursos e o pai a combater na Guerra Civil. Margaret ou Meg (Alvarado) é a mais velha, e considerada a mais bonita, esforça-se para ser uma moça prendada mas de vez em quando deixa-se tentar pela vaidade; Josephine ou Jo (Ryder) é a maria-rapaz, de temperamento forte e decidido, que sonha em ser escritora e que desespera nas suas funções de dama de companhia à sua rabugenta tia-avó (Mary Wickes), a única pessoa endinheirada da família; Elizabeth ou Beth (Daines) é doce, tímida e frágil contentando-se em ficar em casa e em tocar piano; Amy (Dunst e mais tarde Mathis) é mimada, empertigada e apaixonada pelas artes. Por entre os altos e baixos das quatro irmãs, está o apoio firme e terno da mãe delas, Abigail (Sarandon) que as filhas tratam por Marmee bem como a da dedicada empregada Hanna (Florence Patterson). 




Por altura do Natal, Jo trava amizade com o jovem Theodore Laurence ou Laurie (Bale), o vizinho do lado, e os dois depressa se tornam grandes amigos, uma amizade que rapidamente se estende ao resto da família March. James Laurence, o avô de Laurie (John Neville) também acolhe as irmãs March como se fossem suas netas, em especial Beth, cujo talento para tocar piano lhe faz recordar uma filha falecida. Enquanto isso, Meg apaixona-se por John Brooke (Stolz), o tutor de Laurie.      
Meses mais tarde, uma série de acontecimentos infelizes se sucedem: o Sr. March (Matthew Walker) é ferido na guerra e Jo vende o seu cabelo para que Marmee possa viajar até Washington e tratar do marido. Enquanto Marmee está ausente, Beth contrai escarlatina durante uma visita a uma família pobre que era ajudada pela sua mãe e fica gravemente doente e Amy é levada para casa da Tia March para evitar risco de contágio. O fim desses dias penosos só chega no Natal com Beth recuperada e o pai de regresso a casa.





Quatro anos depois, Meg e John casam-se (é aqui começa a história do livro seguinte "Boas Esposas") e pouco depois têm um casal de gémeos, Demi e Daisy. Laurie declara-se a Jo mas esta recusa, sentindo que só gosta dele como amigo, para grande frustração do rapaz. Jo fica ainda mais destroçada quando descobre que a Tia March decidiu levar Amy numa viagem pela Europa, que era o grande sonho de Jo. Esta então muda-se para Nova Iorque para tentar ganhar a vida como escritora e lá encontra Friedrich Bhaer (Byrne), um professor alemão que a introduz à ópera e à filosofia e a encoraja a melhorar a sua escrita. 
Entretanto, Beth, cuja saúde ficou irremediavelmente deteriorada, sente que tem pouco tempo de vida e aguarda serenamente pela morte. Jo regressa a casa para velar Beth nos seus últimos dias e decide escrever sobre a vida dela e das irmãs. Na Europa, Laurie e Amy encontram-se e acabam por se apaixonar, regressando à América já casados.  
Após a morte da Tia March, Jo herda a sua propriedade que ela decide transformar numa escola, vê o seu livro publicado, e após alguns mal-entendidos, ela e Bhaer descobrem que estão apaixonados e ela aceita casar-se com ele.  

Esta adaptação de "Mulherzinhas" foi extremamente competente, apresentando a obra a toda uma nova geração e recebendo elogios do público e da crítica. Todavia, quem tenha lida o livro como eu não pôde deixar de achar que ficaram de fora várias cenas marcantes da obra (como a cena do piquenique ou aquela em que Meg enfrenta a Tia que se opõe ao seu noivado com John). Todo o elenco está muito bem mas sem dúvida que Winona Ryder é quem brilha mais como Jo, ao ponto de ter sido nomeada para o Óscar de Melhor Actriz (curiosamente, Susan Sarandon foi nomeada nesse ano por outro filme, "O Cliente"). O filme foi também nomeado para Melhor Guarda-Roupa e Melhor Banda Sonora Original da autoria de Thomas Newman.  

Trailer:





   

domingo, 3 de novembro de 2019

Roque Santeiro (1985-86)

por Paulo Neto

Já falámos aqui no blogue de muitas telenovelas, mas surpreendentemente ainda não falámos desta que é sem dúvida uma das telenovelas mais lendárias de sempre e que foi um estrondoso sucesso tanto no Brasil como em Portugal.




Da autoria de Dias Gomes, o autor de "O Bem Amado", a história de "Roque Santeiro" começou com uma peça sua, "O Berço do Herói", escrita nos anos 60 e que foi proibida pela censura da ditadura militar brasileira. Em 1975, uma primeira versão da telenovela esteve quase a ser transmitida pela Globo, já com alguns capítulos gravados mas foi suspensa. Os censores federais terão escutado uma chamada telefónica do autor em que este admitia que a telenovela era uma nova versão da peça censurada, com algumas alterações. A telenovela só viria a se concretizar em 1985, precisamente no ano de transição da ditadura para a democracia no país-irmão. Em Portugal, "Roque Santeiro" foi exibido pela RTP entre 12 de Outubro de 1987 e 3 de Agosto de 1988.

Nesta nova versão, Dias Gomes contou com a ajuda de Aguinaldo Silva para concretizar o guião. Lima Duarte assumiu o mesmo papel que teria tido na primeira versão enquanto Regina Duarte e José Wilker assumiram os papéis do trio protagonista, que seriam interpretados na versão suspensa por Betty Faria e Francisco Cuoco.


Sinhôzinho Malta (Lima Duarte), Porcina (Regina Duarte)
e Roque Santeiro (José Wilker)

Asa Branca seria mais uma pequena cidade como tantas outras no Brasil profundo, não fosse um acontecimento de há dezassete anos que desencadeou o mito de Roque Santeiro. Luís Roque Duarte (José Wilker) era um simples artesão de arte sacra quando reza a lenda que terá salvado a cidade, sacrificando a sua vida para defendê-la do gangue do terrível bandido Navalhada (Oswaldo Loureiro). A partir daí, surgiram vários relatos de milagres relacionados com Roque Santeiro, como o de pessoas curadas de doença graças à lama do local onde teria sido encontrado o seu corpo. Com o passar dos anos, o suposto mártir ganhou um estatuto de divindade e a cidade passou a viver da exploração da sua imagem e das romarias de peregrinos vindos de todo o Brasil.
Os que mais lucraram com tudo disso foram o Sinhôzinho Francisco Malta (Lima Duarte), que embora deteste ser chamado de coronel, é o todo-poderoso da região, famoso pelo seu bordão "Tô certo ou tô errado?"; Porcina (Regina Duarte), a alegada viúva de Roque Santeiro, com quem afirma ter casado em segredo pouco antes da sua morte, que vive um estilo de vida opulento e exuberante bem como uma ligação amorosa e (pouco) secreta com Malta; Zé das Medalhas (Armando Bogus) o principal comerciante do merchandising relacionado com o santo, um homem pérfido e agressivo que mantém a sua esposa Lulu (Cássia Kiss), uma das pessoas curadas pelos ditos milagres, num regime de quase prisão dentro de casa; o Padre Hipólito (Paulo Gracindo), um pároco conservador que viu a sua paróquia ganhar riqueza e prestígio com as peregrinações; e o prefeito da cidade, Florindo Abelha (Ary Fontoura) que dentro de casa é mandado e desmandado pela sua esposa Pombinha (Eloísa Mafalda), uma beata retrógrada. Os Abelha têm uma filha, Mocinha (Lucinha Lins), que era a verdadeira amada de Roque e que manteve a sua devoção depois da morte dele, fazendo voto de castidade.

Mocinha (Lucinha Lins), Pombinha (Eloísa Mafalda) e Florindo Abelha (Ary Fontoura)

Zé das Medalhas (Armando Bógus)
e Lulu (Cássia Kiss)

Na actualidade e no auge da sua prosperidade, Asa Branca é agitada por vários acontecimentos. Um deles, é a inauguração da boîte Sexus, propriedade de Matilde (Yoná Magalhães), uma carioca protegida de Sinhôzinho Malta, que também explora a pousada local e que traz à cidade um grupo de vistosas bailarinas vindas do Rio de Janeiro, em especial a loura Rosaly (Ísis de Oliveira) e a morena Ninon (Cláudia Raia), para fúria de Pombinha Abelha, do Padre Hipólito e das outras beatas.

Rosaly (Ísis de Oliveira), Matilde (Yoná Magalhães)
e Ninon (Cláudia Raia)

Outro é o activismo de Albano (Cláudio Cavalcanti), o outro padre da cidade a quem chamam de padre comunista, que vive em conflito com o Padre Hipólito, devido às suas ideias progressistas e por acreditar que o mito de Roque Santeiro não passa de uma farsa, preferindo dedicar-se a ajudar os mais pobres. A sua causa ao pouco vai tendo mais adeptos, sobretudo Tânia (Lídia Brondi), a rebelde filha de Sinhôzinho Malta, com quem vive em tensão desde a morte da sua mãe. Albano e Tânia chegam a viver um romance, mas no fim ele decide renunciar ao amor e continuar no sacerdócio.
Padre Albano (Cláudio Cavalcanti) e Tânia Malta (Lídia Brondi)

Por fim, existe a chegada de uma equipa de filmagem para rodar um filme sobre a lenda de Roque Santeiro, que o realizador Gerson do Valle (Ewerton de Castro) espera que lhe dê prestígio, com os actores Roberto Mathias (Fábio Júnior) e Linda Bastos (Patrícia Pillar) nos papéis de Roque e Porcina. Roberto é preguiçoso e indisciplinado como profissional, mas tem um charme eficaz que vai fazer efeito em várias mulheres como Tânia, Lulu e até a própria Porcina.

Roberto Mathias (Fábio Júnior)

É neste cenário que chega a cidade um homem misterioso e sofisticado. Trata-se do verdadeiro Roque que afinal está bem vivo: na verdade, em vez de se sacrificar para salvar a cidade de Navalhada, viu na invasão a oportunidade para concretizar de fugir da cidade e ver o mundo, roubando o ostensório da igreja. Depois de ter enriquecido no estrangeiro, Roque regressou para devolver o valor do artefacto ao Padre Hipólito e para ajustar contas com o passado. À medida que Roque vai permanecendo na cidade e algumas personagens vão descobrindo a sua identidade, Sinhôzinho Malta e os seus aliados ficam cada vez mais alarmados pois se a verdade for descoberta, a cidade irá à falência. Após mandar tentar eliminar Roque, este ameaça Malta dizendo ter um dossier que denuncia toda a verdade e será publicado caso algo lhe aconteça. 
Para maior de desespero do "coronel", Roque e Porcina, que afinal nem sequer se conheciam antes, apaixonam-se um pelo outro. Antes disso, Roque ainda aceita que Mocinha finalmente se entregue a ele, mas isso só contribuirá mais para o desequilíbrio mental dela.

Na recta final da telenovela, Navalhada regressa a Asa Branca para um ajuste final de contas com Roque Santeiro. Embora seja Sinhôzinho Malta quem, escondido, atinge de morte o bandido, Roque Santeiro convence-se que foi ele quem o matou  e decide fugir de helicóptero, pedindo a Porcina que venha com ele. Mas no último momento, Porcina decide antes ficar com Malta. E com a descoberta do corpo de Navalhada, o mito de Roque Santeiro continuará... Quanto a Zé das Medalhas, cada vez mais louco e com Lulu finalmente ganhando coragem para o abandonar, põe uma máquina a funcionar sem parar e morre afogado nas medalhas que a máquina vai fabricando.

Professor Astromar Junqueira (Rui Resende)

É também no último episódio que é revelado outro mistério, o de um lobisomem que dizem que vagueia pela cidade todas as noites de lua cheia, confirmando-se o principal suspeito: o sinistro Professor Astromar Junqueira (Rui Resende). Habitual frequentador da casa dos Abelha, em parte devido à sua paixoneta por Mocinha, o professor tinha como hábito perguntar antes de entrar: "Posso penetrar?"

Jeremias (Arnaud Rodrigues) e Jiló (João Carlos Cardoso)
Mina (Ilva Niño)

Outras personagens inesquecíveis são Jiló (João Carlos Cardoso), um ex-peão que se torna o guia turístico oficial dos peregrinos; João Ligeiro (Maurício Mattar), meio-irmão de Roque e vaqueiro nas propriedades de Sinhôzinho Malta que vive um romance com a criada Dondinha (Cristina Galvão); Luizão (Alexandre Frota), o operador de câmara do filme que se envolve com Matilde; Marilda (Elizângela) a tumultuosa esposa de Roberto Mathias que tem um breve affair com Sinhôzinho Malta; Marcelina (Wanda Kosmo) sogra de Malta e principal apoio da neta Tânia; Tito França (Luiz Armando Queiroz), o ciumento marido e agente de Linda; o Delegado Feijó (Maurício do Valle) cujo pequeno papel que consegue no filme alimenta o seu sonho de ser actor e que se disfarça de lobisomem para seduzir Ninon, sabendo do fascínio desta pela criatura; o cego Jeremias (Arnaud Rodrigues) que vive de cantar na rua para os turistas; e sobretudo Mina (Ilva Niño), a sofredora mas fiel criada de Porcina, a qual chama por ela sempre aos gritos: "MINAAAAAAAA!".

Com um enredo com doses equilibradas de humor, drama e fantasia, e uma mordaz sátira à exploração política e comercial da fé popular (não faltou quem em Portugal comparasse Asa Branca a Fátima), "Roque Santeiro" foi um sucesso em toda a linha e para a maioria do elenco, foi o auge ou pelo menos um pico das suas carreiras. 

Um dos discos da banda sonora com Regina Duarte na capa

Entre os produtos de merchandising da novela, destaque para uma colecção de calendários, uma caderneta de cromos e dois álbuns com canções da banda sonora. Aliás foram muitas as canções da telenovela que fizeram sucesso por cá durante a exibição da telenovela como o tema de abertura "Santa Fé" de Moraes Moreira, "De Volta Para O Aconchego" de Elba Ramalho, "Sem Pecado e Sem Juízo" de Baby Consuelo, "Dona" dos Roupa Nova, "Roque Santeiro" de Sá & Guarabyra, "Chora Coração" de Wando, "Coração Aprendiz" de Fáfá de Belém, "Indecente" de Anne Duá e o arrepiante "Mistérios da Meia-Noite" de Zé Ramalho que ilustrava as cenas do lobisomem.
No Brasil, é das poucas telenovelas a terem sido editadas em DVD, numa edição de 2010 com 16 discos.

Regina Duarte e Lima Duarte de novo como Porcina e Malta
no programa "Com Pés E Cabeça" 

Por alturas do Carnaval de 1988, Lima Duarte e Regina Duarte deslocaram-se a Portugal onde além de participarem nos festejos do Entrudo na Mealhada, estiveram em Lisboa e no Porto. Os dois chegaram a vestir as suas personagens de Porcina e Sinhôzinho Malta para um sketch inédito no programa "Com Pés e Cabeça".
Em 1993, a SIC repôs a telenovela na rubrica "Vale A Pena Ver De Novo".

Genérico de abertura:



Comparação do elenco entre a novela de 1985 e a versão censurada de 1975:


Cena divertida entre Porcina e Malta:


O final alternativo em que Porcina parte com Roque:


terça-feira, 29 de outubro de 2019

SEGA Novidades Explosivas - Verão 1994 - Cassete Mega Force (1994)





Reparei que hoje se celebra o 31º aniversário da consola Mega Drive, a versão original japonesa, e finalmente fui buscar ao arquivo esta mítica cassete que saiu nas bancas com a revista de videojogos "Mega Force" na sua edição nacional. A dita cassete com duração de cerca de 15 minutos vinha na embalagem em cartão que podem ver na foto acima, com a mascote da SEGA, o Sonic The Hedgehog em destaque. O conteúdo era as "Novidades Explosivas" da Sega, para o Verão de 1994, complementa  a etiqueta na própria cassete VHS.

Além dos jogos para a Mega Drive (Genesis nos EUA) no final do vídeo estão excertos de alguns jogos para a "Mega CD". Só em finais dos anos 90 consegui esse acessório para a Mega Drive e um dos jogos nesta cassete foi um dos que comprei junto com a "Mega CD II": "Tomcat Alley" um jogo que basicamente era um filme interactivo, com o jogador aos comandos de um jacto de guerra. Era limitado e repetitivo, mas o factor novidade fez-me jogar muitas vezes..


Já encontrei algumas versões do "Novidades Explosivas" pelo Youtube, mas fica a minha gravação:

Cópia do vídeo no Archive.Org.

Leitores, quem teve esta cassete? Compraram alguns destes jogos anunciados?

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Forrest Gump (1994)

por Paulo Neto

Existem filmes que tenho algum receio de rever pois tenho receio que o revisionamento estrague as boas memórias quando os vi pela primeira vez, especialmente no cinema. "Forrest Gump" é um desses filmes: eu adorei quando fui vê-lo no cinema e lembro-me de considerá-lo durante uns bons anos como o meu filme preferido de sempre. Mas entretanto, foi daqueles filmes que sofreu um backlash e foi etiquetado como "sobrevalorizado" e desde então nunca mais o revi, pelo menos na íntegra, e tenho medo de já não gostar tanto, embora creia que não tenha envelhecido assim tão mal.



Adaptado do livro de Winston Gordon, "Forrest Gump" foi realizado por Robert Zemeckis e protagonizado por Tom Hanks com Robin Wright, Gary Sinise, Sally Field, Mykleti Williamson e Michael Connor Humphreys nos principais papéis.



No estado do Alabama no início dos anos 50, Forrest Gump (Humphreys) é um rapazinho que parece não seria grande coisa na vida. Além de um Q.I. abaixo da média e sem poder andar direito devido aos ferros nas pernas usados para corrigir um defeito na espinha, Forrest só conta com o amor incondicional da sua mãe (Field), a dona de uma estalagem, para o proteger do desprezo e da chacota dos outros. Porém quando ele conhece Jenny Curran (Hanna R. Hall), uma menina que sofre maus-tratos por parte do pai, os dois se tornam grandes amigos. Um dia, ao fugir de uns bullies, ante o grito de Jenny para ele correr e a queda dos seus ferros nas pernas, Forrest revela-se um excelente corredor.




Esse talento leva um Forrest mais crescido (Hanks) a entrar na Universidade onde se destaca como jogador de futebol americano e mais tarde alista-se no exército onde faz um novo amigo em Bubba Buford (Williamson). Os dois são destacados para combater no Vietname, sob a liderança do Tenente Dan Taylor (Sinise). Durante um emboscada dos Vietcong, Forrest salva vários soldados, incluindo o Tenente (que fica sem pernas) mas não consegue evitar a morte de Bubba. 
Após a guerra, Forrest descobre mais um talento no ping-pong que o leva até à China e mais tarde abre o negócio de pesca de camarão que pretendia abrir com Bubba, sendo ajudado pelo Tenente Dan que aí recupera dos traumas da guerra e das mágoas de ter sido amputado.





Entretanto, Forrest encontra-se algumas vezes com Jenny, que tinha adoptado o estilo de vida hippie para depois cair numa espiral de dependência a drogas. Após a morte da mãe e a rejeição de Jenny ao seu pedido de casamento, Forrest enceta uma maratona pelo país inteiro ao longo de três anos.
Até que de volta ao início no filme, na paragem de autocarro onde Forrest vai contando a sua história às pessoas que lá estão. É então que descobre que tem um filho da noite que passou com Jenny e que esta tem pouco tempo de vida, devido a um vírus incurável. Os dois finalmente casam-se mas Jenny morre um ano depois, deixando-o a criar sozinho o filho Forrest Jr. (Haley Joel Osment).

Ao longo destes anos todos, Forrest conheceu três Presidentes americanos (Kennedy, Johnson e Nixon), auxiliou Vivian Malone, uma estudante negra que o Governador George Wallace tentou impedir que entrasse na Universidade do Alabama, foi entrevistado junto a John Lennon, acidentalmente causou o escândalo Watergate, criou as T-shirts com smiley e ficou rico devido aos investimentos do Tenente Dan na Apple (que Forrest pensava ser um negócio de frutaria!).



"Forrest Gump" foi o maior sucesso de bilheteira de 1994 nos Estados Unidos e segundo no mundo e obteve seis Óscares incluindo Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Actor, com Tom Hanks a ser dos poucos actores a ganhar uma estatueta em dois anos consecutivos, após ter sido galardoado no ano anterior por "Filadélfia". Recebeu ainda três Globos de Ouro, dois prémios Saturn e foi indicado na lista de American Film Institute como um dos melhores cem filmes americanos de sempre. E claro, deixou bordões lendários como "Run, Forrest, run!" e "Life is like a box of chocolates."
A banda sonora do filme, recheada de clássicos dos anos 50, 60 e 70, também foi um grande êxito. Um videoclip de "Turn Turn Turn (To Everything There Is A Season)" dos The Byrds (1965) com cenas do filme foi feito para promover o disco.

Para mim, além do vibrante relato da história da América dos anos 50, 60 e 70, o que mais me impressionou no filme foi a história de auto-superação da personagem-título, mostrando que mesmo aqueles que à partida parecem ter todo o tipo de desvantagens podem ser capazes de fazer grandes coisas na vida. E como afinal, os conceitos contraditórios de karma e destino muitas vezes andam de mãos dadas.



E para terminar eis algumas curiosidades:
- As cenas do ping-pong foram filmadas sem bolas.
- Tom Hanks não recebeu cachet pelo filme, ficando antes com uma percentagem dos lucros. O seu irmão Jim fez de duplo em algumas cenas de corrida.
- A pena que surge a flutuar no início e no fim do filme foi criada em computador a partir de uma pena real manobrada por uma cana de pesca.
- Bill Murray, Chevy Chase e John Travolta recusaram o papel principal, com o último a admitir que cometeu um grande erro. Jodie Foster, Nicole Kidman e Demi Moore recusaram o papel de Jenny e Ice Cube e Dave Chapelle o papel de Bubba.
- Nas cenas em que a sua personagem tem as pernas amputadas, Gary Sinise tinha as pernas enfaixadas em tecido azul para depois ser apagadas digitalmente.
- Embora o actor Peter Dobson fizesse no filme de Elvis Presley, a voz que se ouve é a de Kurt Russell.
- Na cena em que o jovem Forrest entra no autocarro da escola e os miúdos não o deixam sentar ao lado deles, dois desses miúdos são a filha de Tom Hanks, Elizabeth, e o filho do realizador Robert Zemeckis, Alexander. 
- Existem 33 restaurantes chamados "Bubba Gump" no mundo inteiro.
- O banco da paragem de autocarro da cidade de Savannah, no estado da Geórgia, onde o protagonista está sentado ao longo do filme está agora no museu municipal da cidade.

Trailer:


 "Turn Turn Turn (To Everything There Is A Season)" The Byrds




domingo, 20 de outubro de 2019

Watchmen (1986)





Em Setembro de 1986 começou a ser publicada uma das histórias em banda desenhada que mudou a nona arte: a maxi-série em 12 partes "Watchmen". Os seus criadores, Alan Moore e Dave Gibbons, na prosa e arte, respectivamente. Pessoalmente só tomei conhecimento com a obra através da Internet, onde graças aos scans piratas em meados dos anos 2000 pude conhecer histórias do calibre de "The Dark Knight Returns", "Batman: A Piada Mortal", ou "V de Vingança", entre outras que entretanto já consegui comprar, em várias edições vintage ou contemporâneas. A minha primeira "Watchmen" em formato físico foi um encadernado brasileiro de 1989 que comprei numa loja de livros antigos em Quarteira, com esta capa jeitosa:



Este cromo adapta o meu texto de 2009 "Watchmen - Graphic Novel", por isso as ilustrações têm apenas imagens da banda desenhada comparada com as do filme desse ano. Obviamente, SPOILERS para quem ainda não leu esta obra de arte, viu o filme ou a série da HBO que estreia em 2019.

As 12 capas da série limitada original.
Watchmen passa-se nos E.U.A. de um mundo muito semelhante ao nosso, com uma diferença crucial: na primeira metade do século XX surgiram os primeiros vigilantes mascarados, super-heróis que combatiam o crime em uniformes coloridos. Da reunião de vários heróis nasce o primeiro super-grupo, os Minutemen. Depois de vários êxitos, escândalos e um impacto gigantesco na sociedade contemporânea, o grupo é desmantelado. Só anos mais tarde, a nova geração de heróis, inspirada pelos seus antecessores, se reúne para salvar o mundo. Assim nasceram os Watchmen. Na maioria, homens e mulheres sem poderes, que com treino, armas ou engenhocas combatiam os malfeitores. Mas a desconfiança do público e o surgimento de Dr. Manhathan - o primeiro ser super-humano - levaram a que o governo americano banisse as actividades dos vigilantes. Os E.U.A. ganharam no Vietname mas a Guerra Fria continuou, com a ameaça de uma guerra nuclear global eminente e omnipresente.

Sinopse:
A narração de Watchmen começa em 1985, com o assassinato do Comediante, um antigo membro dos Minutemen e dos Watchmen. O psicótico Rorshack, outro antigo Watchmen, investiga o caso, tentando desmontar o que ele acredita ser uma conspiração para eliminar antigos heróis mascarados. Entra em contacto com os ex-colegas, tentando levá-los a actuar. Só depois de um ataque á vida de Ozymandias e do auto-exílio do Dr. Manhattan, Nite Owl II e Silk Spectre II unem-se a Rorshack para desvendar quem é o assassino do Comediante, e que segredos este descobriu antes de morrer.


Os personagens principais:





Rorschach

Baseado no herói Questão. Usa uma máscara especial com padrões em movimento, que para ele é a sua verdadeira cara. Depois de uma infância problemática, dirigiu a sua raiva contra os bandidos, tornando-se cada vez mais violento. Depois de descobrir a morte do Comediante, tenta alertar os antigos companheiros para uma misteriosa conspiração. Paranóico e inflexível, Rorschach acredita firmemente que os culpados têm que ser punidos.





Dr. Manhattan

Baseado no herói Capitão Átomo, o único super-humano do planeta nasceu de um acidente de laboratório nos anos 50. Depois de ser desintegrado conseguiu recriar um corpo humanóide, azul e com poderes extraordinários que lhe permitem manipular a energia e a matéria. Apelidado de deus e super-homem americano, Dr. Manhattan venceu a guerra do Vietname e trabalha em experiências cientificas. A sua percepção diferente do Mundo leva a que se distancie cada vez mais da Humanidade.





Nite Owl II

Baseado nos heróis Besouro Azul e Batman, é um inventor abastado que criou engenhocas relacionadas com corujas (incluindo uma nave) para combater os criminosos. Durante algum tempo fez equipa com Rorschach. Depois da proibição dos vigilantes, Daniel perdeu a motivação, está em baixo de forma e leva uma vida solitária e tristonha. Mas depois da visita de Silk Spectre II e do seu regresso á activa, tudo vai mudar.





Silk Spectre II

Filha da Silk Spectre original, Laurie leva uma vida monótona ao lado do Dr. Manhattan. Este parece ter perdido o interesse por ela e pelo resto do planeta, e depois de uma discussão Laurie abandona-o e visita Nite Owl II, lembrando antigas memórias e recuperando a excitação do tempo em combatiam o crime nas ruas. Personagem inspirada nas heroínas Nightshade e Phantom Lady.





Ozymandias

Adrian Veidt, é – alegadamente – o homem mais inteligente do mundo. Dono de uma fortuna imensa, representa o ideal da perfeição humana de corpo e mente. O seu ídolo é Alexandre, O Grande o mítico conquistador da história antiga. Veidt há muitos anos que revelou a sua identidade ao público tornando-se numa celebridade.





Comediante

Baseado no herói Pacificador (mas fisicamente parecido a Nick Fury da Marvel Comics) Edward Blake foi integrante, quando jovem, dos Minutemen. Extremamente agressivo e sádico, tentou violar a Silk Spectre original e fez muitos trabalhos sujos para o governo americano. Afiança que tudo é uma piada, mas é o seu brutal assassinato que despoleta toda a história de Watchmen. Quem teria motivos para matar o Comediante?


A Graphic Novel
Watchmen nasceu da vontade de usar heróis da antiga editora Charlton, entretanto comprada pela DC Comics (a editora de Super-Homem, Batman, etc), mas com o objectivo de criar uma sátira ao género das BDs de Super-heróis. Mas como a DC tinha mais planos para esses personagens, eles foram usados apenas como base para criar outros especialmente para a maxi-série Watchmen, editada originalmente em 12 números entre 1986 e 1987. O polémico Alan Moore foi o escritor por detrás de uma história totalmente contra-corrente para a época em que a maioria das pessoas ainda encarava a banda desenhada como simples bonecadas para as crianças. Os super-heróis de Alan Moore não são certinhos, cometem erros e influenciam a sociedade que os rodeia (ao contrários dos super-herois tradicionais, em cujas aventuras uma cidade é destruída e no próximo número já está recuperada e sem consequências de qualquer tipo, por exemplo). Imaginem por um segundo, o que mudaria no nosso mundo actual se surgisse o Super-Homem, quase um deus. Como reagiriam os políticos, as corporações, os oportunistas, os religiosos, as pessoas comuns? Além disso, a história tem conteúdos violentos e sexuais bem explícitos. Aborda ainda a homossexualidade entre heróis, a paranóia com os comunistas e a Guerra Fria, a ameaça nuclear e outros temas importantes, e as suas consequências na opinião pública. O estilo de desenho de David Gibbons, pouco super-heróico, mas realista e cheio de detalhes em cada quadradinho ajudou a criar um mundo credível para os personagens de Alan Moore, em páginas recheadas de duplos sentidos, símbolos e referências da cultura pop. Rapidamente a obra tornou-se um objecto de culto e admiração, tanto por leitores como pela crítica. Em 1988 ganhou um prémio Hugo, em 2005 a revista Times colocou Watchmen na lista das “100 maiores novelas de língua inglesa de 1923 ao presente”. Junto com obras como “The Dark Knight Returns”, ajudou a mudar a forma como se contam histórias através da nona arte.


Uma breve comparação de alguns dos mais icónicos painéis recriados na versão de Zack Snyder em 2009: "Watchmen BD Vs Filme".


Texto adaptado de "Watchmen - Graphic Novel" [Cine31 - Março 2009].


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