sábado, 4 de abril de 2015

Momentos de Glória (1981)

por Paulo Neto

Tenho imensa pena de nunca ter sido bom em algum desporto. Aliás, sempre fui péssimo em qualquer tipo de actividade física e o único desporto que pratiquei com alguma regularidade fora das aulas de Educação Física foi natação no 6.º ano, e mais para aprender a nadar como deve ser do que por ambições competitivas. Por isso, sabia que os meus sonhos de ser um atleta olímpico estavam bem para lá da utopia. No entanto, acabei por conseguir o mais parecido com esse sonho que estava nas minhas possibilidades quando em 2013 tive a honra de representar Portugal na Sessão da Academia Olímpica Internacional para jovens participantes, em Olímpia na Grécia, junto do local onde se realizaram os Jogos Olímpicos da Antiguidade. Pode-se dizer que me qualifiquei para essa sessão através do meu verdadeiro desporto, a escrita.

 

Tendo-me interessado desde muito novo pela história dos Jogos Olímpicos, custa a crer que só há pouco tempo é que eu vi aquele que vai permanecendo como o mais aclamado filme relacionado com os Jogos Olímpicos. Mas foi isso quando aconteceu quando há umas semanas por acaso, apanhei no Canal Hollywood o filme "Momentos de Glória" de 1981, realizado por Hugh Hudson. Se o título em português é bastante evidente, já o título original "Chariots of Fire" ("carroças de fogo") é bem mais enigmático: trata-se de uma referência bíblica incluída no poema "Jerusalem" de William Blake, que serve de letra de um popular hino britânico.    



"Momentos de Glória" narra o percurso de dois atletas britânicos rumo às respectivas vitórias nos Jogos Olímpicos de 1924 em Paris (onde nunca é de mais referir que Portugal ganhou a sua primeira medalha). Eric Liddell (Ian Charleson), o escocês dividido entre as suas fortes crenças religiosas e a sua paixão pelo desporto, nomeadamente a corrida e Harold Abrahams (Ben Cross), o inglês judeu movido pelos seus desejos de excelência e de combate ao preconceito.



Estudante em Cambridge, Abrahams depara-se com algumas atitudes anti-semitas, especialmente por parte de dois velhos patronos da Universidade (Lindsay Anderson e John Gielgud). Ele acaba por ganhar respeito quando consegue correr à volta do pátio da Trinity College durante o bater das doze badaladas do relógio. Abrahams também faz dois bons amigos: Aubrey Montague (Nicholas Farrell), o narrador do filme, e o Lord Andrew Lindsay (Nigel Havers). Este Lord Lindsay é uma versão ficcionada de Lord David Burghley, campeão olímpico em 1928 nos 400m barreiras, que na verdade tinha sido o primeiro a conseguir esse feito de ganhar a corrida contra o relógio e que por isso recusou envolver-se no filme.
Quando Abrahams corre pela primeira vez contra Liddell, este é tão superior que Abrahams quase que decide desistir. No entanto, acaba por requerer a ajuda do treinador Sam Mussabini (Ian Holm) para melhorar a sua técnica. Além disso, ainda arranja tempo para namorar a cantora Sybil Gordon (Alice Krige).


Já Liddell vê as suas crenças religiosas cada vez mais em conflito com o seu amor pelo desporto. A sua extremamente devota irmã Jennie (Cheryl Campbell) acusa-o sempre de descurar os seus deveres religiosos pelo desporto. E quando embarca para Paris com a equipa olímpica britânica, descobre que a sua prova principal, os 100m, estão agendados para um domingo, e devido às suas crenças, recusa participar nessa prova. A convicção de Liddell causa um diferendo com os chefes do Comité Britânico que juntamente com o Príncipe de Gales, o futuro rei Eduardo VIII (David Yelland), tentam-no convencer a mudar de ideias. O problema só se resolve quando Lord Lindsay decide ceder a Liddell o seu lugar nos 400m.


Em Paris, depois de perder para os americanos nos 200m, Abrahams vinga-se ganhando os 100m, para grande emoção de Mussabini. Já Liddell desafia o cepticismo do treinador americano para ganhar os 400m, antes de seguir em missão religiosa na China onde virá a falecer em 1945. O filme acaba tal como a história começa, no funeral de Abrahams em 1978.

O filme tem várias discrepâncias quanto aos factos, sobretudo devido a liberdade artística e para trazer mais dramatismo à história do filme. Nomeadamente, Eric Liddell já sabia com meses de antecedência que os 100m iriam-se disputar a um domingo e por isso, os seus objectivos para Paris sempre foram os 200 e 400m, além de que ao contrário do filme, a sua irmã sempre o apoiou na sua dedicação ao desporto (aliás o filme faz-lhe um agradecimento especial nos créditos). E na realidade Harold Abrahams só conheceu a sua esposa, a cantora Sybil Evers, dez anos após a sua vitória olímpica, pelo que o namoro de ambos foi antecipado no filme para haver uma storyline romântica. No filme, há uma cena em que o atleta americano Jackson Scholtz entrega a Liddell um papel com uma citação religiosa antes deste vencer os 400m. Na verdade não só não tinha sido Scholtz - que também tem um agradecimento especial pela sua colaboração - a fazer tal gesto, como ele não era uma pessoa religiosa, pelo que foi com grande espanto seu que após a estreia de "Momentos de Glória", muitas pessoas contactaram Scholtz em busca de aconselhamento religioso.

Apesar disso, não há dúvida que "Momentos de Glória" é um belíssimo filme e uma das mais bem-sucedidas produções britânicas de sempre. O British Film Institute atribuiu-lhe o 19.º lugar dos melhores filmes britânicos de todos os tempos e venceu cinco Óscares, incluindo o de Melhor Filme.


Contudo, não existem dúvidas que o principal motivo pelo qual "Momentos de Glória" deixou a sua marca na história do cinema e da cultura pop deve-se a lendária cena da equipa britânica, que inclui Abrahams, Liddell, Montague e Lindsay, a correr na praia ao som do tema do filme, de seu título "Titles" mas conhecido como "Chariots of Fire", de Vangelis Papathanasiou. Aliás, ao utilizar-se sonoridades electrónicas num filme de época, tratou-se de uma revolução em bandas sonoras cinematográficas.
O realizador Hugh Hudson, que já admirava o trabalho do compositor grego, pretendia a utilização de duas músicas do seu álbum de 1979 "Opera Sauvage" na banda sonora do filme, mas Vangelis tinha composto alguns temas inéditos que sugeriu que fossem utilizados no filme. 
Não só Vangelis ganharia o Óscar pela banda sonora do filme como o respectivo álbum foi campeão de vendas, colocando Vangelis na primeira linha dos compositores para banda sonoros, tendo assinado entre outros a música de filmes como "Blade Runner-Perigo Iminente" e "1492 - A Conquista". 

E claro está a sequência da corrida na praia ao som de "Chariots of Fire - Titles", tornou-se de tal forma icónica, que além de ter sido reproduzida e parodiada um incontável número de vezes em filmes e televisão ("Rua Sésamo", "Grinch", "Marley e Eu", "O Menino Doutor", "Madagascar"), creio que devem ter sido poucos que por qualquer motivo e circunstância, tiveram de fazer uma corrida nunca tiveram esta música a tocar mentalmente enquanto o faziam.
Em 2012, por ocasião dos Jogos Olímpicos desse ano em Londres, o tema não só foi utilizado num sketch cómico protagonizado por Rowan Atkinson na cerimónia de abertura, como foi tocado em cada cerimónia protocolar de entrega de medalhas. No mesmo ano, o filme foi adaptado a uma peça de teatro em Londres.  
  


Para terminar, mais uma curiosidade. O produtor executivo de "Momentos de Glória" foi nada menos que Dodi Fayed, que ficaria conhecido por namorar a Princesa Diana de Gales, tendo perdido a vida juntamente com esta num acidente de viação em Paris em 1997. 

Trailer:


Cena da corrida:


Vangelis "Chariots of Fire - Titles"



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