Mostrar mensagens com a etiqueta eurovisão. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta eurovisão. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 4 de maio de 2020

Festival da Eurovisão 1985

por Paulo Neto

Este ano, por causa das razões que se sabem e pela primeira vez desde a criação do certame, não haverá Festival da Eurovisão. Mas aqui na Enciclopédia de Cromos continuamos a recordar edições passadas e desta vez recuamos até 1985.



O 30.º Festival da Eurovisão teve lugar a 4 de Maio de 1985 na arena Scandinavium na cidade sueca de Gotemburgo. Participaram 19 países, tantos quanto no ano anterior, mas os Países Baixos e a Jugoslávia estiveram ausentes devido ao dia do evento coincidir com datas pouco propícias a celebrações nesses países mas em contrapartida regressaram Grécia e Israel, ausentes no ano anterior. Nesta edição foi prestada uma devida atenção aos autores e compositores das canções, sendo estes os protagonistas dos postais ilustrados em que eles visitavam vários locais da área metropolitana de Gotemburgo. Deste modo, os intérpretes só participaram nos postais ilustrados caso tivessem contribuído para a composição das respectivas canções. (Foi o caso da nossa Adelaide Ferreira, creditada como autora da letra da canção que defendeu.)
Ainda assim, neste ano foram vários os intérpretes que regressaram à Eurovisão. Foi também o caso da apresentadora Lill Lindfors, que tinha representado a Suécia em 1966. Lindfors acabaria por protagonizar um dos momentos mais marcantes do espectáculo, que ficaria para a história da Eurovisão: chegada a altura de iniciar as votações, um aparente acidente de vestuário deixou-a sem saia e de cuecas à mostra em pleno palco! Perante o burburinho geral, logo a seguir ficou-se a saber que tinha sido tudo uma partida, com Lill Lindfors prontamente a desdobrar a blusa que trazia vestida num outro vestido.
Os comentários para a RTP estiveram a cargo de Eládio Clímaco e Maria Margarida Gaspar foi a porta-voz dos votos portugueses. 

Como é habitual, abordaremos as canções por ordem inversa da classificação:

Linda Lepomme (Bélgica)

Alguém tem de ficar em último e nesse ano a fava calhou à Bélgica, que recebeu somente sete pontos da Turquia. Linda Lepomme era mais conhecida como actriz no seu país mas também ocasionalmente dava mostras como cantora. Em Gotemburgo, interpretou a balada "Lat me nu gaan" ("deixa-me ir"). Mas por norma, a Bélgica saía-se pior no idioma flamengo do que em francês e este ano não foi excepção. Mas no ano seguinte, as coisas correriam melhor para as cores belgas. Muito melhor... 

Adelaide Ferreira (Portugal)

Com apenas dois pontos da Turquia, Portugal passou quase todo o período das votações na cauda da tabela, mas os sete pontos da Grécia, o último país a votar, salvou-nos da lanterna vermelha. Adelaide Ferreira começou por dar cartas no início dos anos 80 durante o boom do rock português, com canções como "Baby Suicida" e "Trânsito" elevando-a ao estatuto de roqueira-mor nacional. Mas seria através das baladas que o seu repertório viria a deixar maior legado. Em 1984, Adelaide Ferreira alcançou o melhor resultado de sempre de Portugal no Festival da OTI, o segundo lugar com "Vem No Meu Sonho". Em 1985 venceu o Festival da Canção com "Penso Em Ti (Eu Sei)", que como já falámos aqui foi uma edição mítica que deixou para a posterioridade o "Umbadá" de Jorge Fernando e onde participaram nomes como os Delfins, Alexandra, uns bem jovens Nuno e Henrique Feist e Wanda Stuart (então Vanda Pereira). Igualmente mítico foi o videoclip da canção filmados nos Açores, com Adelaide a protagonizar um melodrama romântico com laivos de sobrenatural. Apesar do parco resultado, Adelaide Ferreira não saiu de mãos a abanar já que foi votada (creio que pela imprensa lá presente) como a mais bem vestida, graças ao ultra-vistoso vestido desenhado pelo malogrado José Carlos. 

Lia Vissi (Chipre)

Takis Binyaris (Grécia)

As pátrias-irmãs de Chipre e Grécia partilharam o 16.º lugar com 15 pontos. Depois de ter feito coro pelas canções da Grécia de 1979 e 1980, Lia Vissi teve nesse ano a oportunidade de participar como solista pelo seu país de nascença, Chipre, interpretando "To katalava arga" ("apercebi-me tarde demais"), uma canção da sua autoria. A sua irmã mais nova, Anna, representou Chipre na Eurovisão em 1982 e a Grécia em 1980 e 2006.
Takis Biniaris representou a Grécia com a romântica balada "Miazoume" ("nós somos parecidos"). Com a camisa branca e o papillon com que se apresentou em palco, dava a ideia que tinha vindo directamente de um restaurante onde tinha servido à mesa.

MFÖ (Turquia)

Paloma San Basilio (Espanha)

Também houve um empate no 14.º com Espanha e Turquia a receberem 36 pontos. A Turquia fez-se representar pelo trio MFÖ (iniciais dos primeiros nomes dos membros da banda: Mazhar Alanson, Fuat Güner e Özkan Ugur). Podia-se quase sempre contar com a Turquia para trazer algo exótico à Eurovisão e o tema que trouxeram, "Didai didai dai", era bastante solarengo e dava para imaginar a ouvir algo assim numa bela praia na costa de Antalya. Os MFÖ regressaram ao Festival em 1988 e continuam no activo, mais de quarenta anos depois da formação do trio.
Nesse ano, a vizinha Espanha apostou forte com uma das suas mais famosas divas, Paloma San Basilio. Desde 1975 que San Basilio fazia sucesso em Espanha e na América Latina, não só em disco mas também em musicais (foi a protagonista da primeira adaptação de "Evita" em língua espanhola) e o tema que defendeu em Gotemburgo, "La fiesta terminó", era feito à medida do seu talento. Mas nesta edição de 1985 as baladas foram como que preteridas pelos temas mais mexidos e este 14.º lugar de Espanha ficou a saber a pouco.

The Internationals (Luxemburgo)

Pino Gasparini & Mariella Farré (Suíça)

O Luxemburgo foi representado por um colectivo internacional: Margo (holandesa), Franck Olivier (luxemburguês), Diane Solomon (americana), Malcolm Roberts (inglês), Chris Roberts (alemão) e Ireen Sheer (inglesa radicada na Alemanha). Embora creditados no certame com os nomes dos seis intérpretes, por vezes esta colaboração é referida sobre a designação The Internationals. Dos seis, a única com experiência eurovisiva era Ireen Sheer que tinha representado o Luxemburgo em 1974 e a Alemanha em 1978. Em uníssono cantaram "Children, Kinder, Enfants" em francês, tendo também gravado versões em alemão e inglês e uma versão trilingue. O Luxemburgo ficou em 13.º lugar com 37 pontos, destacando-se 10 pontos de Portugal.   
A Suíça foi outro país que apostou em intérpretes repetentes nestas andanças, a saber Pino Gasparini (em 1977 com membro da Pepe Lienhard Band) e Mariella Farré em 1983. Apesar de ambos terem raízes italianas e a sua canção se intitular "Piano, piano", cantaram em alemão e ficaram em 12.º lugar com 39 pontos.

Hot Eyes (Dinamarca)

Roger Bens (França)

O duo Kirsten & Soren, também conhecido como Hot Eyes, já tinham representado a Dinamarca no ano anterior e voltariam a fazê-lo em 1988. Nas outras duas participações, Kirsten Siegaard actuou grávida, mas nesta prestação, foi Léa, a filha de Soren Bundgaard, que com nove anos ficou para a história como a mais jovem pessoa a fazer parte de uma actuação no Festival da Eurovisão, um recorde que ficará para sempre já que desde 1990 só maiores de 16 anos é que podem participar seja como for. A canção dinamarquesa tinha um título complicado para quem não é nórdico: "Sku' du spørg' fra no 'en?" ("gostarias de saber?") e falava sobre duas pessoas que se encontram na discoteca e descobrem que são amigos de infância há muito desencontrados. A Dinamarca ficou em 11.º lugar com 41 pontos.
Roger Bens destilou charme francês para cantar "Femme dans ses rêves aussi" ("mulher também nos seus sonhos"), todo um elogio ao sexo feminino e rendeu à França o décimo lugar com 56 pontos, incluindo um 12 da Grécia.

Sonja Lumme (Finlândia)

Gary Lux (Áustria)

Tal como Portugal, a Finlândia é um país pouco habituado a lugares entre os dez primeiros no Festival da Eurovisão pelo que o nono lugar com 58 pontos alcançado nesse ano foi um resultado muito positivo para as cores finlandesas. E verdade seja dita, "Eläköön elämä" ("que viva a vida") é uma das melhores canções finlandesas da história da Eurovisão, um energético tema pop-rock interpretado por Sonja Lumme e onde os quatro membros do coro se moviam em sincronia. Além da sua carreira como cantora, Sonja Lumme também se destacou no seu país como actriz no teatro e na televisão. 
Nascido no Canadá, Gary Lux estava presente pela Áustria pelo terceiro ano consecutivo. Depois de em 1983 ter participado como membro do grupo Westend e em 1984 ter feito coro para Anita Spanner, Lux agora apresentava-se como solista para cantar "Kinder dieser Welt" ("as crianças deste mundo") conseguindo o oitavo lugar com 60 pontos. Um dos compositores da canção, Mick Jackson, compôs também o famoso tema disco "Blame It On The Boogie". Entre os músicos que o acompanharam em palco, estava Rhonda Heath que em 1977 representou a Alemanha como membro dos Silver Convention. Gary Lux viria a representar novamente a Áustria em 1987, além de fazer coro nas canções austríacas de 1993 e 1995.

Al Bano & Romina Power (Itália)

Maria Christian (Irlanda)

Nove anos depois, o célebre duo Al Bano e Romina Power voltou a representar a Itália. Casados desde 1970, a dupla teve vários sucessos internacionais nos anos 70 e 80 como "Felicitá" e "Ci Sará". Em Gotemburgo cantaram "Magic Oh Magic", ficando em sétimo lugar com 78 pontos (12 de Portugal). As três cantora do coro estavam vestidas de verde, branco e vermelho formando a bandeira italiana. Al Bano e Romina acabariam por se divorciar em 1999, cinco anos depois do desaparecimento da sua filha mais velha Ylenia. No Festival da Eurovisão de 2000, Al Bano integrou o coro para a canção da Suíça. Em 2007, Romina Power (filha do actor de Hollywood Tyrone Power) deixou Itália para regressar à sua América natal onde vive desde então, mas muito de vez em quando ainda acede em actuar com o ex-marido.
A Irlanda foi o primeiro país a actuar, ficando em sexto lugar com 91 pontos, com Maria Christian a cantar "Wait until the weekend comes". Christian foi a primeira cantora invisual (sofre de cegueira legal desde os nove anos) a actuar na Eurovisão. Segundo a Wikipedia, Maria Christian vive actualmente em França, na região da Lorena, com o seu marido e os seus sete filhos. Em 2016, concorreu à versão irlandesa do The Voice e este ano, concorreu à versão francesa, entretanto interrompida devido à pandemia.

Izhar Cohen

Vikki (Reino Unido)

E perguntam vocês: qual é a minha canção preferida da Eurovisão de 1985? É ainda a mesma pela qual o Paulo de cinco anos torceu na altura! Israel apostava forte ao trazer de novo Izhar Cohen, o vencedor da edição de 1978 com o clássico "A-Ba-Ni-Bi" e a canção com que regressou sete anos depois, "Olé Olé", era igualmente alegre e energética. Eu não era nascido quando Cohen ganhou em 1978, mas este "Olé olé" completo com uma parte para bater palmas encheu as medidas do Paulito de 1985. Desta vez, Israel teve de se contentar com um ainda assim meritório quinto lugar com 93 pontos. Actualmente, Izhar Cohen retirou-se do mundo artístico e é dono de uma joalharia. No Festival da Eurovisão de 2019 em Telavive, foi o porta-voz dos votos do júri israelita.   
Vikki Watson foi a representante do Reino Unido com o tema "Love is...", que ficou em quarto lugar com cem pontos. Em palco, Vikki começou a actuação sentada numa cadeira, levantando-se e afastando-se gradualmente a partir dela do primeiro refrão, uma metáfora ao tema da canção, sobre o medo de arriscar por amor. Actualmente, Vikki Lawson dedica-se a produzir música new age e composições para filmes e televisão sob o nome de Aeone.

Kikki Danielsson (Suécia)

Ao contrário a diferença final de dezoito e vinte pontos do primeiro classificado para o segundo e terceiro posto, ao longo das votações três países foram disputando renhidamente a liderança. O terceiro lugar foi para a Suécia com 103 pontos. Depois de ter representado o seu país em 1982 como parte do duo Chips, Kikki Danielsson apresentava-se a solo cantando "Bra vibrationner" (que não, não quer dizer "soutien vibratório", mas sim "boas vibrações"). Kikki Danielsson continua no activo até hoje e tentou mais quatro vezes regressar à Eurovisão pela Suécia (e uma pela Noruega), a mais recente em 2018.

Wind (Alemanha)
A Alemanha parecia ter a vitória quase certa a cinco votações do fim, mas depois a sorte acabou por favorece o eventual país vencedor, e acabou por ficar em segundo lugar com 105 pontos. O grupo Wind, formado para competir na pré-selecção alemã, com Rainer Höglmeier e Petra Scheeser como vocalistas, interpretou "Fur alle" ("para todos"), uma balada midtempo. Os Wind voltariam a representar na Alemanha em 1987 (ficando novamente em segundo lugar) e 1992, embora apenas Petra Scheeser e o baterista Samy Khalifa tenham estado nas três participações. Com um constante rodar de membros, o grupo Wind ainda hoje se mantém activo na Alemanha.

Bobbysocks (Noruega)

Mas seria a Noruega a vencer com 123 pontos, graças ao duo Bobbysocks e o tema "La det swinge". O duo era formado por Hanne Krogh e Elisabeth Andreassen, ambas já com experiência eurovisiva: em 1971, uma jovem Krogh de 14 anos tinha sido a representante norueguesa, enquanto Andreassen tinha representado a Suécia em 1982 no duo Chips...Sim, a sua parceira da altura Kikki Danielsson foi neste ano sua adversária. Krogh e Andreassen continuaram a actuar e a gravar discos como Bobbysocks até 1988, decidindo depois cada uma apostar numa carreira a solo e ambas voltariam a representar a Noruega na Eurovisão: Hanne Krogh em 1991 como parte do grupo Just 4 Fun e Elisabeth Andreassen em 1994 e 1996.   

As Bobbysocks com Lys Assia, vencedora do primeiro
Festival da Eurovisão em 1956

Foi a primeira vitória da Noruega na Eurovisão (que entretanto voltou a ganhar em 1995 e 2009), na altura um feito impressionante pois na altura era o país que tinha ficado mais vezes em último lugar. (Aliás, com mais cinco últimos lugares desde então, num total de onze, a Noruega continua a ser o país detentor desse recorde pouco invejável.) A apresentadora Lill Lindfors fez questão de referir esse facto na altura de dar os parabéns às Bobbysocks, dizendo-lhes: "Devo dizer-vos que estou francamente feliz que isto aconteceu porque a Noruega ficou tantas vezes em último lugar que vocês mereceram!", ao que Hanne Krogh respondeu: "Tu estás feliz? Como é que julgas que nós estamos?". "La det swinge" tornou-se rapidamente um clássico da Eurovisão e lembro-me de na altura ouvir na rádio a versão em inglês "Let it swing".

Festival da Eurovisão 1985 (comentários da BBC)


O "acidente" de Lill Lindfors: 


Actuação na Gala dos 60 anos da Eurovisão (2015): 




domingo, 22 de março de 2020

Festival da Eurovisão 1975

por Paulo Neto

Voltamos a recordar uma edição do Festival da Eurovisão e desta vez damos o maior salto temporal até 1975. Na virtude da histórica vitória dos ABBA com "Waterloo" no ano anterior, o 20.º Festival da Eurovisão teve lugar a 22 de Março de 1975 em Estocolmo, com apresentação de Karin Falck.


Esta edição é por vezes referida como o "Festival Azul" devido à predominância da cor azul no cenário. Dezanove países participaram no certame, destacando-se a estreia da Turquia e os regressos de França (que desistira em 1974 após a morte do Presidente Georges Pompidou) e de Malta (ausente desde 1972) e a ausência da Grécia, que se estreara no anterior, devido à participação da Turquia com quem estava em conflito na altura devido à ilha de Chipre. 
Mas esta edição da Eurovisão é sobretudo histórica por ter sido o primeiro ano em que foi o implementado o sistema de pontuação dos "douze points", nos quais o júri de cada país atribui 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 10 e 12 pontos às suas dez canções preferidas, sistema esse, que com devidas alterações, se mantém até hoje. No entanto, ao contrário da ordem crescente de pontuação que viria ser hábito a partir de 1980, as pontuações foram atribuídas por ordem de actuação dos países.
Importa ainda referir que na altura, os países tinham a opção de apresentar a canção num idioma que não o nacional e por isso vários países optaram por cantar parcialmente ou na íntegra em inglês. Existiu ainda a particularidade do trio vocal sueco The Dolls, que acompanharam o grupo Nova na participação da Suécia em 1973, ter feito coro em quatro canções: Bélgica, Suíça, Suécia e Portugal.
 Antes de cada actuação, foi apresentado um segmento onde os intérpretes foram convidados a pintar um auto-retrato numa tela branca com a bandeira do país. Júlio Isidro foi o comentador para a RTP e Amadeu Meireles para a Antena 1 e Ana Zanatti foi a porta-voz do júri português. 

Como é habitual, falaremos de cada canção por ordem inversa de classificação. (Cliquem sobre o nome do país para um link do vídeo com a actuação.)

Semiha Yanki (Turquia)

A Turquia não teve sorte de principiante, ao ficar em último lugar com três pontos, atribuídos pelo Mónaco (que até demoraram a surgir no quadro de pontuações!). O que é pena, porque a sua canção, "Seninle bir dakika" ("um minuto contigo"), era uma bonita balada interpretada por Semiha Yanki, então com 17 anos. A Turquia só regressaria à Eurovisão três anos depois.

Ellen Nikolaysen (Noruega)

A representante da Noruega, Ellen Nikolaysen, já tinha participado na Eurovisão como membros dos Bendik Singers em 1973 e fazendo coro em 1974. Optou-se por interpretar a canção em inglês com o título "Touch My Life (With Summer)" ficando-se pelo 18.º lugar com 11 pontos.

Joy Fleming (Alemanha)

O 17.º lugar da Alemanha com 15 pontos é, na minha opinião, uma das maiores injustiças de sempre do Festival da Eurovisão. Como foi possível os júris europeus terem ficado indiferente à verve da canção "Ein Lied kann ein Brucke sein" ("uma canção pode ser uma ponte") e ao poder da voz de Joy Fleming? Quem não esteve indiferente foi Rainer Pietsch, o director da orquestra, visivelmente entusiasmado ao longo da actuação. Mas infelizmente, nem mesmo com a recta final em inglês, evitou-se o parco resultado. De seu verdadeiro nome Erna Raad, Joy Fleming teve uma longa carreira, abraçando vários géneros do jazz ao rock, falecendo em 2017.

Duarte Mendes (Portugal)

Esta era a primeira participação de Portugal após o 25 de Abril (que aliás foi iniciado tendo como uma das canções-senha "E Depois Do Adeus", a canção representante de Portugal no Festival do ano anterior) e nem de propósito, o nosso representante foi um dos Capitães do Abril, Duarte Mendes, que fez parte do Movimento das Forças Armadas que desencadeou a Revolução dos Cravos. Além da carreira militar, Duarte Mendes teve também uma carreira de cantor, tendo participado em todos os Festivais da Canção entre 1970 e 1973. O Festival da Canção de 1975 foi marcado pela revolução, com prestações muito mais informais, onde participaram nomes como José Mário Branco, Jorge Palma, Paco Bandeira e Fernando Girão e com canções com títulos como "Com Uma Arma, Com Uma Flor", "Pecado (do) Capital" e "Batalha-Povo". E claro, a "Madrugada" de Duarte Mendes era uma evocação da Revolução, que foi como um acordar para o país pelo que é um bocado estranho que seja das nossas canções eurovisivas menos recordadas. Segundo consta, Duarte Mendes pretendia-se apresentar em palco com o seu uniforme, completo com uma arma com um cravo no cano mas foi dissuadido pelos organizadores. Pessoalmente gosto muito mais da versão ao vivo de "Madrugada" do que a versão do videoclip, com os coros das The Dolls em evidência. A canção portuguesa impressionou bastante o júri turco, que fez com que pela primeira vez se ouvisse "Portugal, 12 points!". Com mais dois pontos de Espanha e dois de França, Portugal totalizou 16 pontos, ficando pelo 16.º lugar.

Ann-Christy (Bélgica)

Na posição acima de Portugal com mais um ponto ficou a Bélgica, com a canção "Gelukkig Zijn (Could It Be Happiness)", apresentada em palco numa versão bilingue de flamengo e inglês. Além desses dois idiomas, a intérprete Ann-Christy gravou versões em francês e alemão. Segundo consta, Mary Boduin, a autora e compositora da canção, tinha inicialmente feito a música para o que seria o jingle de um anúncio de uma marca de jeans. Infelizmente, Ann-Christy (de seu verdadeiro nome Christianne Leenaerts), faleceu de cancro em 1984, com apenas 38 anos. 

Sophie (Mónaco)
Pepel I Kri (Jugoslávia)

O Mónaco e a Jugoslávia ficaram empatados no 13.º lugar com 22 pontos. A representar o principado esteve a cantor Sophie Hecquet com a canção "Une Chanson C'est Une Lettre" ("uma canção é uma carta"). Posteriormente mais dedicada ao trabalho como apresentadora de rádio e televisão, Sophie faleceu em 2012. A Jugoslávia foi representada pelo grupo esloveno Pepel I Kri (que no certame actuou sob a denominação inglesa Ashes And Blood) com o tema "Dan Ljubezni" ("um dia de amor"), com Ditka Haberl como voz principal. Seria a quarta e última vez que a Jugoslávia seria representada na Eurovisão por uma canção em língua eslovena, língua essa que só voltaria a ser ouvida no Festival em 1993, já sob a bandeira de uma Eslovénia independente. Quatro dos membros da banda fariam coro da canção italiana "Insieme 1992" que viria a vencer o Festival da Eurovisão de 1990.
Renato (Malta)

Depois de duas participações em 1971 e 1972, onde ficou em último lugar, a pequena nação mediterrânica de Malta regressava à Eurovisão e desta vez saiu-se bem melhor ao ficar em 12.º lugar com 32 pontos. Talvez o facto de ao contrário das duas anteriores participações em maltês, ter desta feita sido apresentada uma canção em inglês, a outra língua oficial do país, "Singing This Song", tenha ajudado. Além disso, o intérprete Renato Micalaeff não passou despercebido em palco com a sua camisola com enormes franjas. Mas apesar deste melhor resultado, Malta só voltaria à Eurovisão em 1991.
Shlomo Artzi (Israel)

Para a grande maioria dos cantores que passaram pela Eurovisão, a sua participação no certame foi o auge ou pelo menos um pico nas suas carreiras. Mas existem aqueles para os quais a Eurovisão não será muito mais que uma nota de rodapé. É o caso de Shlomo Artzi, o representante de Israel com a canção "At Va' Ani" ("tu e eu", que ficou em 11.º lugar com 40 pontos), que é uma das maiores lendas da música israelita. Tendo iniciado a carreira musical em 1970, por esta altura Artzi estava numa encruzilhada profissional já que os sucessos estavam a escassear. Em 1977, Shlomo Artzi decidiu gravar um último álbum para depois se retirar da música. Ironia das ironias, seria esse álbum, cujo título em português se pode traduzir como "um homem perdido" que salvaria a sua carreira e o catapultaria para um estrondoso sucesso nas décadas seguintes, sendo um dos raros cantores israelitas com mais de um milhão de discos vendidos. Ainda hoje, é habitual que os seus concertos durem mais tempo do que o inicialmente previsto, com o público a pedir mais e mais encores.

Sergio & Estibaliz (Espanha)

A vizinha Espanha ficou em 10.º lugar com 53 pontos, sendo representada pela canção "Tu Volverás" do duo Sergio & Estibaliz, ambos oriundos de Bilbau. Os dois eram um casal na vida real, tendo-se casado nesse mesmo ano de 1975. Os dois tinham feito parte inicialmente do grupo Mocedades que tinha representante da Espanha no Festival da Eurovisão de 1973, tendo ficado em segundo lugar com o clássico "Eres Tu". Sergio e Estibaliz continuaram juntos na vida e na música, quer como duo, quer integrando mais tarde o grupo El Consorcio, até que a Morte os separou em 2015, quando Sergio Blanco faleceu de doença prolongada aos 66 anos.

The Swarbriggs (Irlanda)

A Irlanda fez-se representar pelos The Swarbriggs e a canção "That's What Friends Are For" (não confundir com a famosa canção de Dionne Warwick do mesmo título), ficando em nono lugar com 68 pontos. Os Swarbriggs eram dois irmãos, Tommy e Jimmy Swarbrigg, que regressariam à Eurovisão dois anos depois. A partir dos anos 80, os Swarbriggs viraram-se para uma carreira nos bastidores da música, na promoção e organização de espectáculos.

Lars Berghagen (Suécia)

Lars Berghagen teve a responsabilidade de representar o país da casa, a Suécia. Curiosamente no ano anterior tinha ficado em segundo lugar atrás do ABBA na final nacional sueca. Em Estcolomo, cantou "Jennie, Jennie" tendo ficado em oitavo lugar com 72 anos. Lars Berghagen continua activo na música de 1965. Entre 1994 e 2003 apresentou "Allsang Pa Skansen", um lendário programa musical da televisão sueca que é transmitido todos os Verões.

Pihasoittajat (Finlândia)

Tal como Portugal, a Finlândia é um país pouco habituado a lugares cimeiros na Eurovisão, por isso em 1975 a terra dos mil lagos conseguiu um dos seus melhores resultados de sempre ao conseguir o sétimo lugar com 74 pontos. A Finlândia foi mais um dos países que optou por apresentar a sua canção em inglês, com o título "Old Man Fiddle" cantado pelo grupo Pihasoittajat (que pode ser traduzido como algo como "os tocadores do jardim"), o que fazia sentido já que a canção tinha um certo travo a música country. Depois de um interregno, os Pihasoittajat reuniram-se em 1995 para várias actuações até à morte do membro Hannu Karlsson em 2000. Com uma nova formação, o grupo regressou ao activo em 2009.

Simone Drexel (Suíça)

Simone Drexel, a representante da Suíça, foi a primeira mulher a ser autora, compositora e intérprete de uma canção da Eurovisão, por sinal, a que levou a Estocolmo, "Mikado", obtendo o sexto lugar com 77 pontos. E sim, o tema, cantado em alemão, era sobre o famoso jogo dos pauzinhos coloridos. Em 1984, Simone Drexel fez uma pausa na música devido a maternidade só tendo regressado vários anos depois como vocalista do grupo Bluesonix.

Geraldine (Luxemburgo)

Devido à sua pequenez, era habitual o Luxemburgo recrutar a outras bandas os seus representantes para a Eurovisão. Desta feita, o grão-ducado fez-se representar por uma cantora irlandesa, Geraldine Brannigan, e o seu sotaque fez-se notar um pouco quando cantou "Toi" em francês. A canção luxemburguesa ficou em quinto lugar com 84 pontos e ficou para a história do certame por  receber os primeiros famigerados "douze points", atribuídos pelo primeiro júri, o dos Países Baixos. Ao que parece, Phil Coulter, um dos autores da canção e o director da orquestra, apaixonou-se por Geraldine quando a viu num anúncio à cerveja Guinness. Os dois casaram-se em 1998, já depois de terem tido seis filhos!
Nicole Rieu (França)

Os primeiros "douze points" de Portugal na Eurovisão foram para a canção da França, "Et Bonjour À Toi L'artiste", interpretada por Nicole Rieu, que ficou em quarto lugar com 91 pontos. Além do original em francês, Rieu gravou esta canção em inglês, alemão, espanhol, italiano e japonês! Entre os seus discos subsequentes, destaque para uma versão em francês de "Do You Know Where You're Going To" de Diana Ross. Após uma pausa na carreira para maternidade nos anos 80, Nicole Rieu ainda vai actuando e editando música esporadicamente.

Wess & Dori Ghezzi (Itália)

A Itália fez-se representar pelo duo Wess & Dori Ghezzi, ficando em terceiro lugar com 115 pontos. Wess, ou Wes Johnson, era um americano radicado em terras italianas e desde 1973 que ele e Ghezzi actuavam como duo. Mas ao contrário dos espanhóis, a relação deles foi simplesmente profissional. A sua canção "Era", a última a desfilar no certame, tinha um certo travo a reggae e falava sobre um casal que comparava o fulgor do início da relação à monotonia do presente. A parceria entre os dois durou até 1977, quando Dori Ghezzi teve uma filha. Em 1979 ela e o seu marido Fabrizio De André foram raptados na Sardenha. Ghezzi prosseguiu a solo até que parou a carreira em 1990 devido a problemas de saúde no seu aparelho vocal. Wess continuou no activo até à sua morte em 2009 em Nova Iorque aos 64 anos. A sua filha Romina Johnson também é cantora, sobretudo conhecida por ser a vocalista no hit de 2000, "Movin' Too Fast" dos Artful Dodger.

The Shadows (Reino Unido)

A lendária banda britânica The Shadows (famosos por temas instrumentais como "Apache", "Kon-Tiki" e "Dance On!") foram os representantes do Reino Unido. Por esta altura, a banda estava numa segunda encarnação onde passaram a editar temas cantados, numa formação que incluía o australiano John Farrar, conhecido pela sua colaboração com Olivia Newton-John. A canção que levaram à Eurovisão foi "Let Me Be The One" que teve 138 pontos e o nono de 14 segundos lugares do Reino Unido na história da Eurovisão. Os The Shadows continuaram no activo até 2015.  

Teach-In (Países Baixos)

Mas nesse ano, pela primeira vez, o vencedor foi o primeiro país a actuar. Os Países Baixos (a designação que o governo deste país tem feito questão a partir deste ano que seja usada em vez de Holanda) obtiveram a sua quarta vitória no Festival da Eurovisão com o bem-disposto tema "Ding-a- Dong" (onde não é difícil adivinhar as influências dos ABBA) interpretado pelo grupo Teach-In. A canção também é conhecida como "Dinge-Dong", o título do original em neerlandês, tendo-se optado no Festival por apresentar a versão em inglês. Entre várias mudanças na formação da banda, os Teach In duraram de 1969 e 1980. Na altura, a vocalista era Gertrude "Getty" Kaspers que era de origem austríaca. Como já foi referido, esta foi a quarta vitória holandesa na Eurovisão depois de 1957, 1959 e 1969 (em ex-aqueo com Espanha, França e Reino Unido) e como se sabe, foi preciso esperar até 2019 pela quinta vitória. 

Esta semana foi anunciado que devido à actual pandemia que assola o mundo, pela primeira na história do evento não se realizará o Festival da Eurovisão este ano, mantendo-se Roterdão como a cidade anfitriã para 2021. Segundo consta, estava previsto que Getty Kaspers fosse uma das convidadas a actuar cantando "Ding-a-Dong".

A alegria dos vencedores


Festival da Eurovisão de 1975 (na íntegra, sem comentários):



segunda-feira, 6 de maio de 2019

Festival da Eurovisão 1989

por Paulo Neto


À medida que se aproxima o Festival da Eurovisão deste ano com Conan Osíris a representar Portugal, porque não recordarmos mais uma edição deste lendário evento? Desta vez recuamos trinta anos até ao 34.º Festival da Eurovisão que decorreu no Palácio Beaulieu em Lausana a 6 de Maio de 1989. 33 anos depois de ter acolhido a primeira edição do Festival, a Suíça voltava a receber o certame na virtude da vitória da Céline Dion em representação daquele país no ano anterior. Aliás foi Dion quem abriu o espectáculo cantando a canção vitoriosa do ano anterior, "Ne Partez Pas Sans Moi", e "Where Does My Heart Beat Now", um dos seus primeiros hits em inglês. Os apresentadores foram Lolita Morena e Jacques Deschenau e foi a última edição até agora em que o certame foi principalmente conduzido em francês.



Com o regresso de Chipre, ausente no ano anterior, 22 países competiram nesta edição. Os comentários para a RTP estiveram a cargo de Ana Zanatti e Margarida Mercês de Melo foi a porta-voz dos votos de Portugal. 

Como é habitual, vamos recordar as canções pela ordem inversa à da classificação final.

Daniel Agust (Islândia)

A Islândia participava pela quarta vez e depois de ter ficada em 16.º lugar nas suas três primeira participações, desta vez experimentava a amargura do último lugar sem qualquer ponto. Um resultado algo injusto para sua canção "Pad sem enginn ser" ("o que ninguém vê") interpretada por Daniel Agust Haraldsson. Daniel viria obter sucesso internacional como membro do grupo Gus Gus.

Pan (Turquia)

Nos anos 80 e 90, podia-se contar com a Turquia para trazer algo exótico e diferente aos ouvidos da Europa Ocidental e este ano não foi excepção com o quarteto Pan e o tema "Bana, bana" ("a mim, a mim"). A letra podia ser bastante repetitiva mas a canção estava bem ao estilo das sonoridades da Ásia Menor. Porém, a Turquia não obteria mais do que o 21.º lugar com cinco pontos. Uma das parcelas femininas do grupo, Arzu Ece, viria a representar o país a solo em 1995.

Park Café (Luxemburgo)

O Luxemburgo ficou em 20.º lugar com oito pontos. Nesse ano, fizeram-se representar pelos Park Café, uma banda luxemburguesa, mas cuja vocalista Maggie Parke era natural de Salt Lake City nos Estados Unidos (o que explica a sua peculiar pronúncia do francês), interpretando a canção "Monsieur".

Este foi um dos anos em que a Bélgica se fez representar pela vertente flamenga do país, na voz de Ingeborg Sargeant que cantou "Door de vind" ("através do vento") acompanhada no coro pelo autor da canção Stef Bos. Mas como este país costumava sair-se bastante melhor quando cantava em francês, desta vez ficou-se pelo 19.º lugar com 13 pontos. Ingeborg viria a ser mais conhecida no seu país como apresentadora de televisão.

Kiev Connolly & The Missing Passengers (Irlanda)

A Irlanda tinha sido o país anfitrião no ano anterior mas teria de esperar mais três anos até voltar a vencer e trazer de novo o Festival para as suas terras. Desta vez ficou-se pelo modesto 18.º lugar (21 pontos) com a canção "The Real Me", um tema sonoridades bem ao estilo da pop dos anos 80, interpretado por Kiev Connolly & The Missing Passengers.

Britt Synnove (Noruega)

Britt Synnove Johansen foi a representante da Noruega, cantando "Venners naerhet" ("a proximidade dos amigos"), uma balada sobre a amizade, ficando em 17.º lugar com 30 pontos. O momento alto da actuação foi quando um dos cantores lhe deu uma rosa. Britt viria a fazer carreira mais no teatro e espectáculos musicais do que como artista de estúdio. Ainda assim, na sua discografia contam um disco de homenagem a Edith Piaf e outro de tangos noruegueses.

Da Vinci (Portugal)

Portugal ficou-se pelo 16.º lugar com 39 pontos com mais uma canção daquelas que o país inteiro conhece e canta de cor. O colonialismo até pode ser um assunto demasiado sério para dourar a pílula numa canção pop, mas não há como negar toda a verve contida em "Conquistador" interpretada pelos Da Vinci, em especial o imortal refrão: "Já fui ao Brasil, Praia e Bissau, /Angola, Moçambique, Goa e Macau./Ai fui até Timor, já fui um conquistador!" Acompanhando o casal fundador do grupo, Pedro Luís e Iei-Or, estiveram as irmãs Sandra e Dora Fidalgo, que mais tarde fariam coros para os Delfins.  O co-autor da canção, Ricardo Landum, hoje conhecido como compositor de sucessos para nomes como Tony Carreira, deveria ter acompanhado os Da Vinci mas semanas antes sofrera um acidente de viação que o impossibilitou de viajar para a Suíça. Os Da Vinci tiveram vários hits tanto antes como depois mas "Conquistador" foi incontestavelmente o ponto alto da sua carreira.

Justine Pelmelay (Holanda)

Reza a lenda que anos antes, Justine Pelmelay teve um sonho em que participaria no Festival da Eurovisão pela Holanda. Esse sonho realizou-se em 1988 quando fez coro na canção holandesa cantada por Gerard Joling mas só se tornou verdadeiramente premonitório no ano seguinte, quando foi a vez dela de defender a canção dos Países Baixos, intitulada "Blijf zoals je bent" ("continua a ser como és"), ficando em 15.º lugar com 45 pontos. Justine foi sobrevivente do naufrágio do navio Costa Concordia em 2012.

Nino De Angelo (Alemanha)

Dieter Bohlen dos Modern Talking foi o compositor de duas canções presentes a concurso. Uma delas foi obviamente a do seu país, a Alemanha. Nino De Angelo tinha tido alguns êxitos entre 1983 e 1984, incluindo "Jenseits von Eden" que foi n.º 1 do top alemão, e regressava à ribalta para cantar "Flieger" ("voadores"), ficando em 14.º lugar com 46 pontos (mas é uma das minhas canções preferidas deste ano). Embora sem nunca igualar o seu sucesso dos anos 80, Nino De Angelo continua activo na música. Em 1996 colaborou com o grupo pop Mr. President (os de "Coco Jamboo") para a canção "Olympic Dreams".

Marie-Louise Werth/Furbaz (Suíça)

Como se sabe, são quatro as línguas oficiais da Suíça: francês, alemão, italiano e romanche. E depois de já ter enviado canções nas três primeiras (para além de uma em inglês), fazia sentido que o país fosse representado em casa por uma canção na língua oficial que faltava, o enigmático romanche, falado apenas por 0,7% da população. O grupo Furbaz, liderado por Marie-Louise Werth, é altamente creditado como um dos principais responsáveis por manter vivo o legado desta língua e em Lausana cantaram "Viver senza tei", obtendo o 13.º lugar com 47 pontos.   

Gili & Galit (Israel)

Embora oficialmente a canção de Israel fosse um dueto entre Gili Netanael e Galit Burg-Michael, na verdade o primeiro, de apenas doze anos e com uma voz de querubim, era a estrela do tema "Derekh hamelekh" ("a estrada do Rei") com a segunda a fazer pouco mais que vocais secundários. Infelizmente no dia da actuação, a prestação de Gili ressentiu-se do nervosismo e de ter estado doente alguns dias antes e a magia da versão de estúdio não foi recriada em palco. Ainda assim, um 12.º lugar com 50 pontos não foi nada mau.

Fani Polymeri & Yannis Savvidakis (Chipre)

Já a canção de Chipre não foi um dueto, foi praticamente um casamento. Isto porque Fani Polymeri e Yannis Savvidakis apresentaram-se em palco como se tivessem acabado de casar numa igreja ali próxima, ela de vestido branco, ele de smoking, para cantar "Apopse as vrethume" ("vamos nos encontrar esta noite"). Esta boda musical agradou particularmente ao júri islandês, que deu doze pontos dos 51 que a canção cipriota recebeu, ficando em 11.º lugar.

Fausto Leali & Anna Oxa (Itália)

Itália e Grécia partilharam o nono lugar com 56 pontos. A Itália, o primeiro país a actuar, foi mais outro país que levou um dueto, "Avrei voluto" ("eu queria") nas vozes de Anna Oxa e Fausto Leali, ambos com carreiras já bastante bem-sucedidas tanto antes como depois. Dizem as más-línguas de Oxa e Leali andaram meio de candeias às avessas durante o périplo por Lausana, mas na hora de subir ao palco, as divergências foram postas de lado.

Marianna Esftratiou (Grécia)

Marianna Esfratatiou tinha feito coro na canção grega de 1987 e dois anos volvidos, cabia-lhe agora a responsabilidade de representar o seu país com o tema "Te diko sou asteri" ("a tua própria estrela"), acompanhada pelo flautista Filippos Tsemperoulis. Marianna viria a representar a Grécia novamente em 1996.
Natahlie Pâque (França)

E como se não bastasse o jovenzinho israelita, as responsabilidades de representar a França ficaram nesse ano sobre o pequenos ombros de Nathalie Pâque, que só completaria doze anos de idade cinco dias depois. (No ano seguinte, seria implementada a regra que estabelecia os dezasseis anos como a idade mínima para participar no certame.) No entanto, a jovem cantora belga esteve à altura do desafio interpretando irrepreensivelmente o tema "J'ai volé la vie" ("eu roubei a vida"), alcançando o oitavo lugar com 60 pontos. Nem de propósito, o primeiro verso da canção era: "Não posso dizer-vos a minha idade". Segundo consta, além de alguns discos dos anos 90, Nathalie tem-se dedicado ao teatro musical tanto na França como na Bélgica. 

Anneli Saaristo (Finlândia)

Tal como Portugal, a Finlândia era um país pouco habituado ao topo da classificação, mas nesse ano obteve o seu melhor resultado desde 1975, com o sétimo lugar (76 pontos), na altura apenas superado por um sexto lugar em 1973 (até à célebre vitória em 2006 com os Lordi). Anneli Saaristo cantou "La dolce vita", um tema que evocava sonoridades mais mediterrânicas do que nórdicas. Entre o vasto repertório de Anneli Saaristo, há que destacar uma versão em finlandês de "Silêncio e Tanta Gente", a canção de Portugal do Festival da Eurovisão de 1984.

Nina (Espanha)

Este foi também um ano de bom resultado para a vizinha Espanha, que ficou em sexto com 88 pontos. Envergando uma frondosa cabeleira, a catalã Anna Maria Agustí, ou simplesmente Nina, deu tudo no baladão "Nacida para amar". Apesar de ter carreira na música desde muito cedo, cantando sobretudo em catalão, Nina tinha ficado conhecida uns anos antes em Espanha como assistente da versão espanhola do concurso "1, 2, 3". Anos mais tarde, voltaria a ter destaque como a directora da academia nas primeiras três temporadas do programa "Operación Triunfo", tendo também protagonizado as adaptações espanholas de musicais como "Mamma Mia" e "Cabaret". 

Thomas Forstner (Áustria)

O actual sistema dos "douze points" estava em vigor desde 1975, mas foi preciso chegar até 1989 para se ouvir pela primeira vez: "Austria, twelve points. Autriche, douze points!" E ouviu-se três vezes, contribuindo para que a Áustria ficasse em quinto lugar com 97 pontos, o melhor resultado deste país desde 1976. Tudo graças à canção "Nur ein Lied" ("só uma canção") interpretada por Thomas Forstner e que, tal como a canção alemã, tinha música de Dieter Bohlen dos Modern Talking. Thomas Forstner voltou ao Festival pela Áustria em 1991 mas o resultado foi o pior possível, não tendo qualquer ponto.

Tommy Nilsson (Suécia)

A Suécia ficou em quarto lugar com 110 pontos com o tema "En dag" ("um dia") interpretado por Tommy Nilsson. Além de uma carreira bem-sucedida desde o início dos anos 80, Nilsson também é conhecido pelo seu trabalho nas dobragens tendo sido a voz sueca do John Smith em "Pocahontas" e de Patrick Star em "Spongebob Squarepants".

Birthe Kjaer (Dinamarca)

Com mais um ponto que a Suécia, a Dinamarca repetiu o terceiro lugar do ano anterior. Birthe Kjaer, uma veterna do showbiz dinamarquês, cantou "Vi maler byen rod" ("pintamos a cidade de vermelho"). O compositor da canção, Soren Bundgaard, que também acompanhou Birthe no palco, tinha participado como parte do duo Hot Eyes em 1984, 1985 e 1988. Uma curiosidade foi que a meio da canção, o orquestrador Henrik Krosgaard foi para o palco para se juntar ao coro, sendo substituído por outro maestro. 

Ray Caruana / Live Report (Reino Unido)

Também o Reino Unido repetiu o segundo lugar de 1988, desta vez com o grupo Live Report e a balada "Why do I always get it wrong", onde brilhou a voz do vocalista Ray Caruana, com um timbre semelhante ao de Chris De Burgh. Obteve 130 pontos incluindo o doze de Portugal. 

Riva (Jugoslávia)

Mas desde muito cedo que a Jugoslávia tomou a liderança e nunca mais a largou, somando 137 pontos. Tal como nos dois anos anteriores, o país apostou na mesma fórmula: uma banda pop croata com uma vocalista carismática a cantar um tema animado. E à terceira foi de vez com o grupo Riva, liderado por Emilija Kokic, com "Rock me". Foi uma vitória algo inesperada e embora seja sem dúvida uma canção bem agradável, creio que não era das melhores e questiono-me o que é que a canção da Jugoslávia tinha que a de Portugal não tinha.
Seja como for, foi um dos últimos triunfos da Jugoslávia antes do seu violento desmembramento poucos anos depois. Os Riva terminariam em 1991 mas desde então que Emilija Kokic tem a sua carreira a solo.

Festival da Eurovisão 1989 (comentários da BBC)




Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...