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segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Fernanda Ribeiro campeã olímpica (1996)

por Paulo Neto

Cem anos depois dos primeiros Jogos Olímpico da Era Moderna em Atenas, os Jogos da XXVI Olimpíada tiveram lugar em Atlanta, capital do estado americano da Geórgia, entre 19 de Julho e 4 de Agosto de 1996




Um recorde de 10320 atletas de 197 países competiram nas vinte e seis modalidades. As antigas repúblicas soviéticas competiram todas como países independentes, bem como a República Checa e a Eslováquia. Entre outros países estreantes contaram-se as nações lusófonas de Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé & Príncipe, bem como a Palestina. O vólei de praia, o softbol e o ciclismo em BTT fizeram a sua estreia olímpica e houve pela primeira vez competição feminina no futebol, no triplo salto, na prova de espada em esgrima, assim como provas de grupos na natação sincronizada e na ginástica rítmica. Porém os Jogos seriam ensombrados por um ataque bombista na praça principal do evento, o Centennial Park, que matou duas pessoas. 

Portugal levou a sua maior comitiva de sempre até hoje com 106 atletas, incluindo uma equipa de futebol que incluía nomes como Nuno Gomes, Rui Jorge, Emílio Peixe, Daniel Kenedy, Calado, Dani, Beto, Costinha e Nuno Espírito Santo, marcando a primeira presença portuguesa num torneio olímpico de futebol desde 1928. Portugal acabaria por ficar em quarto lugar perdendo no jogo para o bronze contra o Brasil com uns humilhantes 5-0. A medalha esteve também muito perto na estreia do vólei de praia com a dupla Miguel Maia e João Brenha no quarto lugar. Entre outros resultados de relevo, houve o sexto lugar de Carla Sacramento nos 1500m e os sétimos lugares de Manuela Machado na maratona e de João Rodrigues na classe da vela Mistral. 

Porém, persistia a pressão mediática pelas medalhas que teimavam em não chegar e a poucos dias da cerimónia do encerramento, já se temia que, tal como em Barcelona quatro anos antes, Portugal saísse de Atlanta com as mãos a abanar. Até que no dia 1 de Agosto, Hugo Rocha e Nuno Barreto garantiram a medalha de bronze na vela (categoria 470), a primeira medalha olímpica para Portugal nesta modalidade desde 1960. Mas seria o dia seguinte a trazer um dos mais gloriosos momentos olímpicos de Portugal.


Maria Fernanda de Oliveira Ribeiro nasceu aos 23 dias de Junho de 1969 em Penafiel, crescendo na localidade de Novelas. Desde cedo revelou grande talento para as corridas e aos onze anos, surpreendeu tudo e todos numa corrida na Nazaré onde foi segunda apenas atrás de Rosa Mota. Quando aí lhe perguntaram se ela queria ser como Rosa Mota e Aurora Cunha, respondeu categórica: "Quero ser melhor que elas." Os seus primeiros Jogos Olímpicos foram logo os de Seul em 1988, ano em que se sagrou vice-campeã mundial júnior. Por lá e por Barcelona 1992, o seu desempenho foi discreto.       

Quando em 1993, João Campos se torna o seu treinador, o seu caminho para a glória começa a ser definitivamente pavimentado.  Em 1994, Fernanda sagrou-se campeã da Europa dos 3000m em pista coberta em Paris e dos 10000m ao ar livre em Helsínquia. Em 1995, bateu o recorde do mundo dos 5000m em Bruxelas e nos Mundiais de Atletismo desse ano em Gotemburgo, alcançou o ouro nos 10000m e a prata nos 5000m. Com estes pergaminhos, Fernanda Ribeiro assumia-se como a nossa maior possibilidade de uma medalha de ouro olímpica em Atlanta. 

Porém, o caminho até lá foi bastante espinhoso. Durante um estágio de preparação em Manaus, Fernanda começou a sentir fortes dores no tendão de Aquiles. Ao examiná-la, o médico da Federação de Atletismo lá presente declarou secamente que essa lesão terminava a sua carreira de atleta. Porém, o fisioterapeuta e o novo médico que o substituiu eram da opinião que não era bem assim, aconselhando-a a não desistir. Mas foi só de regresso ao Porto, com os tratamentos de Rodolfo Moura, o célebre massagista da equipa de futebol do FCP, entre os treinos, que a atleta recuperou o ânimo e os sonhos do ouro olímpicos.

E no dia de cerimónia de abertura dos Jogos de Atlanta, foi ela que encabeçou a entrada dos atletas lusos no estádio levando a bandeira de Portugal. Para os Jogos Olímpicos, Fernanda prescindiu dos 5000m, devido à lesão e ao calendário, preferindo focar-se nos 10000m. No dia 2 de Agosto de 1996, Fernanda Ribeiro foi uma das vinte atletas presentes em pista para a final dos 10000m. Também presentes estavam adversárias de peso, como as etíopes Gete Wami e Derartu Tulu, esta campeã dos Jogos de Barcelona 1992, as quenianas Tegla Laroupe e Sally Barsosio (que tinha sido medalhada de bronze dos Mundiais de 1993 com 14 anos!) e sobretudo, a chinesa Wang Junxia.

Wang foi uma das chinesas que desde 1992 esmagaram os recordes mundiais nas provas do fundo e meio-fundo, treinadas de forma ditatorial por Junren Ma, cujos métodos iam de castigos corporais a refeições de sopas de sangue de tartaruga e ensopado de cão. Em 1995, as atletas de Ma, fartas dos maus-tratos e não receberem os prémios monetários conquistados, revoltaram-se e deixaram-no, regressando à obscuridade. Apenas Wang Junxia, que em 1993 se tornou a primeira mulher a correr os 10000m em menos de 30 minutos, continuou sob a orientação de um novo treinador. Em Atlanta, Wang venceu os 5000m e apesar de apenas cinco dias de diferença entre as duas provas, apostava em fazer a dobradinha.

A irlandesa Catherina McKiernan tomou as despesas iniciais da prova, marcando o ritmo nos quatro quilómetros iniciais. Quando o passo abrandou a meio da prova, Fernanda Ribeiro e a espanhola Julia Vaquero decidiram ir para a frente e manter o ritmo rápido. Aos 600m do fim, Wang Junxia arrancou para a frente e chegou a ter uma vantagem de vinte metros sobre Fernanda. Na recta de meta, quando parecia que a portuguesa iria no máximo garantir a medalha de prata, Fernanda Ribeiro desferiu um formidável sprint à chinesa e cruzou a meta em primeiro lugar, num tempo de 31 minutos, 1 segundo e 63 centésimos, novo recorde olímpico. Wang ficou com a prata e Gete Wami da Etiópia com a de bronze. 


Fernanda Ribeiro entre Gete Wami e Wang Junxia


Estava assim garantida a terceira medalha de ouro olímpica para Portugal, a primeira fora da maratona. Fernanda Ribeiro deu a volta de honra ao estádio com uma bandeira de Portugal que lhe foi entregue pelo saltador à vara Nuno Fernandes. Mesmo com dificuldades a andar, Fernanda ainda comemorou com a delegação portuguesa no McDonald's da aldeia olímpica antes de se ir deitar e dormir o sono dos justos.



Meses depois, Fernanda Ribeiro foi a pé de Penafiel até ao santuário de Fátima para agradecer a recuperação que lhe permitiu sagrar-se campeã olímpica. Em 2012, esclareceu que não foi ela que fez a promessa mas sim o seu treinador João Campos e o massagista Rodolfo Moura, mas que cumpriu de bom grado.  

E o que foi de Wang Junxia após os Jogos Olímpicos? Em 1998, o governo chinês finalmente lhe entregou o Mercedes que ela tinha ganho como prémio da sua vitória nos Mundiais de cinco anos antes e em 2008, soube-se que vivia com o seu marido no estado americano do Colorado. Desde 2012, têm surgido documentos que alegadamente comprovam que afinal além do sangue de tartaruga e do ensopado de cão, Junren Ma obrigava as suas pupilas a tomarem substâncias menos "naturais"…

Já Fernanda Ribeiro continuou a somar medalhas em grandes competições e nos Jogos Olímpicos de 2000 em Sydney, ainda conseguiu a medalha de bronze, com aliás um tempo mais rápido do que aquele com que fora campeã olímpica quatro anos antes. Ainda correu nos Jogos de 2004 em Atenas e no seu último ano de competição em 2010, ainda foi terceira na meia-maratona de Lisboa. 




domingo, 23 de setembro de 2018

Rosa Mota campeã olímpica (1988)

por Paulo Neto





Atenas, 1982. Rosa Maria Correia dos Santos Mota é uma atleta determinada e batalhadora, já com bastantes barreiras quebradas. Desde problemas de asma e ciática a fazer orelhas moucas ao insultos que ouvia quando começou a competir, vinda de mentes tacanhas incapazes de aceitar a simples ideia de uma mulher praticar desporto. Mas aos 24 anos, ainda não tinha atingido o seu verdadeiro potencial. As provas de pista são-lhe demasiado curtas e limitadoras e as provas de estrada ainda não estão bem estabelecidas no panorama do atletismo feminino.

Mas eis que na capital grega, um porta se abre. Pela primeira vez numa grande competição, vai ter lugar uma maratona feminina. Algo que não deixa de ser extremamente ambicioso, até porque décadas antes acreditava-se que era impossível as mulheres correrem distâncias longas sem efeitos nocivos para a saúde e nos últimos Jogos Olímpicos, disputados dois anos antes, a prova mais longa do atletismo feminino foram os 1500m.
Depois de ter sido décima segunda nos 3000m, Rosa Mota decide tentar a sua sorte na maratona só para experimentar. O facto de ela nunca antes ter corrido mais de 20 quilómetros, nem mesmo em treino, é um mero detalhe. Mas para surpresa geral, é ela a primeira a cortar a meta no famoso Estádio Panteanaico. Já não restam dúvidas: a maratona é o espaço ideal para Rosa desabrochar e tornar-se uma lenda do desporto português e mundial. Das vinte e uma maratonas em que participará nos próximos dez anos, vencerá catorze delas. De permeio, também vencerá por seis vezes a célebre Corrida de São Silvestre em São Paulo.

Rosa Mota e José Pedrosa

Em 1983, venceu a maratona de Roterdão e foi quarta nos Campeonatos Mundiais em Helsínquia e no ano seguinte, foi terceira na primeira maratona olímpica feminina. Em 1984 venceu ainda a maratona de Chicago.
Chegamos a 1986 e Rosa Mota confirma-se como a maior maratonista do mundo: não só ganhou as maratonas em que participou como fê-lo por larga margem. Tanto o seu segundo título europeu em Estugarda como o triunfo na Maratona de Tóquio foram conquistados por mais de quatro minutos face às segundas classificadas. E em 1987, nos Campeonatos Mundiais em Roma, indiferente ao calor abrasador que se fazia sentir na Cidade Eterna, Rosa vence o título mundial com mais de sete minutos de vantagem sobre a soviética Zoya Ivanova.

Com tantos argumentos, Rosa Mota era a principal favorita ao título olímpico de Seul em 1988. Mas o seu percurso teve um inesperado obstáculo: em 1987, a Federação Portuguesa de Atletismo convocou-a para o Campeonato Mundial de Estrada no Mónaco, mas a atleta recusou participar, alegando que tal iria comprometer a sua preparação para a maratona olímpica em Seul.
Não aceitando as suas razões, a FPA manteve-a sobre alçada disciplinar e Rosa chegou a estar impedida de competir, ao ponto da atleta considerar passar a representar Macau. Foi preciso o caso chegar às altas instâncias nacionais, nomeadamente Mário Soares e Roberto Carneiro (então respectivamente Presidente da República e Ministro da Educação) para que o diferendo não impedisse Rosa Mota de ir a Seul por Portugal e assim perder a sua maior hipótese de obter uma medalha para as cores nacionais na Coreia do Sul. Porém o diferendo só ficaria definitivamente resolvido em 1990.




E assim Rosa Mota seguiu na comitiva portuguesa para Seul e foi uma das 69 atletas que no dia 23 de Setembro de 1988 se apresentaram na partida da segunda maratona olímpica feminina. Aos 30 quilómetros, apenas quatro atletas seguiam na frente: Rosa Mota, a australiana Lisa Martin, a leste-alemã Katrin Dörre e a soviética Tatyana Polovynska. Quatro quilómetros depois, Polovynska perdeu o contacto com a frente e tornou-se evidente que as medalhas iriam ser discutidas entre Rosa Mota, Martin e Dörre. Como a australiana e a alemã estavam relutantes em tomar a dianteira da prova, Rosa foi comandando e por volta dos 37km, num entendimento com José Pedrosa, o seu treinador e companheiro que entretanto surgiu de bicicleta, avançou para a estratégia final combinada por ambos: atacar na próxima subida e dar tudo até ao final. O golpe foi certeiro e Rosa Mota cortou a meta em primeiro lugar ao fim de 2 horas, 25 minutos e 40 segundos. Lisa Martin reagiu tarde ao ataque da portuguesa, conseguindo apenas garantir a medalha de prata e reduzir a sua desvantagem face a Rosa Mota para 13 segundos. Katrin Dörre ficou com a medalha de bronze enquanto Polovynska foi quarta a um centésimo da chinesa Zhao Youfeng.





Quatro anos depois do triunfo de Carlos Lopes em Los Angeles, "A Portuguesa" voltava a tocar em solo olímpico e a bandeira portuguesa subia ao poste mais alto de um pódio olímpico da maratona. 1990 foi o último grande ano de Rosa Mota onde não só conquistou o seu terceiro título europeu em Split (Jugoslávia) como venceu pela terceira vez em Boston, tendo também sido primeira em Osaka. Em 1991, abandonou a prova nos Campeonatos do Mundo de Tóquio mas venceu a maratona de Londres. Ainda existiam esperanças que pudesse obter a sua terceira medalha olímpica em 1992, mas desmotivada pela sua desistência da maratona de Londres desse ano e condicionada por uma lesão, acabou não só por não ir a Barcelona como também por terminar a carreira.


Desde então, Rosa Mota tem-se dedicado às causa desportivas e assumindo com bonomia o seu estatuto de lenda viva do desporto nacional. Já tive a honra de a encontrar em pessoa algumas vezes e revelou ser uma pessoa extremamente acessível e terra-a-terra.
Em 1995, foi eleita para Assembleia da República nas listas do PS para os círculos emigrantes. Desde 2013 é vice-presidente do Comité Olímpico de Portugal. O mundo do desporto internacional também não esquece os seus grandes feitos e Rosa Mota tem sido alvo de várias homenagens um pouco por todo o mundo. Por exemplo a Grécia não esquece a sua vitória nos Europeus de 1982 e já foi por duas vezes convidada a transportar a chama olímpica naquele país: em 2004 em Atenas, que acolhia os Jogos Olímpicos desse ano, e em 2016 na cidade de Maratona.
Em 2012, a Associação Internacional de Maratonas e Corridas de Longa Distância elegeu-a como a maior maratonista feminina de todos os tempos.





Rosa Mota comenta a sua vitória em Seul: 






sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

O Bolero de Torvill e Dean (Jogos Olímpicos de Inverno de 1984)

por Paulo Neto




Os 14.ºs  Jogos Olímpicos de Inverno decorreram entre 8 a 19 de Fevereiro de 1984 em Sarajevo, então parte da República Socialista da Jugoslávia (actualmente capital da Bósnia-Herzegovina). 1272 atletas de 49 países em 10 desportos ao longo de 12 dias de competição. Infelizmente poucos anos depois, as infraestruturas destes Jogos Olímpicos seriam reduzidas a cinzas e escombros devido à guerra que assolaria a Bósnia-Herzegovina nos anos 90. Inclusivamente, a pista de bobsled foi utilizado por snipers sérvios como base de operações e chegou a haver execuções nos mesmos pódios que outrora honraram os atletas que aí competiram.



Entre os atletas que se destacaram nesses Jogos estiveram a deslumbrante patinadora da RDA Katarina Witt que ganhou o primeiro dos seus dois títulos olímpicos, os gémeos americanos Phil e Steve Mahre que foram respectivamente primeiro e segundo classificados na prova de slalom no esqui alpino, a finlandesa Marija Liisa Hamalainen venceu as três provas individuais femininas de esqui de fundo e o esquiador esloveno Jure Franko venceu a primeira medalha de sempre da Jugoslávia em Jogos Olímpicos de Inverno com a prata conquistada no slalom gigante.

Mas o ponto alto dos Jogos Olímpicos de Sarajevo foi sem dúvida aquele protagonizado pelos britânicos Jayne Torvill e Christopher Dean, campeões olímpicos da prova de dança da patinagem artística. (Integrada no programa olímpica desde 1976, a prova de dança distingue-se da prova de pares pelos seus movimentos de dança e por serem proibidos saltos e lançamentos.) Naturais de Nottingham, ambos começaram no desporto com outros pares até serem juntados pela treinadora Janet Swarbridge em 1975.
A dupla ficou em quinto lugar nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1980 e foi aí que decidiram levar mais a sério o desporto, deixando os seus respectivos trabalhos: ele como polícia, ela como secretária numa companhia de seguros. O esforço rapidamente deu frutos, vencendo os Campeonatos do Mundo de 1981, 1982 e 1983 e acabando com a hegemonia soviética na disciplina.



Mas para o ano olímpico de 1984, Dean e Torvill não só apostavam em ganhar o ouro como em fazer história. Adeptos de esquemas de dança que apelavam à narrativa temática, o seu programa livre para essa época foi feito ao som do "Bolero" de Maurice Ravel, originalmente composto em 1928 e que se tornou o opus mais conhecido do compositor francês. A obra gozava na altura de grande popularidade desde o seu uso no filme de 1979 "10 - Uma Mulher De Sonho" com Bo Derek (cuja personagem refere o "Bolero" como "a música mais erótica de sempre"), elevando os valores do copyright da peça em vários países. (Eu também recordo-me da peça ser utilizada nos anúncios aos electrodomésticos Balay em finais dos anos 80.)



Para o programa de Torvill e Dean, Richard Hartley condensou os 17 minutos do "Bolero" numa versão de 4 minutos e 28 segundos. Como as regras exigiam que os programas livres da prova de dança no gelo tivessem a duração máxima de 4 minutos e 10 segundos e não havia maneira de retirar os 18 segundos a mais sem comprometer a qualidade da versão de Hartley, Christopher Dean consultou os regulamentos e descobriu uma maneira de dar volta à situação: esses 4 minutos e 10 segundos só começavam a contar a partir do momento em que um ou os dois patinadores colocam o patim no gelo - e como tal, a dupla começaria a sua prova dançando de joelhos durante os primeiros 18 segundos.



Em Sarajevo, Torvill e Dean optaram por treinar de manhã cedo quando não estava mais ninguém no ringue de patinagem Zetra para criar uma onda de mistério face aos rivais e espectadores. Mas certa vez, após o fim do ensaio do programa do "Bolero" às 6 da manhã os dois ouviram aplausos: os empregados de limpeza do ringue tinham parado de limpar as bancadas e assistiam a tudo maravilhados. Como maravilhados ficaram todos aqueles que no dia de competição assistiram ao "Bolero" tanto na Zetra como pela televisão, cientes que estavam a assistir a uma das provas mais icónicas de sempre da história do desporto. E os nove júris foram igualmente convencidos atribuindo a pontuação máxima de 6.0 na nota artística (três 6.0 e seis 5.9 na nota técnica).
Christopher Dean e Jayne Torvill conquistavam o ouro olímpicos e foram elevados como os novos heróis britânicos, tornado-se os terceiros mais ilustres naturais de Nottingham depois de Robin dos Bosques e do escritor D.H. Lawrence. A sua prova olímpica foi assistida na televisão britânica por 24 milhões de telespectadores e um disco que continha o arranjo de Richard Hartley para o "Bolero" de Ravel interpretado pela Michael Reed Orchestra, bem como o "Paso Doble" do programa curto e outras músicas usadas em provas anteriores da dupla, chegou ao nono lugar do top britânico.


Um mês após Sarajevo, Torvill e Dean conquistaram o quarto título mundial em Ottawa e ainda em 1984 enveredaram pelo circuito de provas e exibições profissionais. Em 1992, Christopher Dean foi o coreógrafo dos irmãos franceses Isabelle e Paul Duchesnay (que na altura eram sua esposa e seu cunhado) que conquistaram a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Inverno em Albertville. 


Em 1994, beneficiando de uma alteração nas regras que abriam portas à participação de atletas profissionais nos Jogos Olímpicos, a dupla decidiu regressar à competição rumo ao Jogos de Lillehammer, onde acabariam por ganhar a medalha de bronze, além de um quarto título europeu. 
Jayne Torville e Christopher Dean continuaram a patinar juntos até 1998, quando decidiram tomar rumos distintos, treinando e coreografando em separado.



Mas em 2006, os dois não resistiram ao convite do canal britânico ITV para o programa "Dancing On Ice", onde à semelhança de programas como "Dança Com As Estrelas", juntavam celebridades e atletas de patinagem em coreografias no gelo, para treinar e coreografar os esquemas exibidos no programa e também actuarem novamente juntos. O programa durou sete temporadas até 2014.
Em 2014, 30 anos após o triunfo olímpico, Torvill e Dean regressaram a Sarajevo para dançar o "Bolero" no recém-reconstruído pavilhão de gelo. 


      



sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Miracle On Ice (Jogos Olímpicos de Inverno de 1980)

por Paulo Neto

A história acabaria por recordar os anos 80 como a década do triunfo do capitalismo americano e do colapso do comunismo. No entanto, quando os anos 70 se despediram dando lugar a essa nova década, a previsão de que a mesma iria acabar com a América em alta e o Muro de Berlim derrubado parecia quase inconcebível. Com o seu poderoso exército, as suas nações-satélites e estabilidade política, a União Soviética parecia levar vantagem no xadrez da Guerra Fria enquanto os Estados Unidos estavam a braços com diversas crises, da recessão financeira aos reféns americanos no Irão, parecia que nada estava a dar certo para a América. Ainda por cima, com o presidente Carter a decretar um boicote aos Jogos Olímpicos de Verão de 1980 em Moscovo devido à presença soviética no Afeganistão, a única oportunidade dos americanos sentirem algum orgulho no campo desportivo estava nos Jogos Olímpicos de Inverno nesse mesmo ano, a ter lugar em casa, em Lake Placid.
Mas ao contrário dos desportos de Verão, na altura os Estados Unidos não eram das maiores potências de desportos de Inverno, onde pontificavam as nações nórdicas e leste-europeias, estas últimas beneficiando do estatuto de "amadores-profissionais" dos seus atletas, que no papel eram amadores mas na realidade eram pagos pelo Estado. Era o caso da equipa de hóquei no gelo da URSS, composta teoricamente por "estudantes" e "militares" mas que na prática se dedicava exclusivamente à actividade desportiva, e que dominava então a modalidade de forma esmagadora ao passo que os hoquistas profissionais da Liga Americana estavam impedidos de competir nos Jogos Olímpicos, pelo que as equipas olímpicas americanas eram habitualmente formadas nos circuitos universitários. Mas no dia 22 de Fevereiro de 1980, uma jovem, inexperiente e desfavorecida selecção americana alcançou um feito impensável que entrou para o imaginário do país e que muitos americanos apontam como tendo sido o ponto de viragem na recuperação do orgulho americano e na revolução socio-cultural dos anos 80 que acabaria por ser decisiva na vitória da Guerra Fria.




Os 13.ºs Jogos Olímpicos de Inverno decorreram de 13 a 24 de Fevereiro de 1980 em Lake Placid. Esta pequena cidade montanhosa do estado de Nova Iorque já tinha acolhidos os Jogos de Inverno de 1932, mas 48 anos depois o evento tinha ganho proporções bem maiores, além das possibilidade organizativas de uma cidade tão pequena (cerca de 2500 habitantes). Houve vários problemas de logística desde espectadores que esperaram horas no gélido frio pelos transportes para os diferentes locais de competição à impossibilidade de não se poderem comprar bilhetes por vender porque as bilheteiras estavam em locais onde só aqueles que já tinham bilhetes podiam aceder! Os atletas também fizeram várias queixas às condições da Aldeia Olímpica, que mais tarde iria ser convertida numa prisão.
1072 atletas de 37 países, incluindo a União Soviética e seus aliados, competiram em 10 disciplinas de Inverno. A  RDA foi o país que conseguiu um maior número de medalhas e a URSS um maior número de ouros, mas as seis medalhas de ouro dos Estados Unidos acabaram por ser dois grandes motivos de orgulho nacional.



O patinador de velocidade Eric Heiden, que prestara o juramento olímpico na cerimónia de abertura, dominou toda a competição vencendo as cinco provas masculinos (500m, 1000m, 1500m, 5000m e 10000m), tornando-se no primeiro atleta a ganhar cinco medalhas de ouro individuais em Jogos Olímpicos (quer de Inverno, quer de Verão). Heiden virou-se depois para o ciclismo e chegou a participar na Volta à França de 1986. A sua irmã Elizabeth também ganhou uma medalha de bronze nos mesmo Jogos, na prova de 3000m femininos.



E depois houve a inacreditável história da equipa americana de hóquei no gelo. Herb Brooks, que fez parte das equipas olímpicas americanas de 1964 e 1968 (e que falhou por pouco a selecção olímpica campeã em 1960), foi o seleccionador que teve a hercúlea tarefa de transformar uma equipa jovem (a idade média rondava os 22 anos) e inexperiente num colectivo capaz de ombrear com as maiores equipas do momento. Nove dos vinte jogadores eram da equipa da Universidade do Minnesota, treinada por Brooks. Conhecido como "o Khoimeni do gelo", Brooks levou a cabo um rigoroso método e forte disciplina para criar a coesão na equipa rendilhada. Um dos seus métodos de selecção foi um questionário psicológico de 300 perguntas para avaliar a capacidade de resolução dos jogadores sob pressão. 




Mas as coisas não estavam fáceis, até porque na primeira fase os Estados Unidos mediam forças com as mais fortes selecções da Suécia e da Checoslováquia. No primeiro jogo, a Suécia ganhava 2-1 a um minuto do fim mas Brooks arriscou em abdicar do guarda-redes para colocar em jogo mais um avançado. A 27 segundos do fim, um golo de Bill Baker a 55m da baliza para o jogo terminar em empate. Contra a Checoslováquia (7-3), a Noruega (5-1) e a RFA (4-2), os Estados Unidos começaram o jogo a perder mas acabariam por assegurar a vitória. Aliás, de todos os sete jogos do torneio, foi apenas contra a Roménia que os Estados Unidos marcaram o primeiro golo. 
Com o segundo lugar do grupo, os Estados Unidos apuraram-se para a poule de atribuição das medalhas com Suécia, Finlândia e União Soviética. Uma vez mais, os americanos empataram 2-2 contra a Suécia. Mas as expectativas estavam ao rubro no jogo com a URSS, com o recinto de 8500 lugares totalmente lotado e repleto de bandeiras americanas. 

Em princípio, este jogo parecia um confronto entre Davids americanos contra Golias soviéticos. Para terem uma ideia, entre 1964 e 1976, a União Soviética ganhou os quatro torneios olímpicos, vencendo 27 dos 29 jogos disputados, com 175 golos marcados e apenas 44 sofridos. E na preparação para os Jogos de 1980, não só esmagaram 10-3 a selecção olímpica americana num jogo de exibição como também ganharam à equipa all-star da liga profissional americana! Além disso, a URSS vinha de cinco vitórias fáceis no seu grupo. O treinador soviético estava tão confiante que prescindiu do guarda-redes Vladislav Tretyak (tido como um dos melhores guarda-redes de sempre da história do desporto) por Vladimir Malyshin no início da segunda parte. E para não destoar, a URSS marcou primeiro e vencia por 3-2 à entrada para a 3.ª parte. 




Mas nesse dia 22 de Fevereiro de 1980, com toda a nação já a par do percurso da equipa americana e acompanhar o jogo pela televisão (que curiosamente não foi transmitido em directo), o destino pareceu estar do lado das estrelas e listras. Animados por só estarem a perder por um golo a 20 minutos do fim, os americanos sentiam que a reviravolta era possível. E assim foi. Mark Johnson empatou, o capitão Mike Eruzione virou o marcador e o guarda-redes Jim Craig defendeu todos os contra-ataques soviéticos (39 defesas durante todo o jogo) até ao apito final. Ao que o comentador Al Michaels exclamou "Acreditam em milagres? SIM!" E assim acontecia o "Miracle On Ice" diante dos olhos de toda a América, eufórica por tão grande proeza no meio de tanta crise. Ainda hoje, tal como o assassinato do Kennedy e o 11 de Setembro, há quem pergunte nas terras do Tio Sam: "Onde é que estavas durante o Miracle On Ice?"



No entanto, tudo ainda estava a aberto. Dois dias mais tarde, havia o jogo final contra a Finlândia e uma derrota significava ainda a vitória da URSS e o terceiro lugar para os Estados Unidos. E os finlandeses estavam interessados em estragar a festa pois se perdessem ficavam fora das medalhas. E uma vez mais, os Estados Unidos entraram no terceiro tempo em desvantagem (2-1). Mas golos de Phil Verchota, Rob McClanahan e Mark Johnson fixaram o resultado em 4-2 e o ouro olímpico ia para os Estados Unidos. Enquanto os seus colegas abraçavam-se uns aos outros no ringue, o guarda-redes Jim Craig foi procurar o seu pai. Em 1992, Craig disse que ainda recebia 600 cartas de fãs a cada ano.

Em 1999, a revista Sports Illustrated considerou o "Miracle On Ice" como o acontecimento desportivo do século XX.  



Quando os Jogos Olímpicos de Inverno regressaram aos Estados Unidos em 2002 em Salt Lake City, foram os membros da selecção de hóquei no gelo no 1980, vestidos com os seus equipamentos, que acenderam a chama olímpica. Nesses mesmos Jogos, Herb Brooks treinou a equipa americana que ganhou a medalha de prata, a primeira medalha americana no hóquei no gelo masculino desde 1980. 
Infelizmente, Herb Brooks faleceria num acidente de viação no ano seguinte. Em 2005, o ringue onde se desenrolou o torneio olímpico de 1980 recebeu o nome de Herb Brooks Arena.



Logo em 1981, houve um telefilme sobre o "Miracle On Ice" com Steve Guttenberg no papel de Jim Craig. Em 2004, a Walt Disney produziu o filme "Miracle" com Kurt Russell no papel de Brooks.





O último minuto do jogo EUA-URSS:


Reportagem do Olympic Channel:




Trailer "Miracle" (2004):








sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Steven Bradbury, o campeão olímpico mais sortudo (2002)

por Paulo Neto



Salt Lake City, capital do estado americano do Utah, acolheu os 19.ºs Jogos Olímpicos de Inverno entre 8 e 24 de Fevereiro de 2002. Apesar do escândalo do processo da candidatura da cidade, quando em 1998 veio a público que alguns membros do Comité Olímpico Internacional receberam subornos por parte de pessoas pertencentes à comissão de candidatura de Salt Lake City, e dos ataques de 11 de Setembro de 2001 apenas uns meses antes, os Jogos Olímpicos de Inverno de 2002 acabaram mesmo por acontecer. Durante a cerimónia de abertura, foi erguida uma bandeira dos Estados Unidos encontrada nos destroços Ground Zero no 11 de Setembro. No entanto, os Jogos de Salt Lake City decorreram sem problemas de organização e o destaque foi todo para os brilhantes feitos dos atletas. 
Uma ideia que se estreou nestes Jogos que continuou nas outras edições subsequentes foi a introdução de uma praça onde se realizaria as cerimónias de entregas de medalhas diante dos fãs, servindo também para concertos e outras actividades culturais.

Atletas americanos transportam uma bandeira americana do Ground Zero
na cerimónia de abertura

2399 atletas de 78 países (Portugal não participou) competiram em quinze modalidades. O skeleton regressou ao programa olímpico após 54 anos. O norueguês Ole Einar Bjorndalen e a croata Janica Kostelic foram as principais estrelas dos jogos: Bjorndalen ganhou todas as quatro provas da competição masculina de biatlo, afirmando-se como o maior atleta de sempre deste desporto; Kostelic, acabada de completar 20 anos, ganhou três medalhas de ouro e uma de prata no esqui alpino. A americana Vonetta Flowers tornou-se a primeira atleta negra a ganhar uma medalha de ouro em Jogos Olímpicos de Inverno, em parceria com Jill Bakken no boblsed feminino. Ao fim de 50 anos, o Canadá alcançou novamente o ouro no hóquei no gelo, por excelência o desporto nacional canadiano, tanto em masculinos como em femininos. A maior controvérsia surgiu na patinagem artística, sobre alegadas pressões e subornos a alguns juízes, que resultou no afastamento de uma juíza francesa e com a medalha de ouro a ser atribuída na prova de pares em ex-aqueo a um par russo e ao par canadiano que originalmente terminara em segundo e que alegadamente teria sido prejudicado pelos juízes.

Apollo Anton Ohno (EUA)


Um dos desportos mais emocionantes nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2002 foi a patinagem de velocidade em pista curta, também conhecida como short track. Ao contrário da patinagem velocidade em pista longa em que só competem dois atletas de cada vez e contra o relógio em vez de um contra o outro, em short track um número de quatro a seis atletas dão voltas a uma pista com pouco mais de cem metros de perímetro ao longo de distância que vão dos 500 aos 1500 metros e é tudo ao molho e fé em Deus. Quedas e despistes são bastante frequentes e qualquer obstrução, empurrão ou colisão resulta na desclassificação dos atletas. Coreia do Sul, China, Canadá e Estados Unidos são as principais potências deste desporto e confirmaram o seu domínio em Salt Lake City.

O pódio dos 1000m femininos:
a muito jovem Ko Gi-Hyun e as duas Yang Yang

O pódio dos 1000m femininos teve a particularidade duas chinesas chamadas Yang Yang: a mais velha, designada por Yang Yang (A) ganhou o ouro e a mais nova, referida como Yang Yang (S), ganhou o bronze. Os media vieram a descobrir que os nomes delas eram iguais em letras romanas mas diferentes em caracteres chineses, embora se pronunciassem exactamente da mesma maneira. A (A) chamava-se "bandeira esvoaçante" e a (S) "sol nascente". Yang Yang (A) também venceu os 500m e foi a primeira atleta da China a ganhar uma medalha de ouro em Jogos Olímpicos de Inverno.
A sul-coreana Ko Gi-Hyun tornou-se aos 15 anos uma das mais jovens campeãs olímpicas de sempre ao vencer os 1500m femininos. Foi Ko quem esteve no pódio das duas Yang Yang nos 1000m.

O público americano teve o seu herói local num atleta que tinha o espectacular nome de Apollo Anton Ohno que venceu os 1500m masculinos, num triunfo controverso. O coreano Kim Dong-Sung tinha sido o primeiro a cortar a meta mas quando ele ia a dar a volta de honra com uma bandeira na mão, descobriu que tinha sido desclassificado pelos juízes por ter obstruído uma passagem de Ohno, a quem foi atribuída a vitória. Furiosos, os adeptos coreanos entupiram as caixas de correio de e-mail do COI e do Comité Olímpicos dos Estados Unidos (mais de 16 mil e-mails!) e angariaram dinheiro para criar um réplica de uma medalha de ouro que foi entregue a Kim quando regressou ao seu país.

Mas a mais extraordinária história da patinagem de short track, senão mesmo de todos os Jogos Olímpicos de Inverno de 2002 foi a dos 1000 metros masculinos, uma história semelhante à da lebre e da tartaruga, que recordou mais uma vez que em solo olímpico como em tudo na vida, não há vencedores antecipados. Aos 28 anos, o australiano Steven Bradbury estava nos seus quartos Jogos Olímpicos, ou seja desde que o short track tinha sido introduzido no programa olímpico em 1992, e em 1994 fizera parte da equipa australiana que ganhou a medalha de bronze na prova de estafeta masculina, a primeira medalha da Austrália em Jogos Olímpicos de Inverno. Como atleta individual porém nunca ganhara uma medalha em Jogos Olímpicos e Campeonatos do Mundo. Além disso desde 1994 que a sua carreira tinha sido minada por lesões. Numa prova em Montreal em 1995, durante uma queda, a lâmina do patim de outro atleta fez-lhe um corte na coxa que foi suturada com 111 pontos. Em 2000, durante uma corrida de treino, Bradbury partiu duas vértebras do pescoço durante uma queda e não só ficou fora de toda a época de 2000-01 como teve de usar uma pescoceira aparafusada ao crânio durante seis semanas.



Steven Bradbury encarava os Jogos de Salt Lake City como o ocaso da sua carreira, longe da velocidade de outros tempos. Tinha financiado a sua preparação a vender patins que ele próprio fabricava na garagem dos seus pais. Mas quando se apresentou para a sua prova de 1000m, uma série de acontecimentos desenrolou-se a seu favor. Nos quartos de final, foi terceiro na sua corrida mas seguiu em frente devido à desclassificação do primeiro classificado por obstrução. Nas semifinais, na esperança que os seus adversários mais credenciados sofressem uma queda ou uma desclassificação, manteve-se na retaguarda da corrida, apurando-se para a final quando dois atletas caíram. Na final, competindo contra Apollo Anton Ohno, o canadiano Mathieu Turcotte, o coreano Ahn Hyun-Soo e o chinês Jiajun Li, Bradbury manteve a mesma estratégia seguindo na cauda da corrida e esperando de novo que o infortúnio dos seus adversários mais rápidos fosse a sua sorte.




E assim aconteceu: na entrada para a última volta, Ohno seguia na frente quando Li tentou ultrapassar-lhe por fora, tocando-lhe no braço. Esse gesto fez Ohno desequilibrar-se, arrastando Li (que seria desclassificado), Ahn e Turcotte na queda. Com todos os outros no chão, um incrédulo Steven Bradbury cruzou a meta em primeiro lugar. Ohno e Turcotte só tiveram tempo de se levantar e conseguir a prata e o bronze. Era a primeira medalha de ouro em Jogos Olímpicos de Inverno para um atleta do Hemisfério Sul. Curiosamente na noite anterior à final, Bradbury tinha oferecido um par de patins feitos por ele a Ohno e pedido para que ele mencionasse a sua marca caso ganhasse o ouro.




Após o seu inesperado triunfo olímpico e subsequente fim de carreira desportiva. Steven Bradbury trabalhou como comentador desportivo para a televisão australiana e orador motivacional, envolveu-se no desporto motorizado e em 2005 publicou a sua autobiografia apropriadamente intitulada "Last Man Standing". A designação de uma vitória inesperada e improvável como "fazer um Bradbury" entrou na gíria australiana.



 

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Sport Goofy no Mundo do Desporto - Os Jogos Olímpicos (1983)

por Paulo Neto

O Pateta pode não ser a mais atlética das personagens Disney mas nos anos 80, esteve associado ao desporto de várias maneiras, através da designação de Sport Goofy. Nos anos 40 e 50, a Disney produzira várias curtas metragens de temática desportivo em estilo paródio-documentário sobre vários desportos com o Pateta a ilustrar as regras e as práticas de cada modalidade em toda a sua habilidade (ou falta dela), muitas delas exibidas por cá no "Clube Amigos Disney", e em 1987 essa ideia foi recuperada num mini-filme de 20 minutos, "Sport Goofy in Soccermania". Além disso havia também na altura toda um merchandising ilustrado com imagens do Pateta vestido de forma desportiva, desde roupa e têxteis-lar a material escolar e livros educativos, e até um jogo para o Atari. O sucesso deste alter-ego desportivo do Pateta até inspirou uma loja de artigos de desporto no Entroncamento a denominar-se "Goofy Sport".  

Há dias, o David Martins, ao saber do meu interesse por tudo o que é relacionado com os Jogos Olímpicos, deu-me a conhecer um livro de 1983 sobre a história dos Jogos Olímpicos até aquele momento. Tratava-se de um volume da série de livros "Sport Goofy no Mundo do Desporto", editada por Círculo de Leitores.


De entre as imagens da capa, quero destacar a maior delas, ao centro, com dois adolescentes canadianos, Stéphane Préfontaine e Sandra Henderson, ele francófono, ela anglófona, escolhidos para acender a pira olímpica nos Jogos Olímpicos de 1976 em Montreal, representando a juventude canadiana e mundial. A Wikipédia conta que durante anos houve uma lenda urbana de que Stéphane e Sandra ter-se-iam casado. 

No livro são explicados os significados dos símbolos olímpicos, como os anéis entrelaçados, o percurso da tocha olímpica, o juramento olímpico dos atletas e a cerimónias protocolares de entrega de medalhas.

 


No livro são ainda descritos os desportos que na altura faziam parte do programa olímpico, quer nos Jogos de Verão, quer nos de Inverno, com recurso a imagens de cenas desportivas de edições passadas dos Jogos Olímpicos (sobretudo as três mais recentes em Munique 1972, Montreal 1976 e Moscovo 1980, e dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1976 em Innsbruck, na Áustria) e, como não podia deixar de ser, a divertidas ilustrações do Pateta em plena acção desportiva.




Nesta página existe mesmo uma participação especial do BFF do Pateta, o Rato Mickey, na ilustração de cima, sobre uma fotografia da atleta alemã (da então República Federal da Alemanha) Heide Rosendahl, campeã olímpica do salto em comprimento em 1972. 


Em jeito de antevisão, existe também um menção a dois desportos que se estreariam no programa daquela que seria à data a próxima edição dos Jogos Olímpicos: a ginástica rítmica e a natação sincronizada. O livro termina com uns quadros com factos e dados sobre as edições passadas dos Jogos Olímpicos. Por exemplo, há a menção ao facto de Eddie Eagan ser (ainda hoje) o único atleta a ganhar medalhas de ouro tanto em Jogos Olímpicos de Verão (boxe, 1920) e de Inverno (bobsled, 1932). 



Curta-metragem: "Pateta, Campeão Olímpico"



"Sport Goofy in Soccermania" (1987)


Para terminar, falta referir um produto do avatar Sport Goofy que foi exclusivo dos nossos irmãos brasileiros. Em 1983, a jovem cantora Ana Paula Aguiar gravou um single com duas versões em português do Brasil de duas canções produzidas pela Disney: "Pateta Supercampeão" ("You Can Always Be Number One") e "Cuidado Com O Pateta" ("Watch Out For Goofy", incluída no disco "Mickey Mouse Disco", do qual já se falou por aqui). E claro que se impunha que Ana Paula fosse fotografada para a capa do disco ostentando um par de perneiras, essa peça de roupa tão eighties.   


Ana Paula "Pateta Supercampeão"




Ana Paula "Cuidado Com O Pateta"









terça-feira, 2 de agosto de 2016

Carlos Lopes campeão olímpico (1984)

por Paulo Neto

Já falámos aqui há dias dos Jogos Olímpicos de 1984 em Los Angeles, a propósito da primeira maratona feminina olímpica onde Rosa Mota foi uma das ocupantes do pódio. Com a abertura dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro esta semana e a notícia do falecimento do Professor Mário Moniz Pereira, impõe-se um regresso a esses Jogos da 23.ª Olimpíada e recordar aquela que é uma das páginas mais gloriosas do desporto português.



Os Jogos Olímpicos de 1984 foram bastante decisivos para o Movimento Olímpico. Com as últimas edições a serem marcadas por boicotes e outras influências políticas, pesadas facturas financeiras e até mesmo um acto terrorista em 1972, havia cada vez menos interesse em cidades e países acolherem uns Jogos Olímpicos. Aliás, além de um efémero interesse por parte de Teerão, Los Angeles foi a única cidade candidata aos Jogos de 1984, pelo que organizou o evento pela segunda vez, após ter-se estreado em 1932.
Entendendo que a viabilidade económica dos Jogos Olímpicos passava por aí, o comité organizador liderado por Peter Ueberroth desenvolveu várias parcerias com empresas patrocinadoras, como por exemplo a Coca-Cola e a MacDonald's, minimizou os custos de construções das infraestruturas e negociou contractos de direitos de transmissão televisiva. Como tal, os Jogos Olímpicos de Los Angeles foram os primeiros economicamente lucrativos e esse sucesso suscitou as ambições de cidades um pouco por todo o mundo em também serem cidades olímpicas.
Além disso foram os primeiros Jogos onde as portas foram abertas aos atletas profissionais: por exemplo os futebolistas profissionais que nunca disputaram um Mundial de Futebol podiam ser convocados para a selecção olímpica do seu país.


Em retaliação ao boicote de liderado pelos Estados Unidos aos Jogos Olímpicos de Moscovo em 1980, a União Soviética e os seus países aliados boicotaram os Jogos de 1984, com a notável excepção da Roménia, cuja delegação foi das mais aplaudidas na cerimónia de abertura. Ainda assim, um número recorde de 140 países marcaram presença, incluindo a República Popular de China pela primeira vez desde 1952. Além da maratona, houve pela primeira vez provas exclusivamente femininas no tiro e no ciclismo, bem como a estreia olímpica da ginástica rítmica e da natação sincronizada.
Portugal esteve representado por 39 atletas e obteve em Los Angeles a sua melhor participação olímpica até então, conquistando três medalhas. Tal como Rosa Mota na maratona, António Leitão conquistou a medalha de bronze nos 5000m numa corrida em que ele e Ezequiel Canário dominaram por bastante tempo. Outros bons resultados foram o 6.º lugar de Aurora Cunha nos 3000m e o 7.º lugar de Alexandre Yokochi nos 200m bruços, que se mantém como a única presença de um português numa final olímpica de natação. A única grande decepção foi Fernando Mamede, que semanas antes batera o recorde mundial dos 10000m, mas que mais uma vez cedeu à pressão psicológica que o assaltava em grandes competições e abandonou a corrida.

António Leitão ganhou a medalha de bronze nos 5000m

Mas o ponto alto da participação nacional estava marcado para o último dia e para a derradeira prova dos Jogos de Los Angeles. 107 atletas de 59 países apresentaram-se na linha de partida para a maratona olímpica aos 12 dias de Agosto de 1984. Mesmo com o boicote de Leste, o contingente era bastante forte, mas havia três favoritos principais: o australiano Robert de Castella, campeão do mundo em 1983, o japonês Toshihiko Seko que não perdia uma maratona desde 1979 e o americano Alberto Salazar que vencera três vezes consecutivas a maratona de Nova Iorque. Porém nenhum deles chegou às medalhas. (Castella foi quinto, Seko 14.º e Salazar 15.º).





Carlos Lopes, que já tinha uma medalha de prata olímpica em 1976 nos 10000m, tinha então 37 anos e só completara antes apenas uma maratona, a de Roterdão em 1983, onde perdeu apenas para De Castella. Duas semanas antes da sua partida para Los Angeles, Lopes foi atropelado por um Mercedes-Benz quando treinava na Segunda Circular, mas felizmente escapou praticamente ileso. Aos 37km, o português seguia na frente juntamente com o irlandês John Treacy e o britânico Charles Spedding quando desferiu um ataque à liderança que não mais largou. Carlos Lopes cortou a meta ao fim de 2 horas, 9 minutos e 21 segundos, um recorde olímpico que durou até 2008. Treacy foi segundo e Spedding terceiro. A única outra maratona que Lopes venceu foi a de Roterdão em 1985 onde bateu recorde do mundo. Lopes venceu somente duas maratonas na sua carreira, mas que duas!







Charles Spedding (GBR) e John Treacy (IRL)

Foi portanto em plena cerimónia de encerramento, ao fim de 16 dias de glória em terras californianas, que pela primeira vez um atleta português recebeu uma medalha de ouro olímpica e ouviu-se "A Portuguesa" em solo olímpico. Embora tradicionalmente a cerimónia protocolar da maratona masculina seja a última dos Jogos Olímpicos, Carlos Lopes não foi o último campeão olímpico de 1984 a ser condecorado, pois logo a seguir, numa daquelas patriotices à americana, teve lugar a cerimónia protocolar numa prova de hipismo, ganha por um americano, onde os medalhados entraram montados a cavalo no Coliseu de Los Angeles.



Ao longo dos mais de 42 quilómetros da maratona e no momento de consagração, não foi apenas o Carlos Lopes natural de Vildemoinhos (Viseu) que correu e que subiu ao pódio para receber o ouro, mas sim todo um país então pouco habituado a vitórias, desportivas e não só. Foi também a confirmação dos frutos semeados pelo trabalho do Prof. Mário Moniz Pereira, que como técnico do Sporting, revolucionou o atletismo nacional (para não dizer mesmo o desporto português em geral) e forjou atletas excepcionais como Lopes, Mamede e os gémeos Domingos e Dionísio Castro, provando que com as condições e as orientações certas para treinar e a mescla acertada de talento, disciplina e trabalho duro, os atletas portugueses eram capazes de feitos tão gloriosos quanto os dos outros países. E desde então têm sido vários os atletas nacionais a encher o nosso país de orgulho, nomeadamente em solo olímpico.  

Mário Moniz Pereira (1921-2016)







Momentos finais da maratona masculina:






Paródia à vitória de Carlos Lopes em "Os Simpsons"





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